Caça ao bruxo

Tim Hunt é um renomado cientista britânico, agraciado com o prêmio Nobel, entre outros, conforme listado a seguir:

 

 

·        Fellow of the Royal Society (1991)

·        Fellow of the Academy of Medical Sciences (1998)

·        Nobel Prize in Physiology or Medicine (2001)

·        Royal Medal (2006)

·        Knight Batchelor (2006)

 

Como professor honorário da Universidade de Londres (UCL), Hunt orientou inúmeros alunos de pós-graduação, doutorado e pós-doutorado. Seu trabalho com ciclinas – proteínas envolvidas na divisão celular – rendeu-lhe o prêmio Nobel da Fisiologia e Medicina em 2001. Ele era membro da Royal Society e do European Research Council (Conselho Europeu para Pesquisa – ERC). Casado com uma também renomada cientista, a professora Mary Collins (que também leciona na UCL), Hunt é pai de duas filhas, e tem hoje 73 anos. Na sua carreira, destaca-se também o trabalho de pesquisa em câncer de mama, feito no Cancer Research UK London Institute. Ele integrava a Comissão para igualdade de gêneros da ERC. Um de seus projetos nessa comissão foi a construção de uma creche no Instituto Okinawa, e havia um projeto similar para a construção de outra creche no Instituto Crick, em Londres. Hunt foi presidente da banca que nomeou a primeira mulher diretora da EMBO (European Molecular Biology Organization).

Em junho deste ano, Tim Hunt foi convidado a participar do Congresso Internacional de Jornalismo Científico, na Coreia do Sul. Após a abertura do Congresso, ele foi convidado a oferecer um brinde durante um almoço para jornalistas e falar sobre o papel da mulher na ciência. Tim aceitou o convite que, infelizmente, poria fim à sua carreira.

Eis o que ele falou durante o brinde:

“É estranho que vocês peçam justamente a um velho machista como eu para fazer este brinde. Deixe-me falar sobre meus problemas com garotas no laboratório: o que ocorre é que você se apaixona por elas, elas se apaixonam por você, e quando seu trabalho é criticado, elas choram! Será que deveríamos ter laboratórios separados para meninos e meninas? Mas agora, falando sério, eu estou impressionado com o desenvolvimento econômico da Coreia do Sul, e as mulheres cientistas certamente desempenharam um papel crucial nesse desenvolvimento. A ciência precisa de vocês, mulheres, e espero que vocês nunca desistam de fazer ciência, independentemente dos obstáculos e apesar de velhos monstros como eu!”.

Após o breve discurso, o aúdio disponibilizado neste site revela risos e aplausos. No entanto, uma jornalista chamada Connie St Louis, que estava presente no referido almoço, escreveu um tweet que incluía SOMENTE a piada sobre garotas no laboratório, dizendo que Tim Hunt advogava laboratórios separados por gênero, e OMITIU completamente a segunda parte do discurso, onde ele diz “Mas agora, falando sério”, mostrando claramente que o comentário anterior era uma PIADA. Pode ter sido uma piada de mau gosto, pode não ter sido engraçada, e até ligeiramente ofensiva na parte que diz que as mulheres choram; mas era, SEM SOMBRA DE DÚVIDAS, uma piada.

Logo, todos os tabloides do mundo publicavam manchetes com citações ainda mais distorcidas, acusando Hunt de misoginia e sexismo. O mínimo de bom senso seria suficiente para perceber que, logicamente, o professor estava brincando. Afinal, para que diabos ele faria um comentário sério que ofendesse exatamente seus anfitriões e sua plateia de mulheres repórteres e cientistas? Mas no mundo do politicamente correto não há espaço para o humor.

Por causa dessa piada, Tim Hunt foi forçado a se demitir da UCL e de seus postos na Royal Society e no ERC. Não haverá mais creche no instituto Crick. Não haverá mais uma pesquisa de câncer de mama ou de divisão celular liderada por um excelente cientista, laureado pelo Nobel. Esse homem brilhante, com uma carreira íntegra, na qual não consta NENHUM tipo de denúncia ou indício de sexismo e discriminação, teve sua carreira arruinada por uma jornalista malvada e sem escrúpulos, interessada somente na sua própria autopromoção. Uma jornalista que omitiu fatos e que MENTIU no twitter quando disse que após o discurso de Hunt seguiu-se um silêncio sepulcral, quando o áudio mostra claramente a presença de risos e aplausos.

A atitude da jornalista não me surpreende. O que me deixou estarrecida foi acompanhar a reação de mulheres enlouquecidas pelo mundo todo, incluindo várias colegas cientistas, que endossavam a ideia de que era justo ARRUINAR a carreira de um grande cientista, de um homem íntegro, porque ele fez uma piada boba e sem graça, e que certamente não reflete suas visões. Ele estava se referindo, como esclareceu depois, à sua própria história – já que sua esposa foi sua aluna e eles se apaixonaram no laboratório. Quando lhe foi perguntado se ele realmente acreditava que os laboratórios deveriam ser separados por sexo, ele disse “Claro que não, e quem sairia perdendo certamente seriam os homens!”.

Quando vi algumas manifestações de mulheres cientistas no Facebook, que ironizavam os comentários de Tim Hunt, brincando que conseguiram passar um dia inteiro no laboratório sem chorar e se apaixonar, achei divertido. Ele merecia essa ironia. E, provavelmente, se a única repercussão fosse essa, o próprio Tim teria achado graça na resposta, e perceberia que a piada não agradou. Mas o julgamento e a punição que ele sofreu foram absurdamente desproporcionais à “ofensa”.

Além disso, ele pediu desculpas publicamente, reiterando que estava consternado por ter ofendido alguém, que era apenas uma brincadeira e que ele estava se referindo às suas próprias dificuldades. TODAS as suas ex-alunas, de doutorado a pós-doc, escreveram uma carta de apoio ao professor, defendendo que ele sempre as tratou com igualdade e que nunca sofreram nenhum tipo de preconceito no laboratório dele.

Aqui a tradução da carta de desculpas dirigida aos organizadores do Congresso:

 

Agradeço sinceramente aos senhores pela oportunidade de me desculpar pela minha piada estúpida e comentários inapropriados. Sinto muito pelos comentários feitos durante o almoço para “Mulheres na Ciência”, no Congresso WCSJ em Seoul, Coreia. Eu entendo que minha tentativa de fazer uma piada auto-depreciativa foi mal interpretada e nem um pouco engraçada. Estou mortificado por ter ofendido meus anfitriões, acreditem que essa jamais foi minha intenção. Também aceito que a interpretação que decorreu não é compatível com a ciência moderna, e peço profundas desculpas a todos os queridos amigos que acreditam que eu possa ter feito pouco de seus esforços para acabar com esses estereótipos. Durante minha carreira, eu sempre busquei tratar todos os meus colegas com respeito e gentileza, indiscriminadamente, e me orgulho de ter orientado e ajudado a construir carreiras de excelentes jovens cientistas, que farão as grandes descobertas no futuro, quando eu já não estiver mais aqui. Eu gostaria de pedir que aceitassem minhas sinceras desculpas como genuínas e que me julgassem pelo meu histórico. Tenho imenso respeito pela ciência coreana e seus cientistas, e gostaria de ressaltar que minha feliz associação com esse país foi iniciada através de uma mulher cientista.

Respeitosamente,

Tim

 

Mesmo após esse delicado pedido de desculpas, Tim não foi julgado pelo seu histórico. Ele continuou a ser julgado exclusivamente por 3 frases soltas e fora de contexto em um twitter. Quem perdeu foi a ciência. Quem perdeu foram as mulheres na ciência. E quem perdeu, mais ainda, foi a liberdade acadêmica e de expressão. Neste mundo enlouquecido pelo politicamente correto, parece-me que o próprio conceito do feminismo se perdeu. O feminismo foi um movimento para promover os DIREITOS da mulher. Como uma piada pode ter violado esses direitos? Por que a comunidade feminista foi tão rápida e tão cruel ao julgar um homem não por seus atos, mas por palavras sem consequência – essa mesma comunidade que se cala diariamente perante tantas violações dos direitos da mulher?

Mulheres que são espancadas, mulheres submetidas à mutilação genital em nome de “tradição e cultura”, mulheres que não têm direito de escolher o que devem vestir, quantos filhos devem ter, como devem se comportar. Tantas mulheres no mundo estão sem voz. Eu pergunto: arruinar a carreira de um cientista idoso, ganhador do Nobel, responsável pela formação de várias mulheres cientistas, que fez uma piada boba (que poderia ter sido feita pelo seu avô), melhorou a vida de alguma mulher? A demissão e a humilhação de Tim Hunt ajudaram de alguma maneira a diminuir o preconceito?

 

Julgar uma pessoa por palavras fora de contexto, privá-la ou ignorar completamente seu direito de resposta, e ignorar também todo o passado e histórico de conduta que negam essa acusação, é simplesmente injusto. É censurar o direito de expressão e espalhar o medo. Daqui por diante, cientistas também viverão com medo de falar algo “errado”? Mas a ciência não é politicamente correta. Ela tem o péssimo hábito de lidar com investigação e fatos que podem ser comprovados. E então, eu me pergunto, o que acontecerá se algum cientista descobrir algo considerado politicamente INCORRETO? Ou que possa ser assim interpretado por mentes inescrupulosas?

Talvez seja melhor nem investigar algumas áreas? Talvez seja melhor censurar qualquer tipo de pesquisa que busque diferenças fisiológicas ou psicológicas entre homens e mulheres? E se alguém descobrir que estamos estudando isso? Vamos banir da ciência qualquer assunto que ameace discutir diferenças entre homens e mulheres!

Dá para perceber aonde esse caminho nos leva? Lembram do post das raposas de Dimitri Belyaev? Nicolai Belyaev, seu irmão, foi preso e enviado para um campo de trabalho, onde veio a falecer de desnutrição extrema. Seu crime? Estudar genética. Dimitri conduziu a pesquisa em segredo e com medo de ser perseguido. Se continuarmos por esse caminho, se continuarmos tão sensíveis a qualquer tipo de bobagem que se fala, e oferecendo punições tão desproporcionais e violentas como as que ocorreram neste caso, nossa única conquista será calar grandes mentes. E quando grandes mentes se calam, as pequenas bradam em seu lugar, falando exatamente o que as pessoas querem ouvir. Esses são os homens que me metem medo. Se julgarmos uma pessoa somente pelo que ela diz, e não por seus atos, fica muito fácil praticar atos ilícitos e preconceituosos, escondendo-se atrás do discurso correto.

Eu não tenho medo de homens como Tim Hunt, que são honestos e transparentes. Se eu não gostar do que ele diz, eu tenho a opção de não trabalhar com ele. Isso se chama liberdade. O contrário chama-se opressão. E não era exatamente essa opressão que queríamos combater?

Voltaire resumiu esse pensamento com maestria, e vou deixar que ele termine meu post:

“Não concordo com uma palavra do que você diz, mas defendo até a morte seu direito de dize-la.”

 

https://www.commentarymagazine.com/articles/the-timothy-hunt-witch-hunt/

http://unfashionista.com/?s=tim+hunt

 

 

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4 comentários

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    • Mauro Taschner em 2015-10-03 às 11:21
    • Responder

    A liberdade de expressão está sendo destruida pelo politicamente correto. Pessoas inescrupulosas utilizam a velocidade de difusão da Internet e a busca de sensacionalismo irresponsável da midia para destruir a carreira e a vida de qualquer um que fale qualquer coisa que possa soar como contraria à proteção às supostas minorias indefesas veiculada pela propaganda do momento.
    Se isso não for contido a ciencia morrerá, e após ela, a civilização.
    Deixaremos nossas ruinas para os arqueólogos do futuro.

  1. Nat adorei o caça ao bruxo.
    Sem duvida o mundo esta ficando mais chato com o politicamente correto. O anão daqui a pouco será o “verticalmente prejudicado”, o Pele ja disse que se fosse se ofender por chamarem-no de macaco, pararia de jogar no início de carreira.
    Imagino que a globalização e a facilidade de difusão das informações acabaram ajudando criar esse tipo de censura, hoje bandeira de grupelhos de minorias e aceita também por muitos setores da mídia. Que pena…
    Parabéns pelo excelente post. Bjs

    • clarisse faucon stephan em 2015-10-05 às 08:27
    • Responder

    realmente, uma verdadeira lástima.
    Kafkeniano….
    parabens pelo texto.

  2. Condeno quem o condeno. Estes, sim, mostraram sua pequenez por não querer enfrentar o desafio de derrubar quem o condenou, por medo de sofrer as mesmas consequências; condeno a imprensa por ter dado esta notícia omitindo ou incluindo só meia palavra sobre a verdadeira natureza do comentário jocoso, porque o preconceito é uma notícia com forte repercussão nos países ocidentais, diferente dos onde este preconceito é aceito até pelos povos ocidentais, poque no caso deles, faz parte da cultura. Enfim, é lamentável!

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