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ago 19

Comendo feito passarinho

“Eu não sei por que eu engordo! Eu como feito um passarinho!” Quem nunca ouviu um amigo fazer essa comparação, carregada de angústia? O que talvez seu amigo não saiba é que tudo depende do passarinho. Vários ditados populares relacionam nosso modo de vida e capacidades com habilidades específicas dos animais. Forte como um touro, sábio como uma coruja, bêbado como um gambá, comendo como uma vaca, ligeiro como uma lebre, olhos de águia, memória de elefante e vários outros…Pois bem, o Café na Bancada decidiu explorar o que está por trás de cada um desses ditados, e se você, leitor, quiser sugerir algum, fique à vontade para contribuir com a nova série “Agindo como um animal”.

E voltemos ao problema de peso do seu amigo. Comer feito passarinho pode não ser exatamente sinônimo de comer pouco, principalmente se o pássaro em questão for um beija-flor. Esses pequeninos, medindo de 5 a 13 cm em média, passam literalmente o tempo todo comendo. E só para continuar vivos, precisam ingerir aproximadamente de duas a três vezes o seu peso em néctar de flor. Imagine se você tivesse que consumir isso em quantidade de açúcar. Um homem de 70 kg precisaria comer de 140 a 210 kg de açúcar por dia! Ou, se pensarmos em calorias, algo em torno de 560.000 kcal por dia. Nada mal comparado às 2.500 kcal normalmente consumidas por um homem desse porte. Para alcançar essa ingestão calórica, você teria que comer aproximadamente 1.000 big macs, 2.900 barras de Toblerone, ou tomar 4.000 latinhas de refrigerante.

beija-flpr hoveringO beija-flor precisa de toda essa energia porque seu metabolismo é o mais alto dentre todos os animais endotérmicos (animais de sangue quente). Ou seja, só para estar vivo, ele gasta MUITA energia. Esse enorme gasto energético decorre de uma frequência cardíaca de 1200 batimentos por minuto – a nossa varia de 60 a 100 – e da habilidade de bater as asas de 50 a 200 vezes por SEGUNDO! Sim, é isso mesmo, por segundo. A capacidade de pairar no ar como um helicóptero permite que o beija-flor se alimente de néctar de flores, mas esse tipo de vôo gasta muita energia. Assim, somente para sobreviver, esse passarinho precisa passar quase o dia todo comendo. O que nos leva a um paradoxo da evolução: será que o beija-flor paira no ar para se alimentar de néctar ou ele se alimenta de néctar porque paira no ar?

E, quando dorme, precisa baixar seu metabolismo para aguentar o período de jejum sem literalmente bater as botas – ou as perninhas. O beija-flor é um dos únicos pássaros que entram em estado de torpor, no qual ele reduz significativamente seu metabolismo, e utiliza sua pequena reserva de gordura para conseguir acordar no dia seguinte. Quando o torpor – a redução do metabolismo – dura meses, chamamos de hibernação. Alguns animais hibernam durante o inverno, evitando, dessa maneira, um gasto energético excessivo que seria necessário para manter a temperatura nos meses mais frios. Mas, nesse caso, é um evento diário, que independe da temperatura externa.

Ele possui outra vantagem em relação a nós, humanos, e aos demais animais: consegue utilizar quase todo o açúcar do néctar imediatamente, como combustível para os músculos. Nós só conseguimos usar uma parte do açúcar recentemente ingerido para exercício físico, geralmente menos de 30%. Para o resto da energia necessária, precisamos utilizar nossas reservas de gordura. A grande maioria das aves também utiliza suas reservas de gordura como combustível para o voo.

Esse pequenino incansável apresenta ainda outra vantagem: ele consegue utilizar frutose com a mesma capacidade que utiliza glicose – um feito inédito entre todos os animais vertebrados. A sacarose, presente no néctar, é composta por glicose e frutose. No nosso caso, pelo menos 50% da frutose que ingerimos precisa ser metabolizada no fígado, e seu excesso será estocado como gordura. Além disso, em humanos, a taxa de utilização de frutose pelos músculos, onde será convertida em lactato, é menor do que a da glicose. Para o beija-flor, parece não haver diferença de aproveitamento entre esses dois açúcares.

Ou seja, o beija-flor come açúcar o dia inteiro, e ainda por cima não engorda, porque apenas uma pequena parte disso é convertida em gordura, e ele ainda vai usar essa gordura para o tempo em que fica em jejum. Mas se você ficou com inveja, lembre-se de que ele vive sempre no limite. Imagine ir dormir todos os dias sem saber se você vai ter energia suficiente para acordar no dia seguinte? Acho que prefiro as gordurinhas e minha dieta de meras 2.000 kcal…

Outra desvantagem de ser beija-flor é que, além de ter que comer sem parar, você precisa proteger seu território de outros beija-flores, que competem com você pelas flores! As flores demoram para secretar néctar, e parece ser vantajoso para o animal se ele controlar e tiver acesso às suas flores preferidas sempre que quiser. Compreensível, um jeito de dizer “sai daqui que o Toblerone é meu, deu muito trabalho para encontrar”.

Mas nem só de néctar vive nosso magrelo atômico. Na fase de procriação, as fêmeas capturam pequenos insetos para se alimentar e alimentar suas crias. Sim, só as fêmeas, porque os machos dessa espécie somem depois de acasalar, e deixam as fêmeas sozinhas para cuidar dos ovos e dos filhotes. Definitivamente, prefiro minhas gordurinhas…  Na ausência de flores, em regiões mais frias, alguns beija-flores se aproveitam do amigo pica-pau, que se alimenta, entre outras coisas, de seiva de árvores; o pica-pau costuma deixar um fio de seiva fluindo, e o pequeno beija-flor aproveita a oportunidade.

Considerando que o beija-flor alimenta-se de açúcar, pode-se especular se suas bactérias intestinais são diferentes das bactérias das demais aves. Isso pode ser importantíssimo, já que se acredita que as aves não possuem uma habilidade que parece ser exclusiva de mamíferos: a de soltar pum! Uma razão para isso seria a de que as aves possuem o intestino mais curto, evitando a formação de gases, ou o fato de que não possuem as mesmas bactérias fermentativas, responsáveis pela produção de gás, do intestino de mamíferos. Infelizmente, não encontrei nenhuma publicação científica sobre esse relevante assunto, então fica a dúvida: com sua dieta quase exclusiva de carboidratos, seriam os beija-flores as únicas aves que peidam? 

Moral da história: se o seu amigo quer comer como um beija-flor, melhor se preparar para bater as asinhas 200 vezes por segundo o dia todo, em um estilo Michael Phelps, que dizem que ingere 12.000 kcal por dia – ou seja, se descobrirmos que ele também prefere encarar uma briga do que dividir o Toblerone com os amigos, podemos dizer que esse, sim, é quase um beija-flor. Na verdade, quem come como um passarinho é aquele outro amigo, que todo mundo também conhece, o “magro de ruim”, que come muito e não engorda. Quando encontrá-lo, pode lhe dizer sem medo de errar “cara, você come feito um beija-flor”! E se ele não entender, diga-lhe que precisa ler o Café na Bancada! E finalmente, se algum dia você ver um beija-flor soltando pum, favor avisar. 

 

 

Chen, C. C. W. and Welch, K. C. (2014), Hummingbirds can fuel expensive hovering flight completely with either exogenous glucose or fructose. Funct Ecol, 28: 589–600. doi:10.1111/1365-2435.12202

The ecological and evolutionary interface of hummingbird flight physiology

Douglas L. Altshuler, Robert Dudley

Journal of Experimental Biology 2002 205: 2325-2336;

 

http://nationalzoo.si.edu/scbi/migratorybirds/webcam/hummingbirds.cfm

http://www.popsci.com/environment/article/2009-05/it-true-birds-cant-fart

http://blog.lauraerickson.com/2007/04/question-of-day-do-birds-fart.html

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1 comentário

  1. Ewerton Arrais

    Natália, muito interessante e um excelente texto (como sempre). 😀

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