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jul 07

Aves-do-paraíso, seleção sexual e barbas!

Aves-do-paraíso são pássaros encontrados principalmente na ilha de Nova Guiné, localizada ao norte do continente australiano. Ao todo, 41 espécies diferentes já foram catalogadas. Estas aves se destacam pela plumagem exótica e pelo comportamento, digamos assim, peculiar, que precede o acasalamento.

Abaixo um GIF para ilustrar melhor o que eu quero dizer.

paradise-6-ed

 

Antes de tentar explicar… bem, isso… o próprio nome popular da ave já é bastante chamativo e a história por trás é ainda mais divertida. Tudo começou no início do século dezesseis, na época das primeiras navegações: o português Fernão de Magalhães – aquele mesmo que deu nome ao Estreito de Magalhãesrealizou a primeira circum-navegação a serviço do rei da Espanha. Um dos pontos de parada da expedição foi as Ilhas das Especiarias – hoje conhecida como Ilhas Molucas. Nesta ilha, um dos artefatos que Magalhães recebeu dos nativos foi uma ave empalhada. O pássaro possuía uma plumagem colorida e duas características que chamaram a atenção de toda a tripulação: as aves não tinham asas e nem patas!

Como dito acima, as aves-do-paraíso eram comumente encontradas na ilha de Nova Guiné e não nas Ilhas Molucas; portanto, nem os nativos desta última ilha tinham contato com os animais vivos. Os pássaros chegavam já empalhados, vindos de outras tribos de outras ilhas próximas a Molucas, que por sua vez já haviam sido trocadas com tribos da Nova Guiné.

Mas nem por isso os nativos de Molucas deixaram de dar explicações para os europeus do porquê de as aves aparecerem sempre sem asas e sem patas! Eles acreditavam que as aves planavam sem descanso, com o auxílio das plumas, junto aos deuses no paraíso! Além disso, elas se alimentariam de gotículas de água presentes nas nuvens, não necessitando pousar em lugar nenhum para se alimentar. Portanto, um par de patas seria inútil. Ao morrerem, as aves perderiam sustentação e cairiam no plano terrestre. Daí o nome Aves-do-paraíso! E os europeus acreditaram na explicação – afinal de contas, era uma bela hipótese. Tanto é que o nome científico de uma das espécies, Paradisaea apoda — apoda significando literalmente “sem pés” — também foi influenciado por essa história.

Fonte: https://goo.gl/pQyJEy

https://goo.gl/pQyJEy

A ilustração ao lado foi feita por um naturalista italiano do século XVI, mostrando como eles imaginavam que seria o comportamento das aves do paraíso até então.

Essa história foi tida como verdadeira por todos até o fim do século dezessete, quando um outro grupo de navegadores chegou a Nova Guiné – habitat das aves-do-paraíso – e descobriram que as tribos caçavam as aves, retiravam as penas para usar como enfeite, tiravam as patas para evitar que insetos infestassem a carcaça e empalavam os bichos, porque ainda assim eles ficavam bonitos e serviam de moeda de troca.

Resolvida a questão do nome, temos que resolver o mistério do porquê de as aves-do-paraíso possuírem essas plumas extravagantes e fazerem aquilo mostrado no GIF. E é aí que entra a parte interessante da biologia desses animais. Vamos observar o macho (à direita) e a fêmea (à esquerda) da espécie Grande Ave-do-Paraíso (Paradisaea apoda) por um momento.

http://goo.gl/h4J5Aq

http://goo.gl/h4J5Aq

Notem que apenas o macho da espécie possui essas plumas – que são penas modificadas; a fêmea normalmente apresenta cores marrom-acinzentadas. Isso acontece com todas as espécies de aves-do-paraíso. Qual seria a explicação para  tamanha diferença?

Quando estudamos evolução das espécies, a seleção sexual é um dos tópicos mais interessantes a serem abordados. Em um post já publicado aqui no CnB, falamos que:

“indivíduos diferentes entre si terão de sobreviver em seu ambiente – seja competindo por comida e por parceiros sexuais; seja caçando suas presas e fugindo de seus predadores…”

Inclusive o próprio Alfred Russell Wallace – também citado nesse post do Henrique – viajou para o Arquipélago Malaio e por 8 anos estudou diversas espécies, incluindo as aves-do-paraíso. Foi nessa viagem que ele pensou mais sobre a teoria da evolução e da seleção natural antes de escrever para Darwin.

Pois bem, vamos partir dessa linha de raciocínio apresentada no post de seleção natural e adicionar mais algumas informações:

  1. As aves-do-paraíso habitam a Nova Guiné, que tem “apenas” 10 milhões de anos – que em eras geológicas é pouco tempo, mas para a evolução é um tempo significativo.
  2. A ilha é habitada por poucas espécies de mamíferos, aves, répteis e anfíbios.
  3. Nenhum deles é um predador natural dos exóticos pássaros.
  4. A comida na ilha é abundante e os frutos são ricos em açúcares.

Apenas com isso, já eliminamos dois fatores que seriam limitantes para a evolução carnavalesca das penas: a falta de alimento e a presença de predadores. Sobrou a disputa por parceiros sexuais. E de fato é exatamente isso que aconteceu! Os machos desenvolveram plumas acessórias e rituais de acasalamento exclusivamente para chamar a atenção da fêmea.

Antes de concluir o raciocínio, algumas informações a respeito das fêmeas que talvez você esteja se perguntado: “Mas e as fêmeas das aves? Por que apenas o macho é assim?”

Ao contrário de outras aves, apenas a fêmea constrói o ninho e cuida do filhote. Essa atividade braçal – no caso “asal” – requer um gasto de energia muito alto. Além disso, imagine como seria voar com esse monte de plumas toda vez que elas tivessem que carregar galhos e gravetos para construir o ninho, ou buscar comida para o filhote? A natureza não funciona assim. Energia é uma moeda muito valiosa e a evolução não parcela dívidas! A cobrança é imediata!

O macho, por sua vez, tem apenas o trabalho de conquistar a fêmea. Aquele que se destacar com danças, plumas e outros comportamentos passará seus genes adiante. Além disso, é a fêmea que escolhe com quem ela vai se acasalar. Sim, os machos aves-do-paraíso levam “foras” se por acaso cometerem um pequeno deslize que a fêmea não aprove, como uma dança mal executada ou um canto desafinado. Tanto é que, quando ainda jovens, os machos se reúnem para treinar seus cortejos e passinhos!

Voltando à nossa conclusão: os machos evoluíram dessa maneira porque as fêmeas escolheram as características peculiares que mais as apeteciam. Em um dado momento, as fêmeas decidiram apenas se acasalar com os machos que possuíam a maior pena ou a melhor dança. E quem decidia tudo isso era a fêmea “sem graça”.

Todas as queridas leitoras captaram o raciocínio neste momento? Entenderam que foram as fêmeas que moldaram a evolução dos machos para que eles desenvolvessem plumas de todas as cores e aprendessem a dançar apenas para conquistá-las? Captaram que vocês podem povoar o mundo de David Beckhams, Tom Cruises, Brad Pitts e Thors?!

Mas cuidado! Num mundo desses, provavelmente os machos irão se reunir em bandos para cantar, dançar e se mostrar enquanto vocês irão construir a casa e cuidar dos pequenos Justin Biebers.

Se pensarmos bem, um pouco disso já aconteceu com a nossa querida espécie humana. Já se perguntaram o por quê de apenas os homens possuírem barba? E quando eu digo barba, eu digo BARBA, não uns pelinhos na cara! Qual a vantagem funcional de se ter barba? Se ela não estivesse ali, sentiríamos falta dela? Morreríamos de fome? Não conseguiríamos nos reproduzir? Aparentemente ela é apenas um acessório, assim como as plumas das aves-do-paraíso.

Pois é, a maioria das mulheres preferem – ou, pelo menos, em um passado recente já preferiram – homens com barba! Aparentemente um homem barbado é maior e mais intimidador para rivais do mesmo sexo do que um homem sem barba. Dúvida? Veja essa foto do “antes e depois” de fazer a barba.

barba antes depois

Fonte: Ahhh a internet…

Claramente uma barba impõe respeito. Por outro lado, mulheres com barba também intimidaram homens, com e sem barba, e não passaram seus genes adiante até que essa característica – mulher barbada – se tornasse rara na espécie humana.

As tribos da Nova Guiné já sabiam desse propósito biológico das penas e plumas das aves-do-paraíso muito antes de qualquer historiador natural colocar os pés na ilha. É muito comum encontrar fotos e vídeos dos nativos – homens e mulheres – realizando rituais que envolvem música e danças utilizando as penas retiradas dessas aves como acessório. Adivinhe quem coloca as plumas, dança e se exibe, e quem fica escolhendo o melhor parceiro?

 

homi papua

http://goo.gl/8WPEFH

 


 

Este post foi baseado no documentário “Paradise Birds – David Attenboroughs” produzido pela BBC de Londres.

 

Recomendo MUITO que assistam tudo!

Se ficaram curiosos e querem conhecer algumas das espécies de aves-do-paraíso, pulem para o minuto 18 do vídeo e entendam o porquê de algumas das plumas terem a função desvendada apenas após 400 anos!

No minuto 21:40, um dos meus favoritos!

E por fim, não deixem de ver a partir do minuto 32 o nível de perfeição que esses pássaros alcançaram e o efeito que uma pausa dramática pode causar!


 

Visitem também o site do australiano Willian Cooper e esqueçam tudo que já viram sobre pintura, principalmente sobre aves.  http://goo.gl/H5z3Ay


 

Visitem o site do fotógrafo TIM LAMAN da National Geographic. As fotos são fantásticas! http://goo.gl/H3FHng

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5 comentários

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  1. Regina Rigamonti

    Parabéns pela reportagem; estonteante beleza.

    1. Luiz Almeida

      Essas aves são demais mesmo!

  2. Jackeline Pinheiro

    Esses pássaros são magníficos!

    1. Luiz Almeida

      São mesmo Jack! Falei que eles eram legais!! Assista ao documentário no final do post! Muito legal!

  3. jonas

    Nossa! Até sem palavras, esse passaros sao incriveis

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