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mar 13

Bactérias pra que te quero!

Quando ouvimos falar em bactérias, geralmente pensamos logo em doenças! Bactérias só servem para causar doenças! É esse o fato ao qual estamos acostumados. No entanto, isso não é verdade. E por sinal, é uma tremenda injustiça com as bactérias, que habitam nosso planeta há bilhões de anos. O mundo microbiano não é visível a olho nu, mas esconde uma enorme população de organismos que interagem conosco e com o planeta de inúmeras formas. E nem todas essas formas de interação causam doenças terríveis. Na verdade, apenas uma pequena parte dos microrganismos é patogênica – ou seja, pode causar doenças. A maior parte é benéfica, e uma grande parte é estritamente necessária para nossa sobrevivência!

Bacterias pra que te quero imagemNa primeira aula dos meus cursos de Microbiologia, sempre mostro aos alunos que possuímos 1013 células no corpo humano, e convivendo juntamente com elas, em perfeita harmonia, 1014 bactérias! Existem 10 vezes mais bactérias do que células no corpo humano. Isso costuma ser uma surpresa para alunos de medicina, odontologia, e diversas profissões da área de saúde. Imagine então falar isso para o público em geral! Ai, que nojo! Tem bactérias no meu corpo? Sim, inúmeras, e sem elas você morre. Sem pedir licença (ok, educação não é o forte delas), as bactérias foram entrando literalmente por todos os nossos orifícios (mal educadas e libertinas) e colonizaram nossas bocas, narinas, ouvidos e cavidades anais, genitais e urinárias, além dos nossos intestinos. Algumas (talvez as mais recatadas) permaneceram do lado de fora e colonizaram nossa pele. Essas bactérias são inócuas e ainda nos protegem de espécies patogênicas. Sem elas, nosso corpo seria um espaço livre para ser colonizado por bactérias causadoras de doenças.

Os microrganismos (bactérias, vírus e fungos microscópicos) representam 50% da biomassa terrestre, enquanto as plantas contribuem com 35% e os animais com apenas 15%. As bactérias estão no planeta há bilhões de anos, evoluíram e se adaptaram em diversos habitats, incluindo, recentemente, o corpo humano. Elas estão presentes nos ambientes mais inóspitos – algumas espécies suportam temperaturas de até 110 graus Celsius, enquanto outras vivem em regiões congeladas. Habitam florestas e desertos, água doce e salgada.

As bactérias estão envolvidas na produção de antibióticos, alimentos, hormônios, enzimas, pesticidas, remédios e vacinas. Na indústria de alimentos, são usadas na fabricação de iogurtes, queijos, vitaminas e vinhos. Também participam da produção de chás, café (viva!) e na fermentação da soja. Na indústria farmacêutica, produzem antibióticos e diversos hormônios, entre eles a insulina, tão utilizada no controle da diabetes, e hormônio de crescimento, além da maior parte das vacinas que utilizamos. Também produzem proteínas humanas como interferon e fator de necrose tumoral, envolvidos no tratamento de AIDS e alguns tipos de câncer. A toxina botulínica é utilizada na medicina e o pesticida BT é amplamente usado na agricultura – e ambos são produtos bacterianos.

E nem falamos ainda das aplicações em biotecnologia! A biologia e a genética molecular só existem graças às bactérias. Estas ciências utilizam bactérias como modelos celulares para estudar os genes, seu funcionamento e suas aplicações. Hoje nós conseguimos colocar as pobres coitadas para trabalhar para nós!

Eu te convido, caro leitor, a explorar comigo o mundo das bactérias e a se surpreender com todas as aplicações que elas têm em sua vida cotidiana. Desde o iogurte e o café que você toma pela manhã – e que nós do Café na Bancada tomamos o dia todo – até a vacina e o antibiótico que você dá para os seus filhos, ou na hora do queijo e vinho que você oferece para os seus convidados, as bactérias estão ao seu lado. Se você quiser saber mais sobre esses pequenos gigantes, não perca os próximos posts desta série. E como disse Pasteur, “Nunca subestime o poder dos micróbios”!

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10 comentários

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  1. Peterson Lopes

    Que belo texto! Ótima fonte para os meus alunos! Valeu, Nat!!

    1. Natália Pasternak Taschner

      Obrigada, Peterson! Que bom que você gostou. Fico mais feliz ainda por você recomendar para os seus alunos, esse é justamente um dos objetivos do café na bancada. Fique ligado nos próximos posts dessa série, vou explicar o uso das bactérias na indústria, agricultura e medicina. Afinal, todos já sabem que elas fazem iogurtes e são importantes para o nosso intestino, mas será que sabem que elas fazem combustíveis e plásticos? Que fazem tratamento de resíduos? Antibióticos? Fertilizantes? Melhor eu parar por aqui senão vou entregar meus próximos artigos…Grande abraço com saudades, muito obrigada por nos acompanhar e divulgar.
      Nat

  2. Marianne

    Mais um texto muito bem escrito!!! Parabéns!
    Natália, convivo com uma colonia de Escherichia coli a anos e nos damos muito bem!!! 😉
    E não abro mão das bactérias em um bom vinho, bom café e em bons queijos!!!

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada Marianne! Além de E. coli você convive com várias outras espécies amigas vivendo em harmonia. Elas são incríveis. Semana que vem tem mais detalhes sobre essas meninas. Obrigada por nos acompanhar. grande abraço,
      Natalia

  3. carlos briganti

    Natália em engenho, arte e humor ensina ciência.
    Brilhante.
    Bacio carino
    Briganti

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada, Briganti! Que bom que você gostou. Volte sempre, ainda tem muita bactéria querendo aparecer por aqui…
      grande abraço,
      Natalia

  4. Vanessa Feitosa

    Olá Natália,

    Parabéns pelo excelente texto, descomplicado e informativo. Acredito que foi muito bem assimilado por diferentes públicos.

    Como uma dica para os próximos posts: que tal falar da importância das bactérias como indicadores de qualidade ambiental, principalmente nos ambientes aquáticos?! Eu trabalho com E.coli isolada do ambiente marinho, então como dica acho que seria legal discutir como sabemos que as praias estão adequadas para a atividades dos banhistas. E um link entre conhecimento microbiológico e legislação.

    Mais uma vez deixo meus parabéns.

    Vanessa Feitosa

    1. Natália Pasternak Taschner

      olá Vanessa,
      Obrigada pelos elogios. Ainda teremos mais 3 posts nesta série, e no próximo vou falar das bactérias do nosso corpo, mas com certeza nos seguintes vou abordar o uso de bactérias como marcadores ambientais. Obrigada pelo comentário e pela sugestão. Continue a nos acompanhar e espero poder contar mais vezes com a sua participação.
      grande abraço,
      Natalia

  5. Lucia Bógus

    Oi Natália,
    Adorei o texto e já repassei para a Luciana , que está sempre preocupada com os perigos das bactérias para as crianças e, especialmente, para os bebês. Voce demonstra que elas não são sempre maléficas!!! Beijos e parabens,
    Lucia

    1. Natália Pasternak Taschner

      olá, Lucia, obrigada. Fale pra ela não perder o próximo post, vou explicar a microbiota dos recém nascidos…Continue nos acompanhando. Fico devendo o café de verdade com bolachinhas…
      beijos,
      Natalia

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