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jun 06

A fosfoetanolamina na festa junina!

Novos relatórios do MCTI anunciam dados nada alentadores para os entusiastas da liberação da fosfoetanolamina. Os relatórios anteriores já haviam demonstrado a impureza da amostra e a ausência de efeito anti-tumoral in vitro, como vimos aqui. Na época, o grupo do IQSC reclamou que os dados teriam sido “subornados” e que a dosagem utilizada pelo MCTI teria sido menor do que a utilizada nos trabalhos publicados pelo grupo. Os ativistas apresentaram o argumento de que somente os ensaios in vivo, em camundongos, poderiam comprovar a eficácia da droga candidata, já que, segundo a teoria proposta – e jamais demonstrada – pelo grupo do IQSC, o composto precisaria ser metabolizado no fígado do animal para sinalizar ao seu sistema imune. De acordo com essa mesma teoria, criou-se a controvérsia de que a droga não poderia ser utilizada em conjunto com a quimioterapia, por causa do seu efeito imunossupressor. Essa controvérsia persiste entre os autores dos artigos, que não conseguem chegar a um consenso de como a droga funcionaria. 

O novo relatório do MCTI testou a substância em animais, por via oral, como era feito nos pacientes, na concentração de 1g/kg do animal. Essa concentração era muito superior à utilizada pelos pacientes e nos ensaios publicados pelo grupo, nos quais a droga havia sido administrada via intra-peritonial.

Considero acertada a decisão do MCTI de utilizar a droga via oral, já que o grupo do IQSC nunca sequer se deu a esse trabalho, não obteve informações sobre a farmacocinética da droga e de como ela se comportaria passando pelo sistema digestivo, e por isso não tinha nem ideia da dosagem que deveria ser dada a animais, ou a humanos. Ninguém sabe de onde surgiu a ideia do prof. Chierice de prescrever 3 cápsulas de 500 mg por dia. Só sabemos, graças ao primeiro relatório do MCTI, que as cápsulas não continham 500 mg, e sim algo em torno de 350 mg, e que não era fosfoetanolamina pura, mas uma mistura de substâncias, das quais somente a monoetanolamina apresentou discreta atividade anti-tumoral in vitro.

O MCTI testou a droga por via oral, 1g/kg do animal, em tumores do carcinossarcoma 256 de Walker e sarcoma 180. A conclusão foi “… observou-se que a Fosfoetanolamina Sintética não apresentou efeito inibidor nos animais tratados com dose de 1g/kg de peso corporal por dia, administrada durante 10 dias consecutivos“. As figuras do relatório estão abaixo:

MCTI sarcoma fig1

 Reparem que a fosfoetanolamina acompanha precisamente a curva do controle negativo, e não tem efeito nenhum sobre o crescimento do tumor. A ciclofosfamida é um quimioterápico comum que foi usado como controle positivo. O controle negativo é uma solução salina, administrada também por MCTI sarcoma fig2via oral. Serve para sabermos que os efeitos observados devem-se apenas ao composto utilizado e não a qualquer tipo de efeito placebo, via de administração ou condicionamento dos animais. Já o controle positivo serve para validar o método utilizado, mostrando que para outro composto verificou-se resposta, no mesmo experimento. Além disso, o teste foi realizado de maneira “cega” e randomizada. Isso quer dizer que os camundongos foram distribuídos aleatoriamente pelos grupos de controle e tratamento, e que a pessoa que mediu os resultados não sabia a que grupo pertenciam os animais analisados. Dessa maneira, o pesquisador que analisa os resultados não é influenciado pelo que ele acha que deve ocorrer. É assim que se faz um teste clínico controlado, randomizado, duplo-cego e com grupo placebo, e esse é o método utilizado internacionalmente para qualquer tipo de pesquisa baseada em evidências científicas.

Curiosamente, o grupo tratado com a fosfoetanolamina – ou a mistura de sais que sabemos ser o composto – foi o que mais desenvolveu metástases, com índice de 46%, comparado a 20% do grupo controle (solução salina, ou seja, sem tratamento), e nada no grupo tratado com o quimioterápico. Esse resultado evidencia mais uma vez que não sabemos como esse composto irá se comportar com cada tipo tumoral, porque justamente NÃO há estudos anteriores.

Outro estudo mostrou o efeito do composto sobre melanoma. O estudo mostra que o composto reduziu o crescimento deste tipo de tumor em 34%, e não teve efeito significativo sobre o volume tumoral; um resultado inferior ao obtido com a cisplatina, um quimioterápico comum, que não só reduziu o crescimento em 68%, como também reduziu o volume do tumor. Isso quer dizer que a fosfoetanolamina – ou mais provavelmente a monoetanolamina, que era o único composto com resultados semelhantes em cultura de células – não foi capaz de reduzir o tumor em tamanho, mas somente diminuiu o ritmo do seu crescimento. Ainda assim, a cisplatina, uma droga já conhecida, foi superior nos dois aspectos analisados – ou seja, apresentou redução no volume e também diminuiu  o crescimento.

MCTI melanomaDuas concentrações da mistura de São Carlos foram utilizadas: 200mg/kg do animal e 500mg/kg do animal. Essas concentrações foram escolhidas por um motivo: o valor de 200 mg/kg equivale à dose oral utilizada em humanos de 3 cápsulas por dia. Podemos ver claramente na figura ao lado que a única concentração capaz de RETARDAR o crescimento do tumor foi a de 500 mg/kg de animal, ou seja, mais do que o dobro recomendado pelo prof. Chierice a seus “pacientes”.

 

Para resumir tudo o que temos até agora:

1) O composto não era o que o grupo alegava. Não se trata de fosfoetanolamina pura, mas sim uma mistura de sais, dos quais o único que parece apresentar alguma atividade anti-tumoral é a monoetanolamina.

2) O composto não teve atividade em cultura de células, ou seja, não foi possível reproduzir os resultados obtidos nos trabalhos publicados pelo grupo do IQSC. Registro que a crítica a esse trabalho foi que as concentrações utilizadas não foram as mesmas, mas há que se levar em conta que o MCTI trabalhou com as concentrações recomendadas por protocolos internacionais, e o grupo do IQSC utilizou concentrações extremamente elevadas.

3) O composto não teve atividade em camundongos em dois tipos de tumor estudados e ainda levantou a possibilidade de provocar metástases. Teve atividade anti-tumoral para melanoma, compatível com aquela observada para a monoetanolamina em cultura, mas ainda inferior ao quimioterápico utilizado para comparação, a cisplatina. Além disso, essa atividade só foi possível com uma concentração 2,5 vezes maior do que a utilizada pelos usuários da droga. E, ainda assim, essa atividade somente retardou o crescimento do tumor. Logicamente, se esse efeito for comprovado em mais ensaios, em animais maiores e em humanos, a substância (seja lá qual for) pode ser um candidato a uma droga para auxiliar o tratamento deste tipo tumoral específico. De acordo com a quantidade necessária, os usuários vão poder misturar na aveia e comer com colher, o que significa também que o custo de produção vai aumentar.

4) Os camundongos utilizados no estudo eram do tipo nude atímico, ou seja, com sistema imune deficiente, o que permite a indução do tumor humano para estudo. Esse dado já contesta a hipótese de que seria necessário um sistema imune intacto para o efeito da droga.

Ah, mas houve um efeito para melanoma! Mesmo que não sirva para todos os tumores, então podemos dizer que eles descobriram uma droga para o melanoma? Podemos dizer que afinal eles tinham razão?

ABSOLUTAMENTE NÃO! Ainda que o composto se mostre promissor para algum tipo de tumor, esse grupo do IQSC não se deu ao trabalho sequer de calcular uma DOSAGEM eficaz. Isso foi feito em apenas 3 meses pelo MCTI, com um experimento simples, e com dinheiro público. O que podemos dizer hoje, com certeza, é que o grupo do IQSC sintetizou algo que eles não sabiam o que era, não faziam ideia do mecanismo de ação, distribuíram sem saber para que tipo de tumor servia, ou se teria algum efeito tóxico ou prejudicial, e tiraram uma dosagem do chapéu que agora se mostrou ineficaz. E, para fazer tudo isso, levaram 25 anos.

Em bom português, ficaram 25 anos sentados em cima de cápsulas azuis, fazendo NADA, nem um único acompanhamento de paciente. Ninguém se pergunta onde estão as declarações dos médicos de São Carlos? Por que só temos relatos pessoais de pacientes? Onde estão os exames e os médicos dando entrevistas, embasbacados com os resultados milagrosos?

Depois de fazer muito barulho e muito populismo, conseguiram que um governo fraco e carente de aprovação popular fizesse os testes que eles não fizeram. E a conta, senhores, o governo mandou para nós. Sabe quem agradece? As farmacêuticas. Não é todo dia que elas arranjam um trouxa para pagar por testes clínicos caríssimos que caberiam a elas. Mas, para brincar de teoria da conspiração, aguardem novo post. Por enquanto, em ritmo de quadrilha de festa junina só podemos cantar bem alto: ÓIA A FOSFO CURANDO O CÂNCER! É MENTIRA!!!!!!!! Hoje não tem café. Para aguentar essa novela sem fim, melhor pegar logo um quentão.

 

http://www.mcti.gov.br/documents/10179/1274125/Relatorio+2+Fosfoetanolamina+Carcinossarcoma+de+Walker+v01+de+15-05-2016/6e3083ce-2a1a-44f0-ba72-f80700e4aa86

http://www.mcti.gov.br/documents/10179/1274125/Relatorio+3+Fosfoetanolamina+no+SARCOMA+180+v01+de+15-05-2016/8df7f867-048d-482e-b3f2-0c3749da106b

http://www.mcti.gov.br/documents/10179/1274125/Relatorio+Tumor+Xenografico/415ff3fa-59b3-4e63-8d42-d258f3265235

 

 

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3 comentários

  1. Cesa

    Natália…amei seu texto…muito bom mesmo..

  2. Pablo

    Oi nathália. Vim aqui de novo só pra dizer q amo seus textos. Bju sua linda!

    1. Natália Pasternak Taschner

      Meu marido vai ficar com ciúmes. Mas um elogio sempre cai bem. Obrigada pela gentileza, Pablo. abraço.

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