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Do jeitinho que seu cérebro gosta! – O Ambiente do Vício

No post anterior, falamos sobre a fisiologia do vício e explicamos que drogas – como a heroína – aumentam a secreção do neurotransmissor chamado dopamina, que ativa a região de recompensa do cérebro e provoca a sensação de prazer. Porém, se o nosso cérebro fosse tão simples de entender, provavelmente não seríamos capazes sequer de estudá-lo e estaríamos rastejando feito minhocas.

Nesse novo post da série especial sobre drogas, nós do Café Na Bancada gostaríamos de chamar a atenção para um outro aspecto do vício: o ambiente que estimula o vício. Sempre lembrando que nossos posts são baseados em estudos científicos, e não em ideologias.

Sem mais delongas, vamos começar com uma pergunta: Será que o vício é provocado apenas pelo consumo de substâncias entorpecentes?

Um experimento muito simples demonstrou que sim! Nesse experimento, ratinhos foram colocados, sozinhos, em jaulas isoladas, onde eles poderiam beber água de duas fontes distintas. Uma fonte continha apenas água filtrada. Já a segunda fonte tinha água misturada com heroína. Na maioria das vezes, os ratinhos acabavam tomando tanta água com heroína que morriam de ataque cardíaco. Resolvido o dilema, é apenas a substância que causa o vício… será?

Vamos voltar às condições do experimento. “… ratinhos foram colocados, sozinhos, em jaulas isoladas…”. Esse detalhe não passou despercebido pelo psicólogo e pesquisador Bruce Alexander, que repetiu o experimento eliminando essa condição de isolamento e criou o “Rat Park” – ou “parque dos ratos”! Neste parque, os ratinhos podiam brincar com bolinhas e em túneis, a comida era farta e, o melhor de tudo, eles não ficavam isolados – sempre tinha uma ratinha ou ratinho para eles interagirem.

As garrafas com água “heroinizada” também estavam lá. Os ratinhos continuaram tomando água das duas garrafas, afinal de contas eles não sabiam que um cientista CRUEL E DESALMADO – nas palavras de Homer Simpson, “estou sendo sarcástico caso não tenham percebido” – tinha colocado drogas em uma das garrafas. Porém, os ratinhos do Rat Park não se tornaram viciados e beberam água com heroína até a morte; pelo contrário, ao fim do experimento, foi observado que os animais consumiram menos de um quarto da água batizada, dando preferência para a água filtrada. Caso você tenha ficado curioso em ver o Rat Park, confira algumas imagens:

 

ratpark

 

Alexander foi além e fez mais experimentos utilizando o Rat Park. Ele começou um experimento colocando os ratinhos isolados nas gaiolas, exatamente como o primeiro experimento foi feito. Após 57 dias, os ratos já estavam viciados na água com heroína; nesse momento, os ratinhos viciados foram transferidos para o Rat Park, onde eles também tinham acesso à água com droga. Vocês devem estar pensando “Certeza que o ratinho viciado formou uma gangue, viciou os outros animais, começou a vender e a lucrar em cima a água batizada!”.

Os resultados reportados pelo Dr. Alexander, na verdade, mostram que os ratinhos, em um primeiro momento, ainda consumiam a água com heroína; mas que, após alguns dias, eles voltavam a apresentar um comportamento igual aos demais.

O que podemos concluir com os experimentos do Prof. Alexander?

  1. O vício foi causado também pelo isolamento.

  2. A culpa do vício não é apenas da substância, mas também da gaiola em que os animais são confinados.

  3. Ratinhos isolados podem se drogar até a morte; ratinhos no Rat Park podem voltar a ter uma vida sem dependência da droga.

O que NÃO podemos concluir com os experimentos do Prof. Alexander?

  1. Consumir drogas em festas com a galera e dar uma volta no parque não causa dependência química.

  2. Vamos construir “Human Parks” por todos os lados, colocar todos os viciados lá e abandonar o tratamento com medicações e psicoterapias.

  3. Só surgem viciados em ambientes isolados.

Pensando no experimento do Rat Park, podemos fazer uma analogia com a nossa sociedade. Imagine colocar um ser humano em uma solitária, onde a única forma de prazer que ele poderá vir a ter é beber água com heroína. Certamente ele ficaria viciado em pouco tempo. Mais do que buscar o prazer, nós todos tentamos evitar o desprazer. E, como foi explicado no post anterior, as drogas têm um efeito exacerbado de dar até 10 vezes mais prazer do que uma situação de conquista ou de vitória. E o pior, essa sensação é instantânea.

A droga passa, então, a substituir outras sensações de prazer que podemos sentir, como comer, namorar, se relacionar com outras pessoas e trabalhar. Essas sensações são menos prazerosas se comparadas com o efeito potencializado que a droga gera, e também são conquistadas a longo prazo muitas vezes. Por fim, a ligação afetiva que o usuário faz com a droga acaba se sobrepondo a todos os outros tipos de laços afetivos.

Declarar guerra contra as drogas, criminalizar usuários e tratá-los como seres isolados parece não ter resolvido muito o problema que enfrentamos hoje. A dependência química não se justifica apenas pelo consumo da substância – a gaiola em que vivemos também influencia o nosso comportamento.

O experimento do “Rat Park” foi negado para publicação nos jornais Nature e Science, que são as revistas com maior fator de impacto na área científica. A rejeição foi justificada, alegando que o experimento tinha falhas metodológicas. Outros laboratórios que repetiram esse experimento falharam em reproduzir os resultados obtidos pelor Prof. Alexander e em um dos testes foi mostrado que, em ambas as gaiolas – a isolada e a enriquecida – os ratinhos diminuíram a preferência pela droga. Isso sugere que a causa do vício pode até mesmo ser genética.


A equipe do Café Na Bancada gostaria de agradecer o Prof. Bruce Alexander por permitir a utilização das imagens do Rat Park. Todas as imagens foram retiradas do site http://www.brucekalexander.com. Visitem o site para mais detalhes sobre o Rat Park e a pesquisa do Prof. Alexander Bruce.

 

Alexander BK, Beyerstein BL, Hadaway PF, & Coambs RB (1981). Effect of early and later colony housing on oral ingestion of morphine in rats. Pharmacology, biochemistry, and behavior, 15 (4), 571-6 PMID: 7291261

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