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ago 04

Ciência no Brasil 2037: uma visão do futuro

Viver no Brasil de 2037 não está nada fácil. Outro dia conversei com um amigo cuja mãe estava cega como sequela de diabetes.

_ Mas como assim diabetes? – perguntei – Ela não se tratava?

_ Tratava sim. Mas quando o Brasil parou de produzir insulina e começou a importar, ficou muito caro, e muita gente parou de usar.

_ Poxa, eu achei que era de graça no SUS!

_ E era mesmo, até 2022. Mas aí não tinha mais verba para continuar a produção nacional que abastecia o SUS. Os cientistas venderam a patente para uma empresa americana, e agora temos que importar.

_ Isso foi na mesma época da praga do feijão? Nossa, que saudades do tempo que a gente comia arroz e feijão, lembra? Era marca registrada do Brasil, agora tem criança que nem sabe como é.

_ Foi na mesma época sim. Deu aquela mosca, né? Acabou com as plantações. E o inseticida também era muito caro, e foi proibido porque matava todos os insetos e não só a praga. Dizem que, uns anos antes, tinha uns caras duma tal Embrapa desenvolvendo um feijão transgênico que era resistente a essa praga. E nem precisava do inseticida. 

_ Embrapa? Nossa, faz tempo, hein? Eu lembro da Embrapa, sim. Era um orgulho para o Brasil. Um centro de pesquisa enorme.

_Centro de pesquisa no Brasil? Isso é coisa muito antiga…

_ Mas tinha! E faziam ciência de ponta lá. Mas quando cortaram todo o investimento em ciência, o treco parece que fechou, e os cientistas que puderam foram todos pro exterior. O resto acabou mudando de área.

_ Nossa, nunca imaginei… E faziam transgênicos aqui? Achei que biotecnologia era coisa só dos gringos. Faz uns 10 anos que eu não como feijão. Uma amiga minha trouxe uma latinha dos EUA outro dia, disse que lá é baratinho, veja só. Se eu conseguir, vou mudar pra lá com minha família. Na minha cidade, todo verão tem epidemia de dengue, zika e chikungunya. Minhas filhas já pegaram dengue duas vezes. Tem muito bebê com microcefalia também. Os hospitais ficam lotados e a cidade para!

_ Ah, eu sou vacinado.

_Sorte a sua que na sua época tinha vacina, hein? Eu não tive essa sorte, nem as minhas meninas.

_ Na minha época, o Brasil era líder em pesquisa nessa área. E tinha um Instituto chamado Butantan, não sei se você se lembra porque você é muito jovem. Eles desenvolveram uma vacina de dengue que era a melhor de todas. Mas, depois, o Instituto fechou, e nem sei o que aconteceu com essa vacina… e as outras que eles produziam, agora só importando. O Brasil já foi um exemplo de campanhas de vacinação, sabia?

_ Nossa, sério? No Brasil? Produção própria? 

_ Sim. E agora tanta gente morrendo dessas doenças, né?

_ Nem me fale. Outro dia, morreu um amigo meu também, sei lá de que infecção. Os médicos falaram que não tinham antibiótico para tratar porque era uma bactéria multi-resistente, e os remédios que temos são todos importados e muito caros. E também vieram com uma conversa de que a culpa é dos produtores, que há anos vêm usando tudo que é antibiótico nas criações. Mas é assim mesmo, né? Esse país é uma merda. Se tivesse investimento em educação e ciência, nós mesmos íamos produzir todos esses remédios e vacinas.

_ Mas a gente tinha ciência 20 anos atrás! Só que cortaram nosso investimento, daí deu nisso. E tinha uma agência regulatória também, chamada ANVISA. Era tipo uma FDA americana, mas fecharam. Essas agências checam como são pesquisados os medicamentos, se tem evidências científicas de que funcionam e de que não fazem mal para as pessoas. Era lá que decidiam quais remédios iam para o mercado, e se podia usar antibiótico na produção, essas coisas. Mas, na mesma época em que cortaram o investimento em ciência, decidiram fechar a agência, e, a partir daí, tudo era decidido no Congresso, inclusive quais remédios a gente podia usar. Aí virou uma bagunça. 

_ Ah vá! O Brasil nunca teve cientistas, nem centro de pesquisas. Por isso que está essa porcaria, não tem saúde, não tem transporte de qualidade, não tem tecnologia. O resto do mundo todo usando biocombustível renovável, e a gente aqui com esses carros que queimam gasolina e poluem, nada de carros elétricos. Tudo é importado, não se gera nada de conhecimento aqui. Agência regulatória? Como, se não tem cientistas no país?

_ Você não se lembra. Eu lembro como era há 20 anos, eu trabalhava na Universidade. O governo da época cortou 50% do orçamento em ciência. E foi piorando a cada ano. As Universidades foram fechando, os cientistas indo embora… E o conhecimento foi se perdendo. 

_ E você quer que eu acredite que o Brasil tinha cientistas, ou seja, pessoas estudadas, preparadas, que quando o governo cortou a verba ficaram sentados como bebês de quem roubaram o pirulito? Ninguém fez nada? Não teve protestos, mobilizações?

_ Até teve, mas foram discretos. Era um pessoal acostumado com o esquema. Recebiam financiamento e faziam suas pesquisas sossegados. Quando destruíram o esquema, ninguém sabia o que fazer.

_ E não tentaram mudar o esquema? Pegar investimento privado, fazer parcerias?

_ Alguns até tentaram, mas a burocracia era tanta que desistiram.

_ Peraí. Então não teve grandes mobilizações para mudar o esquema de financiamento, nem grandes tentativas de mudar o esquema de financiamento? E conscientização da população, apoio popular, teve? Apoio de parlamentares? 

_Também não teve muito, porque os cientistas não estavam acostumados a falar com a população, então ninguém sabia que se fazia ciência no Brasil e que era importante. Até hoje as pessoas não sabem. Percebem que não tem saúde, nem educação, nem tecnologia, mas não sabem o que gerou tudo isso. Ninguém relaciona isso com falta de investimento em ciência.

_ Entendi… Poxa, me desculpe, mas parece que esses cientistas de 20 anos atrás eram meio frouxos, hein?

_ Não, eles eram pessoas muito legais que queria contribuir para a sociedade. Só ficaram perdidos. Não era um pessoal que queria dinheiro para si. Eles queriam dinheiro para poder estudar, trabalhar, gerar conhecimento. Ingênuos, talvez, mas não frouxos. E foram engolidos por um sistema corrupto e baseado na ignorância do povo.

_ Eu teria feito diferente! Teria feito protestos, parcerias privadas, teria passado por cima da burocracia, tinha que ter um jeito!

_ Acredito que eles também fariam, se pudessem voltar atrás… Principalmente acho que tentariam mostrar para a população e para os dirigentes que não se constrói um país sem ciência. O conhecimento é a base de tudo. Olha só o que aconteceu. 

_ Bom, vou indo porque demora umas 3 horas ainda para eu chegar em casa. O ônibus é devagar. E ainda tenho que passar no posto de saúde do SUS pra pegar os cristais para a diabetes da minha mãe. Não tem insulina, mas me disseram que essa terapia de cristais é tiro e queda! Uma das minhas meninas falou outro dia que quer ser cientista quando crescer! Falei pra ela, minha filha, só se o papai ficar muito rico e a gente mudar de país, aqui no Brasil não tem essas coisas não. Vai estudar aonde? Nem Universidade nós temos…

_ Olha, você me parece um cara legal, vou compartilhar uma coisa com você: tenho um grupo de ex-cientistas que ficaram no Brasil, e nós temos uma reunião semanal para discutir como trazer a ciência de volta para o nosso país. Você quer participar? O nome do grupo é “Amigos de Darwin”!

_ Darwin… esse nome não me é estranho. Quem é esse cara?

 

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