abr 21

Afinal, para que serve isso? A importância da ciência básica.

Cientistas descobriram que a galinha possui múltiplas retinas e uma visão muito superior à visão dos humanos. Esta foi a notícia que escutei no rádio ainda outro dia. Mas a notícia foi dada como exemplo de um feito inútil e ridículo. Três comentaristas faziam gracinhas sobre o estudo, sugerindo que talvez devêssemos colocar uma galinha na função de quinto juiz no futebol, já que ela enxerga tão bem, e alegando que era absurdo gastar dinheiro público para financiar uma pesquisa científica que se propõe a estudar a retina da galinha!

Durante o meu doutorado, as pessoas costumavam me perguntar o que eu estudava. Eu explicava que estudava regulação gênica em bactérias sob carência nutricional. A pergunta seguinte era sempre a mesma: “Mas para que serve isso?”. E a minha resposta era também sempre a mesma: “Para entender como funciona a regulação dos genes de uma bactéria sob carência nutricional.” Curiosamente, durante meu primeiro pós doutorado, eu passei a estudar uma bactéria que é uma praga de plantação na lavoura de laranja, chama-se Xanthomonas sp. Então, as pessoas desenvolveram mais respeito pelo meu trabalho, afinal, eu estava estudando algo economicamente importante, e poderia descobrir uma “cura” para a doença que esta bactéria causava nas plantas.

Mas o meu trabalho com Xanthomonas sp era exatamente o mesmo que eu realizava antes com E. coli, pesquisando a regulação dos genes sob carência nutricional. Na verdade, o que eu fiz durante meu pós-doc foi simplesmente aproveitar todo o conhecimento que eu obtive no meu doutorado trabalhando com ciência básica e aplicá-lo a uma outra bactéria, que tinha, por sua vez, um interesse comercial. Eu jamais poderia ter feito isso se antes não tivesse estudado regulação gênica em E. coli, com o único propósito de entender como esse processo funciona.

Meu trabalho de doutorado, assim como o estudo da retina das galinhas, são trabalhos de ciência básica. A ciência básica procura entender como o mundo funciona. A ciência aplicada utiliza as teorias e conceitos descobertos pela ciência básica para desenvolver tecnologia e aplicá-la em nossas vidas. Ficou mais claro agora? Ou precisa de uma luz? Então falemos de luz!

A eletricidade certamente não é uma invenção humana. É uma entidade da natureza. Há registros de conhecimento de peixes elétricos no Egito, e também pelas civilizações gregas e romanas da antiguidade. Tales de Mileto fez uma série de experimentos com eletricidade estática, concluindo que o âmbar, quando friccionado, tornava-se magnético. Na realidade, era eletricidade estática que atraía outros materiais. No futuro, a ciência explicaria a relação entre eletricidade e magnetismo. A eletricidade pairou como uma curiosidade durante muitos séculos, sem ser compreendida e tampouco utilizada. No século XVIII, Benjamin Franklin conduziu vários experimentos com eletricidade. Para isso, ele vendeu todas as suas posses – afinal, não havia agências de fomento à ciência para financiar suas pesquisas. O experimento mais famoso feito por Franklin foi atrelar uma chave de metal ao fio molhado de uma pipa, e fazê-la voar sob um temporal com raios. Uma sucessão de choques que vinham da chave até sua mão demonstrou a natureza elétrica dos raios. Franklin não estava preocupado com as aplicações da eletricidade. Ele queria apenas entender como aquilo funcionava. Em nenhum momento ele teve a brilhante ideia de “inventar” uma lâmpada para que as pessoas pudessem ler no escuro, ou para ampliar a jornada de trabalho, sem a necessidade de velas ou de gás. 

Ainda no século XVIII, Galvani demonstrou que potenciais elétricos estimulavam a perna de uma rã morta! Alessandro Volta foi além, e percebeu que o contato entre dois metais e a perna da rã estimulavam seus músculos. Volta criou a pilha voltaica, uma série de discos de cobre e zinco embebidos em uma solução salina. Essa foi a primeira fonte de uma corrente elétrica estável.

Em 1821, Ørsted descobriu acidentalmente o campo magnético. Trabalhando com um fio por onde passava uma corrente elétrica, Ørsted percebeu que o fio atraía a agulha de uma bússola próxima. Essa atração era diferente de qualquer tipo de força conhecida na época: ela não atraía ou repelia a agulha, mas sim, parecia atuar em círculos, ao redor do fio. Ele também percebeu que a força dependia da orientação da corrente. Se a corrente fosse invertida, o mesmo acontecia com a força de atração. Ørsted não entendeu sua descoberta naquela época, e muito menos pensou em alguma aplicação prática para ela. Mas ele percebeu que o efeito era recíproco: uma corrente exerce força sobre um ímã, e um ímã exerce força sobre uma corrente.

Este fenômeno foi amplamente investigado por Ampère, que descobriu que dois fios percorridos por uma corrente elétrica exercem força sobre si mesmos, sendo que dois fios conduzindo correntes elétricas na mesma direção se atraem, enquanto dois fios conduzindo correntes em direções opostas se repelem. Esta interação é mediada pelo campo magnético.

faraday motorA relação entre corrente elétrica e campo magnético foi extremamente importante para Michael Faraday, que criou o primeiro motor elétrico em 1821. O motor de Faraday consistia em um ímã dentro de uma solução de mercúrio. Uma corrente era passada por um fio posicionado acima do ímã, e mergulhado no mercúrio. O ímã exercia uma força tangencial no fio, fazendo com que se movesse ao redor do ímã. Esta descoberta possibilitou a Faraday a construção do primeiro gerador elétrico em 1831, convertendo energia mecânica em energia elétrica. Naquela época, o gerador de Faraday não servia para nada, mas foi a base para a construção dos primeiros geradores de energia elétrica que foram usados como fonte de iluminação. Se não fosse o conhecimento gerado por Franklin, Volta, Ampère, Ørsted e Faraday, nunca teríamos luz elétrica. Também não teríamos motores elétricos para movimentar máquinas industriais, locomotivas, geladeiras, etc. Esse conhecimento não foi gerado com o objetivo de se desenvolver a luz elétrica, ou o motor. Ele foi gerado simplesmente pela curiosidade de grandes homens em entender como o universo funciona.

Assim também ocorreu em todas as áreas da ciência. A ciência básica é justamente isso, a base de todo o conhecimento científico. A ciência aplicada, aquela que tem por objetivo responder questões práticas da humanidade e desenvolver tecnologia, depende completamente do conhecimento gerado pela ciência básica. Dizem que em 1850, William Gladstone, então primeiro ministro da Inglaterra, perguntou a Faraday “Mas qual a utilidade da eletricidade?”, e Faraday teria respondido, “Um dia, senhor, vai poder cobrar uma taxa por ela”.

Espero tê-los convencido da importância de estudar coisas aparentemente sem importância, e de que o governo e as agências de fomento à pesquisa não estão desperdiçando dinheiro público quando financiam a pesquisa básica. A geração de conhecimento é sempre um grande investimento para o país e certamente trará retorno. E vamos ao nosso café. Você por acaso usa uma cafeteira elétrica? E o último que sair, por favor, apague a luz!

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7 comentários

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  1. Natalia, texto muito claro e atraente. Amei.

    1. obrigada, Clarisse! Que bom que gostou. abraço.

    • bianca peres em 2016-04-29 às 11:48
    • Responder

    Texto excelente!!!!

  2. ” a galinha possui múltiplas retinas e uma visão muito superior à visão dos humanos. ”

    Natália, por que a galinha tem múltiplas retinas e enxerga melhor que os seres humanos?

    1. ai, Gabriel, pra te responder isso com alguma propriedade eu precisaria fazer uma pesquisa em biologia evolutiva! Eu usei como exemplo porque realmente o estudo foi comentado – e debochado – no programa de rádio que eu estava escutando. E fiquei muito surpresa ao constatar que os jornalistas não entendiam nada sobre pesquisa básica…abraço.

  3. ” O experimento mais famoso feito por Franklin foi atrelar uma chave de metal ao fio molhado de uma pipa, e fazê-la voar sob um temporal com raios. Uma sucessão de choques que vinham da chave até sua mão demonstrou a natureza elétrica dos raios. ”

    Cibelle Celestino Silva e Ana Carolina Pimentel afirmam, em um texto chamado ” Benjamin Franklin e a história da eletricidade em livros didáticos(USP) ” que Franklin, em uma carta datada de 19 de outubro de 1752, sugere que o tal experimento seja feito. Franklin, em momento algum, afirma ter feito tal experimento.

    Natália, por que você afirma que Franklin fez tal experimento?

    1. oi, Gabriel, desculpe a super demora, as férias escolares me pegaram de jeito, é a época do ano que eu mais trabalho, rss. Você tem toda a razão, vou alterar o texto de acordo, não há comprovação de que Franklin tenha feito realmente o experimento. obrigada. abraço.

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