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nov 18

Homeopatia: mágica, charlatanismo ou simplesmente pseudociência?

A homeopatia é uma das formas mais conhecidas de medicina alternativa. Goza de distribuição mundial e movimenta um mercado de aproximadamente 3 bilhões de dólares por ano nos EUA, e 40 milhões de libras no Reino Unido – sendo 5 milhões provenientes de verba pública. Bastante popular no Brasil também, a homeopatia é amplamente utilizada por um público que na verdade não sabe muito bem do que se trata.

A pesquisa mais recente realizada no Reino Unido, pelo Comitê de Ciência e Tecnologia, em 2010, trouxe dados surpreendentes sobre o que a população acredita ser a homeopatia. A maioria acredita que se trata de “remédios naturais”, com eficácia comprovada pela ciência – afinal, se assim não fosse, por que tantos médicos prescrevem? E por que o sistema nacional da saúde do Reino Unido (NHS) endossa seu uso? Por que existem hospitais homeopáticos no Reino Unido?

Pesquisas semelhantes nos EUA e Austrália demonstram que provavelmente as mesmas dúvidas se aplicam ao resto do mundo. Mas será que se as pessoas soubessem exatamente o que é a homeopatia, quais os seus princípios fundamentais, como e quando ela foi criada, e quais as provas de sua eficácia, elas continuariam a usá-la? O Café na Bancada convida você a conhecer todos esses fatos, e assim poder tomar uma decisão informada sobre sua saúde.

A homeopatia nasceu em 1790, idealizada pelo médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843). Vale lembrar que, nessa época, a ciência ainda não sabia sobre microrganismos, doenças contagiosas e antibióticos, e não tinha sequer conhecimentos básicos do uso da higiene na prevenção de doenças! A medicina acreditava que as doenças eram causadas por um desequilíbrio entre os “humores” do corpo. Aliás, algumas práticas de medicina alternativa acreditam nisso até hoje e falaremos delas mais adiante…

Os humores eram o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra. Eles correspondiam também aos quatro elementos da natureza – terra, fogo, ar e água – e às estações do ano. Quando o indivíduo estava “mal-humorado”, ele ficava doente. E, para equilibrar os humores, os médicos da época acreditavam que precisavam “purgar” o humor excessivo e utilizavam laxantes, indução de vômitos e a prática da sangria. Eles chamavam isso de “balancear o corpo por efeitos opostos”.

Nesse contexto, Hahnemann teve a brilhante ideia de que esses médicos poderiam estar errados. Afinal, imagine como os tratamentos eram agradáveis, e a total ausência de cura que eles proporcionavam. Ele desenvolveu, então, um método oposto. Imaginou que, em vez de opostos, algo que te deixa doente deveria ser capaz de curar, em doses menores – e daí vem a expressão “doses homeopáticas”. Nasceram os dois princípios gerais da homeopatia:

  • Princípio dos similares – semelhante cura semelhante, algo capaz de provocar uma doença deve ser capaz de curar a mesma doença
  • Princípio da diluição infinitesimal – quanto mais diluído o princípio ativo, maior a sua potência

E como encontrar os princípios ativos que seriam então diluídos? Hahnemann e seus seguidores montaram um método para testar extratos de plantas, minerais e órgãos do corpo de animais. Esse método ficou conhecido como “provação”. E, mais uma vez, lembrem-se de que eles fizeram isso com os conhecimentos farmacêuticos disponíveis naquela época! Como eles ainda não tinham desenvolvido o método científico, não conheciam relações da causa e efeito e jamais iriam pensar em fazer grupos controle; todo esse conhecimento foi gerado por observação de sintomas em pessoas saudáveis após a ingestão das substâncias testadas, às vezes concentradas, às vezes diluídas poucas vezes.

Eles anotavam tudo o que sentiam até 3 semanas após a administração do “fármaco”. Toda essa informação foi compilada em um tratado intitulado Materia Medica, que é exatamente o mesmo utilizado até hoje pelos médicos homeopatas. Assim, temos como alguns exemplos de “princípios ativos” usados: arsênico para resfriados, influenza e diarreia; beladona para febre com convulsões e delírios; concha de ostra para indigestão; chá verde para insônia; fígado de pato para gripe; toxina de antrax extraída do baço de ovelhas doentes para furúnculos e gangrena; e petróleo para eczemas e doenças de pele!

homeopathy bottlesMas não se preocupe se você já tomou algum desses remédios. Eles estão infinitamente diluídos, até que não reste nenhuma molécula da substância original. Como é? Sim, esse é o segundo princípio. Para ter efeito, o remédio homeopático precisa ser diluído pelo menos 100 mil vezes. Existem no mercado diluições que vão de 6X até 30C. O X romano significa 1/10, ou seja, uma solução 6X foi diluída 1.000.000 de vezes e uma solução 30X está diluída 1.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 de vezes.

O C romano significa uma diluição de 1/100, então uma solução 30C está diluída 1060 vezes, ou 1.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 vezes. Para se ter uma ideia, uma diluição desse tamanho, se não fosse obtida de maneira seriada, precisaria de uma gota do princípio ativo em um recipiente com mais ou menos 50 vezes o tamanho da Terra. O número de Avogadro, que representa a presença de ao menos uma molécula da solução original na diluição, é 1023. Isso quer dizer que acima disso é impossível detectar a molécula inicial. Isso pode ser muito complicado se algum produto homeopático perder o rótulo! Não tem como mandar analisar e descobrir o que tem ali. Ou fiscalizar a produção. 

O princípio das diluições ainda segue o pressuposto das sucussões. Segundo Hahnemann, as diluições precisam ser agitadas vigorosamente. E não pode ser de qualquer jeito, precisa ser 10 vezes para a esquerda, 10 vezes para a direita, dez para cima e dez para baixo. Até mesmo Hahnemann sabia que não restaria nenhuma molécula do princípio ativo original, mas ele acreditava que o “espírito” da molécula permanecia ali, e que as sucussões eram necessárias para ativar esse espírito. No início, as sucussões eram feitas junto a uma bíblia. Os homeopatas modernos chamam isso de memória da água.

Parece uma memória bem seletiva, já que a água consegue lembrar APENAS do que ela quer, e não das inúmeras outras moléculas e impurezas às quais ela foi exposta no processo de diluição. Além disso, esse princípio contraria todas as leis da química e da física conhecidas até hoje, que trabalham com uma relação dose-dependente. Um antibiótico, por exemplo, é testado em várias doses até se estabelecer uma dose mínima capaz de matar todas as bactérias. Uma vacina também é testada em doses crescentes até ser possível a obtenção de um número mínimo de anticorpos protetores. Todos os medicamentos seguem o mesmo pressuposto.

Para que a homeopatia funcionasse, toda a medicina e química convencionais deveriam ser ineficazes. Além disso, existem também as pílulas homeopáticas. Elas são feitas de açúcar, e uma gota da solução super diluída é aplicada sobre elas até secar. Mas até hoje ninguém falou nada sobre a memória do açúcar…

Até agora, então, podemos concluir que os princípios da homeopatia não têm base científica.  A ideia de que similar cura similar foi formulada sem nenhum tipo de controle experimental, baseada em relatos pessoais de voluntários que experimentaram substâncias e relataram seus efeitos até SEMANAS depois da ingestão. Ou seja, qualquer mal-estar, qualquer mudança de humor, qualquer tipo de sensação foi relacionada ao remédio. E os relatos na Materia Medica são assim mesmo. Um deles diz que “após ingerir a concha da ostra, o voluntário apresentou aversão ao alimento, de que antes gostava muito”. Acho que eu prefiro não comer a concha… Relatos de tristeza, ansiedade, euforia e até de estupidez (sério mesmo), todos constam no tratado, utilizado até hoje sem nenhuma modificação.

Além disso, a ideia de tratar o sintoma fazia sentido naquela época, quando não havia muitos meios de investigar a CAUSA das doenças. Assim, tratar uma dor nas costas com algo que causa dor nas costas em pessoas saudáveis ignora o fato de que a dor na costas pode ser gerada tanto por uma costela fraturada como por uma pielonefrite, uma infecção que alcançou os rins. E os tratamentos indicados para essas condições são completamente distintos, e podemos identificar as causas e escolher o tratamento graças aos avanços da medicina moderna. 

Imagine se a medicina convencional não tivesse evoluído nada nesses 200 anos. Graças aos avanços da medicina, a expectativa de vida subiu de 30-40 anos para 70-80! A homeopatia não foi responsável por nenhum tipo de avanço. Bem pelo contrário, continua vendendo seu remédio para gripes, por exemplo, feito da mesma maneira como era feito há 200 anos. É o Oscillococcinum, vendido a R$45,00 aproximadamente em qualquer drogaria. Na bula consta que ele é feito a partir de coração e fígado de pato diluídos na concentração de 200C.

Em algum momento, 200 anos atrás, alguém ingeriu fígado de pato e desenvolveu sintomas parecidos com gripe, incluindo cefaleia e dores no corpo. Isso pode ter sido feito por uma única pessoa, sem grupo controle, sem reprodução em outras pessoas. Não temos como saber. Pode ter sido uma única observação porque era assim que se fazia naquela época. 

Concluiu-se então que ele poderia ser um bom remédio para gripe, baseado nos princípios dos similares e diluição infinitesimal. Esse é EXATAMENTE o mesmo remédio, feito do mesmo jeito, como era há 200 anos. Não houve nenhum progresso. Não houve nenhuma mudança. Descobertas da química, física ou medicina jamais foram levadas em conta. A homeopatia não evoluiu. Veja bem, naquela época, até eu iria preferir tomar uma solução com apenas água do que me deixar “purgar” pelos métodos praticados. Naquele contexto, a homeopatia fazia sentido. Não tratar era melhor do que sangrar as pessoas até a morte. Pelo menos havia uma chance de a pessoa se curar sozinha.

Se você optar por se tratar com um medicamento homeopático, tem o direito de saber que só existe água ou sacarose naquele frasco ou pílula, além de quais os princípios em que ele está baseado. Deve lembrar, também, que muitas doenças que a homeopatia garante curar são doenças que passam com o tempo, como asma, gripes e resfriados; ou são difíceis de mensurar uma relação de causa e efeito, como a depressão; ou, ainda, são doenças que apresentam altos e baixos de melhora espontânea, como artrose. Você tem o direito de acreditar e de usar o que quiser, mas eu, como cientista, tenho o dever de lhe informar sobre a posição da ciência em relação à homeopatia e sua suposta eficácia.

 

Hoje, espero ter ajudado a elucidar exatamente o que é a homeopatia. Ora, mas vocês do Café são muito céticos! Não é por que a ciência não explica que uma coisa não funciona! Um monte de gente usa e diz que funciona! Minha tia usou e funcionou! Conheço um monte de gente que só se trata com homeopatia.

Essas questões serão esclarecidas em um próximo post, mas já adianto para vocês que vou lhes apresentar o melhor amigo da homeopatia: o efeito placebo! E vou listar e comentar todos os trabalhos sérios de pesquisa que tentaram validar a homeopatia pelo método científico e falharam. Nenhum deles conseguiu demonstrar que a homeopatia funciona além do efeito placebo. Espero vocês, e até lá, recomendo doses nada homeopáticas de café! Ou então, para um efeito mais potente da cafeína, será que deveríamos diluir uma gota de café em um galão de água? 

 

Para saber mais:

 

Australian government – NHMRC INFORMATION PAPER Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions, March 2015

House of Commons UK – Evidence Check 2: Homeopathy – Science and Technology Committee http://www.publications.parliament.uk/pa/cm200910/cmselect/cmsctech/45/4504.htm#a10

http://homeowatch.org/

http://trickortreatment.com/

Suckers: How Alternative Medicine Makes Fools of Us All

Rose Shapiro

 

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