«

»

set 30

Água em Marte, #JourneyToMars e a Divulgação Científica

Se você estava de férias, sem celular, sem internet, sem contato com o mundo dito civilizado, fique sabendo que a National Aeronautics and Space Administration (NASA) anunciou a descoberta de água no estado líquido no planeta Marte. Muito bem, mas como essa água foi parar lá? O que muda encontrar água em outro planeta? Qual é o impacto disso para a humanidade? Existe vida em Marte? E o mais importante: dá pra fazer café com essa água?

Na segunda-feira, dia 28/09/2015, a mais forte evidência de que existe água no estado líquido em Marte foi anunciada pela NASA. O comunicado foi feito com um toque de suspense, convocando a imprensa para uma conferência anunciada como “maior descoberta sobre Marteou até “mistério de Marte resolvido”. Esse tipo de anúncio soa como o trailer de um filme que você está querendo assistir há muito tempo! Isso acabou gerando uma expectativa enorme em aficionados por ciência em todo o mundo. A NASA está se tornando especialista em fazer esses pronunciamentos cinematográficos.

A descoberta por si só já é um grande feito para os cientistas da agência espacial – se comprovada, claro. As evidências foram detectadas pelos instrumentos da sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) que, desde 2006, está orbitando o planeta Marte em busca de água líquida, tanto na superfície quanto no subsolo. Os pesquisadores detectaram sinais de minerais hidratados que formavam faixas escuras quando as temperaturas eram mais quentes – por volta de 23 ºC negativos – e desapareciam em épocas mais frias. A imagem abaixo mostra o aparecimento destas faixas.

giphy

 

Os minerais hidratados encontrados em Marte são capazes de adsorver água tanto da atmosfera quanto do gelo – ou seja, as moléculas de água ficam retidas na superfície dos sais por interações físicas e químicas. Diferente, por exemplo, de uma esponja, que apenas absorve a água. Substâncias que adsorvem água são chamadas de higroscópicas.

O mineral higroscópico encontrado em Marte é o perclorato de cálcio. A NASA pretende utilizar este mineral para reaproveitar a água adsorvida e ainda produzir oxigênio, recursos que serão utilizados pelos astronautas e para a produção de combustível.

Essa combinação de minerais com a água diminui o ponto de congelamento da última. Por isso, é possível encontrar água líquida mesmo a temperaturas abaixo de zero. Lembre-se que, mesmo aqui na Terra, é comum utilizar um mineral bem comum – o sal de cozinha – para derreter neve após uma nevasca, ou até mesmo para gelar a cerveja mais rapidamente no churrasco. 

Além disso, a atmosfera de Marte é bem diferente da nossa. Vale lembrar que já se sabia da existência de água em Marte, porém nas formas de gelo – um oceano gigante de gelo – e de vapor.

A presença de água na forma líquida também revive a esperança de encontrar alguma forma de vida em Marte, principalmente onde as faixas da imagem mostrada foram identificadas. Alguns microrganismos – como bactérias e vírus – chamados de extremófilos podem sobreviver a condições extremas (nome sugestivo não?), como temperaturas muito baixas ou muito altas e elevada pressão atmosférica. Portanto, é possível, sim, encontrar vida em Marte.

Porém, toda essa pesquisa custa muito dinheiro. Em 2014, a National Academies fez um estudo e concluiu que os planos da NASA de mandar o homem para Marte não poderiam acontecer antes de 2046 se não houvesse um aumento massivo no orçamento do programa espacial.

Atualmente, a NASA gasta 8 bilhões de dólares por ano com o programa espacial humano. Se eles conseguissem dobrar esse orçamento, certamente conseguiriam chegar ao planeta vermelho muito antes, por volta do ano de 2033 – segundo estimativas da Planetary Society, uma organização não governamental envolvida em projetos de astronomia, ciências espaciais e de exploração do universo. Um dos fundadores da sociedade é o famoso Carl Sagan, astrônomo, astrobiólogo e divulgador científico que escreveu livros como Contato e Pálido Ponto Azul. A entidade ainda organizou um workshop e elaborou um relatório que tenta responder todas as perguntas sobre gastos e possibilidades da viagem tripulada a Marte. Mas, ainda assim, precisariam de dinheiro! Muito dinheiro!

Eis que a NASA se mostra sagaz mais uma vez, pois, se a agência fosse depender do governo, esse dinheiro provavelmente não chegaria tão cedo. Uma parceria externa seria essencial para acelerar o desenvolvimento do programa espacial.

A empresa cinematográfica de Hollywood é famosa por enaltecer os feitos de astronautas, principalmente os da NASA – vide filmes como Armaggedon, Prometheus, Gravidade e Interestelar. Este último teve o físico teórico Kip Thorne como consultor científico, o que ajudou o filme a ter uma certa acurácia científica em explicar fenômenos como buracos-negros e relatividade – embora também tenha gerado críticas negativas em outros aspectos científicos, como o de um planeta que orbita um buraco negro refletir luz solar.

Em todo caso, a NASA viu na indústria cinematográfica uma grande oportunidade de aumentar o orçamento para o programa espacial. O diretor Ridley Scott – diretor de Alien, o Oitavo Passageiro; Blade Runner; Prometheus e outros – estava começando as filmagens do filme The Martian (Perdido em Marte é o título no Brasil), que foi baseado no livro homônimo escrito por Andy Weir e conta a história de um astronauta que é dado como morto e deixado para trás em Marte após um acidente, enquanto a expedição explorava o planeta vermelho. Ridley Scott contatou a NASA para ter uma consultoria científica e tentar reproduzir algumas das condições que astronauta abandonado em Marte iria enfrentar.

Olhem só que oportunidade! O filme se passa em um futuro próximo e não muito fantasioso onde uma equipe da astronautas é enviada para explorar Marte!! Essa é exatamente a premissa da nova missão que a NASA está planejando: enviar expedições para explorar o nosso planeta vizinho!

Percebam como tudo foi muito bem orquestrado:

  • Os cientistas da agência espacial deram a consultoria científica para o Ridley Scott durante as filmagens de Perdido em Marte;
  • Na segunda-feira, dia 28/09/2015, a NASA anuncia que encontraram água no estado líquido em Marte;
  • A hashtag #JourneyToMars explodiu no Twitter no dia 28 após o anuncio da NASA, e a notícia virou capa de todos os sites, jornais e revistas do mundo todo;
  • No dia 29, Ridley Scott se juntou a parte do elenco de The Martian e a cientistas da NASA em Washington DC para debater o filme e a recente descoberta em Marte;
  • A atriz Jessica Chastain, que também participa do filme, e a FOX estão promovendo as futuras explorações da NASA e mostrando a importância de apoiar programas como o da NASA;
  • Na quinta-feira, dia 01/10/2015, o filme estreia nos cinemas do mundo todo.

Era de se esperar que o filme arrecadasse cerca de US$40 – 50 milhões na semana de estreia. Após essa sincronia de acontecimentos, certamente a renda irá aumentar e MUITO. Com isso, ambos os lados irão se beneficiar.

Vejam que nem mesmo a NASA se contenta em apenas ter o financiamento do governo.

Hoje, no Brasil, a ciência enfrenta um dos piores momentos de sua história. Não podemos chamar o que está acontecendo de “cortes”. O que está sendo feito deveria ser chamado de “amputar” o desenvolvimento científico. Retirar mais de 25% dos investimentos em qualquer área não é corte. É pedir para fechar as portas.

Há muito tempo já deveríamos ter começado a mostrar – assim como a NASA mostra que fazer ciência é divertido e causa um tremendo impacto na sociedade. A agência espacial mostra que suas pesquisas voltadas para a exploração do universo também geram tecnologias que podem ser utilizadas aqui na Terra. Nós, cientistas e não cientistas brasileiros, também devemos nos mobilizar para diminuir a nossa dependência do governo para financiar nossas pesquisas.

Unir academia e indústria para que possamos ter um orçamento extra e evitar os amputamentos que impedem o avanço da ciência brasileira é tarefa mais que urgente.

Post Relacionados

Não há posts relacionados

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Share