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mar 08

Dra. Helena Bonciani Nader – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

Continuando nossa série especial pelo Dia Internacional da Mulher, o Café na Bancada lança o seu primeiro CaféCast onde recebemos convidados especiais para bater um bapo e tomar um cafezinho. E hoje, discutindo a questão das mulheres na ciência brasileira, temos a honra de entrevistar a presidente da SBPC,  a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Doutora Helena Bonciani Nader.

Doutora Helena Bonciani Nader. Fonte da imagem:  revistapesquisa.fapesp.br

Doutora Helena Bonciani Nader.
Fonte da imagem:
revistapesquisa.fapesp.br

A Dra. Nader é formada em biologia modalidade médica, nas modalidades licenciatura e bacharelado, pela Universidade Federal de São Paulo, e é doutora em biologia molecular pela mesma instituição. Professora titular na Unifesp e pesquisadora do CNPq nível 1A, possui uma vasta gama de nomeações e premiações. Para citar apenas algumas: membro titular da Academia de Ciências de São Paulo, Academia Brasileira de Ciência, fellow da World Academy of Science (TWAS) for the advancement of science in developing countries e Classe Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (e esses são apenas alguns). Além de suas funções de ensino e pesquisa, atua como presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Sem mais demora, curtam o primeiro CaféCast. O Café na Bancada agradece a participação da Dra. Helena Bonciani Nader. Abaixo estão os links para as matérias e artigos citados na entrevista:


Abaixo, a transcrição da entrevista completa: Café na Bancada – Olá a todos que acompanham o blog Café na Bancada! Eu sou Luiz Gustavo de Almeida e esse é nosso primeiro CaféCast. E nós não poderíamos imaginar começar essa sequência, essa série de conversas, de uma melhor maneira. Nós do Café da Bancada estamos fazendo um especial “Mulher na Ciência” para homenagear todas as grandes cientistas do Brasil e do mundo. E para esta conversa, temos convidada nada mais nada menos que a presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Dra. Helena Nader. Muito obrigado, professora, por aceitar o convite assim tão prontamente. É uma honra ter você aqui com a gente. Helena Nader -Quem agradece sou eu, pra mim é uma honra estar aqui conversando com vocês. Acho a iniciativa incrível de ter um blog, e que a gente consiga convencer a todos que participam deste blog, que entram, que ciência é importante, e que ela pode mudar nosso país. CnB-Ah, com certeza, esse foi um dos primeiros objetivos, um dos principais objetivos que a gente criou esse blog. HN-Exatamente. Parabéns! CnB-Muito obrigado. Muito obrigado mesmo. A equipe do Café na Bancada agradece. Muito obrigado. Então para começar essa série de entrevista: em 2013, a revista Nature publicou um especial sobre mulheres na ciência, e uma dessas matérias nesta cartilha trazia a informação da disparidade entre homens e mulheres ingressando na carreira científica nos EUA. Como a senhora avaliaria essa questão na universidade brasileira? Essa discrepância que existe nos EUA, você acha que existe aqui, você tem conhecimento que existe essa discrepância? HN-Excelente pergunta. A realidade brasileira é muito distinta da realidade dos EUA. Inclusive eu tenho alguns números, que depois eu passo para você, mas o interessante é o seguinte: no Brasil, hoje, olhando agora quem entra na pós graduação, as mulheres são em maior número. Em todas as áreas. Inclusive já em algumas áreas das engenharias. CnB-Nas exatas né? HN– Já estamos começando a ter um aumento muito importante. E tem outro dado: os homens, infelizmente, eles são os, vamos dizer, os “drop-out”, que não terminam, os que abandonam. É um maior número de homens do que de mulheres. O número de matrículas de mulheres como um todo é maior, o número de defesas, por enquanto, porque leva mais tempo, é idêntico então hoje, eu peguei até, eu pedi na CAPES uns dados outro dia, pra escrever um artigo, que é bastante interessante: matriculados no doutorado, de 285 mil matriculas, 55 mil são mulheres, 48 mil homens. Então está mudando o perfil. Docentes, nós também temos um grande contingente, dependendo da área, maior de mulheres do que de homens. E tem mais um artigo, Luís, que é bastante interessante, saiu na Nature, também de 2013: eles fazem, de cor agora eu não me lembro o volume, mas é muito interessante, porque você pode nesse artigo, construir, se você acessa ele on line, você pode construir gráficos com a pergunta que você quiser. O que eles fizeram foi publicações científicas, se não me engano, na base JCR (Journal Citation Reports) , e eles avaliam os diferentes endereços, né, de país, e é interessante: mulheres, enquanto nos EUA se não me engano está por volta de 0,4 e no Brasil é 0,68 a relação. CnB-Mais mulheres do que homens. HN-Não é mais. É 68%. No Japão é 20%. Esse dado é bastante interessante. Eu fiquei surpresa. Na verdade eu não conhecia o artigo. E eu participei de uma reunião, a AAAS, que foi em fevereiro, durante o carnaval (a minha escola da samba foi a reunião da AAAs) e assisti vários debates, e um deles era aspecto de gênero. E foi citado esse artigo, aí eu fui atrás. E outro país que também está indo muito bem, o desempenho assim, como publicação, hein, publicação em periódicos indexados, é Portugal; interessante, países latinos, Portugal, Espanha, a Itália também está bem, e um que é um pouco acima do Brasil, porque os outros é tudo abaixo do Brasil, é Polônia. E aí a gente, até aqui no laboratório, com os pós-docs e doutorandos, a gente estava discutindo, e esse pós doc, que hoje é já docente aqui na Instituição, e homem, disse assim, “Eu acho que tem a ver com a Marie Curie”. E é capaz. Porque ela é uma presença muito forte na cultura polonesa. Então, está mudando. Outra coisa que o artigo mostra, e aí é perigoso, é interessante como a comunidade como um todo é que segrega. Na hora das citações, os artigos em que homem é primeiro autor, são mais citados do que os de mulheres. Tem um… CnB-é aquela conversa… HN-Tem um viés. Eu não vou chamar de machismo, mas tem ainda aquele negócio, se homem fez é mais relevante. Mas tá mudando. Eu acho, não, eu tenho certeza, que aqui no Brasil nós deveríamos comemorar. Porque apesar da nossa ciência ser jovem, apesar de nós ainda (porque é jovem) você lembra quando a gente fez aquela palestra? CnB-Lembro, lembro. HN-Eu falei a frase do Jorge Guimarães de agradecer Napoleão todos os dias. CnB-Que mandou todo mundo pra cá. HN-Porque se não fosse ele, onde estaríamos? Então, isso é real. E a mulher saindo pra fazer universidade é muito mais recente. E a participação dela é mais recente ainda, e no entanto, ela está… Então não temos essa segregação. Por outro lado, o que nós deveríamos tentar entender, eu ainda não consegui nenhuma explicação realmente, porque achismo é difícil , né, a gente achar. Cnb-Claro, e nesse meio ainda… HN-E é curioso, ainda as mulheres não ocupam a maioria dos postos de chefia. Está mudando? Está. Nós temos uma mulher presidente, temos várias mulheres presidindo sociedades científicas, presidindo indústrias, mas ainda é muito pequeno. Então, podemos dizer “ah, porque elas são preteridas?” Pode ser que sim, pode ser que não. Precisa ser investigado O que eu quero deixar claro, né, pro seu blog, que é extremamente relevante, é que o nosso país, tem uma mania de sempre estar tudo igual nos EUA CnB-Na sombra dos EUA HN– E não é. Aqui é diferente. Eu acho muito importante. Que a gente já via isso, todos nós tivemos uma passagem, por uma vez, ou algumas vezes, no exterior, em especial nos EUA, e a mulher, lá mesmo, depois que se forma, a maioria acaba parando durante um perído, porque casa, porque tem filho, e aqui a mulher brasileira está se virando casada e com filho. É uma coisa que é importante ser salientado. A gente precisa de mais mulheres no comando. Mas já temos sim. Já temos uma presidente mulher no país. Então isso significa que a população – tem esse dado também – não é machista neste aspecto. Em outros ela é. Em outros ela é. Mas não como, quem vai me liderar é um homem ou uma mulher. CnB-A gente aceita que a mulher participe mas que não comande ainda…Mais ou menos isso. HN-É interessante. Esse artigo, depois eu vou passar, é importante você colocar no blog pra todo mundo que quiser poder acessar. Saber que eu não estou inventando. CnB-Claro. Tá bom professora. Uma outra pergunta, em números a gente viu, sim, que está aumentando, e que tem muito mais. Mas no caso de discriminação contra a mulher, no trabalho, na ciência, uma pergunta que a gente queria fazer é se a senhora já sofreu ou presenciou alguma discriminação na sua carreira? HN– Olha, na minha carreira, pelo fato de ser mulher, eu estaria mentindo se eu dissesse que fui discriminada. Eu sempre consegui, quer dizer, saí pra luta de igual pra igual. Tá certo? Isso eu fiz. Agora eu tenho uma vida acadêmica longa, bastante produtiva, e ao longo de todos esses tempos, tanto aqui quanto no exterior, eu não tive. Mas pode ser uma caracterísitica minha ou não. Tem alguns lugares que acontece uma discriminação com a mulher, eu acho que acontecia mais do que acontece hoje em dia. Está tendo uma mudança no comportamento. A mulher se impôs. E está sendo respeitada. Agora, o que eu vejo é fora da vida acadêmica. Essa é preocupante. Porque nós estamos falando de um grupo selecionado. Quando você está falando de vida acadêmica, é um pessoal que fez universidade, que fez doutorado, fez pós doutorado, que tem uma vivência de mundo diferente. Mas a população como um todo, ainda a mulher é discriminada! E é discriminada por piadas, é discriminada como caricaturas do imaginário coletivo, talvez de um approach sexual ou não, então eu acho que – pode ser que eu esteja totalmente errada – mas a minha vivência, vendo, como já orientei muitas mulheres que estão no mercado de trabalho, espalhadas inclusive não só no Brasil como no exterior, então o ambiente nosso, ainda não seja o ideal, ele, dentro da universidade, eu diria que ele é menos machista-like, CnB-Do que fora, né? HN-Eu acho. Um trauma pra mulher, o tempo todo, e aí o que eu vou falar muitas pessoas não vão gostar, então que vai estar falando, é a Helena Nader, pesquisadora. CnB-Claro HN– Não é a Helena Nader, presidente da SBPC. Mas eu acho que nosso país teria que olhar também os direitos da mulher. Eu fiquei deprimida quando uma jovem que tinha, por motivos, que, pra mulher um aborto é um trauma, e esta mulher, jovem, uma gravidez que ela não tinha como levar adiante, o parceiro não ficou do lado, ela decidiu: toma uma medicação para provocar o aborto, ela entra numa crise hemorrágica violenta, tem que ir ao hospital, conta ao médico o fato, e o médico, pela legislação brasileira, tem que chamar a polícia. E essa mulher, que teve, por motivos dela própria, de foro íntimo, fez, ficou algemada numa cama. CnB-Nossa! HN-Isso foi em São Paulo! Isso acontece no Brasil. Então eu acho que a nossa sociedade é hipócrita de negar a DISCUSSÃO, tá? Não é a libertação, da descriminalização do aborto. Então é complicado. Porque o aborto no Brasil é crime. CnB-A gente viu na disputa presidencial que todo mundo fugia desse assunto, porque ele é bem polêmico. HN-Claro, então, mas eu não sou candidata a nenhum cargo, eu estou dando as angústias que eu tenho como mulher. Se eu faço ou não, é foro íntimo de cada um. Mas não querer ver o número de mulheres que estão morrendo nesse país, diariamente, em clínicas de baixa categoria… Aquela mocinha que passou, eu não assisti, me contaram, não sei se foi no Jornal Nacional ou no Fantástico, CnB-No Rio de Janeiro, né? HN-É, ela foi fazer um aborto, e foi encontrada,, não achavam mais, foi encontrada morta porque era uma clínica dessas… CnB-Clandestinas. HN-Sem a menor condição de existir. Então eu acho que é um país machista. CnB-Sim. HN– A Itália, a Espaha, aqui nossos companheiros da America Latina já olharam [essa questão], então eu estou chamando a atenção, a HELENA cidadã. Eu tenho esse direito. CnB-Claro! HN-Como presidente, de jeito nenhum. E nem é o tema, mas sabe, eu não poderia dar uma entrevista pra você sem colocar essa angústia que eu tenho. CnB– Claro. HN-Porque é um blog da ciência, mas é também um blog da ética e da cidadania. CnB-Claro. É uma questão ética também. Que perfeita a sua resposta, professora! Fugindo um pouco então agora desse assunto mais polêmico, quando a senhora assumiu a presidência da SBPC, as manchetes diziam, “Helena Nader, terceira mulher a assumir a presidência da SBPC”. E a senhora acha que o fato de ser mulher chama mais a atenção do que o fato de ser a Helena Nader, a biomédica, professora titular e pesquisadora 1 A do CNPq? HN-É que pra vender jornal, né, você tem que pôr títulos chamativos. Na verdade, se você olhar, é interessante, porque a nossa sociedade, é aquilo que eu te falei, está mudando, lentamente as coisas estão mudando. Então, ela é fundada em 48, e eu fui a terceira mulher presidente. Então estava sendo pouco usual, vamos colocar assim. Nós tivemos a nossa saudosa profa Caroline Bori, professora titular da Psicologia, um ícone na Psicologia brasileira, que foi presidente da SBPC; tivemos a saudosa profa Glaci Zancan, da bioquímica brasileira, também ex-presidente da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular – foi inclusive minha professora também de Bioquímica num curso de pós; e aí fui eu! Então talvez tenha sido por isso que saiu Helena Nader, presidente mulher. CnB-Terceira mulher HN-E é uma sociedade que tem um papel, e eu espero que eu tenha ficado sempre à altura, eu luto para estar sempre à altura dos princípios dos nossos fundadores. CnB-Claro HN-Eu admiro muito a história, eu acho que a gente só constrói futuro conhecendo o passado. E isso eu não abro mão. Então toda vez eu gosto de ler a ata de fundação da SBPC, o número pequeno de pessoas que saem à frente fazendo isso, então eu tenho no meu foro íntimo, sempre estar à altura da história dessa instituição que é um marco no nosso país. A SBPC tem um papel relevante em toda a história do país além da ciência. A redemocratização, a luta pela volta do Estado de Direito e assim por diante. Então é uma responsabilidade. E eu luto por isso. Para manter isso. Talvez tenha sido o fato de ter sido a terceira. CnB– Mas pra mim, pelo menos, só tenho que agradecer, professora. Ainda mais agora que você conseguiu promulgar a emenda constitucional 85, o que pra nós, você, junto com a SBPC, foi sensacional para a ciência básica, todo mundo tem que agradecer sempre, o que vocês conseguiram fazer lá foi sensacional! HN – Foi. Eu me emocionei. Eu acho que estou ficando muito velha, eu sempre fui muito emotiva, então, quando a gente, o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, e o ministro Aldo Rebelo, o vice presidente da Câmara, porque, de quando você vai mudar a Constituição, é o presidente do Senado e o vice-presidente da Câmara. CnB– É complicado mudar. HN-É, ele estava lá presente. O vice, porque é pela normativa. Os deputados que foram fundamentais: a deputada Margarida (Margarida Salomão), ex-reitora da Universidade de Juiz de Fora, e o grande companheiro, como também a Margarida, o grande lutador, que hoje é o líder do PT, o deputado Sibá Machado, e o nosso querido companheiro de bancada, ou seja, de trabalho em universidade, o Dr. Hernan Chaimovich, que já tinha assumido como presidente do CNPq, e ele convida então, só tinha ali governo, e ele me convidou para fazer parte dessa mesa, como sociedade civil, e faz um discurso, tanto ele como o ministro, a favor da ciência, e a importância da ciência. Ele me emocionou, eu falei, nem tudo está perdido no nosso país. CnB-Ainda tem uma esperança. HN-Nós temos é que lutar, porque as pessoas têm que lembrar. Espero que os jovens que estão participando do teu blog leiam isso, que NADA acontece gratuito. Na vida, para conseguir você luta sempre, não existe, sabe, caiu do céu! CnB-Esperar cair no colo né? HN-É, não existe, sabe, as pessoas têm que lutar, têm que saber. Eu me emocionei, na hora em que tocou o Hino Nacional, e o cenário, eu nunca tinha reparado, porque está sempre tão tumultuado que você não vê, aí estava aquele silêncio e o teto parecia um céu estrelado pelas luzes que tem. É interessante, um fundo azul, me emocionou! Fiquei emocionada, uma mudança na constituição, para poder o Brasil realmente INVESTIR em ciência, tecnologia e inovação; mudando novas, trazendo novas perspectivas e deixando claro que tem que ter parcerias entre o setor público e privado, foi muito emocionante. Eu acho que nós demos, eu acho não, eu tenho certeza, demos um grande passo para uma nova fase na ciência brasileira. CnB – Eu é que fico emocionado de escutar a senhora falar, professora. Toda vez que a senhora fala dá vontade de sair correndo e pesquisar tudo quanto é coisa! HN – Obrigada. CnB – Professora, dá tempo para mais duas perguntinhas? HN-Vamos lá. Sou toda a ouvidos. CnB-Ainda voltando agora para a assunto da mulher, foi muito bom esse papo, a gente saindo pra ciência, e não falando só de mulher, mas voltando agora: existe uma história, sobre a Barbara McClintock, na qual ela foi convidada para dar uma palestra e foi informada que o evento estava sendo patrocinada por um fundo para mulheres na ciência. E ela declinou o convite, veemente assim, disse que não acreditava em mulheres na ciência e tampouco acreditava em homens na ciência. Disse que a ciência não tem gênero. Qual a opinião da senhora sobre isso? HN-Olha, olhando essa última frase, eu concordo com ela. A ciência não tem gênero. Porém, eu acho que criar um fundo, não tenho nada contra. Você tem fundos só para crianças, fundos só, então, tem fundo inclusive voltado para uma determinada raça e não para outras, então eu não conheço as bases do estatuto desse fundo, de onde vêm os recursos, então opinar, para mim, fica difícil. Eu concordo com a última frase dela. A ciência não tem gênero. O que tem gênero é participação na ciência. CnB-Claro, tanto que a nossa publicação sai só com o nosso sobrenome. HN-E você vê que isso, no nosso país, está sendo muito melhor trabalhado do que em países do primeiro mundo. Se você olhar a participação da mulher no Japão, na ciência, nesse artigo que eu estou te falando, com publicações, você vai ficar mal impressionado. CnB-Com o tanto de disparidade que tem lá! HN-Quer dizer, é um país de tradição milenar, onde a situação sempre foi um norte muito forte. O próprio EUA, então, a mulher participando cada vez mais é que a gente tem que lutar por. Agora, eu fico sempre muito preocupada quando se começa a impor cotas. Eu acho que ações afirmativas são extremamente importantes, e quando implementadas, elas têm que ter começo, meio e fim. E elas não podem ser generalizadas pra todo um país, elas têm que ser olhadas dentro de determinados enfoques. Eu vejo, por exemplo, esses números que a gente tem, de mais mulheres estarem participando hoje de uma pós graduação, mais mulheres concluem, então, que não precisa ter uma cota especial de bolsa para mulher, você concorda? CnB-Claro, concordo. HN-O que a gente precisa é começar a olhar esses números e destrincha-los – não é um termo bom, mas podemos avaliar assim. Dentro dessas mulheres, vamos ver as diferentes origens, as camadas da população, qual é o nível de rendimento, se está na classe 1, 2 ou 3, etc. Porque aí – é isso que eu estava dizendo das ações afirmativas – aí o que você tem que fazer é um projeto para uma determinada classe, tá claro? Para fazer uma melhoria. O Brasil tem que investir, isso eu continuo insistindo, cada vez mais em educação. Educação de qualidade. Então, nós conseguimos colocar todos dentro da escola, mas nem todos ficam. A gente tem uma evasão muito grande. É maior de homens ou de mulheres? Eu não sei. Eu não tenho esse número. CnB-Precisa ter um dado. HN-Entender o porquê dessa evasão. E aí você faz ações afirmativas. Agora, quanto a alguém criar fundos – principalmente que eu não conheço como esse fundo foi feito – criticá-lo seria leviano da minha parte. CnB-Entendi. Acho que é mais uma questão de oportunidade do que ter, ou fazer bolsas pra alguma coisa ou outra, cotas, não sei mais o que… HN-Mas tem por exemplo, tem um prêmio, que é dado, nós também temos que ser críticos, a L’oreal, lembrei agora, a L’oreal, que é a grande firma, indústria mundial de cosméticos, etc, ela tem um prêmio que se chama “Mulheres na Ciência”. CnB-Eu li isso ontem! HN-Então, e ele é dado, esse prêmio, tem um prêmio grande, que é dado a cada ano para uma área de conhecimento, e tem bolsas em diferentes países. O Brasil, inclusive, recebe, para as jovens mulheres cientistas. Então vamos dizer para L’oreal, não? Ela quer financiar. Eu acho extremamente importante. Deixa, ela tem um foco ali! Eu acho que se você conseguir trazer mais pessoas pra fazer diferentes atividades, financeiramente seria relevante. CnB-Claro, totalmente de acordo. Professora, última perguntinha, pra não abusar muito do seu tempo. Agora uma questão um pouco mais pessoal para mulheres: Como conciliar a maternidade com a carreira científica, que demanda uma dedicação e tempo consideráveis, e ambas: ser mãe, ser pós-graduanda e ser pesquisadora? Já que a mulher ainda assume estas duas funções, principalmente no Brasil, onde a grande maioria das escolas funciona em tempo parcial? HN-Olha, eu concordo com tudo o que você falou, mas não é só no Brasil. Aí é que eu tiro, porque até que no Brasil a gente tem mais chances, é curioso isso, do que nos chamados “First world”. Nos EUA, você tem que pagar um absurdo, são caríssimas as escolas em tempo integral. Nada público. Inglaterra é a mesma coisa. Eu tenho ex pós-docs meus, que estão agora trabalhando na Inglaterra, e praticamente tudo que ela ganha ela está pagando o day care. Então vamos deixar claro, é um problema mundial. Não é fácil, mas depende aí de como cada uma dessas mulheres vai organizar o seu dia-a-dia. Eu, no meu caso específico, a minha filha ficou em escola, e o período que eu ficava com ela diário, era 100% dela. Eu não dividia com outras coisas. E a gente tem um relacionamento fantástico, ela está com 30 anos, é uma pessoa extremamente saudável. Ela ficou período integral em um colégio, isso foi a partir dos 4 anos que ela ficou período integral, antes ela não ficou porque eu fiz a opção, eu tinha uma pessoa que eu sabia o que estava fazendo com a Júlia; ela ia de manhã pra escola, voltava, dormia à tarde, e aí tinha, como se fosse uma babá, que brincava com ela. Mas depois ela foi para o período integral porque já tinha crescido. E é isso, cada mãe é uma decisão. Tem outras que têm outras pessoas, eu conheço vários outros colegas meus que tiveram a mãe que morava junto, que na Itália se usa muito até hoje, a avó cuidando dos netos, tá certo? Em outros ela se afasta por um período, porque a criança precisa, e depois volta. Então, não é trivial! É complicado. É um, isso é um fato realmente, e que me vinha na cabeça, “Ai, meu Deus, será que eu estou fazendo o certo?”, porque você não sabe. Ter filhos não vem com receita de bolo! CnB-Não vem, não é uma receita de laboratório. HN-Cada filho é um indivíduo distinto do outro. Então o que funciona em um caso pode não funcionar no outro. É uma decisão complicada, não é trivial, difícil, mas eu sou contra – e aí é a Helena – dizer então que eu tenho que avaliar cada gravidez da mulher para ver a produção dela. Eu acho que não é por aí. CnB-Entendi, entendi HN-Temos que lutar por outros mecanismos. Acho que lutar por mecanismos, que os institutos de pesquisa, as universidades ofereçam um espaço para essa criança poder estar. Em algumas universidades dos EUA eles já estão fazendo isso, porque eles viram que estava inviabilizando, estavam retirando mulheres brilhantes do trabalho. Então eles montaram day cares, escolas. Então eu acho que a gente tem que lutar por isso. CnB-Por outros direitos, né, como aqui agora. HN-Aumentar esses direitos. CnB-Aqui agora uma grande conquista que a gente teve foi que a ANPG (Associação Nacional de Pós Graduandos) conseguiu foi a licença maternidade, para pós graduandos. HN-Está certo! Vocês estão no topo disso. CnB-Eu acho que isso foi sensacional. HN-Eu acho isso. E demorou! CnB-Demorou, foi em 2010 que conseguiram só. HN-Pois é, mas valeu a pena, você percebe? CnB-Valeu a pena HN-Entao é isso que nós temos que fazer. E não a mulher se afastar. É lutar para esses reconhecimentos. Então você fala de visão, a mulher tem uma outra visão. Não é, são complementares, por isso é que somos diferentes né, o homem e a mulher. É importante que a ciência tenha, cada vez mais, participação de homens e mulheres, de diferentes formações, então, a pluralidade de formação, que isso, a ciência, é cada vez mais interdisciplinar, e também com diferente background cultural, que eu acho que o país ganha com isso, cada vez mais. Então é só isso. CnB-Uma das integrantes aqui do nosso Café na Bancada, do blog, ela é mamãe, ela teve a filhinha dela um pouco depois que ela terminou o doutorado dela, a Natalia. E eu brinco com ela sempre que a única profissão que trabalha mais e ganha menos que um pós graduando é ser mãe. HN-É verdade! Mas fala pra ela que ela vai ganhar muito mais. CnB-Ah, sim, o ganho eu digo monetariamente, dinheiro mesmo. HN-Eu digo que a minha melhor produção fez 30 anos. CnB-Ela brinca que ela clonou muito bem a filha dela. HN-É isso aí. Uma delícia. Parabéns pra ela. CnB-Mando sim. Professora, eram essas perguntas que a gente queria cobrir, eu achei sensacional essa nossa conversa aqui, gostei muito. Eu queria agradecer, então, em meu nome, em nome do Henrique, da Natalia e da Valéria, que são as pessoas que fazem o blog, muito obrigado por essa entrevista, professora. Foi espetacular. HN-Eu agradeço, e toda vez que vocês precisarem, estou às ordens, se eu puder ser de ajuda, contem comigo. CnB-Pode esperar que vamos ligar. HN-O bem maior de um país é a sua juventude. CnB-Muito obrigado. HN-Esse é o maior patrimônio. CnB-É isso que a gente está buscando aqui. HN-E é esse que a gente não pode deixar perder. Está certo? CnB-Certo. HN-Então um beijo para você, bem grande, e obrigada pela oportunidade. CnB-Obrigado a você, professora, venha tomar um café aqui com a gente no nosso laboratório. HN-Eu vou, deixa melhorar aqui essas condições, porque esse ano está muito complicado. Assim que ajeitar as coisas, eu vou aí pra conhecer o blog, pessoalmente, de vocês. CnB-Por favor, professora, está mais do que convidada. HN-Então está bom, um beijo.  

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5 comentários

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  1. Giovana

    Muito legal essa entrevista com a professora. Inteligentíssima =)

    1. Luiz Almeida

      Olá Giovana, que bom que gostou! Nós do CnB admiramos muito a Dra. Nader! Ela discute assuntos que vão além do laboratório e envolve todos, sendo cientistas ou não. Vamos debater outros assuntos em um futuro próximo.
      Muito obrigado por acompanhar o CnB!

  2. Jana del Favero

    Olá! Conheci o blog de vocês recentemente e adorei! Como também adorei a entrevista! Eu e outras amigas também criamos um blog recente, o Bate Papo com Netuno. Ele é focado em ciências marinhas, porém temos uma sessão “Mulheres na ciência” e nossos dois posts mais populares são dessa sessão, mostrando que as pessoas estão lendo e refletindo mais sobre o assunto. Deixo abaixo nosso link:http://batepapocomnetuno.blogspot.com.br
    Espero que gostem!

    1. Luiz Almeida

      Olá Jana! Que bom que gostou do Café!

      Sensacional o blog de vocês! A seção “Mulheres na Ciência” tem os posts mais humanos que eu já vi nas áreas de biológicas e de exatas! Adorei as ilustrações também e já marquei para assistir o Mission Blue no NetFlix!

      Parabéns pelo ótimo trabalho de divulgação científica. São momentos como esses que percebemos como faz falta a cultura de divulgar a ciência no país. Com certeza acompanharei os posts de vocês e tenho certeza que o resto do pessoal aqui também irá.

      1. Jana del Favero

        Obrigada Luiz. Nós do Bate-Papo com Netuno também estamos acompanhando vocês 😉

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