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jun 20

Bactérias felizes

Carl Sagan conta em um de seus livros a história de que certa vez, ao entrar em um taxi, o motorista perguntou:

“Engraçado, o senhor tem o mesmo nome daquele cientista”

“Eu sou aquele cientista” – respondeu Sagan

“Sério?” – disse o taxista – “Qual a sua opinião então sobre vida extraterrestre?”

Acostumado com essa questão, Sagan deu uma longa explicação sobre a probabilidade de existir vida em outros planetas e sistemas. Inconformado com a resposta, o motorista persistiu:

“Ok, eu entendo as probabilidades científicas, mas qual a sua opinião VISCERAL?”

E Sagan respondeu, brincando, “Mas eu não costumo pensar com as minhas vísceras!”

Adoro essa passagem, mas imagino que, se o grande cientista estivesse vivo hoje, ele teria que mudar um pouco sua resposta. Pois é, querido Carl, parece que no final das contas, nós pensamos com nossas vísceras!

Vários trabalhos já haviam demonstrado a comunicação entre bactérias do nosso intestino e o cérebro, modulando desordens metabólicas, imunidade, obesidade e diabetes, como já vimos aqui.

Estudos recentes também demonstraram a influência das bactérias intestinais no hipocampo, alterando nossa capacidade de aprendizado e memória.

Agora descobrimos também o segredo da felicidade. De acordo com a recente publicação na revista “Cell”, felicidade é um intestino repleto de…bactérias felizes!

Pesquisadores do Instituto Caltech, na Califórnia, descobriram que bactérias intestinais influenciam a regulação de serotonina no cérebro.

Serotonina é um hormônio essencial no nosso corpo; é um neurotransmissor que afeta nosso humor, apetite, atividade sexual, sono, regulação de temperatura, motilidade intestinal, ansiedade, depressão, sistema endócrino e até funções cardiovasculares, como produção de plaquetas. Ficou mais conhecida quando foi descoberta sua relação com doenças psiquiátricas como depressão e transtornos de ansiedade. Diversos medicamentos conhecidos como anti-depressivos (quem nunca ouviu falar da fluoxetina ou Prozac?) circulam no mercado, buscando modular os níveis de serotonina no cérebro dos pacientes.

A novidade é que, embora seja um neurotransmissor do cérebro, 90% da serotonina é produzida no trato digestivo! Células de enterocromafina – ou células EC – são células do trato digestivo que produzem serotonina.

bacteria and brainOs cientistas descobriram que camundongos livres de bactérias (camundongos transgênicos que foram alterados para não ter bactérias no intestino) produziam quantidades significativamente menores de serotonina no intestino, mais precisamente na região do cólon, quando comparados a animais normais. Suas células EC produziam 60% menos serotonina do que os camundongos normais!

Ao investigar as enzimas responsáveis pela produção de serotonina no intestino, descobriram que a enzima THP1 não funcionava bem nos camundongos livres de bactérias. Quando estes animais foram tratados com a enzima, seu nível de serotonina voltou ao normal. Por outro lado, animais normais tratados com antibióticos apresentaram uma diminuição nos níveis de serotonina. Comprovou-se, assim, que bactérias do intestino eram responsáveis pela produção normal da enzima THP1, que, por sua vez, estimula as células EC a produzirem serotonina.

Restava agora definir QUAIS bactérias estariam implicadas no processo de produção de serotonina intestinal. Após testar várias espécies, os cientistas concluíram que aproximadamente 20 espécies de bactérias formadoras de esporos eram as principais responsáveis pelo aumento da serotonina em camundongos.

O próximo passo foi colonizar os camundongos estéreis (livres de bactérias) com essas espécies bacterianas, e verificar se a produção de serotonina voltava aos níveis normais, além de medir algumas características associadas com a produção de serotonina. Os animais colonizados apresentaram aumento da produção de serotonina, assim como melhor motilidade intestinal e atividade de plaquetas. 

Foi demonstrado, assim, que bactérias específicas interagem com células do nosso organismo e estimulam a produção de serotonina. Demonstrou-se também que esse efeito é reversível, ou seja, camundongos livres de bactérias, ou tratados com antibióticos, tinham sua produção restaurada quando colonizados por essas bactérias.

O que há de mais incrível nesse trabalho é a comprovação de que nossas células DEPENDEM, ao menos parcialmente, de uma microbiota saudável no intestino para a produção de um neurotransmissor com aplicações extremamente amplas no nosso metabolismo. Sem essas bactérias no intestino, nossa produção de serotonina diminui, e podemos experimentar os efeitos dessa carência com problemas psiquiátricos, cardíacos e endócrinos.

Concluo, assim, que realmente pensamos com nossas vísceras! E, portanto, da próxima vez que você tiver uma ideia de m…, ops, quer dizer, ideia de jerico, você já sabe de quem é a culpa! Até a próxima, que aqui as bactérias do meu intestino estão mandando sinais para o meu cérebro de que querem café!

 

Normal gut microbiota modulates brain development and behavior Rochellys Diaz Heijtza,b,1, Shugui Wangc, Farhana Anuard, Yu Qiana,b, Britta Björkholmd, Annika Samuelssond, Martin L. Hibberdc, Hans Forssbergb,e, and Sven Petterssonc,d,1

Indigenous Bacteria from the Gut Microbiota Regulate Host Serotonin Biosynthesis Jessica M. Yano, Kristie Yu, Gregory P. Donaldson, Gauri G. Shastri, Phoebe Ann, Liang Ma, Cathryn R. Nagler, Rustem F. Ismagilov, Sarkis K. Mazmanian, Elaine Y. Hsiao DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2015.02.047

 

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2 comentários

  1. Iara

    Parabéns!! Seu site é muito interessante e divertido. O livro de Carl Sagan em que ele fala isso é “O mundo assombrado pelos demônios” hahaha

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada, Iara. E esse livro é fantástico, não? Espero que continue a nos acompanhar. abraço.

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