maio 06

A culpa é da sua mãe!

 

Em homenagem ao dia das mães, devo dizer que não somente a culpa, mas também o mérito, quando for o caso. Mas culpa (ou mérito) do quê, exatamente? Durante muitos anos, travou-se uma discussão acirrada na ciência sobre quais características nos seres humanos seriam determinadas geneticamente ou através de interações com o ambiente. Será que o formato do seu corpo, seu jeito desinibido ou nervoso, e até mesmo doenças como depressão, esquizofrenia e diabetes são determinados pelo seu DNA? Ou pela maneira que você foi criado? Sempre escutamos as justificativas de que “isso é genético, muito comum na minha família”, ou ainda “isso é resultado da rejeição ou abusos sofridos na infância”.

A resposta mais provável para esta disputa é que nem o seu DNA somente, nem a influência do ambiente somente, mas a relação entre ambos, determina suas características. Mas até aí, isso não é novidade, certo? A novidade está em entender como esses processos se relacionam, de tal maneira que o ambiente influencia diretamente o funcionamento do nosso DNA, e pode afetar as próximas gerações. Este é o objeto de estudo de uma ciência inovadora chamada Epigenética.

A epigenética demonstra que a alimentação e o comportamento da sua mãe durante a sua gestação e a sua primeira infância fazem modificações bioquímicas no seu DNA, e determinam como seus genes irão se regular no decorrer da sua vida! Estas modificações podem ser permanentes, e você pode transmiti-las aos seus filhos. Assim, algo que sua mãe comeu durante a sua gestação, ou algum elemento ou estresse ao qual ela foi exposta, pode ter um efeito na vida dos seus filhos ou netos.

agoutimice425Confuso? Vamos por partes. Veja os camundongos na foto ao lado. Eles são geneticamente idênticos. São clones, irmãos gêmeos. Todo o seu DNA é absolutamente idêntico. Como explicar então que um deles é gorducho e amarelo, e o outro é magrinho e marrom? Além das diferenças na aparência, o camundongo gorducho tem tendência a diabetes e desenvolvimento de tumores, enquanto o marrom magrinho é perfeitamente saudável. Eles cresceram no mesmo ambiente.

O amarelo carrega uma diferença epigenética no gene agouti. Este gene está presente em todos os mamíferos. Nos animais amarelos, no entanto, o gene agouti não foi devidamente metilado. Como é que é?

Nosso DNA é uma sequência de nucleotídeos (A-T-C-G, lembra das suas aulas de genética?). Podemos ter, acoplados a esta sequência, grupos metil – CH3. Estes grupos químicos podem impedir a leitura de um gene, contribuindo, assim, para que este gene esteja ativo ou não. A sequência do gene está lá, com todas as letras. Mas a presença de um radical metil pode atrapalhar a leitura, impedindo que o gene desempenhe sua função. Seria como desligar o gene.

esquema agoutiEm um animal saudável, o gene agouti está normalmente desligado, com vários grupos metil acoplados ao DNA, impedindo sua função. Nos animais amarelos, o DNA apresenta-se sem a metilação, e o gene está ativo, causando a mudança de cor na pelagem, além da propensão a obesidade, diabetes e câncer. E o que isso tem a ver com a mãe deles? Pois é, a única diferença na vida desses dois camundongos foi a dieta de suas mães. A mãe do animal marrom foi alimentada com uma dieta rica em grupos metil. O grupo metil está presente em alimentos comuns como alho, cebola e beterraba, assim como em suplementos de ácido fólico e vitamina B12, normalmente prescritos para mulheres grávidas. Graças à dieta rica em metil, as mães dos camundongos marrons passaram para sua prole um gene agouti metilado, desligando, assim, seus efeitos deletérios. Portanto, a “culpa” das doenças do animal amarelo é de sua mãe!

Outro experimento, feito com os mesmos animais, avaliou o efeito de um componente até então comum em mamadeiras de bebê e diversos tipos de plástico: o bisfenol A (BPA). Hoje sabemos que este composto está relacionado com alterações na produção de estrogênio e surgimento de tumores, obesidade e diabetes. Foi demonstrado que BPA reduzia a metilação do gene agouti, causando um efeito epigenético. Este efeito foi revertido com uma dieta rica em metil nas fêmeas grávidas. A prole destas fêmeas, apesar da ingestão de BPA, foi saudável, constituída por animais marrons e magros. A dieta rica em grupos metil, portanto, foi suficiente para superar os efeitos deletérios do BPA, restaurando a metilação do gene. Estes foram os primeiros indícios de que o nosso DNA sofre alterações no seu funcionamento, provocadas pelo ambiente – no caso, a dieta da mãe, durante a vida uterina!

Ou seja, você não é apenas o que você come, e o que suas bactérias comem, como já vimos, mas o que sua mãe comeu! A epigenética demonstra que temos responsabilidade sobre o funcionamento dos nossos genes e das gerações futuras. O DNA não é um destino inexorável e imutável. A epigenetica é o livre arbítrio da genética!

Mais um exemplo? Existem também indícios de que a desnutrição da gestante pode acarretar consequências epigenéticas na prole. O acompanhamento de indivíduos que nasceram após a segunda grande guerra, na Holanda, trouxe algumas informações dignas de nota. O pós guerra na Holanda foi marcado por um período de fome intensa, entre 1944 e 1945. Registros dos nascimentos ocorridos nesta época demonstraram que se a mãe estivesse bem nutrida no início da gestação, mas sofresse privações nos três últimos meses, o bebê nascia pequeno. O contrário também ocorria, se a mãe sofresse privações no momento da concepção, mas tivesse uma dieta abundante no final, o bebê nascia com peso normal.

Até então, nenhuma surpresa. Mas, acompanhando a vida destes bebês depois de adultos, os pesquisadores perceberam que os bebês que nasceram pequenos tornaram-se adultos saudáveis, enquanto os bebês que nasceram com peso normal, mas cujas mães haviam sofrido privação intensa no início da gestação, apresentaram maior taxa de obesidade e doenças mentais. E o mais inesperado: esses efeitos apareceram também nas gerações seguintes. Era como se a privação alimentar sofrida no útero, no início da gestação, tivesse “programado” o DNA daquele bebê para nascer numa situação de fome extrema, adaptando seus genes para aproveitar ao máximo os alimentos, e resultando, possivelmente, em uma maior taxa de obesidade.

Isso nos faz pensar: qual será o resultado de tantas mulheres hoje fazendo dietas restritivas durante a gestação com medo de engordar? Estaremos enganando nossos fetos, programando nossos filhos para um ambiente hostil, só para depois jogá-los em um ambiente com alimentação abundante, onde eles irão facilmente engordar, com seus genes programados para aproveitar ao máximo as calorias? Estaríamos, assim, criando uma geração de possíveis obesos, que por sua vez, irão passar a vida lutando contra os efeitos epigenéticos do seu DNA?

A informação de que somos responsáveis pelo funcionamento do nosso DNA e das futuras gerações pode parecer assustador no início, mas é também libertador se pensarmos que podemos controlar e moldar o destino. Que outros genes, doenças e comportamentos podem ser ativados ou prevenidos pelas interações com o ambiente? Doenças como câncer, diabetes e esquizofrenia poderiam ser prevenidas ou até mesmo tratadas?

Até o próximo Café, quando falaremos destes assuntos e da importância de lamber (literalmente) a nossa cria!

 

Para saber mais:

 

Dolinoy DC, Huang D, & Jirtle RL (2007). Maternal nutrient supplementation counteracts bisphenol A-induced DNA hypomethylation in early development. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 104 (32), 13056-61 PMID: 17670942

 

Duhl DM, Vrieling H, Miller KA, Wolff GL, & Barsh GS (1994). Neomorphic agouti mutations in obese yellow mice. Nature genetics, 8 (1), 59-65 PMID: 7987393

 

McGowan, P., Meaney, M., & Szyf, M. (2008). Diet and the epigenetic (re)programming of phenotypic differences in behavior Brain Research, 1237, 12-24 DOI: 10.1016/j.brainres.2008.07.074

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8 comentários

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  1. Bem que eu desconfiava, tive diabete gestacional na minha primeira gravidez e por isso me exercitei muito e comi muita proteina. Meu filho, ama proteina e e muito ativo. Ja na minha segunda gravidez, comi muito carboidrato e nao me exercitei muito, minha filha nao e tao ativa e nao liga a minima para carnes, alias poderia ser vegetariana ou italiana.

    1. Na verdade há estudos demonstrando que a diabetes gestacional também tem um componente epigenético. Mas quanto a definir o paladar da prole ainda temos só especulações…No próximo vou falar de cuidado parental e seus efeitos sobre genes de estresse, não deixe de nos acompanhar! grande beijo,
      Natalia

  2. Nat achei sensacional o artigo. Adorei a frase: a epigenética é o livre arbítrio da genética!
    Bjão

    1. obrigada Antônio! Semana que vem tem mais…bjs.

    • Renato Augusto Daher em 2015-05-08 às 15:19
    • Responder

    Oi Naty,

    Suas pesquisas e reportagens são sempre fantásticas, vocês estão de parabéns em criar um site como este.

    Sempre tive certeza, quando ainda estudávamos juntos, de que a cura para muitas doenças estariam no DNA, mas com esta reportagem agora tenho 100% certeza de que muitas doença poderão ser tratados através de algum “ajuste” no DNA, pois afinal de contas se o DNA pode sofrer uma “mutação” (não sei se este seria o melhor termo) isto significa que poderemos ajustá-lo para corrigir alguma doença.

    Pena que estas pesquisas, as vezes, envolvem custos elevados. Me corrija se eu estiver errado, mas eu acredito que, infelizmente, faltam patrocínio para o aperfeiçoamento destas pesquisa, estou correto?

    Fica uma sugestão para os patrocinadores em geral:
    Patrocinadores abram seus olhos, enquanto vocês investem milhões em times que pagão fortunas a seus jogadores que não honram o time nem a camisa que veste e muitas vezes nos trazem tristeza, então porque não reduzem suas participações nestes times e invistam um pouco mais nas pesquisas em geral, principalmente as focadas na área da saúde, biologia, medicina, etc.
    Milhões de pessoas estão morrendo por falta de patrocínio em estudos relacionados a saúde, diversificando seu patrocínio tenho certeza de que vocês estarão deixando milhões de pessoas mais contentes e saudáveis ao redor do mundo.

    Abs,
    Renato A. Daher

    1. obrigada, Renato. É sempre muito bom ter feedback de gente interessada, e ficamos muito felizes de saber que você está curtindo o site. Você tem toda a razão em relação ao financiamento. Moshe Szyf, que é o pai da epigenética, comenta em uma entrevista que 90% do tempo de um cientista é gasto escrevendo pedidos de financiamentos que não chegam nunca…E ele está no Canadá! Imagina a nossa situação aqui embaixo…
      beijos, e obrigada por nos acompanhar sempre.
      Naty

  3. Ola! Deixo registrado que gostei muito, principalmente do ultimo parágrafo rsrs…. Parabéns! Aproveito para cumprimenta-la pelo dia das mães, Beijos.

    1. obrigada, Clarice! Feliz dia das mães. bjs

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