«

»

maio 28

DENGUE especial

O país vive – apesar das negações do ministro da Saúde, e da falta de atenção dada pela mídia ao assunto – uma epidemia de dengue. Curiosamente, este ano não houve uma campanha significativa para prevenção da doença e controle do mosquito transmissor, nem uma maior conscientização e instrução da população sobre a doença, seus diferentes tipos de manifestações clínicas e cuidados, bem como sintomas mais comuns e como proceder em casos de suspeita de se ter contraído a doença.

Na falta de informações seguras oferecidas pelos órgãos competentes, viu-se um alastramento sem precedentes de dengue e de sua forma mais severa – a dengue hemorrágica – sem que a população ou a classe médica estivessem preparados. O resultado foi a declaração de estado de emergência em vários municípios, e, finalmente, somente no começo do outono, a introdução de medidas também emergenciais como fumegação com inseticidas e a instalação de postos de saúde específicos para receber os casos crescentes da doença.

Sem ter onde buscar informações confiáveis, a população vê-se inundada por mitos e conselhos sem o menor respaldo científico, que circulam nas redes sociais e até mesmo em jornais de circulação nacional. Pessoas sem formação médica receitam chás e ervas, encorajam as pessoas a utilizarem medicações duvidosas e a não atenderem às recomendações médicas.

Nós do Café na Bancada, preocupados com essa enorme e perigosa lacuna de informação entre a população e a academia, resolvemos publicar uma edição especial sobre a dengue, tentando esclarecer como funciona a doença, seus transmissores e seu vetor, assim como disponibilizando as mais recentes informações sobre a perspectiva de uma vacina.

 

A dengue

 

A dengue é causada por quatro subtipos (sorotipos) de um vírus do tipo flavivirus: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. A infecção por qualquer um dos sorotipos confere proteção ou imunidade para a vida toda contra esse único sorotipo, mas não protege contra os demais. Isso quer dizer que, durante sua vida, você pode pegar dengue no máximo quatro vezes. Infecções subsequentes pelos demais vírus aumentam as chances de se desenvolver a dengue hemorrágica. Todos são transmitidos para o homem pelo mosquito Aedes aegypti, também chamado de vetor da doença.

Os quatro sorotipos da dengue originaram-se em macacos, na África, provavelmente entre 100 e 800 anos atrás. Após a Segunda Grande Guerra, com o aumento das viagens internacionais, o mosquito transmissor foi “transportado” para outros países. A partir de 1981, constatou-se um aumento de epidemias localizadas geralmente na América Latina e no Caribe.

Para a transmissão da doença ocorrer, um mosquito precisa alimentar-se do sangue de uma pessoa infectada. Os sintomas da doença costumam ocorrer após 4-7 dias da picada do mosquito. Esse período é chamado de período de incubação, e durante essa fase, mesmo antes de apresentar qualquer sintoma, a pessoa infectada já possui grandes quantidades do vírus no seu sangue. Dessa forma, se for picada novamente pelo mosquito transmissor, pode contaminar o mosquito, e continuar, assim, o ciclo de infecção.

Após se alimentar, o mosquito vai por sua vez incubar o vírus por um período de 8-12 dias antes de infectar outra pessoa. Uma vez infectado, ele carrega o vírus pelo resto de sua vida, que pode ser desde dias até semanas.

A dengue costuma ser uma doença endêmica, ou seja, ocorre sazonalmente, em épocas definidas. Como é uma doença que depende do mosquito para ser transmitida, é natural que ocorra em épocas mais quentes e chuvosas, que facilitam a reprodução do vetor. O mosquito coloca seus ovos em recipientes de água limpa e parada, daí a importância de remover potenciais locais de reprodução, eliminando vasos, pratos e recipientes com água.

Uma epidemia de dengue pode ocorrer quando várias pessoas são infectadas em uma mesma região durante um curto período de tempo. Para que isso possa ocorrer, precisamos de uma população suscetível a pelo menos um dos quatro sorotipos, e de condições altamente favoráveis para a reprodução e proliferação do mosquito transmissor.

Os principais sintomas da dengue são: dores de cabeça (geralmente caracterizada por uma dor “atrás dos olhos”), febre, dores musculares e nas articulações e a presença de manchas vermelhas, chamadas de eritemas. Muitas vezes, uma primeira infecção apresenta sintomas tão brandos que são confundidos com uma gripe, e a pessoa nem sequer sabe que já teve dengue.

Uma segunda infecção por dengue pode ser mais severa, e causar a dengue hemorrágica. Isso parece ocorrer por causa de uma resposta do sistema imune, que já possui anticorpos contra um sorotipo do vírus, mas não consegue proteger contra os demais sorotipos. Esses anticorpos poderiam estar se ligando ao antígeno (vírus), mas sem conseguir neutralizá-lo com sucesso nem entregá-lo corretamente às células de defesa responsáveis por sua destruição. Essa resposta pode gerar reações inflamatórias (lembra da série sobre vacinas?), e causar problemas na permeabilidade dos capilares, além de problemas de coagulação.

Os sintomas de dengue hemorrágica podem incluir, além dos sintomas usuais, dor abdominal intensa, vômitos, sangramentos, eritemas mais intensos e dificuldade respiratória. Em geral, a dengue hemorrágica começa da mesma maneira da dengue convencional, mas após o declínio da febre, durante um período de aproximadamente 24- 48 horas, a reação imune citada acima pode ocorrer, possibilitando o vazamento de líquido dos capilares para o peritônio e a cavidade pleural. Isso pode levar à morte por falha do sistema circulatório e choque, se o paciente não for prontamente atendido. Os pacientes com dengue hemorrágica apresentam uma queda substancial no número de plaquetas.

Não há tratamento específico para dengue. Recomenda-se o uso de analgésicos como paracetamol (tylenol) e dipirona (novalgina), e evitar o uso de analgésicos à base de aspirina ou ibuprofeno, que podem agravar os problemas circulatórios, além de repouso e ingestão de líquidos. No caso de dengue hemorrágica, pode ser necessária internação em hospital para tratamento de suporte, que consiste basicamente em hidratação e monitoramento.

Certamente a melhor esperança para combater a dengue é uma vacina, como veremos em breve. Mas mesmo que tenhamos uma vacina eficaz, contra os quatro sorotipos do mosquito, estaremos seguros contra outros vírus transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti?

Creio que o investimento em sistemas de controle e eliminação do mosquito são altamente necessários, talvez mais ainda após a obtenção de uma vacina, pois a tendência da população será relaxar ao se ver livre da dengue. E então, que outras doenças podem emergir?

Share

1 comentário

  1. mauro

    Muito bom o artigo. Claro e completo.

    Muito importante, pois a falta de informação é grande, e as informações erradas estão disseminadas.

    Enquanto não houver vacina disponível as campanhas de divulgação das medidas de proteção serão a unica proteção preventiva. E depois que houver vacinas, ainda assim serão importantes.

    E, claro, a preparação dos hospitais e centros de saude para atender bem e com rapidez, para os que forem contaminados.

    Continuem a divulgar a ciência.

    O mundo agradece.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Share