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jan 05

Acupuntura parte II – placebo com agulhas

Na primeira parte dessa série, aprendemos sobre a história da acupuntura e seus princípios. Prometi que mostraria evidências científicas da sua ineficácia, e evidências históricas de sua disseminação enganosa por motivos políticos. Pois então, vamos a elas.

No início do século XX, a acupuntura estava praticamente banida na China. Os chineses recepcionaram com entusiasmo a assimilação da ciência moderna, baseada em evidências. Os líderes chineses dessa época consideravam a acupuntura como uma superstição, irracional e retrógrada:

  1. “Nossos estudiosos não entendem de ciência, por isso usam conceitos de yin-yang e crenças nos cinco elementos para confundir o mundo… Nossos médicos não compreendem a ciência, não sabem nada de anatomia humana, assim como nunca ouviram falar sobre doenças bacterianas e infecções. O chi nunca será compreendido nem que vasculhemos o universo atrás de evidências. Todas essas crendices irracionais e superstições podem ser corrigidas na raiz pelo uso da ciência” (Kwok DW. Scientism in Chinese Thought. New Haven; 1965:135).

Essa citação reflete bem o sentimento da época. A prática da acupuntura ficou restrita às áreas mais pobres da China, com menos acesso à informação. No período de 1927-36, não houve uma publicação sequer sobre acupuntura nas revistas científicas chinesas. Então como foi que a acupuntura de repente se tornou tão popular, como parte integrante da famosa Medicina Tradicional Chinesa (MTC)?

A era de Mao Tse-Tung trouxe consequências além da terrível revolução cultural e total perda das liberdades civis. Foi também uma era de revolução médica. Apesar de ter trazido benefícios reais na área de saneamento básico, que beneficiaram muito a população, Mao revolucionou a medicina chinesa com um retrocesso.

Quando a República Popular da China foi formada, em 1949, a maior parte do país era rural e não tinha acesso a qualquer tipo de assistência médica. Os hospitais estavam concentrados nas grandes cidades, e, mesmo assim, eram poucos. O presidente Mao havia prometido prover saúde adequada para toda a China, mas não tinha recursos nem pessoal capacitado. Uma saída foi capacitar pessoas leigas nas práticas antigas. Mao resolveu promover estas práticas e unificá-las, sob um termo INVENTADO pelo próprio Mao: a Medicina Tradicional Chinesa (MTC).

O termo MTC não existia. Foi um movimento político do presidente Mao, que lhe permitiu solucionar dois problemas: cumprir a promessa de levar assistência médica para o país inteiro, e também estimular o sentimento nacionalista. A MTC foi unificada e compilada nos famosos livrinhos vermelhos de Mao. As práticas de acupuntura estão todas descritas lá, saudando e exaltando, em cada página, a genialidade do presidente Mao.

Curiosamente, na biografia de Mao Tse-Tung, por Li Z (1994), ele diz que “Apesar de acreditar que devemos promover a MTC, eu pessoalmente não acredito nela. Eu não uso MTC”. Promover a MTC foi um movimento politico. E a acupuntura era parte dessa farsa. Mas o pior ainda estava por vir. Mao também queria mostrar a superioridade da China para o ocidente. Com a abertura da China na década de 1970, criou-se um dos maiores mitos da acupuntura: seu uso como anestésico em cirurgias.

Análises detalhadas de médicos que fizeram parte da comissão enviada à China para presenciar essas cirurgias, como Dr. Arthur Taub – neurologista e neurofisiologista de Yale – e Dr. John Bonica – um dos maiores anestesistas do século XX, considerado o pai dos estudos sobre dor – demonstraram que todas essas cirurgias foram fabricadas para impressionar e deliberadamente ENGANAR os médicos americanos. Os pacientes recebiam grandes doses de analgésicos e tranquilizantes antes da cirurgia, além de anestésicos locais durante o procedimento. As agulhas nas costas, na cabeça e nas orelhas não passavam de um adorno. Algo para inglês ver – ou, no caso, para americanos deslumbrados verem.

E se você está se perguntando sobre a famosa cirurgia de James Reston feita só com acupuntura como anestésico, saiba que isso também foi fabricação da mídia. O relato do próprio Reston atesta que ele tomou uma peridural.

Outras cirurgias milagrosas foram relatadas, inclusive cirurgias torácicas abertas, com o paciente completamente alerta e acordado, que teriam sido feitas somente com acupuntura. Isso levanta uma hipótese interessante, já que nesse tipo de cirurgia aberta o paciente fica impossibilitado de respirar, e precisa de ventilação.

Taub e Bonica, que presenciaram as supostas cirurgias feitas somente com uma ou duas agulhas nas orelhas, relataram que os pacientes estavam drogados com sedativos, narcóticos e anestésicos locais, o que era exatamente o procedimento praticado no passado, antes do acesso aos métodos modernos de anestesia. Outro detalhe extremamente cruel observado pelos médicos foi o de que algumas cirurgias menores eram feitas realmente sem anestesia, e que, apesar de os pacientes apresentarem nítidos sinais de dor, espasmos musculares involuntários e taquicardia, quando questionados, sempre respondiam que não estavam sentindo nada, e louvavam o amado presidente Mao, que em sua sabedoria promovia a MTC. Certamente era melhor sentir dor do que receber uma bala na cabeça.

Mas, afinal, e as evidências científicas? Temos milhares de relatos de pessoas que usaram acupuntura e melhoraram! Isso não vale para nada? Infelizmente, a resposta é definitivamente NÃO. Relatos pessoais não servem para a ciência. Somente estudos randomizados, com controle duplo cego, podem atestar se determinado medicamento ou tratamento apresenta eficácia maior do que um efeito placebo.

Falaremos com detalhes do placebo, mas adianto aqui que esse efeito não é apenas psicológico. Ele é real e pode ser mensurado. O placebo tem um efeito opiácio por natureza, ou seja, libera endorfinas que realmente atuam no controle da dor. Essas mesmas endorfinas podem ser liberadas ao correr uma maratona, ter um orgasmo, ou receber uma injeção salina achando que é morfina. Por isso, mensurar o efeito placebo de um estudo é imprescindível. Principalmente em um estudo de dor, que é a principal alegação de efeito da acupuntura.

Além disso, deve-se levar em conta que doenças crônicas possuem altos e baixos, e as pessoas costumam procurar um tratamento para a dor quando ela está em seu pico máximo. A tendência normal da doença é regredir para a média depois do pico, mas, se a pessoa fez um tratamento para dor exatamente nesse pico, quando a dor começar a diminuir, ela vai atribuir o efeito ao tratamento, e não ao curso natural da doença. O mesmo se aplica com doenças de cura espontânea, como gripes e resfriados.

E como desenhar um estudo randomizado, duplo cego, para a acupuntura? Para a homeopatia foi fácil, já que são pílulas. Mas como fazer com que nem o paciente nem o médico saibam se estão aplicando acupuntura no paciente? Fica um pouco complicado não perceber que estamos sendo espetados com agulhas, certo? E mesmo que o médico use pontos aleatórios, como fazer para cegar o médico também? Por esse motivo, proliferaram estudos mal feitos para a acupuntura, que ficaram famosos por “demonstrar” eficácia. Mas, na verdade, eles apenas demonstraram o efeito placebo.

O grupo liderado pelo Dr. Edzard Ernst, da Universidade de Exeter, Inglaterra, conseguiu desenhar uma maneira de colocar a acupuntura à prova pelo método científico. Não foi exatamente um duplo cego, pois não havia como cegar os médicos, mas os próprios acupunturistas ajudaram a desenvolver agulhas falsas retráteis, com as quais o paciente sentia a picada, mas as agulhas não eram inseridas na pele na profundidade necessária para alcançar os meridianos. Elas retraíam a ponta e parecia que tinha sido inseridas, mas estavam só na superfície. Também foram usadas agulhas em pontos falsos, completamente aleatórios e que seriam completamente ineficazes para o tratamento, segundo os especialistas.

Estudos realizados utilizando as agulhas falsas demonstraram que o efeito obtido era o mesmo, com agulhas verdadeiras ou falsas. Outros estudos utilizaram agulhas verdadeiras, porém colocadas em pontos falsos, e demonstraram o mesmo resultado. Todos os grupos – acupuntura real, falsa ou em locais errados – apresentaram o mesmo percentual de redução de dor. A conclusão foi que não importa se as agulhas são de fato colocadas, nem onde elas são colocadas. O efeito observado nessas situações é o mesmo: os pacientes tratados com acupuntura, com acupuntura falsa ou com acupuntura em pontos falsos relatam diminuição da dor – ou seja, a acupuntura não demonstra eficácia além do efeito placebo. Compilei os artigos abaixo para quem tiver interesse em ler os originais. Trata-se de estudos bem desenhados, randomizados, com grupos controle e cegos da maneira possível para a acupuntura. Nenhum conseguiu mostrar efeito significativo além do placebo. Isso não quer dizer que o efeito não existe, mas que não pode ser atribuído à colocação das agulhas em locais específicos, como a prática alega.

Finalizo dizendo que, assim como muitos médicos que praticam homeopatia, acredito que a grande maioria dos acupunturistas é extremamente bem-intencionada, e busca o melhor para os seus pacientes. Eles também foram enganados por um sistema histórico e político. Mas, infelizmente, por mais bem-intencionada que seja, a prática das pseudociências não é desprovida de riscos. E a falta de regulamentação dessas profissões abre sérios precedentes para o charlatanismo mal-intencionado. Afinal, se a medicina alternativa funcionasse, ela iria se chamar simplesmente Medicina.

“É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas”.

                                                                                                     Mark Twain

 

 

http://www.csicop.org/si/show/china_conference_1/

Li Z. The Private Life of Chairman Mao: The Inside Story of the Man Who Made Modern China. London: Chatto & Windus; 1994:84.

http://www.eurekalert.org/pub_releases/2007-09/eecc-adn092607.php

Lin, Z. X., L. Yu, Z. Y. Guo, H. L. Zhang, Z. Y. Shen, and T. L. Zhang. (In press.) Qi Gong: Chinese Medicine or Pseudoscience? Amherst, N.Y.: Prometheus Books.

Randi, J. 1989. The Faith Healers. Amherst, N.Y.: Prometheus Books.

 Linde K, Streng A, Jürgens S, Hoppe A, Brinkhaus B, Witt C, Wagenpfeil S, Pfaffenrath V, Hammes MG, Weidenhammer W, Willich SN, Melchart D. Acupuncture for patients with migraine: a randomized controlled trial. JAMA. 2005;293:2118–25

 Melchart D, Streng A, Hoppe A, Brinkhaus B, Witt C, Wagenpfeil S, Pfaffenrath V, Hammes M, Hummelsberger J, Irnich D, Weidenhammer W, Willich SN, Linde K. Acupuncture in patients with tension-type headache: randomised controlled trial. BMJ. 2005;331:376–82

Haake M, Müller HH, Schade-Brittinger C, Basler HD, Schäfer H, Maier C, Endres HG, Trampisch HJ, Molsberger A. German Acupuncture Trials (GERAC) for chronic low back pain: randomized, multicenter, blinded, parallel-group trial with 3 groups. Arch Intern Med. 2007;167:1892–8

Witt C, Brinkhaus B, Jena S, Linde K, Streng A, Wagenpfeil S, Hummelsberger J, Walther HU, Melchart D, Willich SN. Acupuncture in patients with osteoarthritis of the knee: a randomised trial. Lancet. 2005;366:136–43

Cherkin DC, Sherman KJ, Avins AL, Erro JH, Ichikawa L, Barlow WE, Delaney K, Hawkes R, Hamilton L, Pressman A, Khalsa PS, Deyo RA. A randomized trial comparing acupuncture, simulated acupuncture, and usual care for chronic low back pain. Arch Intern Med. 2009;169:858–66

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ERNST, E. (2006), Acupuncture – a critical analysis. Journal of Internal Medicine, 259: 125–137. doi: 10.1111/j.1365-2796.2005.01584.x

Ernst E, Lee MS, Choi T-Y. Acupuncture: Does it alleviate pain and are there serious risks? A review of reviews. Pain 2011;152:755-764

Snake Oil Science: The Truth about Complementary and Alternative Medicine 1st Edition

 

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9 comentários

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  1. Vitor Coimbra

    Olá Natália, fico muito feliz de ler seu texto. Fico particularmente impressionado com sua eloquência invejável!

    Sou apenas um cientista da computação, mas isso não me impede de realizar observações críticas. De fato, fico muito triste em encontrar grande resistência por parte de familiares meus em analisarem as evidências existentes, principalmente para homeopatia e acupuntura. Talvez isso seja um problema mais profundo da cultura e educação brasileira como um todo infelizmente.

    Obrigado.

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada Vitor. Imagine, SÓ um cientista de computação. Para mim o seu trabalho é um mistério incrível e indecifrável, rssss. ainda bem que existem cientistas na sua área tb, ou o que seria de nós? As pessoas em geral se deixam levar pelos depoimentos pessoais, porque são carregados de uma emoção que a ciência nunca terá. A ciência é impessoal, e por isso mesmo, funciona. Mas é um trabalho duro explicar isso pras pessoas, tem que ser ensinado desde cedo nas escolas, até que o pensamento racional fique automático. E isso leva muito tempo, mais ainda em uma sociedade que não investe em educação. Mas não desistiremos. Obrigada pelos elogios, e volte sempre ao Café! grande abraço.

  2. Mauricio Pereira

    Bom dia, Natália!

    Muito bons os seus textos. Sou pesquisador em arquitetura e urbanismo, na área de percepção (mais precisamente de ambientes sonoros). Me pergunto: o efeito placebo é mesmo tão malvado assim? Em todas as circunstâncias? (não apenas ou necessariamente no caso da acupuntura)

    Você não considera que, nos casos em que a intenção é mesmo reduzir a dor/incômodo, ou a percepção desses elementos, o efeito placebo pode ser uma possibilidade desejável? Se o efeito opiáceo ocorre de fato fisiologicamente, podendo mesmo ser mensurado, que diferença faz – em alguns casos pelo menos – se isso é obtido através de drogas ou de um placebo?

    Abraços e parabéns pelo excelente trabalho de divulgação!

    1. Natália Pasternak Taschner

      oi, Mauricio, obrigada!
      Acho que o efeito placebo não tem nada de malvado não. o problema é que as terapias alternativas levam o credito pelo trabalho dele, rsss. vc leu esse? http://cafe-na-bancada.com.br/index.php/efeito-placebo-o-melhor-amigo-das-terapias-alternativas/
      o debate de usar placebo para controle de dor é bem antigo e controverso. acho que o melhor argumento que já ouvi foi o do prof Edzard Ernts, que escreveu Trick or Treatment – fantástico. ele diz que temos o benefício do placebo de qq maneira, em qq droga que tomamos. Qdo vc toma uma aspirina, vc tem o efeito do remeedio em si + o efeito placebo, pq vc sabe que está tomando um analgésico. Tirar o efeito real do analgésico e deixar o placebo só iria diminuir esse efeito. E tb temos um problema ético. Dar um placebo a um paciente implica deliberadamente enganar o paciente. Já ouvi médicos homeopatas dizendo que se for placebo, tudo bem, porque o que importa é a melhora do paciente. Mas em geral, ninguém vai tratar-se de dor! A dor é um sintoma de algo que precisa ser tratado. Se vc mascara isso com um placebo, a pessoa vai parar de sentir dor, mas a doença pode progredir, porque vc nem sabe o que está tratando. Creio que a melhor aposta é estudar mais profundamente como o efeito placebo age nos receptores opiácios, controlando a dor. E utilizar esse conhecimento para criar um tratamento inovador. quem sabe? abraço.

      1. Gustavo

        Uma vez descartadas as causas que necessitem abordagem cirúrgica, ou uma abordagem medicamentosa específica, considerando que acupuntura é um “placebo”, utilizar acupuntura não seria inovador o suficiente?

  3. henrique

    nossa. mais mortes na conta do mao-tsé-tung por pseudomedicina agora.

  4. Gustavo

    Como grande colaboradora da ciência, falta especificar todas as referências que citou no penúltimo parágrafo. Bem como citar para quais condições ou doenças os estudos foram direcionados. Generalizar na ciência é sempre um erro. Se fosse bom generalizar, um estudo como esse: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4172306/, faria o uso de antidepressivos cair por terra.
    Além disso, colocar como realidade algo que é citado em biografia é o mesmo que usar um dos níveis mais baixos de evidência científica.

  5. Gustavo

    No próprio artigo de James Reston publicado no The New York Times, ele cita que a acupuntura foi utilizada para controle da dor após a cirurgia e não como anestésico durante a cirurgia…

  6. João Paulo Guimarães Pessoa

    Placebo funciona, e agulhas em “pontos falsos” e acupuntura mesmo que seja por efeito placebo é medicina, se alivia a dor porque não? Eu presenciei uma demonstração em uma colega, não teve treta nenhuma e o acupunturista colocou uma agulha em um ponto de anestesia e depois enfiou uma agulha embaixo da unha da minha colega e ela disse que não sentiu nenhuma dor! Então mesmo que esteja enganado e que o acupunturista fosse também ilusionista eu acredito em acupuntura! Também não acreditaram que o Tai Chi fosse revigorante e regenerador …e a população Chinesa só cresce grande e saudável com a prática!..Aliás a acupuntura é praticada em todo o oriente! Coréia, Japão, Tibet, etc….pode até ser que tenha beneficiado o governo de Mao Tse Tung, o fato de ele não acreditar não a torna falsa, só coloca Mao mais próximo de você (que também não acredita na acupuntura!), a acupuntura já foi reconhecida pela OMS e hoje o Conselho de Medicina luta para que ela seja exclusividade dos formados em Medicina!! Não tem como provar efeitos da acupuntura pra vc que nunca vai experimentá-la!!! Isso é mesmo impossível!

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