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abr 03

Fosfoetanolamina, a novela que nunca termina

Terminou. Terminou o que nunca deveria ter começado. Terminou aquilo que, se tivesse sido impedido desde o começo, reconhecido como o crime que era, como o perigo que representava para a sociedade, e como mais uma forma de anticiência, nunca teria distribuído tanta falsa esperança em forma de pílulas, nem desperdiçado tanto dinheiro público.

A fosfoetanolamina não funciona. O Icesp (Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira) acaba de publicar o resultado dos testes clínicos com pessoas, e decide suspender as pesquisas. Seria antiético continuar. “Os resultados indicam que essa não é uma droga ativa. Continuar o estudo seria submeter os pacientes ao risco de serem tratados com algo que não funciona. É uma questão de bom senso e de segurança”, comenta Carlos Barrios, diretor do Grupo Latino Americano de Investigação Clínica em Oncologia, em reportagem da Folha de São Paulo

Mas que surpresa! Todos com o mínimo de conhecimento científico sabiam que as chances de o composto funcionar eram ridiculamente mínimas, beirando a inexistência. A substância não era pura, o mecanismo de ação defendido pelo grupo do IQSC (Instituto de Química de São Carlos) era absurdo e incompatível com toda a Química e Medicina modernas, e os trabalhos do grupo do Butantã eram inconclusivos e tinham falhas metodológicas, como já vimos aqui. Eles nem sequer sabiam precisar o que diabos havia dentro das cápsulas, como também já vimos aqui

Sabíamos que o resultado seria esse, mas precisávamos fazer os testes. Por que? Porque deixamos a situação chegar a um ponto onde perdemos o controle. Muitos estão comentando que este é o papel da ciência, foi feito o que era necessário, o composto precisava ser testado. Agora foi testado e pronto. Certo? 

NÃO! O papel da ciência NÃO É REMENDAR TRABALHO MAL FEITO DE GENTE PREGUIÇOSA E OPORTUNISTA! Se o grupo do IQSC queria provar que seu composto curava o câncer, devia tê-lo feito, da mesma maneira como qualquer pesquisador sério conduz seus trabalhos, indo atrás de financiamento e trabalhando duro. Tiveram VINTE ANOS para fazer isso e não fizeram. Essa obrigação não era da comunidade científica, essa conta não era para sair do bolso dos contribuintes, esse tempo gasto não deveria ter sido o nosso!

Perdeu-se tempo de grandes cientistas, recursos de bons institutos de pesquisa, e verba pública, os quais poderiam ter sido todos direcionados para projetos sérios. Perdeu-se energia, força policial, processual, e administrativa, que poderiam ter sido empregadas para resolver problemas reais.

Demos voz, espaço e dinheiro para CRIMINOSOS, que agora hão de sair impunes? Talvez no máximo envergonhados? O que teria acontecido se essa verba toda, se esse tempo, energia e recursos humanos tivessem sido empregados para investigar realmente essa história toda? As perguntas feitas pelo Café na Bancada ainda estão lá, esperando resposta.

A única resposta que temos agora é de que realmente o composto (que não era ele mesmo e nem era puro) é uma enganação. Temos a única resposta que no fundo já sabíamos. E agora restam mais perguntas: quem será responsabilizado? Quem será penalizado? Atrevo-me a dizer que ainda não vimos o fim da novela. Logo deve chegar a fosfo em forma de suplemento, e a história que nunca termina vai virar vitamina. Se alguém tinha dúvidas sobre a idoneidade dos membros do grupo, a dúvida morreu aqui.

O velho messias não pretende se calar. Sua fiel profeta, ex-paciente cujo histórico médico ninguém investigou, e hábil palestrante com extenso conhecimento técnico sobre a síntese da molécula que agora tenta vender, como CEO da empresa do grupo, já disse que vai pedir novos testes. Melhor entrar na fila. Quando seu composto não tem mais a aura de milagre, vai ser difícil torcer o sistema em seu favor. Agora, se quiserem continuar com essa palhaçada, terão que fazer o que não fizeram desde o inicio: trabalhar. 

A Universidade de São Paulo conseguiu se livrar da obrigação da produção, mas não consegue sequer exonerar os envolvidos. E o processo contra Gilberto Chierice e Salvador Claro Neto segue embargado. A USP foi humilhada, ficou refém de processos e ainda vai pagar aposentadoria para os envolvidos… Mas foi a própria USP que deixou a coisa chegar a esse ponto. 

Não fizemos justiça. Não conseguimos punir os culpados de um crime. Não conseguimos proteger a população de um louco. Faltou coragem. Faltou atitude. Faltou perder o medo de que não gostem de nós. Faltou peitar o desconhecimento e explicar como se faz ciência.

Nessa brincadeira de vinte anos, todos perderam. No meio da nossa maior crise de financiamento, fomos obrigados a desviar verba e recursos humanos para acalmar um clamor popular. Pessoas doentes e fragilizadas foram enganadas. Conceitos biológicos errados foram ensinados para pessoas doentes e vulneráveis. Assistimos quietos enquanto pessoas não qualificadas deseducavam a população, e abalavam ainda mais a confiança já tão frágil que os cidadãos têm na ciência e nos cientistas. E quantos terão abandonado seus tratamentos para tentar a cura milagrosa da fosfo? Jamais saberemos. O saldo da fosfo pode ter sido pior do que imaginamos.

Espero que agora tenhamos recuperado pelo menos um pouco da confiança da sociedade. Que esse triste episódio tenha servido ao menos para que as pessoas entendam um pouco melhor como se faz um teste clínico. E que entendam que foram enganadas, não por nós, mas por um grupo formado por uma combinação de malucos e canalhas. Espero que pelo menos alguns que foram enganados pelo sonho de uma cura simples para o câncer tenham aproveitado essa oportunidade para se informar, e que no futuro estejam mais preparados para exigir provas, estudos e confirmações de que isso ou aquilo funciona para tal doença. 

Que entendam que não era nossa obrigação testar o delírio de outros. Mas que testamos, usamos dinheiro dos cofres públicos e dos bolsos do trabalhador, perdemos nosso tempo, desviamos pessoas que deveriam estar trabalhando em outros projetos, estes sim com chances de trazer algo útil à sociedade. E por que o fizemos? Porque nos importamos. Porque sabíamos que era a única maneira que nos restava de mostrar à população que o verdadeiro cientista preza a saúde e o bem-estar da população, acima de tudo.

Espero sinceramente que essa novela toda sirva de lição. Para a população, uma lição de como funciona o método científico e o teste clínico, e que não sejam mais tão facilmente enganados por qualquer maluco que vende sonhos. Mesmo quando os sonhos são aqueles que mais queremos que se tornem realidade. E, para a classe científica, para que nunca mais nos calemos diante desses absurdos. Já não é mais possível fingir que não é conosco, e que não temos responsabilidade de difundir a ciência. As consequências da nossa omissão podem ser drásticas. Uma sociedade informada faz escolhas melhores. Vamos ajudá-la a escolher bem.

 

3 comentários

1 menção

  1. Raul

    Não tenho muita esperança de que essa história tenha servido pra algo. O que mais se vê nos comentários são pessoas defendendo os pilantras e insistindo que essa porcaria funciona, mas não é comercializada por causa dos interesses da indústria farmacêutica” (Como se fossem um grande conglomerado, sem concorrência).Já tive pena das pessoas enganadas, hoje em dia já tenho pensado se elas realmente não merecem comer grama…

  2. Raul

    Lembro que já tinha comentado sobre isso numa palestra do pessoal de Campinas que fez a determinação do conteúdo das cápsulas: Uma vez que os resultados não batem com o esperado, parece que um certo doutorzinho ai que adorava chacoalhar uma dissertação de mestrado enquanto dizia que tinha resultados falsificou os dados. Ele não deveria perder o título de mestre e responder judicialmente pela falsificação de dados?

  3. Antonio

    “A Universidade de São Paulo conseguiu se livrar da obrigação da produção, mas não consegue sequer exonerar os envolvidos. E o processo contra Gilberto Chierice e Salvador Claro Neto segue embargado. A USP foi humilhada, ficou refém de processos e ainda vai pagar aposentadoria para os envolvidos… Mas foi a própria USP que deixou a coisa chegar a esse ponto. ”

    Não é verdade que os processos disciplinares estejam embargados. A liminar que beneficiava o “Prof.” Chierice já foi cassada pelo TJSP há algum tempo.

  1. Fosfoetanolamina: de quem é a culpa? – LAbI UFSCar

    […] inclusive, uma relativa ausência de discussão justamente sobre esses “poderes malignos”. O blog Café na Bancada, em texto publicado após o anúncio do Icesp, registra a expectativa de que o caso da fosfo sirva para que a população entenda “como […]

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