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set 15

Breve história da domesticação

O que seria da civilização sem a domesticação de animais e plantas? Simples: ela não existiria. A domesticação foi certamente o evento mais importante nos últimos 13 mil anos da existência humana. Foi um pré-requisito para o surgimento da civilização, e responsável pelas diversas mudanças demográficas da nossa história. Se nossos antepassados não tivessem domesticado animais e plantas, ainda seríamos uma sociedade de caça e coleta.

Mas como começou a domesticação? Algum ancestral nosso no Pleistoceno de repente teve a brilhante ideia de laçar uma cabra selvagem, mantê-la em cativeiro, ordenhá-la para consumir seu leite e tosquiá-la para usar sua lã? Bem, provavelmente, se algum ser iluminado decidiu colocar essa ideia em prática, deve ter levado um coice da cabra, ou uma mordida. Se ainda assim conseguiu capturá-la e ordenhá-la, deve ter tido uma bela dor de barriga ao tomar seu leite, já que seu corpo adulto não estava programado para digerir lactose. Quanto à tosquia, bem, tente tosquiar uma cabra selvagem e depois conversamos…

Mas então como aconteceu? Da mesma maneira observada para os cães, como vimos no último post, a domesticação é um processo evolutivo. Domar um animal simplesmente não o transforma em um animal doméstico. Animais selvagens podem ser domados. Temos vários exemplos de leões, elefantes e tigres que foram domados e usados para trabalho ou entretenimento (crianças, não façam isso em casa!). Mas quando um animal é selvagem, e não sofreu um processo evolutivo de domesticação, seus filhotes serão selvagens. Esses animais não apresentam alterações em seus genes que modificam sua resposta ao estresse, ou que diminuem sua agressividade. Não estão adaptados para a reprodução em cativeiro. E, principalmente, não possuem um temperamento dócil. Ou seja, quando domamos um animal selvagem, domamos um indivíduo. Já um animal doméstico pertence a uma espécie domesticada.

Qual a vantagem que teriam obtido nossos antepassados ao domesticarem plantas e animais? Logicamente,  sabemos hoje que podemos obter carne, leite e couro ou lã dos animais domésticos. E que o suprimento de comida será muito mais constante do que o obtido somente com  caça e coleta. Sabemos que, ao cultivar e plantar, podemos armazenar os grãos e manter uma produção constante de alimentos mesmo fora de época da colheita. Mas nossos ancestrais não sabiam disso. A domesticação teria que ser realmente vantajosa para fazer valer a pena os coices das cabras.

Evidências arqueológicas demonstram que, na verdade, os primeiros fazendeiros apresentavam estatura menor, deficiências nutricionais e maior exposição a doenças do que os caçadores-coletores. Mas mudanças climáticas, a diminuição na disponibilidade dos animais normalmente caçados e o aumento na população levaram a humanidade a ampliar sua dieta para incluir animais menores e plantas que podiam ser cultivadas, mas que também necessitavam de preparação, como moer e cozinhar. As pessoas começaram, então, a transportar algumas plantas do seu habitat natural para locais de assentamento, e começaram a cultivá-las. Uma vez iniciado o processo, as vantagens tornaram-se evidentes. Com a domesticação das plantas, foi possível domesticar animais também. Afinal, para manter um animal doméstico, precisamos alimentá-lo. Precisamos que seja fácil alimentá-lo. Precisamos fazer com que ele se reproduza em cativeiro. Precisamos que ele seja fácil de manusear, e que, preferencialmente, não nos ataque.

Os primeiros animais domésticos (além do cão, como já vimos) foram provavelmente mamíferos terrestres herbívoros. Eles eram mais fáceis de manter, não queriam nos comer no jantar, e nos davam, além da carne, leite e vestimentas. Os primeiros animais domésticos de fazenda foram provavelmente as cabras e ovelhas – apesar dos coices e mordidas. Mas lembrem-se de que tudo isso ocorreu em um processo evolutivo. Nós também nos adaptamos aos animais domésticos. Um bom exemplo disso é a aquisição da mutação que permite a digestão da lactose na vida adulta. Indivíduos que conseguiam digerir o leite certamente beneficiaram-se das calorias e nutrientes extras.

E por que, com tantos grandes herbívoros, a humanidade domesticou tão poucos? Por que alguns animais são domesticáveis e outros não? Alguns critérios sugeridos por Jared Diamond esclarecem. Segundo o autor, o animal doméstico precisa de:

1) Uma dieta fácil e flexível

2) Taxa de crescimento rápida

3) Reprodução em cativeiro

4) Temperamento dócil

5) Pouca probabilidade de pânico e fuga

6) Hierarquia social modificável

shutterstock_48769327-zebras-and-horses2Com esses critérios, conseguimos entender o porquê de o cavalo ter sido domesticado na Europa e Ásia, mas a zebra nunca ter sido domesticada na África – apesar de inúmeras tentativas. Segundo Diamond, os animais domésticos precisam preencher todos os seis requisitos, e, por isso, são muito parecidos em comportamento. Já os não domesticáveis variam muito nos critérios que impedem sua domesticação. No nosso exemplo, sabemos que tanto cavalos como zebras são herbívoros. A dieta está ok. Ambos alcançam rapidamente a maturidade. A reprodução em cativeiro de zebras é mais difícil do que a de cavalos, mas é possível. Zebras, no entanto, são extremamente agressivas. Elas possuem o hábito um tanto desagradável de morder e não soltar até a vítima estar morta. São responsáveis pelo maior número de acidentes – incluindo acidentes com morte – em zoológicos. Seus coices também podem ser fatais. São propensas a uma rápida resposta de estresse e fuga. Não sabemos se sua hierarquia social poderia ser modificada, porque os demais fatores já foram suficientes para impedir sua domesticação. Mas sabemos que os cavalos aceitam facilmente um humano como chefe do bando. Assim ocorre também com os cães. As zebras em geral possuem um macho dominante agressivo para cada “família” com aproximadamente seis membros, entre fêmeas e filhotes.

Além disso, é extremamente difícil capturar uma zebra. Elas possuem uma visão periférica muito superior à dos cavalos, e escapam facilmente do laço. Ora, mas se são parentes tão próximos – e de fato o são -, pertencem ao mesmo gênero, então por que a zebra apresenta um comportamento tão diferente? Provavelmente porque a zebra evoluiu na África, rodeada por um enorme número de predadores naturais ferozes. Essa pressão seletiva gerou animais mais atentos e agressivos, além de melhor resposta de fuga.

O ambiente e a proximidade com a civilização humana trouxeram diferentes pressões seletivas para os animais domésticos. E nem todos foram domesticados. Alguns nos domesticaram! Afinal, a domesticação traz vantagens também para os animais, como suprimento de comida e proteção – o que, por sua vez, possibilita a reprodução mais vezes por ano, como observamos nos cães. O gato doméstico, por exemplo, assim se tornou por iniciativa própria. Com o surgimento de comunidades humanas, começou a sobrar alimento. Restos de alimento e detritos humanos atraem roedores. Os gatos selvagens começaram a se aproximar das cidades em busca desses atrativos, e como sua presença diminuía a presença dos ratos e de doenças, foram muito bem-vindos.

E por falar em doenças, a domesticação de animais e plantas possibilitou o surgimento da civilização, mas também trouxe inúmeras doenças para o nosso meio. O gado nos trouxe a tuberculose, porcos e aves nos presentearam com os vírus da influenza, e os cavalos nos deram de brinde os rhinovirus (vírus do resfriado comu). Mas esse parece ser um pequeno preço a pagar para não ter que caçar o jantar, não?

Os critérios de Diamond foram baseados em comportamento e estrutura social. Hoje temos acesso a técnicas de biologia molecular que procuram identificar os genes que tornam possível a domesticação. Alguns já foram identificados em cães e raposas, como vimos no post anterior, quando falamos de genes reguladores de hormônios envolvidos na regulação de estresse e bem-estar.

Uma maior compreensão de como esses genes funcionam podem esclarecer não somente os mistérios da domesticação animal, mas talvez até mesmo ajudar-nos a compreender a origem da nossa própria civilização. Afinal, os genes envolvidos na domesticação controlam a possibilidade de uma vida coletiva, da tolerância ao outro, de uma maior sociabilidade, menor agressividade e menor reação de pânico. Será que o que nos separa do nosso quase gêmeo genético chimpanzé não começou com alterações nesses mesmos genes? Assim, meninas, quando um rapaz quiser convencê-las de que ter várias fêmeas é evolutivo, porque os chimpanzés o fazem, vocês já sabem o porquê, e podem lhes dar uma banana…

Para saber mais:

Diamond, J. Guns, Germs and Steel: the fates of human societies (Norton, New York, 1997)

Nature 418, 700-707 (8 August 2002) | doi:10.1038/nature01019 review article Evolution, consequences and future of plant and animal domestication Jared Diamond

 
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