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nov 10

Dr. Alexandre Barbuto – Instituto de Ciências Biomédicas, USP

O Café na Bancada teve o imenso prazer de conversar sobre câncer, imunoterapia e a polêmica da fosfoetanolamina com o renomado professor Dr. Alexandre Barbuto, do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

Dr. Alexandre Barbuto

Dr. Alexandre Barbuto

José Alexandre Barbuto possui graduação em Medicina pela Universidade de São Paulo (1981), mestrado em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (1983) e doutorado em Imunologia pela Universidade de São Paulo (1988). Atualmente, é professor associado (ms-5) da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Imunologia, com ênfase em Imunologia Celular, atuando principalmente nos seguintes temas: câncer, imunoterapia, células dendríticas e macrófagos. Abaixo o bate-papo e em seguida um pequeno resumo da nossa conversa com o professor.

 

Nossa escolha pelo professor Barbuto não foi por acaso. Preocupados com o avanço da polêmica do caso da fosfoetanolamina sintética, com a decisão judicial do STF – que obriga a universidade a infringir a legislação vigente – e, principalmente, com a reação popular – que, mesmo bem intencionada, não entende a importância dos testes pré-clínicos e clínicos para assegurar a eficácia e segurança de um novo medicamento, e, portanto, assegurar o seu próprio direito à saúde -. o Café na Bancada decidiu trazer o exemplo de um cientista sério, que também trabalha com tratamento de câncer, mas que aplica seus estudos e seu tratamento dentro dos parâmetros da lei, da ética e da segurança de seus pacientes.

Dono de uma didática e simpatia notáveis, e também dotado de um incrível senso de humor, Dr. Barbuto nos agraciou com uma verdadeira aula de imunoterapia, falou de seu projeto de pesquisa com vacinas terapêuticas e comentou com tristeza sobre a decisão judicial do STF, a qual corrompeu a ética da nossa universidade na tentativa de transformá-la em indústria farmacêutica.

A ideia de usar o sistema imune para combater tumores não é recente. No final do século XIX, um médico de Nova York, William Coley, percebeu por observação que alguns de seus pacientes com tumores de cabeça e pescoço apresentavam redução do tumor após contrair infecções bacterianas. O médico decidiu fazer alguns experimentos. Nessa época, realmente não havia nenhum empecilho para usar os pacientes como cobaias, e o Dr. Coley começou a injetar soluções bacterianas em seus pacientes, para verificar a remissão do tumor. Obteve resposta positiva em aproximadamente 10% dos casos, o que o levou a concluir que deve haver participação do sistema imune na eliminação do tumor e que esse assunto merecia ser mais bem estudado.

A imunoterapia passou, então, por altos e baixos na história do tratamento de tumores. Até que, na década de 1970, conseguiu-se identificar pela primeira vez a célula responsável por fazer o sistema imune funcionar. É a célula dendrítica, que constitui a base do estudo de vacinas terapêuticas para câncer – exatamente a linha de pesquisa do Dr. Barbuto. Essa célula é responsável por reconhecer aquilo que é estranho para o nosso corpo – os antígenos – e eliminá-los. Hoje, não há dúvidas de que o sistema imune desempenha um papel fundamental na eliminação de tumores, e que faz isso constantemente.

O professor explica que o sistema imune está sempre em vigilância, sempre atento a células que podem dar origem a um tumor. Mas, em determinadas situações, o tumor escapa. Essa teoria ficou conhecida como a teoria dos três “Es”, Eliminação, Equilíbrio e Escape. Quando o tumor escapa da vigilância, pode dar origem a um câncer. E por que o tumor escapa? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Há diversas explicações: o tumor cria um ambiente imunossupressor ao seu redor; secreta substâncias que nocauteiam o sistema imune; etc.

O importante é ressaltar que o tumor engana o sistema imune. Ele convence o sistema imune de que, na verdade, ele é bonzinho. As células dendríticas do paciente acreditam que o tumor é bonzinho e não estimulam nenhum tipo de resposta contra ele. Barbuto explica com muito senso de humor (e direito a bife à milanesa e tumores saindo do armário) como esse processo acontece. Curioso? Antes de acreditar que bife à milanesa causa câncer, melhor ouvir nosso cast!

Em seguida, o professor explica o seu trabalho com vacinas terapêuticas. O que são exatamente essas vacinas? Diferentemente das vacinas às quais estamos acostumados para prevenir doenças, essas são usadas para tratar doenças. Chamam-se também vacinas porque seu mecanismo de ação também consiste em estimular o sistema imune a reagir. No caso, Barbuto utiliza o tumor do próprio paciente e faz uma fusão das células tumorais com células dendríticas de doadores saudáveis, buscando assim obter uma resposta do paciente e expor o tumor ao sistema imune. Com essa fusão, consegue-se “ensinar” as células dendríticas a reconhecer o tumor como malvado. Ele não consegue mais enganar o sistema imune do paciente. Esse trabalho já está em fase clínica experimental em humanos, aprovado pela ANVISA, em parceria com hospitais.

Finalmente, Barbuto comenta a polêmica da fosfoetanolamina, indignado por ver a universidade coagida a proceder de forma anti-ética e ilegal, e pondera se exercer a medicina está na competência do STF. Comenta sobre a importância da realização de todas as etapas dos testes pré-clínicos e clínicos antes da liberação de qualquer medicamento, e também advoga que seria muito difícil uma cura universal para o câncer, explicando – como nós também já explicamos em posts anteriores – que o câncer não é uma única doença e que não é provável existir um único mecanismo de cura. E acrescenta, ainda, que, mesmo que a substância seja fantástica, nós não sabemos como ela funciona – e o mais importante: não sabemos como e em que casos ela não funciona!

Como era de se esperar de um excelente cientista, Barbuto explica com maestria o método científico, que também já foi discutido aqui no Café. Lembram-se de Karl Popper? E do método científico que explica a diferença entre ciência e pseudociência? Para provar que uma substância funciona, o método científico nos obriga a torcer CONTRA. Por isso o método funciona. Precisamos falsear nossa hipótese, lembram?

“O ponto é que a fosfoetanolamina pode ser fantástica, essa não é a discussão. A discussão é a estratégia para chegar lá. Desse jeito, eu posso estar atrapalhando muita gente, posso estar tratando de forma inadequada. Ou, na melhor das hipóteses, posso não estar atrapalhando ninguém, mas eu também não estou aprendendo NADA sobre como ela funciona”.

Se parece que uma droga funciona, devemos partir do pressuposto de que foi sorte, foi efeito placebo, o diagnóstico estava ruim, funcionaria mesmo sem tratamento, e tudo o mais que puder ser usado para FALSEAR nossa hipótese. Se conseguirmos derrubar cada um desses argumentos com EXPERIMENTOS, então provavelmente a droga teve um efeito positivo. A fosfoetanolamina não foi testada dentro desses parâmetros, e, assim, nada sabemos sobre sua eficácia e segurança.

Para saber mais sobre o trabalho fantástico conduzido pelo professor Alexandre Barbuto, escute nosso cast. Você certamente terá o melhor exemplo possível de como se deve fazer ciência de maneira ética, dentro da lei, e de um pesquisador que, apesar das dificuldades, desenvolveu um tratamento real que trouxe melhora na qualidade e aumento da expectativa de vida de pacientes, sem nunca iludi-los com a arrogância de ter descoberto a “cura” do câncer.

Querido professor Barbuto, o Café na Bancada agradece sua disponibilidade e paciência de nos receber, e sua valiosa contribuição para nos ajudar a divulgar ciência de qualidade no nosso país. Agradecemos também à Clara Cavalcanti, ex-aluna de doutorado do prof. Dr. Barbuto, que gentilmente nos apresentou e tornou esse encontro possível.

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2 comentários

  1. Gabriel

    Natália a revista Scientific American Brasil, n°168 de junho de 2016, apresenta uma reportagem muito interessante chamada ” A defesa contra o câncer “. Alguns pesquisadores estão tentando eliminar tumores de 3 maneiras, usando inibidores de ” checkpoint “, vacinas de células dendríticas e células CAR-T.
    Você sabe se mais pesquisadores brasileiros estão desenvolvendo trabalhos sobre este assunto?

    1. Natália Pasternak Taschner

      oi, Gabriel, não sei mas vou me informar e te retorno. abraço.

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