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maio 27

Dr. Francisco Gorgoino Nóbrega – Universidade Federal de São Paulo

O debate sobre alimento transgênico está finalmente chegando ao fim. Apesar dos protestos da oposição, o consenso da classe científica é de que OGMs (organismos geneticamente modificados) são seguros e benéficos para o ambiente, como já vimos aqui e aqui. Para completar nossa série sobre OGMs, o Café na Bancada teve a honra de entrevistar o Prof. Dr Francisco Nóbrega. O Prof. Francisco Nobrega é médico, formado pela USP. Doutor em Bioquimica, também pela USP, fez pós-doc na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. É professor aposentado da USP, foi professor da Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP, professor colaborador na UNESP e professor visitante na UNIFESP. Ele foi Pesquisador Nível 1 no CNPq e foi membro da CTNBio.

image_galleryCom amplo conhecimento sobre o assunto, e dotado de uma incrível simpatia e bom humor, o professor nos conduz por uma aula de história da agricultura, enfatizando mais uma vez o mito do alimento natural e explicando a domesticação e modificação genética de plantas que sempre fizeram parte das técnicas agrícolas, técnicas estas que são muito mais agressivas e menos seguras do que a técnica de transgenia.  Discute o problema da obrigatoriedade do rótulo nos produtos, que foi recentemente retirada, passa pelos problemas políticos e financeiros envolvidos e demonstra claramente que o uso de OGMs diminui o uso de pesticidas, usa menos água, menos combustível, constituindo assim uma técnica sustentável e segura para o consumo e para o ambiente.

Recentemente, um relatório da Academia Nacional de Ciências dos EUA demonstra exatamente as mesmas conclusões http://www.nap.edu/catalog/23395/genetically-engineered-crops-experiences-and-prospects

Confira a entrevista: 


Abaixo você encontra a transcrição da Entrevista:

Olá pessoal, bem-vindos a mais um Café Cast do Café na Bancada.

Hoje nós temos o prazer de receber o Professor Francisco Nobrega. O Prof. Francisco Nobrega é médico, formado pela USP. Doutor em Bioquimica, também pela USP, fez pós-doc na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. É professor aposentado da USP, foi professor da Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP, professor colaborador na UNESP e professor visitante na UNIFESP. Se eu for falar o currículo inteirinho dele aqui, não vai dar tempo de fazer a entrevista. Ele foi Pesquisador Nível 1 no CNPq e foi membro da CTN-Bio.

Então nós vamos aproveitar a presença aqui do Prof. Nobrega para conversar um pouco sobre organismos geneticamente modificados (GMO em inglês).

 

N — Vamos lá professor?

F — Pois não, é um prazer, este convite me honra muito.

N — A honra é toda nossa. Então, professor, para começar, eu queria que o senhor falasse um pouquinho para os nossos ouvintes qual é a diferença entre as técnicas convencionais de melhoramento genético e a técnica de transgenia usada para fazer os organismos geneticamente modificados.

F — Voce vê que é uma longa história de modificação genética que as pessoas não conhecem, porque a humanidade faz modificação genética desde, sei lá, vinte, trinta mil anos atrás, quando estávamos preparando o começo da agricultura, antes do começo da agricultura. E como é que era a modificação genética no começo? Era simplesmente selecionar as plantas comestíveis, aquelas que não eram venenosas, e, às vezes, privilegiar o plantio das sementes delas e afastar as espécies competidoras que não interessavam. Isto é seleção genética 100% – só que usando o tempo natural e a variabilidade natural das plantas. Com o tempo, a humanidade começou a fazer coisas mais sofisticadas. Começou a fazer cruzamentos entre plantas, às vezes mesmo entre espécies diferentes – coisa que os opositores hoje poderiam considerar um absurdo: você cruzar espécies diferentes, gerando variedades úteis. E apareceu a enxertia, em que você introduz uma planta … Isso acontece muito com maçã, você tem a base de uma planta muito resistente em que vai se ter uma maçã ruim, e planta em cima, enterra em cima daquele tronco, uma variedade saborosa.

N — Certo!

F — O que que aconteceu mais adiante? Quando a humanidade descobriu que podia fazer modificação genética, acelerar as modificações naturais que são lentas; mutações acontecem toda hora, só que a quantidade delas é muito grande, então você tem que esperar muito para aparecer uma variedade nova espontaneamente. Então a humanidade descobriu – os cientistas descobriram – que a radiação, ou agentes químicos mutagênicos que afetam o DNA, induzem mutações no DNA, que esses métodos químicos ou físicos, como a radiação ionizante, podiam ser usados para acelerar o aparecimento de mutações e de variedades novas.
Então, nós temos um longo período, muitas décadas, mais ou menos dos anos 40 para cá, em que a humanidade produziu uma quantidade incrível de plantas modificadas por meio de radiação. Então, veja bem, nesse momento em que se descobriu a utilidade das mutações, o que que os cientistas faziam? Pegavam milhares de sementes e tratavam com radiação, com raios Gama, ou davam banho com metil-metano-sulfonato, um agente mutagênico poderoso. Pegavam essas sementes tratadas, modificadas geneticamente ao acaso. Preste atenção, aí a coisa era como se você tivesse um bando de pessoas na frente de um paredão, com um pano na frente, uma cortina e você atirava com uma metralhadora. Não sabe onde você estava acertando. Quer dizer, a mutagênese era feita assim, você não sabe onde no genoma você estava causando modificação, mas você causava. E aí você plantava aquelas milhares de sementes. E o que acontecia? Muitas sementes sequer germinavam. Porque você tinha acertado num gene essencial, aquela proteína não funcionava, a planta nem conseguia crescer. Outras cresciam com defeitos óbvios. O horticultor que estava fazendo a modificação via que a planta já estava torta, estava doente. E, no meio daquele monte de plantas que, aparentemente, não tinham modificação nenhuma, aparecia alguma com uma modificação que interessava – por exemplo, resistente a uma praga, resistente à falta de água, ou então com um fruto bem mais saboroso do que o normal. Então essa planta modificada, com dezenas de modificações desconhecidas, mas com uma característica positiva, era cultivada, provavelmente analisada, por várias gerações. A gente se certificava de que ela realmente tinha uma vantagem, e aí colocava no mercado, sem problema nenhum.

N — Sem nenhum tipo de teste?

F — Sem nenhum tipo de teste. Se o Greenpeace existisse naquela, época isso ia ficar ruim.

N — Hahahaha

F — Sim, porque sabe-se lá quantas mutações danosas que podem causar… aí o cara começa a inventar, né?

N — Mas o Greenpeace existe hoje e essa técnica continua sendo utilizada!

F — Continua, e essa técnica não tem regulamentação, ela é considerada segura. É interessante como ela é segura. A simples observação cuidadosa do sujeito que está preparando a planta para colocar no mercado faz uma série de testes, ele provavelmente cozinha, come, faz alguma coisa ali, vê que está tudo bem e bota no mercado. E parece que essa observação, aparentemente simples, é suficiente para eliminar coisas realmente negativas, perigosas; porque essas coisas perigosas acabam prejudicando a planta, e você nota que ela está prejudicada. Então nós temos aí dezenas de mutações desconhecidas e uma mutação benéfica, mas que nós também não sabemos qual que é.

N — Sim.

F — De vez em quando dá um furo. Por exemplo, teve um sujeito que desenvolveu uma batata nova lá nos EUA cruzando uma batata dos Andes, uma batata selvagem, com uma batata convencional. E ele achou que a batata era muito interessante. Ela dava um “shwirp” quando você fazia batata frita, era resistente a praga, então ele botou no mercado. Depois que botou no mercado, ele começou a fazer uns purês de batata com aquela batata. E, com o primeiro purê que ele fez, ele passou um pouco mal. Fez mais um e aí ele viu que passou mal mesmo. Então passou para um colega e pediu: “analisa essa batata para mim”! E aí o camarada falou: “olha, meu amigo, essa batata está cheia de alcaloides tóxicos da batata típicos e é por isso que ela é resistente a pragas”.

N — Esses alcalóides eram típicos da batata dos Andes…

F — …vieram da batata dos Andes. Então a vantagem que ele viu, como ele não analisou com muito cuidado, e a legislação não força, a batata já estava no mercado. Aí ele mandou retirar do mercado. Isso foi feito, mas, a essa altura, muita gente já tinha cruzado essa nova batata com outra, para fazer outras batatas. Quer dizer, havia imensa liberdade. Mas, quando chegou a modificação genética moderna, aí a coisa mudou de figura. É muito engraçada essa historia, não é?

N — Sim.

F — Se você quiser que eu continue a história eu vou dizer porquê.

N — Sim!

F — Sabe por que que começou a dar problema? Começou, vamos supor, podia dizer que eu poderia por a culpa na própria precaução…

N — Sim.

F — Quem foi a grande introdutora da planta geneticamente modificada comercialmente? Teve lá nos EUA um cientista que fez , acho que foi o mamão resistente a vírus, esse aí não causou – por sorte, não causou muita agitação na mídia medrosa.

N — Acho que esse foi o mais tranquilo deles.

F — Pois é, esse passou e salvou a industria do mamão.

N— Do papaia havaiano, não é?

F — Pois é, e hoje em dia ainda tem gente que vem falar contra isso aí, um absurdo. Mas o que aconteceu foi que a Monsanto, a gigante Monsanto, fez lá o primeiro transgênico dela – não sei se foi soja – e aí o que ela fez, ela fez um lobby, tem um artigo que eu guardo com carinho, um estudioso do caso diz que a Monsanto fez um lobby no governo americano para criar uma legislação bem rigorosa. Olha só.

N — É sério isso? A própria Monsanto?

F — A própria Monsanto. E a explicação é a seguinte, tem lógica: Ela é uma gigante com enorme poder econômico, tem advogados, cientistas, o diabo a quatro. Então o que acontece? Ela raciocinou que, talvez um pouco pelo lado da segurança, não é? Mas pensando em estragar a competição. Porque, para pagar, é como um remédio hoje…

N — Ela acabou com a possibilidade de pequenas empresas fazerem a mesma coisa.

F — Aí é que está. Ela prejudicou pequenas empresas e universidades, pesquisa independente para gerar novos transgênicos. Eles teriam que enfrentar a mesma complexa legislação que exige mil montes de testes, e que, pelo bom senso, você poderia ver que este aqui é desnecessário. Mas entrou aqui também o famoso princípio da precaução, que é um monstro para complicar o mundo. E o que acontece? Ficou uma coisa caríssima. Então os transgênicos do bem ficaram prejudicados. O único transgênico que vale a pena uma empresa produzir é um que é plantado em enormes quantidades e que o lucro é suficiente para compensar o gasto para fazer o processo todo de reconhecimento.

N — Certo.

F — É soja, é milho, pode ser trigo, amanhã pode ser o arroz – porque a quantidade que você produz é grande, o agricultor vê que vale a pena, e você compensa os gastos com a legislação. Agora, o transgênico do bem, como o arroz dourado, até hoje está aí lutando, o Greenpeace fazendo tudo para impedir.

N — Nossa! Com certeza!

F — E pode salvar centenas de milhares de crianças da cegueira, muitas da morte… quer dizer, é um crime contra a humanidade, uma entidade que se apresenta como do bem, a Greenpeace, fazer campanhas de propósito para destruir isso. Por que? Porque sabe que, se passar, é mais uma coisa para dizer para a população que aquilo é seguro.

N — Sim!

F — No fundo é isso, não?

N — Indo por esse caminho, eu queria comentar que existem, realmente, vários mitos na discussão sobre organismos geneticamente modificados que começam falando que os transgênicos são danosos para a saúde humana, e a gente sabe que não existe nenhum indício de que um alimento possa ser perigoso para o consumo simplesmente porque ele é transgênico.

F — Demais, não é? Não tem nenhuma lógica!

N — Exatamente.

F — Já pela própria lógica do que você fez, você pode deduzir que eles não podem trazer nenhum perigo. Agora, a tática da oposição é simplesmente dizer “e se”, “e se”, e este “e se” é sempre baseado em especulações muito convolutas, muito complicadas, mas que, para a pessoa, o leigo lá fora, o leigo acredita, não é? Você convence as pessoas hoje pela internet de que mil coisas são perigosas. Então um trabalho está dizendo que o açúcar mata, outro, que o sal mata, que tem um chá que salva qualquer coisa, outro que a fosfoetanolamina causa câncer…

N — Deus do céu!

F — Quer dizer, você inventa uma porção de mitos e joga na internet. E sempre aparece um bando de pessoas que adotam aquilo ali. Adotam, às vezes, com paixão.

N — Mas, no caso do mito dos transgênicos, foi um movimento que cresceu mais do que o movimento antivacina, não é? É uma coisa que ganhou uma força muito grande, e a desinformação ficou gigantesca, então as pessoas realmente acreditam que vão ficar doentes porque vão comer um transgênico.

F — É engraçado, eu fico tentando entender por que que o pessoal faz um movimento contra. Quer dizer, um pouco eu sei que quem está por traz certamente é o lobby do alimento orgânico… 

N — Sim…

F — Por que? Por uma razão, talvez até, por um desses acasos da legislação. O pessoal que montou a legislação do orgânico, que regulamentou as regras, acho que até fora do Brasil, decidiu – por um rasgo de estupidez iluminada – decidiu que os transgênicos não deveriam ser considerados alimentos orgânicos, certo? Olha só! Uma modificação por transgenia é uma modificação puramente biológica, cem por cento biológica. Quer dizer, aquela Rachel Carson, que escreveu aquele famoso livro A Primavera Silenciosa, toda a cruzada dela, que fez parte do começo do movimento ambientalista, era qual? O argumento dela era o seguinte: nós estamos envenenando o mundo, nós estamos usando produtos químicos para controlar as pragas, e eles são venenosos. Nós temos que usar métodos biológicos. E, se ela estivesse viva hoje, é capaz até que ela estivesse apoiando os transgênicos. Ela diria “Não, mas esses métodos são biológicos!”

N — Eu acho que muito provavelmente.

F — E provavelmente que ela estaria do lado do… ela diria “Não tem problema nenhum”. Mas como ela morreu faz muito tempo, então o que acontece? Virou, porque é uma coisa tecnológica, serviu, porque tudo o que é tecnológico é difícil de entender.

N — Então, o medo é da tecnologia.

F — É difícil de entender para a população, não?

N — Sim!

F — Um exemplo: quando eu, na USP, pegava material radioativo para fazer experimentos, que vinha naquele carro com um container de chumbo, em que vinha uma quantidade mínima de produto marcado como P32 (fosfato radioativo), e o rapaz que entregava uma vez perguntou se ficava uma contaminação dentro do carro. Quer dizer, a ideia dele era que a radiação era uma coisa que persistia, como se fosse um produto químico, quer dizer, não tinha nenhuma noção do que é radiação. A radiação estava, primeiro, contida no chumbo. E quando saiu do carro não tinha mais nada lá. Vamos supor que um pouquinho passasse pela blindagem. Esse pouquinho só estaria enquanto a embalagem estivesse dentro do carro. Depois que saiu do carro não fica nada. Mas eles ficavam com a ilusão de que aquele lugar onde carregava aquele…

N — Ficaria contaminado.

F — Quer dizer, é muito comum que, quanto mais abstrato o assunto – e transgênico é abstrato porque, na verdade, você vai ver quantas pessoas entendem o que que é um gene, e o que que é um produto gênico – você vai ver que é muito fácil você enrolar as pessoas se você é contra. Colocar medo na cabeça das pessoas. E, havendo medo, a pessoa fala: “eu prefiro não comprar”.

N — É, e eu acredito que também, além do mito de ser danoso para a saúde, que foi um mito muito distribuído pela mídia, os ambientalistas vão por um outro caminho, dizendo que “tá bom, mesmo que os transgênicos sejam seguros para o consumo”, então eles alegam que eles são responsáveis pela perda de biodiversidade, e apresentam um risco muito alto de transferência lateral de gene e que podem contaminar outras plantas e lavouras. Geralmente o exemplo que eles usam é o do Milho Bt com as borboletas Monarcas.

F — Isso aí já devia ter sido enterrado há muito tempo.

N — Mas não foi.

F — Veja bem, o uso dos transgênicos tem sido um grande benefício para as Monarcas. Porque, dependendo do transgênico, esses transgênicos que já são resistentes a insetos, eles diminuíram muito a quantidade, ou zeraram a quantidade de inseticida que você tem que jogar na lavoura. E esse inseticida químico, ele é inespecífico.

N — Mata qualquer inseto.

F — Leve ele pra cá, leva ele pra lá!? Então o que acontece, ele vai matar as Monarcas que passarem por ali. Agora, as Monarcas têm uma planta especial que elas só se alimentam daquela planta. Não tem nada a ver com o campo que tem o transgênico, você compreende? Então elas nem vão comer… uma das ideias é que, se elas comessem uma planta transgênica, elas poderiam se machucar, ser contaminadas. Mas elas não fazem isso por que não é o campo delas. Elas vão se alimentar em outro lugar. E elas ficaram protegidas com a diminuição do uso do inseticida comum. Quer dizer, na verdade, os transgênicos beneficiaram as Monarcas. E não prejudicaram, porque a história está mal contada, está contada para causar medo. E você sabe que, na mídia, o medo vende. Vende jornal, vende revista. Falar de coisa boa não é negócio. O negócio é falar de perigo, mesmo que seja furado.

N — Exatamente! Eu queria falar agora um pouquinho do que a gente tem de transgênicos no Brasil, e quem os produz. O senhor tem uma ideia para dar para a gente?

F — Eu acho que eu estou um pouco defasado. Porque eu sei que tem um grupo de cientistas lá no Rio Grande do Sul que estavam desenvolvendo certos transgênicos que iam ter que atravessar… Um caso que já está concluído no Brasil é o caso do feijão que é resistente a um vírus.

N — Vírus do mosaico dourado.

F — Isso aí é um trabalho da EMBRAPA, onde o Professor Francisco Aragão trabalhou, foi um dos cientistas principais do grupo. 

N — Mas ele ainda não está sendo comercializado.

F — Ele já está com todos os testes prontos. Quer dizer, tem que haver qualquer sinal da EMBRAPA para produzir em alguma quantidade as sementes, e parece, a última vez que falei com ele, ele nota que tem movimentos para atrapalhar, tá certo? Mas veja que seria um beneficio imenso, porque a quantidade de feijão que a gente perde por causa desse vírus no Brasil é incrível, e o Brasil começa a importar feijão, você já viu? O Brasil importar feijão. Ele importa feijão porque o vírus faz um estrago danado na produção. E ele é totalmente seguro, é simplesmente aquele caso em que você põe um pedaço da proteína do vírus. 

N — Foi uma técnica parecida com a do papaia, não?

F — Exatamente, é uma técnica que foi muito bem testada, mas o pessoal continua fazendo lobby muito forte. E aí, você vê, eles não têm aquela força econômica de uma Monsanto atrás. E estão ainda dependendo de uma certa boa vontade dos próprios organismos oficiais, porque eles têm que tramitar. Eu imagino que estaria próximo de ser liberado, mas ainda não foi liberado. Esse é um caso concluído. Agora tem coisas interessantes acontecendo, no Rio Grande do Sul, e provavelmente na ESALQ, mas eu não posso te informar porque eu parei de acompanhar em detalhes.

N — E quais os produtos da Monsanto que são comercializados aqui? A gente tem a soja Roundup, a soja BP?

F — Tem a soja resistente ao herbicida, e tem as sojas que são resistentes a herbicidas e a insetos. Nestas resistentes a insetos, eles colocavam apenas um gene de um desses Bacillus subtilis que estão aí. Mas o interessante é que tem muitas variedades de Bacillus subtilis e cada um tem uma proteína tóxica para um lepidóptero diferente, que pega melhor um tipo de praga que qualquer outra. Então no começo era um gene que só eles usavam. Agora eles estão fazendo como a gente chama stacking: colocam, por exemplo, três diferentes genes de Bacillus subtilis para ampliar o espectro das lagartas que podem atacar aquela plantação. Então você tem uma soja transgênica, que tem vários genes para várias lagartas, mais a resistência ao herbicida. Quer dizer, ela já vem muito preparada. Para o agricultor é um espetáculo. Porque o agricultor ou para de usar totalmente o inseticida, ou passa a usar muito menos. E depois, como ela tem resistência ao herbicida, qual é a grande vantagem? Uma vantagem ecológica importantíssima que o pessoal omite, esconde, os opositores. Quando você aplica herbicida, entre as fileiras da soja não cresce erva daninha. A erva daninha é terrível, extremamente competitiva com as plantas, vai competir por alimento e prejudicar a produção da planta. Então o que que a agricultura convencional faz? Mete o trator ali no meio, gastando gasolina, revolve a terra, ou se for na mão, na enxada, para arrancar a erva daninha do meio das fileiras. Esse trabalho quebra a estrutura do solo, afofa o solo. Cria um problema seríssimo, que é um dos maiores problemas da agricultura moderna, que é a perda de solo superficial. É só bater uma chuva ou um vento que aquela terra afofada vai embora, começa a perder aquilo que vai assorear rio; quando você usa o método do glifosato, você não precisa fazer isso, então o que acontece, você economiza gasolina, não produz CO2, não gasta com trator, não gasta com enxada, não afofa e não perde o solo superficial. É um monte de benefícios somados. Os americanos calcularam muito bem o beneficio, usam de monte. Agora aqui tá o pessoal fazendo aquela velha cantilena de que o glifosato é isso, o glifosato é aquilo, e ele é um dos herbicidas mais suaves, menos tóxicos que você pode encontrar.

N — Sim, é. Antes do glifosato, a gente usava herbicidas muito mais tóxicos, que, inclusive, apresentavam problema para quem aplicava.

F — Tem herbicidas muito fortes por aí. O glifosato é um herbicida que, nos EUA, todo cara que tem aquela grama na frente da casa usa o glifosato para tirar, lá tem gramas resistentes, eles usam glifosato para tirar as plantas daninhas. Todo mundo usa porque ele é pouco tóxico, tem toxicidade bem reduzida.

N — Aproveitando sua experiência na CTNBio, professor, como é o processo de regulamentação de um transgênico no Brasil?

F — Olha, é considerado um dos melhores do mundo. O pessoal da Europa, por exemplo, quando Valter Colli e nossos colegas foram lá conversar com o pessoal, porque a Europa luta, a Europa tem um movimento ambientalista muito forte, então eles lutam muito, eles não conseguem aprovar nada, não conseguem, têm uma dificuldade enorme de fazer qualquer coisa, até fazer uma pesquisa lá com transgênico é problema, porque o lobby ambientalista lá é fortíssimo. Então quando ele mostrou a nossa regulamentação, eles ficaram todos com inveja do que nós temos. Porque ela cobre, ela é muito segura, garante então a segurança, e a gente tem conseguido aprovar, a gente tem uma bela lista de produtos aprovados, a nossa agricultura é importantíssima, porque você vê, nós estamos nessa recessão e é umvdos poucos setores que não parou de crescer, porque está na mão de gentevcompetente, e que sabe usar a tecnologia. E mesmo os pequenos agricultores, alguns também já usam, embora tem muito lobby em cima dos pequenos para convencê-los de que não é bom, que é perigoso. Mas dentre os agricultores um pouco mais organizados…

N — Eles conseguem usar.

F — Então o Brasil aprova, agora é uma batalha, não? Entra um projeto novo, ele é distribuído ali, então a gente começa a discutir. Aí o que acontece, na hora de você, está tudo certo, vamos supor que tem uma votação, a gente, sempre tem os que são contra, por um detalhe ou outro, não pode aprovar, precisa de mais testes, precisa fazer testes com vários tipos de animais, sei lá, eles inventam coisas, você faz um teste de toxicidade com uma espécie de animal, aí o cara inventa que tinha de fazer com várias outras espécies. Por que? Ele não tem nenhuma lógica, porque quando você vê o desenho, o que você fez na planta, você vê que não tem nenhum motivo, você simplesmente introduziu o gen X do bacilo, o gen X em tal lugar, fez os testes em volta, não tem nada diferente, não gerou nenhuma proteína tóxica, aquela proteína entra no nosso tubo digestivo e ela é imediatamente digerida, ela é tóxica para aquele inseto e só para aqueles insetos, é segura para outros insetos, quer dizer, quando você vê, está tudo perfeito, mas aí o camarada vem “mas não fizeram o teste de longo prazo” , “não fizeram o teste de várias gerações”, quer dizer, o sujeito começa a inventar pelo em ovo para poder atrasar. E aí, no último momento, pede vistas para o projeto. Então o que acontece, você ia aprovar, votação já está tudo certo, já passou dois, três meses, discussões, testes, você faz um p**** relatório, com referências bibliográficas e tal, e bota para discutir, já tinha aprovado, aí o camarada faz um pedido de vistas, e ai temos mais um mês para a aprovação. Quer dizer, essa luta é constante. E as maldades, o sujeito vai à TV e fala que o pessoal que aprova é porque ganha dinheiro das empresas. Com acusações gravíssimas

N — Ah, sim! Estamos todos na lista de pagamentos da Monsanto, só que ela não pagou ninguém ainda.

F — E é uma coisa terrível, porque você joga uma acusação muito grave sem prova nenhuma, é só palpite. Joga aquilo ali no ar. Inclusive algumas vezes a gente quase processou o camarada, porque andou escrevendo coisas absurdas. Na verdade, o cuidado das empresas é muito interessante. As empresas americanas já faz um… Os EUA foram o primeiro país a dizer o seguinte: se você fizer corrupção fora dos EUA, nós vamos te processar aqui nos EUA. Olha só, eles fizeram isso. Se você der, pagar dinheiro por baixo para aprovar projeto, que é o que hoje a Lava Jato anda trabalhando, você vai ser punido dentro dos EUA, e lá você sabe que você não escapa. Então o que acontece? As firmas são muito cuidadosas. Esse método foi exportado depois de vários anos. Só depois de vários anos é que a Europa adotou esse processo. E quando ela adotou esse processo é que começaram a estourar esses processos, como o que pegou o Metrô de SP, ou pega a Lava Jato. Porque eles começaram a cair em cima dos caras lá na Europa, e aí, vazou para nós. Você vê como é interessante. 
Agora vou mostrar para você como eles são cuidadosos. Eu era membro da CTNBio, escrevendo artigo para explicar como é que é transgênico. Mandei e-mail para Singenta, para Monsanto, todas essas, pedindo fotos para poder mostrar como é o algodão transgênico perto do não transgênico, certo? Eles nunca me responderam. Eu fiquei indignado, o que que é isso? Eu sou um membro da CTNBio, não sou nem opositor, e eles não me respondem. Depois eu fiquei sabendo, conversando com caras ligados a esses processos, que eles não entram em conversa com você nem se for para esse tipo de coisa. Porque eles sabem que isso pode servir de argumento para alguém dizer que você tá recebendo coisas.

N — Só porque você teve contato com eles!

F — Eles são durões, mas durões mesmo. Aí fica mais ridículo esse papo de que você recebe para votar. Mas acontece.

N — E nesse processo de regulamentação existem testes em animais para avaliar toxicidade, e quais são os testes ambientais que são feitos?

F — Nossa, os testes ambientais são um negócio de ficar doente. Ainda bem que não era a área que eu fazia, porque minha área era a área de saúde. Eu ficava mais de olho na parte dos animais e tal. Mas o pessoal do vegetal tem um, é uma tortura, porque você mede, mesmo depois que você aprova, você tem que ver o efeito daquele transgênico, nos bichinhos que nascem ali no mato, nas culturas, nos insetinhos, nas lagartas que ficam o tempo todo na terra. É uma coisa um pouco ridícula, porque, num campo de cultivo, você não quer criar insetos, não quer criar outras coisas, você quer criar suas plantas. Mas eles querem ver o impacto, tem mil testes, e, depois que o transgênico é aprovado, tem um período em que a empresa é obrigada a fazer essas medidas e ver se está havendo alteração da ecologia, o que está acontecendo com vários tipos de insetinhos, que vivem nessas plantações, se eles estão sendo prejudicados de uma maneira especial porque aquela cultura é transgênica. Então tem um acompanhamento antes para aprovar e depois você fica monitorando no campo para ver se não vai acontecer alguma coisa indesejável para a ecologia naquele ambiente.

N — Existe alguma regulamentação como nos EUA de manter uma distância segura de plantações vizinhas?

F — Existe, e o pessoal da oposição está sempre querendo aumentar essas margens. Tem uma margem de 15, 20 m, e eles querem sempre mais. Agora, essa história de migração de genes é interessante. É outro mito, não é um problema real, é um problema inventado. Você vê, são mais de duas mil plantas que foram modificadas por radiação, no passado, e que estão na nossa mesa. Praticamente tudo, muita coisa que você está comendo foi irradiada, para gerar aquela variedade. Então o que acontece, nós estamos comendo, estamos nos alimentando com essas coisas. E esses genes modificados, dos quais, como falei para você, deve ter pelo menos uns dez genes alterados em cada planta dessas, esses genes estão se espalhando por aí também. Nesse caso não tem barreira, não tem que haver separação entre uma cultura e outra.

N — E não dá para detectar porque ninguém sabe quais são os genes.

F — Outra coisa importante, crucial, é que, como você não sabe quais foram modificados, você não sabe nem o que procurar para saber até que ponto eles estão se espalhando. E nunca houve nenhuma evidência de que essas duas mil plantas modificadas ao acaso tenham criado problemas ecológicos. Porque toda planta, mesmo as plantas de milhares de anos atrás que a gente herdou dos nossos antepassados, elas já são plantas tão trabalhadas pela humanidade, que a gente pode dizer que elas são iguais ao seu cachorrinho de estimação.

N — Inclusive eles falam em plantas domésticas.

F — Elas são todas plantas domesticadas. Se você pegar qualquer dessas plantas e jogar no mato, você vai ver que ela não vai progredir. As plantas daninhas vão tomar conta dela, ela vai ser dizimada, ela não vai conseguir avançar. Agora, você pega uma praga e bota ela aqui ela se espalha que nem uma louca. Todas as nossas plantas têm essas características.

N — Com certeza. Professor, eu queria fazer uma última pergunta, então. Como é que o senhor imagina o mundo hoje sem transgênicos, se não existisse essa técnica?

F — Certamente nós íamos perder. A gente ia perder produtividade, a comida ia ficar mais cara, a gente ia perder mais solo superficial, amanhã é capaz de a gente ter plantas com produtividade realmente mais alta, então nós íamos avançar em florestas, nós íamos ter mais contaminação com inseticidas, existiria um mundo pior. E ele podia estar sendo bem melhor se não houvesse essa oposição tão forte. Você vê, a Europa não deixa o transgênico ser comido por pessoas, mas os animais, porcos, gado, todos os animais na Europa comem os transgênicos que nós produzimos aqui e mandamos para lá. Você vê que coisa engraçada. Eles acham que o transgênico não faz mal para porco e nem para galinha, mas faz mal para o homem.

N — E depois eles comem o porco.

F — Alguns ambientalistas mais extremistas queriam que você marcasse que aquele porco comeu transgênico. Por um símbolo na carne que vai vender no supermercado. Para você poder fugir daquela carne.

N — No Brasil existe a discriminação no produto? Se o produto contém organismo geneticamente modificado?

F — Eu acho que na carne não existe. Agora, existe na ração, por exemplo. Eu vou comprar ração para meus cachorros, ela tá com aquele T, porque contém soja modificada.

N — Nos alimentos que a gente consome é obrigatório ter essa distinção?

F — É obrigatório. O óleo de soja tá lá com T. Existe essa marcação. Que é uma coisa que eu concordo com os americanos. Não deve existir. Porque aquilo você põe quando tem um perigo. Se você não detectou perigo, como na verdade não existe, não devia por. Porque aquilo é uma discriminação contra aquele produto.

N — No caso, se fosse por aí, você deveria discriminar no caso de produto irradiado que “este produto foi obtido por mutação produzida por radiação ionizante”.

F — Você já pensou se a gente colocasse isso em duas mil plantas? De repente ia dar um pavor geral.

N — Com certeza.

F — De radiação tem mais medo ainda.

N — Professor, muito obrigada. Tenho uma última pergunta que para nós aqui do Café na Bancada é muito importante. Nós queremos saber como que o senhor prefere seu café.

F — Ah! O café?

N — Nós tomamos muito café. Então a gente sempre pergunta para nossos entrevistados: como o senhor toma seu café?

F — Eu sempre faço meu café com aqueles bulezinhos tipo italiano, faço sempre na hora, e o que acompanha meu café da manhã é sempre, eu gosto de cereais, então é sempre tomo uma mistura de cereais com leite incluindo linhaça e granola e canjica.

N — Com milho transgênico!

F — Se tiver transgênico eu prefiro, porque a vantagem do milho transgênico, avise para seu pessoal: milho transgênico tem dez vezes menos toxinas que vêm dos fungos, porque, como ele não tem aquele furo do inseto, é ali que o fungo que produz micotoxinas se instala e a micotoxina pode gerar câncer do fígado e, se, for comida em grande quantidade, pode até matar. Então você está livre dessa contaminação, dez vezes menor no milho transgênico. Então coma o milho transgênico.

N — Fantástico, professor. Muito obrigada!

F — Eu fico à disposição.

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