abr 28

Bactérias de fábrica

Bactérias são muito empreendedoras. Elas participam ativamente de vários segmentos do mercado, e movimentam somas consideráveis. As bactérias participam da indústria de alimentos, como já vimos, e também da indústria farmacêutica, médica, de cosméticos e ambiental. Que outro ser vivo consegue ser tão eclético?

Na indústria farmacêutica, as bactérias são as principais responsáveis pela produção de antibióticos. A maior parte dos antibióticos é produzida por bactérias que vivem no solo, e conferem uma grande vantagem às suas produtoras: matam a concorrência. Ao liberar antibiótico no solo onde vivem, as bactérias eliminam possíveis espécies competidoras e garantem a ocupação do espaço e a exploração dos nutrientes ali presentes. Nós aproveitamos essa engenhosidade bacteriana e utilizamos em nosso favor, cultivando as bactérias produtoras, e isolando o antibiótico para uso em humanos. Se elas pudessem, certamente cobrariam “royalties”.

A fabricação de vacinas também conta com o uso de bactérias. Vacinas contra difteria, tétano, coqueluche e cólera, por exemplo, são feitas a partir de componentes das próprias bactérias causadoras das doenças. O uso de antibióticos e vacinas a partir do século XX reduziu expressivamente a mortalidade e aumentou a expectativa de vida.

vacina gatinhoAs bactérias também representam a mais utilizada ferramenta da biotecnologia. Bactérias geneticamente modificadas produzem hormônios humanos como insulina e hormônio de crescimento, e também proteínas de interesse médico, como interferons e fatores de necrose tumoral, utilizados no tratamento de diversas condições e doenças.

A insulina é o exemplo mais antigo de um hormônio humano produzido em bactérias. Antes desta tecnologia estar disponível, a insulina utilizada por pacientes diabéticos era extraída do pâncreas de porcos. Este processo era caro e podia gerar reações alérgicas. A tecnologia do DNA recombinate possibilitou a expressão do gene da insulina humana em bactérias. Ou seja, o gene da insulina humana, exatamente o mesmo que produz insulina em nosso pâncreas, foi inserido dentro de uma bactéria, como se fosse um gene bacteriano. A bactéria processa esse gene como se fosse dela, e produz um hormônio idêntico ao humano. Este processo apresenta menor custo e nenhum risco de reação.

Na indústria de cosméticos, uma bactéria tornou-se especialmente famosa: a Clostridium botulinum, responsável pela produção da toxina botulínica, ou botox. A toxina, letal se ingerida, causa paralisia muscular, acarretando morte por parada respiratória. Mas se injetada em pequenas quantidades, pode paralisar os músculos da face, diminuindo rugas e linhas de expressão, corrigindo estrabismo e impedindo espasmos musculares involuntários, como nevralgia do trigêmeo, que provoca intensa dor no maxilar.

Na área ambiental, as bactérias são utilizadas como marcadores de poluição e em processos de biorremediação. Como marcadores de poluição, podemos utilizar as bactérias em duas situações distintas: onde elas não deveriam estar, e onde deveriam. A água para consumo humano deve ser livre de bactérias. Assim, a utilização de testes que identifiquem bactérias nesta água podem demonstrar se ela é própria para o consumo. Por outro lado, um ambiente selvagem como o oceano deve ser rico em espécies de bactérias específicas para este habitat. A ausência destas bactérias pode indicar um nível elevado de poluição.

Bactérias também são amplamente empregadas em processos de biorremediação, que consiste em remover (ou remediar) contaminações do ambiente. Aproveitando-se da capacidade das bactérias de utilizar compostos orgânicos e inorgânicos no seu metabolismo, podemos utilizá-las para degradar compostos tóxicos como petróleo e metais pesados. A biorremediação foi utilizada pela primeira vez quando o navio petroleiro Exxon Valdez sofreu um vazamento no Alaska, em 1989. Bactérias do gênero Pseudomonoas, capazes de degradar hidrocarbonetos, foram utilizadas para degradar o óleo. Neste caso, as bactérias eram nativas do local, mas foram utilizados fertilizantes ricos em nitrogênio e fósforo para “alimentar” as bactérias, favorecendo seu crescimento e acelerando assim o processo de biodegradação. Bactérias também são utilizadas para degradar pesticidas e para fazer compostagem.

E assim, espero tê-los convencido de que as bactérias nos cercam, nos envolvem e nos protegem, muito mais intensamente do que causam doenças. E repito, sempre, com Pasteur, “Nunca subestime o poder dos micróbios”. Vamos ao nosso café com bactérias! Quer dizer, café na bancada…

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1 comentário

  1. Será que não existe outro exemplo de bacterias na estética sem ser o botox ? Em todo site é sempre o mesmo exemplo poderiam ser mais criativos em vez de falar o que todos dizedizen sejam mais originais ! So uma sugestão .

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