mar 22

Fosfoetanolamina: o fim de uma história sem começo

Semana passada, preocupados com a recente aprovação da Câmara e do Senado de uma lei que permite a comercialização de uma substância que não foi devidamente testada e aprovada pela ANVISA, o Café na Bancada publicou uma série de perguntas sem respostas sobre a saga da fosfoetanolamina.

Esta semana, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) mostrou os primeiros resultados dos testes encomendados para testar a substância, prestando conta do uso dos 10 milhões de reais que lhe foram destinados pelo Ministério da Saúde para este fim. Aqui, um resumo comentado de cada um dos relatórios apresentados pelo MCTI. O relatório do MCTI  “descreve sumariamente os resultados dos estudos realizados pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Fármacos e Medicamentos (INCT-INOFAR), no Laboratório de Química Orgânica Sintética (LQOS) do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, em colaboração com o Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LASSBio), do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, sobre os componentes químicos das cápsulas de fosfoetanolamina (FOS) oriundas do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo.”

 

  • Análise da pureza da amostra

Em depoimento perante o Senado, o professor responsável pela síntese e distribuição da droga, Gilberto Chierice, desafiou qualquer químico a garantir a pureza da amostra melhor do que ele. As publicações do grupo – Ferreira et al 2012 e 2103 – afirmam ter utilizado “fosfoetanolamina sintética, com grau de pureza > 99%”. Pois bem, o Prof. Dr. Eliezer Barreiro, do ICB-UFRJ, e o Prof Dr. Luiz Carlos Dias, do IQ-UNICAMP, toparam o desafio. Analisando 16 cápsulas de fosfoetanolamina fornecidas pelo grupo do IQSC, perceberam que o peso das cápsulas variava de 230 a 370 mg, aproximadamente. Na embalagem estava escrito “Fosfoetanolamina sintética, 500 mg”.

Em seguida, procederam à análise do componente, supostamente, a fosfoetanolamina. Encontraram uma mistura de componentes orgânicos e inorgânicos: fosfoetanolamina (FOS), fosfobisetanolamina (FBEA) e monoetanolamina, além de fosfatos e pirofosfatos inorgânicos. As concentrações variavam, mas em geral a fosfoetanolamina perfazia cerca de 30% dessa mistura.

Conclusão do estudo de pureza: o conteúdo das cápsulas não é fosfoetanolamina pura, não está na quantidade correta e ninguém sabia dos contaminantes.

Dado o local precário onde as cápsulas são produzidas, de forma caseira e sem os devidos cuidados sanitários, os dados não são nenhuma surpresa. Uma das perguntas levantadas pelo Café na Bancada foi justamente sobre a pureza da amostra e a concentração utilizada para o tratamento. Agora nós sabemos que compartilhamos nossa ignorância com o grupo que fabrica e distribui a substância: eles também não sabem nem definir nem quantificar o que tem dentro das famosas cápsulas azuis.

 

  • Avaliação de atividade anti-tumoral da Fosfoetanolamina Sintética

Dois estudos independentes averiguaram uma possível atividade anti-proliferativa da droga em cultura de células tumorais. Esses estudos demonstram a capacidade da droga de impedir o crescimento de tumores. O primeiro trabalho avaliou a atividade citotóxica e anti-proliferativa das 3 substâncias principais em células de câncer de pâncreas e melanoma. O segundo trabalho avaliou também carcinoma colorretal, adenocarcinoma de próstata e glioblastoma. O grupo do IQSC alega que a FOS serve para qualquer tipo de câncer. Além disso, o grupo registrou um pedido de patente no INPI que descreve o uso da mesma substância para tratamento de várias doenças metabólicas e neuronais, incluindo diabetes, Alzheimer e Parkinson. É um elixir da vida capaz de fazer Ponce de León nascer de novo e vir procurar a fórmula da juventude eterna aqui no Brasil.

Os resultados demonstram que a fosfoetanolamina e a bisfosfoetanolamina não mostraram NENHUMA atividade anti-tumoral ou anti-proliferativa para nenhum dos tipos celulares estudados. Já o “contaminante” monoetanolamina apresentou uma pequena atividade anti-tumoral, mas somente quando utilizada em uma concentração absurdamente maior do que aquela utilizada em quimioterápicos comuns – que foram usados como controle positivo no estudo, para comparar seus efeitos com os da FOS (absurdamente maior quer dizer no mínimo 5 mil vezes maior, variando em torno de uma média de 10 mil a 100 mil vezes maior, e chegando a ser 300 mil vezes maior, de acordo com o tipo de célula tumoral testada).

Esse resultado está de acordo com as publicações de Ferreira et al (2012, 2013), que também utilizaram concentrações altíssimas da substância para visualizar resultados. E a diferença é que, no caso dos artigos publicados pelo grupo, eles atribuíram o resultado à fosfoetanolamina puríssima que acreditavam estar usando, e consideraram que a substância apresentava potencial citotóxico, mesmo em concentrações excessivamente elevadas. 

Após o estudo feito para o MCTI, podemos concluir que o resultado descrito nos artigos deve-se provavelmente à presença da monoetanolamina na amostra. E, mesmo assim, que fique bem claro, só funciona em concentrações infinitamente mais altas do que os quimioterápicos comuns, o que inviabilizaria sua administração. Lembrando também que não há NENHUM estudo que mostre a farmacocinética do composto quando ingerido via oral – fica aí a tentativa de imaginar tomar alguns litros de composto na veia por dia.

  • Testes de toxicidade

Somente a fosfoetanolamina foi testada para averiguar sua toxicidade até o momento. Os estudos em animais não demonstraram toxicidade. No entanto, falta testar o resto das substâncias testadas nessa miscelânea. A monoetanolamina é tóxica, como pode ser verificado aqui:  http://www.cdc.gov/niosh/idlh/141435.html

O relatório do MCTI, assinado pelo Prof. Dr. Germano Tremiliosi Filho, diretor do IQSC-USP, recomenda: “as cápsulas como fornecidas são inadequadas para o consumo, especialmente por crianças e adolescentes com o sistema imune fragilizado por câncer”.

 

  • Teste de AMES – teste de mutagenicidade

 

O teste de AMES é utilizado rotineiramente para verificar se um composto tem propriedades mutagências, ou seja, se é capaz de modificar o DNA e causar mutações. Os autores concluem que a fosfoetanolamina não apresenta propriedade mutagênicas.

 

O que podemos concluir de tudo isso? Simples: a fosfoetanolamina não é pura e não funciona em cultura de células. Também não é tóxica. Mas como não é pura, ainda não sabemos se o resto das substâncias presentes naquela pílula azul pode ser prejudicial à saúde.

Ah, mas e os relatos de inúmeros pacientes que utilizaram a droga e melhoraram ou se curaram? Isso não vale para nada? Esse argumento recorrente já foi explicado em nossa série de Pseudociências e Efeito placebo, e a resposta continua sendo um sonoro NÃO. Relatos pessoais, conhecidos cientificamente como “evidências anedóticas”, não servem para a ciência. Além disso, não devemos esquecer que não temos acesso aos possíveis relatos de piora e morte de pessoas que usaram a substância, porque em geral os mortos não falam e seus familiares estão sofrendo com o luto. Mesmo assim, alguns indignados com a situação relatam o outro lado, como divulgado aqui.

Na próxima etapa, os laboratórios devem prosseguir com os testes em animais. Se não fosse o apelo emocional dado ao caso, provavelmente os testes parariam por aqui. Se uma substância não é promissora nos testes em cultura de células (in vitro), não faz sentido gastar tempo e dinheiro, além de desperdiçar animais (in vivo).

No caso, temos, além do apelo emocional e político envolvidos, publicações que demonstram um efeito em animais – ainda que com concentrações exorbitantes; portanto, serão feitos os ensaios in vivo.

O Café aguarda os próximos relatórios, indignado ao constatar que decisões científicas estão sendo tomadas por políticos, que não só não entendem como a ciência funciona, mas também não têm a humildade de se consultar com a comunidade médica e científica antes de legislar a respeito. Os políticos envolvidos claramente não estão preocupados com a saúde da população, e não hesitam em se aproveitar da fragilidade emocional de pacientes acometidos pelo câncer e de seus familiares para impulsionar suas próprias carreiras.

Somente a educação científica e o acesso à informação de qualidade podem dar um fim ao analfabetismo científico que tomou conta do país. O Café na Bancada não é contrário à continuidade dos testes com a fosfoetanolamina. Apenas acreditamos que ela deve entrar na fila do financiamento e da regularização como qualquer outra droga candidata que se mostre promissora – característica aliás, que a fosfoetanolamina não possui.

 

Você pode acessar o relatório completo do MCTI aqui:

http://www.mcti.gov.br/relatorios-fosfoetanolamina

 

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7 comentários

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  1. Não sei se vai funcionar ou não, mas o conceito era este composto marcar as células tumorais e o organismo iria remover, testes in vitro tem sistema imunológico? Sei lá, no fim das contas acho que não vai rolar, uma pena

    1. oi, Jaisson. Vamos aguardar os resultados in vivo. Realmente células de cultura não tem sistema imune. No entanto, veja que os próprios autores utilizaram ensaios in vitro para validar a ação da droga (Ferreira et al, 2012, 2103). E o MCTI por enquanto apenas reproduziu esses ensaios. A diferença é que o MCTI usou a concentração recomendada para testar atividade anti-proliferativa, enquanto os artigos publicados por Ferreira et al utilizaram concentrações muito elevadas. O MCTI também verificou que a amostra não era pura, e fez os testes com as 3 substâncias principais que apareceram na análise, enquanto no caso dos artigos, agora nem sabemos o que foi usado. Vamos aguardar. grande abraço.
      Natalia

  2. Obrigada Natália por escrever sobre esse assunto tão complexo de forma clara e objetiva.
    Confesso que assistir aos depoimentos dos pacientes nos leva a crer que a cura exista, principalmente para quem vivenciou isso na família. Mas seu artigo anterior (Fosfoetanolamina: perguntas sem repostas) levantou questões que realmente me incomodavam e que, ainda, permanecem sem respostas. Sou leiga em ciência e processos de pesquisa e produção de medicamentos, mas questiono como em 25 anos foram comprados, com recursos públicos, os insumos para a produção da fosfo, quando o próprio vice-reitor da instituição admite ser essa prática uma infração legal? Realmente há muito o que se esclarecer nesse contexto, mas a verdade aparecerá aos poucos, como nos primeiros testes citados no artigo.
    Enfim, apesar de ter torcido muito para que profissionais altamente qualificados como você estivessem errados e que a Fosfo fosse sim a cura do câncer, agradeço o empenho em dividir seu conhecimento com aqueles que buscam fatos e dados coerentes e realistas.

    1. Obrigada pelos elogios. Fico feliz de ter ajudado a esclarecer essa novela. Estamos sempre às ordens! abraço.

  3. Natália, preparei um café caprichado e tirei a tarde para aprender mais sobre o caso da fosfoetanolamina. Li todos os seus artigos sobre o caso (são 4, certo?) e, como sempre, estão fantásticos! Parece uma piada de mal gosto que profissionais sérios como você tenham que ficar discutindo com “comentaristas de G1” sobre suas próprias áreas de especialização. Aliás, a ignorância científica, que parecia estar presente apenas em sites de pseudociência e comentários do G1, na verdade se mostrou presente em praticamente todo o povo brasileiro e em todas as esferas sociais… Nem os sites sérios de ciência e divulgadores científicos renomados como o próprio Drauzio Varella escaparam dessa. Todos os lugares onde a palavra “fosfoetanolamina” está presente estão acompanhados de uma chuva de comentários super votados sobre a terrível indústria farmacêutica, cientistas burros, comprados, invejosos ou sem coração e o pobre gênio solitário que inventou a cura do câncer no quintal de casa. O povo e a mídia adoram histórias de um vira-lata conta grandes corporações, descobertas ao acaso (mesmo isso raramente ser o caso) e, principalmente, negar a dura realidade em troca de uma cura mágica. É difícil assistir R$ 10 milhões sendo despejados na fosfoetanolamina enquanto laboratórios estão fechando por falta de verba e pesquisadoras como a Suzana Houzel precisam apelar para financiamento coletivo pra se manterem de pé. VER-GO-NHA é o que define esse caso. A ciência foi atropelada e humilhada. Eu queria muito terminar esse comentário de uma forma positiva mas, vendo o estado em que o Brasil se encontra no momento, não vejo esperança nenhuma… O barco está afundando e os vilões são os que tentam tampar o buraco. Só nos resta esperar para ver aonde essa história toda vai dar. Mas parabéns pelo excelente trabalho! Acredite, alguns de nós valorizamos isso. 🙂

    1. oi, Ewerton. Que prazer tê-lo aqui, ainda mais com café rsss. Só com muito café mesmo para engolir essa palhaçada né? Obrigada pelos elogios. É muito difícil explicar para as pessoas como a ciência funciona. Ninguém aprende isso na escola, simplesmente não é valorizado. Ainda temos aquele modelo educacional onde te ensinam O QUE pensar, e não te ensinam A PENSAR. Os adeptos da teoria da conspiração em geral são como religiosos fanáticos e não tem mesmo como argumentar. Mas há pessoas que simplesmente não sabem, porque ninguém nunca lhes ensinou. Outro dia uma publicitária, dona de agência, que certamente teve uma educação super privilegiada, me perguntou por que eu dizia que a fosfo não funciona se tem tantos relatos de cura? A boa notícia é que ela me ouviu. E entendeu. Por essas pessoas vale muito a pena continuar neste caminho árduo da divulgação. E por pessoas que valorizam e ajudam a difundir esse trabalho, como você. Obrigada mesmo pelo comentário. Injeção de ânimo. e seu site é o máximo, por coincidência, eu também olhei hoje, e adorei! grande abraço.

      1. Só com muito café, com certeza! Eu entendo perfeitamente o que você diz. O problema é quando essas pessoas, que muito provavelmente não saberiam nem definir o que é câncer, passam a ser “desdivulgadores” científicos, exalando certeza num assunto sobre o qual não possuem um mínimo de conhecimento. Não há problema em não saber o que é câncer. Todos somos ignorantes em muitos assuntos. O problema é não saber e se posicionar como autoridade no assunto, criando leis e regulamentos sobre o câncer sem nem saber o que é câncer por exemplo. Nosso sistema educacional também é extremamente falho e me entristece bastante… Nem vou começar a falar sobre isso pois senão eu não paro mais. Hahaha Porém, com certeza existem pessoas como a moça que você citou, que estão abertas a ouvir. Você tem razão, é por pessoas assim que vale a pena continuar nesse caminho. 🙂 Ah e muito obrigado por visitar o site! Fico feliz que tenha gostado. 🙂 Um grande abraço, Natália!

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