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dez 29

Acupuntura parte I: breve história de mais uma pseudociência

A acupuntura é uma das formas mais disseminadas de medicina alternativa. Supostamente milenar, faz parte da medicina tradicional chinesa e pode ser praticada por médicos e não médicos. A técnica envolve colocar agulhas na pele em pontos específicos, associada ou não a compressas de uma erva aquecida (moxa), baseada no conceito de que TODAS as doenças são causadas por um desequilíbrio em uma força vital invisível. A acupuntura alega ser eficaz para todos os tipos de doenças, como AIDS, artrite, asma, alergias, infecções, bronquite, diarreia, epilepsia, obesidade, enxaquecas, disfunção sexual, paralisia, tendinite, daltonismo, surdez e qualquer outra condição que aflija o ser humano. Onde foi mesmo que já vimos algo parecido? Ah, sim, foi na teoria dos humores e também na homeopatia.

A origem da acupuntura é muito controversa. Alguns dizem que ela tem mais de cinco mil anos e se originou na Europa. Outros, “apenas” dois mil anos, com origem na China. De qualquer maneira, um dos motivos alegados pelos seus praticantes é que ela faz parte de uma “sabedoria milenar”. Acho muito curioso reverenciar um conhecimento antigo simplesmente porque ele é antigo. A teoria dos humores, a prática de purgação e de sangria e o exorcismo também são milenares, e nem por isso nós os reverenciamos e continuamos a praticá-los.

Ah, mas isso é porque a ciência provou que essas práticas arcaicas não funcionam. Pois bem, vou mostrar aqui que a ciência também provou que a acupuntura não funciona, e que sua rápida e recente disseminação no ocidente foi fruto de uma das melhores e mais eficazes máquinas da propaganda da história. Mas, primeiro, vamos tentar ter uma ideia de como tudo começou.

No início dos anos 1970, foram descobertos manuscritos antigos, de aproximadamente 168 a. C., nos túmulos de Ma-wang. São os documentos mais antigos com registros de técnicas de medicina da época. Não há nenhuma menção à acupuntura nesses manuscritos. Há menção a 11 dutos ou vasos sanguíneos. Acreditava-se que as doenças estavam relacionadas ao sistema vascular, e o tratamento envolvia a sangria com pedras afiadas – o conceito de agulhas pode vir daí, mas reparem que a prática era a sangria. O primeiro manuscrito que descreve uma prática similar à acupuntura é o Huang-ti nei-ching, ou Clássico Médico do Imperador Amarelo, que data aproximadamente do século I a. C.

Esse livro descreve 12 vasos, e também o conceito de um agente causador de doenças: um demônio chamado Hsieh, que podia se alojar nesses vasos e interromper o fluxo sanguíneo. O conceito de Chi – ou energia vital, como dizem os acupunturistas modernos – vem do termo hsieh-chi, ou influências malignas. Como tantas sabedorias milenares, os chineses antigos acreditavam que as doenças eram causadas por demônios ou espíritos. O vento era considerado um demônio, e acreditava-se que esse espírito maligno residia em cavernas. Nos textos onde a acupuntura começa a ser descrita como uma prática, os termos “cavernas” ou “túneis” são utilizados para designar buracos na pele por onde os demônios podem entrar e sair. A prática de inserir agulhas nesses pontos deveria liberar os demônios e restaurar o equilíbrio e, logo, a saúde.

Mais uma vez, como tantas outras práticas antigas, devemos lembrar que elas surgiram em uma época na qual o conhecimento do corpo humano e do mecanismo de doenças era precário. A dissecção de cadáveres e as cirurgias eram proibidas na China antiga, pois acreditava-se que o corpo devia ser mantido intacto para o encontro com os ancestrais na hora da morte. Por esse motivo, a punição mais severa era ser decapitado. Assim, uma prática médica não invasiva e que não exigia conhecimento dos órgãos fazia todo o sentido. Como não podiam estudar a anatomia humana, o chineses imaginavam órgãos e funções. Há registros de um órgão chamado “aquecedor triplo” que ocuparia quase toda a região dorsal. 

Além disso, assim como todas as práticas da época, não havia uma investigação de causa e efeito. Se a pessoa se curava, qualquer coisa que tivesse sido administrada por último levava o crédito pela cura. Isso podia ser uma erva, um chá, a acupuntura, um ritual de reza, qualquer coisa. Se não se curava, morria. Simples assim.

O diagnóstico da acupuntura é baseado no pulso do paciente, mas não na frequência cardíaca medida pela medicina moderna. Os antigos acreditavam que cada um daqueles 11 vasos ou dutos, hoje chamados meridianos, emitia um ritmo de pulsação diferente. Essa pulsação, juntamente com o histórico do paciente, sua língua e o tempo (sim, se estava calor ou frio, úmido ou seco), contribuíam para o diagnóstico. Se você já se tratou com acupuntura, sabe que esse ainda é o método de diagnóstico utilizado. Uma vez diagnosticado, o médico escolhe os pontos específicos para estimular a saída do demônio. Ou, em termos mais modernos, restaurar o fluxo energético. E que pontos são esses?

Os textos mais antigos apontam a presença de 365 pontos. Não há nenhum registro do porquê desses pontos, a não ser o fato de corresponderem aos 365 dias do ano. Além disso, há diferentes escolas de acupuntura. Algumas utilizam esses 365 pontos, enquanto outras adotam mais de dois mil pontos. O Dr. Felix Mann, um dos fundadores da Sociedade de Acupuntura Britânica, disse que, se levarmos em conta todos os textos existentes, não sobraria um único centímetro de pele que não fosse um ponto de acupuntura! Algumas escolas seguem o princípio dos cinco elementos básicos da natureza para explicar o desequilíbrio. Esses seriam água, fogo, metal, terra e madeira. Outras escolas discordam e adotam o famoso equilíbrio Yin e Yang, dizendo que tudo na natureza é formado por opostos. Nada assim tão diferente dos quatro humores da medicina antiga, ou dos elementos da astrologia, certo?

O diagnóstico pelo pulso também estaria relacionado com os cinco elementos básicos. De acordo com o Clássico Médico, um pulso flutuante indica prevalência de metal; um pulso que relembra a vibração de uma corda tem excesso de madeira; se for fraco, indica água; firme e constante indica madeira; profundo (???) indica água; abrupto indica metal; e vazio (?????) indica fogo. Parece bem simples e lógico, não? Principalmente se levarmos em conta o simples fato de que eles não sabiam que o coração bombeia sangue para o corpo em um sistema circulatório fechado. Esse é o mesmo método usado para diagnóstico até hoje.

A medicina chinesa antiga também reuniu conhecimento sobre ervas e plantas que eram usadas para fazer chás e remédios. Algumas tinham realmente algum efeito, como a efedrina, e outras eram inócuas. O princípio dos similares também marcou sua presença por lá, e algumas plantas eram utilizadas porque seu formato relembrava órgãos ou funções humanas. Algumas dessas crendices persistem até hoje, como, por exemplo, o chifre do rinoceronte para o tratamento da impotência e seu uso como afrodisíaco, já que relembra o pênis ereto. O rinoceronte negro está praticamente extinto no Leste asiático por causa dessa crença. A bile extraída de ursos pardos VIVOS também é conhecida por equilibrar o Chi. Lembre-se disso quando decidir reverenciar uma prática milenar simplesmente por ela ser milenar…

acupuntura mapa auriculoNo inicio do século XX, com a introdução da medicina científica no país, houve uma tentativa de banir a acupuntura. A dinastia Manchu entendia que era uma prática mitológica e supersticiosa. Ao mesmo tempo, ela era introduzida na Europa. A acupuntura auricular foi inventada pelo médico francês Paul Nogier, que teve uma visão de um feto invertido no formato da orelha, e resolveu representar ali os pontos da acupuntura. Logo surgiram outras variedades, como a reflexologia, onde todos os pontos estão representados na planta dos pés.

A acupuntura foi rejeitada no único país onde ela era a ÚNICA forma de medicina. E foi rejeitada assim que outra forma se fez disponível. Não é estranho que ela tenha florescido apenas nos países onde é uma forma da medicina alternativa? Imagine se essas pseudociências fossem a única forma de medicina disponível até hoje. Como seria nossa vida?

A expectativa de vida antes da medicina científica era de 30-40 anos. Metade das crianças morria antes de completar 10 anos de idade, geralmente acometidas por doenças infecciosas que hoje são controladas com antibióticos e vacinas. As mulheres morriam no parto rotineiramente. A teoria dos humores, a homeopatia e a acupuntura nunca contribuíram em NADA para aumentar a expectativa de vida, descobrir agentes infecciosos, desenvolver medicamentos e vacinas. Se fossem assim tão milagrosas e eficazes como pregam, teriam gerado benefícios. Essas pseudociências são as mesmas desde sua criação, oferecem o mesmo método de diagnóstico precário de quando não havia conhecimento sobre o corpo humano, além do mesmo resultado: desequilíbrio energético de alguma forma vital etérea, e fórmulas mágicas sem nenhum fundamento científico para restaurar esse equilíbrio.

Então como explicar que a acupuntura voltou a crescer na China a partir da metade do século XX? E como refutar todas as evidências “científicas” de que essa prática funciona? E todas aquelas histórias de cirurgias feitas apenas com anestesia de acupuntura? Além disso, como refutar os milhares de testemunhos de curas e melhoras milagrosas relatadas por pacientes?

Para isso, caro leitor, vamos conhecer todos os trabalhos feitos de acordo com o método científico já tão explicado aqui, com trabalhos randomizados e controles duplo-cegos, que demonstram que, assim como a homeopatia, a acupuntura não tem efeito melhor do que o placebo. E vamos, também, falar de como um único homem – genial, mas de caráter bastante duvidoso -, responsável por um dos períodos mais sombrios da história da China, enganou o mundo todo com cirurgias falsas e muita propaganda política. Sim, estamos falando de Mao Tse Tung. Ora, mas o que tem Mao a ver com acupuntura? Descubra no próximo post. O que você poderia esperar de um ditador sanguinário e sem escrúpulos, que ainda por cima não gostava de café?

 

http://www.acuwatch.org/hx/basser.shtml

http://skepdic.com/acupuncture.html

http://www.acuwatch.org/general/taub.shtml

https://www.sciencebasedmedicine.org/acupuncture-anesthesia-redux-another-skeptic-and-an-unfortunate-misportrayal-at-the-nccam/

Trick or treatment Alternative Medicine on Trial – Edzard Ernst and Simon Singh, 2009

Bad Science – Ben Goldacre, 2009

Suckers: How Alternative Medicine Makes Fools of Us All – Rose Shapiro, 2010

 

 

      

 

 

 

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2 comentários

  1. alberto fares akel junior

    Era o que eu estava procurando! As vezes perco as motivações, mas sempre encontro pessoas, que como eu, estão tentando instruir de algumas práticas, que mesmo belos do ponto de vista cultural, causam muitos males a toda uma sociedade. Semana passada em conversa de bar, me deparei com a temática da acupuntura, comecei a explicar os porquês, mas percebi que muito dos conceitos como placebo ou até a metodologia de pesquisa, grande parte da população, isso incluir a instruída, é completamente analfabeta em ciências. Talvez essa seja o ponto que eu muitas das vezes começo a mergulhar num assunto, em um bar, logo vejo que ainda na superfície as pessoas já estão se afogando. Mesmo com os assuntos mais triviais. Quando nos deparamos com os dados estatísticos dessas nossa percepção, vemos que o buraco é mais embaixo. Bem…volta e meia apareço aqui agora. Bom café da tarde!

    1. Natália Pasternak Taschner

      Com certeza Alberto. E de todas as pseudociencias a acupunctura eh a que da mais trabalho, as pessoas adoram, porque parece ter milenios de sabedoria por tras e sempre conhecem alguem ou o cachorro de alguem que se curou de algo com essa pratica. A verdade eh que o ensino do metodo cientifico eh mto falho. Precisamos trabalhar com nossas criancas e jovens para ensinar a pensar racionalmente. Seja bem vindo ao Café e volte sempre! Abraco
      Natalia

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