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jul 06

Bactérias, bebês e sua primeira microbiota!

A primeira microbiota a gente nunca esquece! E o nosso intestino idem. Diversos estudos já demonstraram a importância de uma microbiota intestinal saudável para a prevenção de doenças e manutenção da saúde. Aqui no Café na Bancada, já discutimos como as bactérias são importantes simbiontes dos humanos e como desempenham inúmeros papéis, tornando-se indispensáveis para nossa vida. Chamamos a atenção para as inúmeras funções da microbiota intestinal e sua relação com doenças como obesidade, síndrome metabólica, diabetes tipo II, asma, eczema, alergias atópicas e também depressão e distúrbios neurológicos. Dessa maneira, tornou-se essencial uma melhor compreensão de como a microbiota é adquirida e mantida durante nossa vida.

Sempre se acreditou que o primeiro contato do bebê com bactérias dava-se no momento do nascimento, com a passagem pelo canal vaginal. Assim, teria início a colonização do intestino, da pele e das mucosas, a ser completada pelo aleitamento no peito e o contato com a pele da mãe. Só essa informação já era suficiente para incentivar as mulheres a optarem pelo parto normal e aleitamento materno exclusivo sempre que possível.

No entanto, estudos mais recentes e abrangentes demonstram que essa colonização é ainda mais importante e precoce do que imaginávamos. A boa notícia é que o conhecimento nessa área está aumentando rapidamente, agora que sabemos de sua importância. A má notícia é que as cesáreas eletivas, o uso de antibióticos durante a gestação e para bebês prematuros, e o uso de fórmula artificial são ainda mais deletérios para a microbiota do bebê do que pensávamos.

 

Nunca estamos sós, já começamos a vida com elas! 

Ao contrário do que pensávamos, o bebê começa a ter contato com bactérias durante a gestação, ainda no útero. Estudos feitos em modelos animais e com mulheres que deram à luz por cesárea eletiva, sem trabalho de parto, sem nenhum sinal de infecção ou inflamação, mostraram a presença de DNA bacteriano na placenta, e também no mecônio – correspondente aos primeiros movimentos intestinais do bebê ao nascer, e decorrente da ingestão de líquido amniótico. Esse fato é importantíssimo, pois por muito tempo o útero foi visto como um ambiente estéril. Hoje, sabemos que existe um contato seletivo com algumas bactérias provenientes provavelmente do intestino da mãe. Já explico como elas chegam lá. 

O leite materno também representa uma fonte de bactérias boas para o bebê. Já sabíamos que era rico em oligossacarídeos, que são o alimento preferido de uma microbiota saudável, e que bebês que mamam no peito apresentam, em seus intestinos, predominância e maiores quantidades de bactérias dos gêneros Bifidobacterium sp e Lactobacillus sp quando comparados a bebês que são alimentados exclusivamente na mamadeira. Sabíamos, também, que os oligossacarídeos impedem o crescimento de espécies patogênicas. Bebês alimentados exclusivamente com fórmula são mais suscetíveis a infecções, além de serem mais propensos a desenvolver doença celíaca, diabetes tipo II, asma e obesidade.

O que ainda não sabíamos é que o tipo de parto influencia a composição do leite materno! Os hormônios liberados durante o trabalho de parto alteram a permeabilidade do intestino da mãe. Estudos em camundongos sugerem uma translocação de bactérias do intestino da mãe para as glândulas mamárias, via células dendríticas, que são células especializadas do sistema imune. Durante o trabalho de parto, os hormônios sinalizam para que essas células possam “capturar” as bactérias do intestino da mãe – que está com suas paredes mais permeáveis, facilitando a passagem – e transportá-las até as glândulas mamárias. Esse mecanismo provavelmente ocorre também durante toda a gestação (é assim que elas chegam no útero), e tem seu ápice no momento do parto. Amostras de leite coletadas em mulheres que deram à luz por cesárea eletiva, em comparação com mulheres que passaram por parto normal, demonstram uma composição de bactérias diferentes. As mulheres que tiveram parto normal apresentavam mais Bifidobacterium sp e Lactobacillus sp no leite, enquanto as que sofreram cesárea eletiva apresentavam mais bactérias do gênero Carnobacteriaceae. A composição do leite de mulheres que passaram por cesáreas de emergência, feita após a entrada em trabalho de parto, foi similar às das mulheres que tiveram parto normal, mostrando que realmente os hormônios do trabalho de parto desempenham uma função essencial.

Outra vantagem de esperar pelo trabalho de parto é que a composição da microbiota vaginal também se altera durante a gestação – fica rica em Lactobacillus sp -, preparando-se para o momento do nascimento. Tudo no parto normal prepara o intestino do bebê para digerir o leite materno. Assim, concluímos que a cesárea eletiva, com hora marcada, é duplamente ruim para o bebê, privando-o do contato com as bactérias do canal vaginal, e afetando a composição do leite materno. E o que dizer do bebê que nasce de cesárea e, além disso, é alimentado com fórmula artificial? Sem as bactérias da vagina e sem os oligossacarídeos e bactérias do leite materno, certamente a colonização do intestino desse bebê ficará prejudicada.

Obviamente sabemos que a cesárea existe para salvar vidas, tanto da mãe como do bebê, e que por vezes o parto normal é inviável. Da mesma forma, nem sempre a amamentação exclusiva no peito é possível. No entanto, sabemos também que muitas mulheres optam por cesáreas antecipadas e com hora marcada – e não emergenciais – e outras tantas optam por não amamentar. Independentemente dos motivos de cada mulher para fazer essas escolhas e sem qualquer tipo de julgamento moral, será que todas essas mulheres estão fazendo escolhas INFORMADAS? Será que, se soubessem de todas as implicações de optar por uma cesárea sem necessidade, e de não amamentar quando é possível, fariam essa opção mesmo assim? Além disso, sabemos que o sistema de planos de saúde prioriza as cesáreas, tanto por conveniência como por razões monetárias.

Até pouco tempo atrás, essas opções eram consideradas inócuas e sem consequência. Acreditava-se que tanto fazia nascer por parto normal ou por cesárea, e já houve um tempo em que amamentar era mal visto e era preferível dar a mamadeira. Recentemente, nota-se o crescimento das campanhas para amamentação exclusiva e priorização do parto normal, que procuram exaltar que essas práticas são superiores, mas sem explicitar exatamente quais são os benefícios e os riscos envolvidos.

 

Como garantir uma microbiota saudável para o bebê?

funny baby pictures 16Certo, pessoal do Café na Bancada. Como fazer, então, para evitar que nossos bebês sejam obesos, diabéticos, asmáticos etc? E o que fazer pelas mães que realmente precisaram ser submetidas a uma cesárea, que tiveram bebês prematuros, e que não puderam amamentar? Mães ou bebês que precisaram tomar antibióticos, prejudicando a microbiota nativa? Certamente essas mães não precisam carregar mais uma culpa e medo de causar doenças em seus filhos.

Novamente temos boas e más notícias: a boa é que há maneiras de melhorar a microbiota do bebê. A má, infelizmente, é que existe uma janela de oportunidade de colonização justamente no início da vida e nos primeiros meses, e fica bem mais difícil alterar a microbiota na vida adulta. Existem diversos trabalhos testando a possibilidade de transplante fecal em adultos – sim, é isso mesmo que você pensou – e alguns resultados para obesidade e síndrome do intestino irritável são promissores. Mas o melhor mesmo é a colonização e suplementação adequadas na primeira infância. Logicamente, também sabemos que uma microbiota desbalanceada não é a única causa de todas essas doenças. Afirmar isso seria ignorar componentes genéticos, epigenéticos, e influências da alimentação, estilo de vida e ambiente. Mas a microbiota certamente desempenha um papel importante. 

Quando não há escolha para o tipo de parto e amamentação, a ciência deve trabalhar para minimizar o estrago. Como podemos ajudar a melhorar a microbiota do leite materno? E do leite artificial? Vários trabalhos vêm estudando a suplementação da dieta da gestante, e das fórmulas infantis. Sabe-se, por exemplo, que a presença do fator TGF-B2 no leite materno altera respostas inflamatórias. Descobriu-se que a suplementação da alimentação da mãe durante a gestação e a lactação com Lactobacillus rhamnosus aumentou a concentração desse fator no leite materno, reduzindo a incidência de eczema em bebês. A administração de Bifidobacterium breve para bebês prematuros também modulou sua resposta ao fator TGF-B2, assim como a inclusão de oligossacarídeos diretamente na fórmula de bebês alimentados na mamadeira, reduzindo também a incidência de eczemas e alergias. Outro estudo relata a presença de Lactobaccillus reuteri no leite materno após a mãe consumir essa bactéria na forma de probiótico. Esse habito pode ser útil para uma mãe que passou por cesárea, ou que teve que tomar antibióticos durante a gestação, para ajudar a melhorar a composição do leite materno. Se sabemos que as bactérias do intestino da mãe podem ser transportadas durante a gestação para a placenta, e durante a lactação para o leite, por que não incentivar o consumo de probióticos nessa fase? Com certeza será melhor do que cerveja preta e canjica…

Alguns autores estudam ainda a possibilidade de realizar uma transferência da microbiota vaginal da mãe para o bebê em caso de necessidade de uma cesárea, de maneira a “mimetizar” a passagem do bebê pelo canal vaginal. Os trabalhos com suplementação da fórmula infantil ainda estão engatinhando – desculpe o trocadilho –, mas já temos indícios relevantes de que a suplementação do leite artificial com oligossacarídeos consegue modular a produção de anticorpos e reduzir a incidência de alergias. Para suplementar a fórmula diretamente com bactérias, é preciso antes realizar um trabalho extenso de caracterização das diversas espécies presentes no leite materno; mas há estudos demonstrando que a suplementação com probióticos contendo Bifidobacterium e Lactobacillus, por exemplo, desde o nascimento até 6 meses, reduziu em número e intensidade a ocorrência de alergias como dermatite atópica e asma em bebês e crianças pequenas.

Assim, concluímos que, sabendo da importância de uma microbiota saudável para o desenvolvimento do sistema imune e para a prevenção de diversas doenças, duas abordagens são necessárias: primeiro, INFORMAR a mãe de todos os benefícios e riscos reais da escolha do tipo de parto e alimentação do bebê, tentando minimizar o número de cesáreas e mamadeiras desnecessárias. E, segundo, buscar alternativas para melhorar a colonização intestinal de bebês que por algum motivo foram privados do parto natural e do aleitamento exclusivo.

E, finalmente, apreciar embasbacados como a evolução é fantástica, imaginando que loucura as células dendríticas do sistema imune carregando bactérias do intestino da mãe para os dutos mamários! Não? Isso sou só eu? Poxa gente, é tão poético pensar que já nascemos com elas…#minhabacteriaminhavida #bacteriaruletheworld

 

Microbial contact during pregnancy, intestinal colonization and human disease.

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