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out 09

Ciência, pseudociência e dragões

Qual a diferença entre ciência e pseudociência? Basicamente, podemos dizer que a ciência busca a negação, e a pseudociência – a falsa ciência –  busca a confirmação. Como é? Quer dizer que a ciência quer ser negada? Sim. Esse é o cerne do método científico. A partir de observações, o cientista faz uma hipótese. Em seguida, ele pensa em diversas maneiras de testar essa hipótese. Se, após esses testes, a hipótese não for negada, o cientista assume que ela é verdadeira. A pseudociência, por outro lado, formula uma hipótese a partir de observações. Mas não tenta negá-la. Pelo contrário, tenta confirmá-la, utilizando mais observações, depoimentos e experiências pessoais. E resiste a qualquer tentativa de colocar sua hipótese à prova.

Em seu livro “O mundo assombrado pelos demônios”, Carl Sagan busca explicar essa diferença crucial entre a ciência e a pseudociência. E, para isso, ele propõe uma brincadeira. Imagine que um amigo seu lhe diga que existe um dragão morando em sua garagem. Você certamente vai querer conferir. Então você segue seu amigo até a casa dele e não vê nada.

“Onde está o dragão?”

“Ah, esqueci de dizer”, explica o amigo, “trata-se de um dragão invisível”.

Você então propõe espalhar farinha no chão para visualizar as pegadas do dragão. Mas não daria certo porque ele flutua. Que tal então usar infravermelho para detectar o calor do fogo do dragão? Também não daria certo, porque o fogo do dragão é desprovido de calor. E se jogarmos tinta aleatoriamente pelo ar, e aí acertamos uma parte do dragão? Seria uma boa ideia, se o dragão não fosse incorpóreo, então a tinta não vai pegar.

Você pensou em várias maneiras de TESTAR a hipótese do seu amigo de que existe um dragão na garagem. Se você fosse incapaz de REFUTAR essa hipótese com os seus testes, você teria evidências da existência do dragão. Mas, do jeito como lhe foi apresentado o problema, você não consegue nem sequer fazer os testes. A hipótese do seu amigo não é FALSEÁVEL. Lembra da explicação do método científico de Karl Popper? Aquele dos gansos?

A ciência funciona assim. O método científico consiste em testar hipóteses. Os testes são feitos para tentar falsear a hipótese, ou seja, para tentar negá-la. Se for impossível negar a hipótese (lembra do exemplo da pizza?), a ciência aceita que essa hipótese é verdadeira. Pelo menos até que alguém seja capaz de refutá-la. Se isso acontecer, a hipótese deixa de ser verdadeira, e torna-se necessário buscar outra hipótese. A ciência não é um conjunto de informações, como geralmente as pessoas pensam. A ciência é uma maneira de pensar. A ciência precisa do ceticismo e do pensamento crítico para buscar os fatos e a verdade. E, ao contrário do que se imagina, o cientista tem perfeita consciência de não saber a verdade absoluta. Ele sabe ter a melhor hipótese naquele momento. E é justamente essa consciência que faz com que a ciência e o método científico sejam confiáveis para testar se algo funciona ou não.

Para testar um medicamento novo, por exemplo um novo antibiótico, você precisa partir de uma observação. Imagine que, ao trabalhar com bactérias, você percebe que o composto X mata uma boa parte delas. O composto X parece um bom candidato a antibiótico. Mas ele precisa ser testado. O próximo passo é testar o composto X em uma cultura de bactérias. Você coloca o composto em um tubo de cultura com bactérias, e elas morrem. Legal, tudo indica que você acertou. Mas isso ainda não é suficiente. Você precisa pensar em mais testes para NEGAR sua hipótese. E se as bactérias morreram por causa de algum outro componente do meio de cultura onde elas estavam?  

Você testa novamente o composto X, e desta vez você faz um tubo controle. Seu controle terá todos os componentes necessários para o meio de cultura da bactéria, MENOS o composto X. Se elas morrerem mesmo assim, então não é o X que mata as bactérias e sua hipótese foi negada. Mas as bactérias cultivadas sem o X sobreviveram. Ótimo, vamos pensar em mais um teste. Você sabe que essa bactéria é letal em ratos. Vamos inocular os ratos com a bactéria, e trata-los com o X. Se eles morrerem mesmo assim, o X não funciona.

Os ratos sobreviveram. Mas isso não basta para confirmar a hipótese. E se os ratos sobreviveram por algum outro motivo? Precisamos de outro controle. Vamos dividir os ratos em dois grupos. Só um grupo de ratos vai receber o X. O outro vai receber um líquido similar, mas sem o composto X. Após o experimento, você vê que os ratos que tomaram o composto X sobreviveram e TODOS os outros morreram. A ÚNICA diferença entre os ratos que sobreviveram e os ratos que morreram foi o composto X. Agora sim, você tentou refutar sua hipótese de várias maneiras e ela resistiu. O composto X é muito provavelmente um antibiótico. UFA! Exaustivo, não? Mas é assim que se faz ciência.

Vamos voltar ao dragão, e aplicar nele o método científico. Vamos supor que fosse possível detectar as pegadas do dragão. Ou seu fogo. Em outras garagens, a mesma técnica de espalhar farinha e usar raios infravermelhos detectaria outros dragões. Esses experimentos seriam reproduzíveis por qualquer pessoa. No mundo todo, cientistas usariam farinha e raios infravermelhos para detectar dragões. Garagens desprovidas de dragões seriam usadas como grupo controle. Nestes casos, a farinha e o infravermelho seriam incapazes de detectar qualquer sinal, pois nessas garagens sabidamente não haveria dragões. Seria possível detectar dragões onde havia evidências de sua presença, e seria impossível detectar dragões em garagens onde eles certamente não estariam presentes. Teríamos, então, evidências suficientes para dizer que sim, existem dragões nas garagens de algumas pessoas, e poderíamos descobrir em quais garagens eles estão.

Mas se o dragão é invisível, não emite calor e é incorpóreo, a hipótese não pode ser testada. Você precisa simplesmente acreditar que o dragão existe. Assim funcionam as crenças religiosas e as pseudociências. A diferença é que as crenças religiosas – pelo menos a maioria delas – admitem que são movidas pela fé. Elas admitem que são crenças. Não tentam enganar nem iludir os seus fiéis dizendo que podem provar cientificamente a existência de Deus, aparições de santos ou milagres. A pseudociência, no entanto, finge-se de ciência para enganar o público. Utiliza a linguagem da ciência e busca o endosso dos cientistas para vender uma ideia, um produto ou um serviço. Algumas são inócuas, como a astrologia. Que mal faz olhar o horóscopo? Quem pratica a astrologia não está fazendo mal a ninguém. Mas as pessoas têm o direito de saber que astrologia não é ciência. O mesmo ocorre com a medicina alternativa, homeopatia, uso de cristais terapêuticos, florais, cura pelas mãos, reiki, energias curativas e afins. Todas essas práticas são pseudociências, e algumas delas são tão difundidas que vão ganhar um post próprio. E nem todas são inofensivas para a sociedade. Nos próximos posts, vou abordar a prática da astrologia, homeopatia e acupuntura. E falarei também do efeito placebo.

Não pretendo criticar nem condenar as pessoas que adotam essas práticas. Defendo a liberdade de cada um de acreditar no que bem entender e usar aquilo que lhe convier, desde que não cause danos a ninguém. Pretendo simplesmente demonstrar que não são práticas científicas. Não podem ser explicadas pela ciência, ou abordadas pelo método científico. Pode até ser que funcionem. Mas não são ciência, não se encaixam no método científico e não são reproduzíveis. Portanto não podem se valer do endosso da ciência para comprovar sua suposta eficácia.

Até hoje, não se conseguiu provar pelo método científico que essas práticas funcionam. Também não se pode provar que não funcionam. Elas são como o dragão na garagem. Eu não posso provar que ele NÃO existe. Assim como não posso provar que Papai Noel não existe. Eu posso apenas apontar as MUITAS evidências em contrário. E também posso indagar, assim como Carl Sagan, qual seria a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo e que não emite calor, e um dragão inexistente?

Admito que há coisas que a ciência não explica. O fato de eu ter tomado sete xícaras de café para escrever este post e ser perfeitamente capaz de ir dormir em seguida – apesar de a cafeína ser comprovadamente um estimulante – é um exemplo. Mas certamente o fato de a ciência não conseguir explicar certos fenômenos não lhes confere credibilidade.

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2 comentários

  1. glauber dos santos laus

    Comentário infeliz dessa senhora, vc é uma menina que pelo jeito estudou almanaques , leia mais a respeito sobre o pulo da gado dessa substancia que somente os pesquisadores da usp tem, pesquisadores amigos meus dos EUA tem se mostrado curiosos !!!! Para de falar besteira!!!!!!! MInha senhora essa subtancia ja existe no nosso corpo e ja foi feita sintéticamente a pelo menos 70 anos, mais na formulação da usp tem algo a mais que seus pesquisadores guardam com direito !!!!!

    1. Natália Pasternak Taschner

      Caro Glauber,
      Estou confusa. Sou uma senhora ou uma menina? E tem certeza de que comentou o post correto? A não ser que você queria discutir pseudociência, desconfio que está se referindo à fosfoetanolamina. Então deixe-me elucidá-lo. Primeiramente, vamos à sua ofensa pessoal. Sou bióloga, formada pela USP, com doutorado e dois pós-doutorados também pela USP, na área de genética molecular. Não sou menina, nem tampouco estudei almanaques. Sou uma cientista séria, trabalhando na área desde 2001. Sou desta mesma universidade que você tanto preza. Realmente, a fosfoetanolamina existe no nosso corpo. Assim como também o colesterol, e a adrenalina. Uma overdose de adrenalina, igualzinha a esta que existe no seu corpo, irá matá-lo em minutos. Uma overdose de colesterol, por um período longo da sua vida, igualzinho a esse que seu corpo produz, irá matá-lo lentamente. Quanto à fabricação, realmente, a substância já é sintetizada e comercializada nos EUA sob o nome de calcium-EAP (avise seus amigos americanos, eles podem comprar em qualquer loja de suplementos). O que o grupo do IQSC fez foi patentear uma maneira mais barata de sintetizar a substância, além de fazer uma parceria com um laboratório do Insituto Butantan para realizar os testes em culturas de células e animais, os testes pré-clinicos. Esses se mostraram muito promissores, e o grupo finalmente, após 20 anos de distribuição ilegal e estagnação da pesquisa, partiu para a busca dos testes clínicos, em humanos, que esperamos sejam em breve realizados. Pessoalmente, torço para que os testes tenham sucesso e que o fármaco realmente seja eficaz. Mas por enquanto, é um fármaco, e para virar um medicamento, terá que passar por todas as etapas previstas em lei. Acredito que cada um tem o direito de decidir o que quer tomar. Se alguém quiser tomar urina de gato achando que cura o câncer, eu não posso impedi-lo, assim como não posso impedir ninguém de se jogar do alto de um prédio. Mas a minha OBRIGAÇÃO, como cientista, e como divulgadora da ciência, é informar, para que as pessoas justamente possam tomar uma decisão informada. Recomendo que ouça o café cast com o professor Alexandre Barbuto, do depto de imunologia aqui da USP no nosso site, que leia o depoimento do Dr. Paulo Hoff, diretor do hospital Sírio Libanês, e a carta aberta do reitor da USP. Os depoimentos do Dr Drauzio Varella também estão muito didáticos. Você verá que todos eles partilham da minha posição. A substância pode ser fantástica, mas precisa ser testada antes de ser liberada. E a USP não pode ser forçada a praticar atos ilícitos. Vale a pena também conferir a recente decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que cassou as liminares de distribuição da susbtância. Depois disso, recomendo que o você publicamente mande todos esses renomados cientistas e medicos “parararem de falar besteira”. Ou será que o insulto pessoal é só para a “menina” que escreve um blog? Como todo o respeito, eu o convido para que em uma próxima intervenção, possamos trocar idéias e não insultos.
      atenciosamente,
      Dra Natalia Taschner

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