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nov 29

Posso misturar os “remédio tudo”? – O perigo da automedicação

Wagner, Wagner, Wagner, posso misturar os “remédio tudo”?

Vamos fazer um textão pra tentar explicar porque você NÃO deve misturar “os remédio tudo”.

Primeiramente, você só deveria utilizar medicamentos prescritos pelo seu médico. Logo, se ele prescreveu, ele disse como usar. Geralmente você fica em dúvida porque resolve tomar coisas por conta própria, então resolvi fazer este textículo que virou ou textão pra te botar medo mesmo, trazendo alguma luz pra essa cachola. LEIA!!!

Vamos falar dos medicamentos de uso oral, os mais comuns. Temos que entender que ele precisa, inicialmente, ser absorvido para funcionar – e ser absorvido significa passar do seu estômago ou intestino, depois que você o enfia na boca (não trataremos de supositórios hoje, uma pena), para o sangue. Só estando no sangue o medicamento poderá ser distribuído pelo organismo, sendo levado até os tecidos onde precisa atuar. O que determina a absorção, então? Várias coisas, e isso dá um trabalho do cão pra ajustar quando se está desenvolvendo um medicamento novo. Imagine que, se o medicamento entra pela sua boca, passa pelo estômago e intestino, sai pelo ânus te dando tchau e cai no vaso, ele não faz efeito. Essa porcaria precisa dissolver e penetrar nos vasos sanguíneos conforme vai passando pela sua tubulação interna, que não, não é Tigre, porque se fosse, nada penetraria. Ao dissolver, as moléculas ficam livres e podem atravessar a membrana das células para ganhar acesso ao sangue, MAAAAS só vão atravessar a membrana das células se forem moléculas pequenas e não tiverem carga, positiva ou negativa. Se a molécula é pequena ou grande é uma característica dela e isso não muda, mas a carga muda, sim. Dependendo do pH (acidez) do ambiente onde ela está, ela pode ficar negativa ou positiva. Por exemplo, os ácidos, tipo ácido acetilsalicílico (aspirina), são neutros no estômago e negativos no intestino, devido ao pH diferente destes dois compartimentos. Obviamente, aspirina vai ser absorvida no estômago e não no intestino. Outros medicamentos são o contrário disso e assim vai.

Então se eu tomar aspirina esperando que ela seja absorvida no estômago porque em meio ácido ela é neutra, mas eu tomar aspirina com algum suco alcalino que eleva o pH do estômago, ela não vai ser absorvida e não vai fazer efeito? ISSO!!! Parabéns!!!

Mas e se a molécula é grande e não atravessa a membrana de jeito nenhum? Existem transportadores específicos, tipo buracos específicos na célula por onde moléculas podem passar, mas estes “buracos” são seletivos. Não passa qualquer coisa. São buracos específicos para moléculas específicas. Então se eu tomar um negócio, esperando que ele passe por este buraco, mas junto eu tomar um outro medicamento que também entra por esse buraco, eles vão brigar na porta e vai entrar menos dos dois ou vai entrar só um deles ou nenhum dos dois? ISSO!!! Parabéns – parte 2!!!

Então a alimentação influencia na absorção dos medicamentos e faz toda diferença tomar algo em jejum ou alimentado? ISSO!!!! É por isso que existem as recomendações de como tomar. Não é magia! Tem medicamento que não é bem absorvido em jejum, mas em meio aos alimentos formam-se combinações que facilitam sua absorção. Já outros, se tiver alimentos juntos, não serão absorvidos e vai sair tudo no cocô. Seu cocô especial!!!

Mas isso é só absorção né? Não falamos ainda de como eles atuam? Exato!!! E pra complicar mais, antes ainda de falar como eles atuam, a gente precisa ver como eles são DISTRIBUÍDOS.

Há medicamentos que circulam livremente pelo sangue depois que foram absorvidos, já outros não, e só circulam de mãozinha dada com uma proteína do plasma chamada albumina. Quem faz essa bendita albumina é o fígado, todo dia, 12g por dia aliás. Quando um medicamento se liga a albumina, ele o faz automaticamente. Tem medicamento que se liga muito à albumina, tipo, 98% da dose que você toma fica ligada à albumina e só 2% livre. Sim, são esses 2% livres que fazem efeito, logo quem te definiu a dose e sabe que 98% ta ligado à albumina, já deu uma dose de modo que 2% daquilo sejam suficientes. Tem outros medicamentos que se ligam menos à albumina e se ligam mais fortemente ou menos fortemente.

Se eu tomar dois medicamentos diferentes que se ligam à albumina eles vão competir entre si? Vão sim!!! Tipo duas crianças disputando um tico-tico. A albumina é o tico-tico do nosso sangue. Lembra aquele medicamento que se liga 98% à albumina? Pois é! Se eu tomar um outro, agora, que se liga também de monte à albumina, mas se liga com mais força do que o primeiro, ele vai deslocar os 98% pro sangue. Mas eu não queria só 2% livre? Queria, mas agora que você misturou você tá com 100% livre. Putz, 100% é 50 vezes mais do que 2% né?! Isso!!! É como se você tivesse tomado 50 comprimidos do medicamento que o médico te mandou tomar UM. Você pode morrer? Pode sim!!! Parabéns – 3!!! Zeus, me da um exemplo!!! Dou!!! O anticoagulante warfarina se liga majoritariamente à albumina. Só que a aspirina se liga mais fortemente. Se você toma warfarina e resolveu tomar aspirina, você vai ter uma overdose de warfarina assim, de graça mesmo!!!

E se eu usar medicamento injetável? Muda algo? Muda só a absorção! Não vai ficar naquela milonga de absorve-não-absorve, é grande ou é pequeno, é negativo ou é positivo. Você já mete direto no sangue, mas a questão da ligação à albumina não muda.

Mas e agora que já absorveu e já ligou ou não à albumina e circulou? Tá pronto?! NÃÃÃO!!! Criatura ansiosa!!! Precisa chegar no tecido onde vai atuar e ….atuar, mas ANTES, vai passar pelo fígado. Não tem nada que você enfie na boca que não passe pelo fígado. Ops, me enganei! Tem sim, mas não vem ao caso aqui. Enfim, passando pelo fígado, vai encontrar um montaréu de enzimas que modificam qualquer molécula estranha que você “coma”. Antes de circular pelo resto do corpo, passa no fígado e é o tal do efeito de primeira passagem. Essas modificações podem ser pra inativar um medicamento – o que é bom, porque você quer que ele atue, mas não que fique atuando pra sempre – ou, em alguns casos, para ativar o medicamento. Sim, para alguns medicamentos, aquilo que você toma não faz efeito, a menos que seja modificado no fígado. Tem medicamento dos dois jeitos. Sabemos quais são quais? CLARO que sim!!! É um tipo só de enzima que faz isso no fígado? Não!!! Muitas. Cada uma trabalha com um medicamento diferente.

Vixe, então se eu tenho uma cirrose, uma insuficiência hepática, e não tenho essas enzimas, posso ter problemas com medicamentos, porque eles não serão ativados ou inativados? Sim!!! E mais ainda!!! Lembra que era o fígado que produzia a albumina? Então, seus problemas já começam na distribuição. Nossa, então o idoso que tá com o fígado capenga pode precisar usar uma dose menor ou maior de um medicamento, e ele pode ter overdose com uma dose considerada normal?! SIM!!! Parabéns – 4!!! Isso não é brincadeira, já percebeu?

Me dá um exemplo de algo que seja ativado só quando passa pelo fígado? Dou!!! Tamoxifeno, pra câncer de mama. Não é ele que é ativo, mas sim o endoxifeno, que só é produzido quando o tamoxifeno passa pelo fígado. Tem gente que tem deficiência da enzima que converte tamoxifeno em endoxifeno, e aí o tratamento não faz efeito?! TEM!!! Azarzão né!? Pois é!!! Tem como fazer exame pra saber se a pessoa converte bem ou não?! Tem!!! Incrível, não?! A pessoa não pode tomar o endoxifeno direto, então, se ela tem deficiência? Pode! Pra isso a indústria farmacêutica faz pesquisa, usando beagle inclusive, se você não solta na Praça em São Roque! Nossa, então tem coisa útil sendo feita pela cruel indústria? TEM!!!! Imagina se você é uma das pessoas que não converte tamoxifeno em endoxifeno, que felizona você não fica de saber que tem alternativa?!!!! Pois!!!

Mas e se eu tomar dois medicamentos juntos e os dois são convertidos pela mesma enzima do fígado? Eles vão competir? Vão sim. E um medicamento pode impedir o efeito do outro? Vixe!!!! Pode acontecer o contrário também? Um alimento ou medicamento que aumenta a atividade da enzima? Pode! E aí, como eu ajusto a dose? Você não ajusta nada, bebê! Você faz o que o médico mandar.

E o álcool? O álcool ativa algumas destas enzimas hepáticas e inativa outras. Pode ser o caos tomar um medicamento com álcool? PODE! Alguns medicamentos, então, vão ter muito mais efeito em mim e outros vão ter muito menos? ISSO!!!! Para alguns medicamentos, não vai fazer diferença a mistura com álcool? ISSO!!! Quais são?! Não interessa!!!! Não use medicamentos com álcool!!!!

Você nota que tem muitas coisas que influenciam o todo? A gente conhece o todo e pode até raciocinar, pensando “comi isso, bebi aquilo, vou tomar o medicamento assim ou assado”, mas ficar fazendo isso pra cada criatura do mundo não vale a pena. “Comi brócolis, com suco de limão, corri meia maratona, comemorei com vodka e tenho que tomar dois medicamentos. Como tomo?” Você toma como o médico te mandou tomar, você não bebe álcool e não inventa alimentação e atividades esdrúxulas, porque ninguém tá com tempo pra ficar particularizando o seu caso! Não complica!!!

Mas eu tava com muita dor e, depois de meia hora que tomei o remédio 1, tomei o remédio 2. Os dois POR SORTE foram absorvidos, foram distribuídos, passaram bem pelo fígado e agora vão atuar. Tem mais algum problema que pode acontecer? TEM!!!

Olhe na figura abaixo, um mísero exemplo.

imagem-wagner

Os mediadores da dor, ou seja, as moléculas que geram a dor, são produzidas a partir de fragmentos da membrana das células, por ação de duas enzimas que agem em série, uma chamada fosfolipase A2 e a outra chamada de COX (ciclooxigenase). Os corticoides inibem a primeira enzima, e os AINES (antiinflamatórios não-esteroidais, tipo ibuprofeno, aspirina, piroxican, diclofenaco,…) inibem a segunda. Inibindo uma ou outra, ou as duas, você não tem os mediadores que provocam dor, e a dor passa. Ótimo!!! Por que Zeus fez um sistema em que a gente produz estes mediadores que causam dor? Porque eles ativam o sistema imune e o fazem responder a infecções, por exemplo. A dor é só o alerta de que algo está errado e sendo consertado.

OK. Mas e se eu tomar aspirina e ibuprofeno? Os dois atuam no mesmo ponto. Podem competir e um atrapalhar o outro? Podem! Podem potencializar o efeito e gerar efeitos adversos indesejados? Podem!!! Não tem quase lógica você fazer estas misturas. O médico faz algumas, mas ele tem intenções específicas que não vou detalhar aqui. Você, não faça! Corticoide desliga a chave geral mais pra cima então? Isso!!! Desligar mais pra cima é melhor ou pior? Veja, desliga mais, mas ácido araquidônico serve pra várias coisas que não coloquei na figura. Se você precisa desligar mais pra cima e vai usar corticoides, vai ter efeitos adversos diferentes dos que você tem se desligar mais pra baixo. Se desligar mais pra baixo, em COX funciona, é menos pior. Ou você desliga a casa inteira pra trocar a lâmpada só do quarto? Eu desligo o quarto.

Embora atuem no mesmo ponto, os efeitos adversos podem ser diferentes? Seguramente sim!!! Quando processados, os fármacos geram outras moléculas que vão também circular, ser distribuídas e atuar. Cada fármaco libera moléculas diferentes. O famoso paracetamol pode gerar moléculas secundárias que são tóxicas para o fígado, por exemplo, por isso não se usa feito louco e sem critério. Por isso você alterna paracetamol com dipirona quando sua criança silvestre tá com febre. Você não dá paracetamol de 4 em 4 horas por dias até passar a febre, porque você mata a criança. Mas isso é sério mesmo? Alguém pode morrer por isso?! Sim, inclusive adultos. Podem morrer, não! Morrem!!!

Faltou explicar coisas? Vixe, faltou!!! Nem falei de eliminação, que é outro ponto de treta com hora marcada. Simplifiquei demais coisas que são bem mais complexas? Infinitamente! Mas é o mínimo que eu precisava pra abordar o tema.

Espero que tenha ficado claro. Medicamento é coisa séria. Medicamento não é caixinha de surpresa. Não é porque o médico te mandou tomar uma vez que você vai recomendar pra vizinha ou tomar de novo quando te der algo outra vez. Tem MUITA coisa envolvida e pensada em cada prescrição. Não teria como te explicar tudo isso cada vez, mas é isso toda vez. O que funciona e é seguro pra você hoje, pode não ser amanhã e muito menos pro seu amiguinho.

Fui debochado pra ficar engraçadinho e ser mais compreensível. Usei o termo medicamento de maneira genérica pra não poluir com termos mais específicos aqui ou lá. Espero que tenham gostado. Se gostaram, compartilhem!!!! A gente compartilha tanta besteira mesmo!!! Isso pode ser útil pra alguém!!!

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4 comentários

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  1. Amanda carvalho

    Supimpa!!! O texto é excelente e muito bem escrito! Só é muito chato ver que o autor quase pede desculpas por não ser médico. Que triste ter de pedir autorização para médicos para falar sobre remédios, né…
    parabéns!!

    1. PAblo

      Ué? e precisa pedir autorização a medicos? Qualquer um da área de saúde ou biológicas pode ter noção disso. Afinal todo curso da área de saúde tem farmacologia. Quem nao viu,mas entende de imuno, bioquimica, fisiologia pode ser autodidata e entender bem da area.

  2. PAblo

    Wagner só uma correção em relação a aspirina. Ela nao é mais bem absorvida no estomago nao. Aliás nem ela nem nenhum tipo de medicamento, ou alimento, ou seja lá o que for. Estomago nao é local de absorção. Há um erro nesse raciocínio descrito por voce:

    Medicamentos precisam antes de tudo, ser dissolvidos em água, pra depois serem permeáveis as mebranas celulares. A aspirna em meio ácido nao é soluvel em água, portanto nao seria bem absorvida no estomago. Fora que varios medicamentos vem em forma de sais, justamente para terem cargas e serem mais soluveis em água.

    Fora o fato de o estomago nao absorver nada, pq a superficie de contato dele é ínfima. Se voce pudesse esticar as microvilosidades do intestino voce teria uma área de absorçao de um campo de futebol, contra o estomago que nao tem muito contato, é liso, cheio de muco. Levamos em consideração que a primeira porção do intestino nao é alcalina, mas varia de 5 a 7 o pH, que é acido a neutro. Pra voce ter uma idea, tirando a água, o alcool é a substancia mais bem absorvida no estomago, pela sua facilidade de ser soluvel em água e oleo. O alcool só tem de 8 a 10% de sua quantidade ingerida a serem absorvidos no estomago.

  3. Wagner

    Pablo, na verdade cada medicamento vai ter suas características especiais inclusive pra cinética. A regra geral descrita aqui é válida para moléculas ácidas e é verdadeira. Como foi um texto escrito para leigos, optei por usar o ácido acetilsalicílico como exemplo de ácido porque todos conhecem a velha e boa aspirina e fariam o link direto. Eu poderia ter falado apenas de moléculas ácidas e estaria ok ou inventado um nome, como “acidol”, mas quanto mais genérico mais difícil é pro leigo fazer as associações. Tem o fator solubilidade e coalescência aqui que muda alguma coisa especificamente para a aspirina e pra outros também, mas não invalida tudo o que foi dito e não muda a teoria geral. Apenas não entramos em detalhes que achamos que iriam mais confundir do que ajudar. Trabalhamos com o geral e não as exceções, mas agradecemos a contribuição.

    abraço,

    Wagner

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