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maio 19

A baleia azul, o elefante na sala, o bicho de sete cabeças e nós, os animais

Preocupante mesmo é esse novo jogo que inventaram para a garotada brincar, um tal de baleia azul. Trata-se de um crime, em suma, que tem favorecido e induzido o suicídio e a automutilação de centenas de jovens adolescentes pelo mundo. Basicamente, o participante concorda em cumprir cinquenta tarefas dadas por um grupo, que variam desde “desenhar uma baleia azul” até “cortar a própria pele”. A quinquagésima tarefa, como a maioria de nós já conhece, é o suicídio. Quem aceita entrar na brincadeira não pode mais sair, e o baixo índice de desistência é garantido por uma série de ameaças aos jogadores.

Tão importante quanto saber quem está por trás disso, é saber o que está por trás disso. Talvez o mais chocante dessa história toda seja vir à tona o fato de que adolescentes do mundo inteiro estejam entrando voluntariamente na brincadeira, optando por livre e espontânea vontade pelo fim da própria vida.

E aqui entra o elefante na sala de que fala o título: depressão.

O elefante na sala é aquele assunto pesado, visível aos olhos de todos, mas que muitos ainda preferem ignorar. Nossa sociedade parece estar cada vez mais infeliz e, com ela, os jovens agora exibem claros sinais de declínio de sua satisfação com a vida.

A depressão tem nos acompanhado há séculos e séculos, e hoje em dia a maioria de nós convive com pessoas deprimidas ou é uma pessoa deprimida. Por incrível que pareça, existe uma hipótese evolucionista para o estabelecimento da depressão na espécie humana e que atribui certa vantagem a esse comportamento. Alguns teóricos do início dos anos dois mil entendem a depressão como uma resposta adaptativa a objetivos inatingíveis. Funcionaria assim: o indivíduo, diante de um objetivo impossível de ser alcançado, desenvolveria a depressão, que o desestimularia completamente a continuar suas tentativas de êxito; desta forma, a vantagem se revelaria, pois o indivíduo conseguiria desviar sua atenção de planos que não têm como ser bem-sucedidos.

Essa análise faz bastante sentindo, sobretudo quando entendemos, ao contrário do que intuitivamente alguém poderia supor, que o transtorno depressivo encontra-se muito mais relacionado à falta de volição, desejo e prazer, do que à tristeza, especificamente.

A questão é que os tempos mudaram e nossa realidade pós-moderna, urbana e tecnológica transformou completamente o paradigma dos nossos desejos e a forma como reagimos às impossibilidades. Temos tudo tão à nossa mão, levamos uma vida tão confortável longe da selvageria, que chegamos ao cúmulo, muitas vezes, de desejar algo para ser desejado e, por este raciocínio, poderíamos estipular que, em alguns casos, o desejo inalcançável é o desejo em si, e isso corrobora uma observação que podemos fazer: entre depressão e desejo, existe uma relação de duplo sentido, de tal forma que a depressão leva à falta de desejo, assim como a falta de desejo leva à depressão.

Um mito bastante cruel, tomado como verdade por muitos, diz que a depressão e seus desdobramentos graves – como o suicídio, por exemplo – não passam de uma forma infantil de chamar a atenção. Não se deve acreditar nisso. A depressão é uma doença séria, que respeita critérios diagnósticos bem definidos e cuja existência já está comprovada, tanto em seres humanos quanto em modelos animais (porque, sim, seu cachorro, seu gato e outros mamíferos inferiores também podem ficar deprimidos). Trata-se de um fenômeno complexo, que envolve as substâncias cerebrais relacionadas ao prazer e à felicidade, mas também questões hormonais, psíquicas e ambientais.

Biologicamente, o estresse emocional crônico parece ser um dos maiores definidores da depressão. Novamente, a discussão é trazida para o modus operandi de nossa vida atual: alto nível de cobrança, bombardeamento de informações, sentimento sustentado de culpa e medo. Tudo isso, associado a noites pessimamente dormidas, leva a um esgotamento emocional tão grande, que nos tornamos dessensibilizados ao prazer e à felicidade. Pronto, está instalada a depressão.

Mas voltemos a falar dos jovens.

Eles têm desejos inalcançáveis e nós precisamos entender quais são, com certeza. O abandono, o bullying e a rejeição surgem como importantes fatores geradores de estresse emocional e depressão em adolescentes e crianças. O trágico desfecho que temos visto ocorrer com as vítimas do jogo baleia azul – a automutilação e o suicídio – nos alerta para o fato de que talvez a gravidade do transtorno depressivo em nossa sociedade seja maior do que imaginamos.

Ao que tudo indica, o elefante na sala também é um bicho de sete cabeças.

Os seres humanos e seus sofrimentos não podem ser negligenciados. Todas as formas identificadas de planejamento suicida devem ser olhadas atentamente e abordadas com acolhimento e respeito, em qualquer faixa etária. O entendimento de que a própria vida pode ser usada como forma de pagamento em troca da solução de problemas seguramente denuncia aspectos gravemente disfuncionais na existência do indivíduo. Isolamento intenso, mudanças abruptas de comportamento e expressão verbal de pensamentos como, por exemplo, “tudo seria melhor se eu estivesse morto”, “prefiro morrer a passar por isso” e “o sofrimento só acaba quando se morre” devem ser um sinalizador para aqueles que convivem com alguém deprimido.

As suspeitas de depressão devem ser encaminhadas para um especialista (médico psiquiatra ou psicoterapeuta). Não há nada de indigno em precisar de ajuda capacitada nesse momento, pois, como já foi dito, o transtorno depressivo é uma doença. O tratamento medicamentoso não é a única opção: casos leves, em que a funcionalidade do sujeito esteja preservada, podem ser acompanhados apenas com psicoterapia, esta que é um importante coadjuvante no seguimento inclusive dos pacientes graves. Não é verdade que a depressão seja uma doença incurável. Muito pelo contrário: dois terços dos quadros de depressão podem regredir completamente diante do tratamento apropriado.

Entrementes, é necessário que uma observação seja feita. Paradoxalmente, da mesma forma como se vê muito preconceito contra a depressão, expresso por pensamentos que tentam minimizar a gravidade do fenômeno, também encontramos o oposto. Existe uma força brutal em certos padrões estabelecidos de felicidade, no sentido de transformar a tristeza em uma grande vilã de nossos tempos. Vale lembrar que a tristeza é um sentimento absolutamente normal e sadio, e que nem toda tristeza é, de fato, uma depressão. A criação de modelos ilusórios de felicidade plena constitui o fundamento de muitos desejos inalcançáveis com que nos deparamos atualmente. Isso tudo, além de retroalimentar a nossa infelicidade basal, tem engrossado movimentos de “medicalização” da vida e de repertórios comportamentais humanos que não fogem da normalidade.

O equilíbrio é delicado. Se, por um lado, a depressão precisa ser melhor enxergada e combatida veementemente, por outro, não se deve atribuir demasiada gravidade aos sentimentos de tristeza que habitualmente vivenciamos.

Quanto aos adolescentes do jogo baleia azul, a solução pode ser inaugurada com um simples diálogo. Pais, professores e cuidadores devem ater-se mais aos jovens. É necessário que se procure entendê-los em suas necessidades, dando espaço para que eles se manifestem em um ambiente acolhedor e de aceitação, em vez de jogá-los a escanteio, com suas angústias, suas rejeições e seus desejos (quase todos) inalcançáveis.

No fundo, a baleia, o elefante, o bicho de sete cabeças, eu e você somos todos animais, tentando evoluir da melhor forma possível.


Sobre o autor:

Luiz Ricardo Hardt de Siqueira é médico formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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