Homeopatia parte II: placebos e perigos

Em 2001, Pollo A et al conduziram um experimento extremamente elegante para demonstrar a existência do efeito placebo. Pacientes que haviam passado por uma toracotomia, uma cirurgia aberta de tórax, foram tratados com o analgésico buprenorfina – um opiácio potente – e com uma solução salina endovenosa. Contudo, os pacientes foram divididos em três grupos: para o primeiro grupo, nada foi dito a respeito da solução salina (administração neutra). Para o segundo grupo, foi informado que se tratava de um experimento, e que a solução salina podia conter um poderoso analgésico ou um placebo, e que o médico também não sabia o que estava ali (clássica administração em duplo cego). Para o terceiro grupo, foi dito que a solução continha um analgésico potente (administração enganosa). Os pacientes eram livres para requisitar o analgésico quando quisessem. O efeito placebo foi medido pelas doses de analgésico que cada grupo recebeu durante três dias. O primeiro grupo recebeu, em média, 11,55 mg do analgésico. O segundo, 9,15 mg; e o terceiro, 7,65 mg. Apesar de todos terem acesso ao mesmo analgésico, o efeito placebo provocado pela solução salina conseguiu reduzir drasticamente o uso do opiácio. 

Falaremos mais de efeito placebo em um próximo post. Por ora, o ponto que quero enfatizar é que mesmo uma solução salina pode apresentar resultados positivos, por causa do efeito placebo. Por esta razão, quando testamos um novo medicamento, ele precisa mostrar eficácia MAIOR do que um possível efeito placebo. Para isso, a maneira mais amplamente utilizada é o estudo com duplo cego. Isso consiste em testar a droga em dois grupos, um que recebe a droga, e outro que recebe um placebo – que pode ser uma pílula de açúcar, uma injeção salina, algo que seja exatamente igual ao tratamento de fato, mas sem o princípio ativo. O paciente não sabe o que está recebendo e nem tampouco a equipe médica que administra o remédio, para não poder influenciar o resultado. Por isso se chama DUPLO cego. Além disso, devem-se neutralizar também outros fatores que possam interferir no resultado, como a incidência de doenças cíclicas – que possuem naturalmente altos e baixos de sintomas – e doenças de cura espontânea – como gripes e resfriados. O estudo acima foi muito bem elaborado, pois graças à sua curta duração, conseguiu eliminar também essas interferências.

Experimentos com duplo cego foram realizados para diversos remédios homeopáticos, tentando comprovar sua eficácia. Mas até hoje todos falharam.  A homeopatia não conseguiu mostrar-se melhor do que um efeito placebo.

Em 1998, a colaboração Cochrane conduziu uma meta-análise de remédios homeopáticos para asma. Uma meta-análise consiste em analisar todos os trabalhos publicados sobre um determinado assunto e compilar os resultados. Cochrane é um grupo independente de pesquisadores que constantemente analisa novos medicamentos. É importante saber que esse grupo foi criado justamente para realizar estudos independentes, não patrocinados pelas grandes farmacêuticas, e produzindo, assim, um resultado confiável, sem conflito de interesses. O grupo concluiu que não há efeitos além do placebo.

Em 2005, a revista The Lancet publicou uma outra meta-análise (Shang et al, 2005), incluindo 220 trabalhos. O resultado foi o mesmo: os autores concluíram que não há efeito da homeopatia além do placebo. Em 2006, o European Journal of Cancer demonstrou que a homeopatia não apresenta efeitos além do placebo em uma análise de seis trabalhos. Até mesmo trabalhos sérios, produzidos por grupos homeopatas, chegaram à mesma conclusão, como mostra um estudo publicado no Journal of Alternative Medicine, em 2006, demonstrando a ineficácia de remédios homeopáticos contra diarreia.  

homeopathy diversosOs trabalhos mais abrangentes e conclusivos foram feitos pelo governo da Suíça, em 2005; da Inglaterra, em 2010; e da Austrália, em 2015. Esses trabalhos incluíram meta-análises detalhadas sobre a eficácia da homeopatia, e concluíram, mais uma vez, que a homeopatia não consegue apresentar resultados melhores do que um efeito placebo. Esses resultados levaram ao fim do financiamento público da homeopatia na Suíça em 2005 e na Austrália em 2015. Na Inglaterra, o parlamento acaba de obter uma primeira vitória para fazer o mesmo. A homeopatia não foi proibida nesses países. Ela apenas não será mais subsidiada pelo governo, e os sistemas públicos de saúde não poderão mais prescrever remédios homeopáticos. Além disso, devem advertir o paciente sobre os riscos da homeopatia, para que a população possa fazer uma escolha informada sobre sua saúde. Na Suíça, por pressão popular, a homeopatia foi reinstituída em 2012, por um período probatório até 2017, quando será tomada uma decisão final baseada nas pesquisas mais recentes.

O governo australiano publicou em 2015 um relatório extenso –  NHMRC INFORMATION PAPER – contendo 57 revisões sistemáticas e 117 trabalhos individuais. Foram incluídos estudos com tratamentos homeopáticos para uma enorme lista de doenças. Nenhum trabalho demonstrou eficácia maior do que o placebo. Graças a esse estudo, o governo australiano suspendeu o investimento público em homeopatia, e adotou diretrizes para informar a população sobre os riscos dessa prática.

Riscos? Mas calma aí, vocês já explicaram que nos remédios homeopáticos só têm água ou açúcar. Mesmo que os princípios ativos sejam substâncias tóxicas, estão tão diluídas que não resta nada ali. Por isso não têm efeitos colaterais. Também já explicaram que os efeitos observados nos relatos pessoais de melhora dos pacientes podem ser devidos ao efeito placebo, ou a doenças cíclicas e cura espontânea, que teriam o mesmo resultado mesmo sem nenhum tipo de tratamento. Mostraram até que o efeito placebo reduziu a ingestão de opiácios analgésicos. Isso não é bom? Por que não deixar as pessoas usarem mesmo assim? Afinal, se não fizer bem, pelo menos mal não faz. Houve até um “suícidio coletivo” na Inglaterra, no qual várias pessoas se reuniram para tomar uma “overdose” de remédios homeopatícos e morreram… de rir! Certo?

Errado. Infelizmente, errado. Geralmente tida como inócua, a homeopatia, assim como diversas práticas de medicina alternativa, pode causar danos e até matar. Realmente são inúmeros os relatos pessoais de melhora com homeopatia. E por isso as pessoas usam. Mas esses relatos não são testes científicos. A população em geral não foi treinada para entender uma relação de causa e efeito, e os relatos de melhora utilizados como evidência são efetivamente explicados pelas condições citadas acima – placebo, cura espontânea e doenças cíclicas. Uma pessoa que está gripada e busca um tratamento homeopático pode ser induzida a acreditar que o remédio teve algum efeito, quando, na verdade, se ela não tomasse nada, a gripe ia passar sozinha. Doenças como depressão e artrites apresentam normalmente períodos de pico de seus sintomas. Se a pessoa busca tratamento durante o pico de sua doença, certamente vai experimentar uma redução dos sintomas em seguida, porque esse é o curso natural da doença, e não porque o tratamento funcionou.

Mas esses relatos pessoais validam a homeopatia e geram uma falsa confiança no tratamento. O perigo disso é confiar cegamente nesse tipo de tratamento quando surge uma condição mais séria do que uma gripe ou uma doença cíclica. Para cada relato pessoal de cura milagrosa pela homeopatia, a mídia deveria trazer também os tristes casos de mortes e sofrimentos que poderiam ter sido evitados pela medicina convencional.

Em maio de 2002, a bebê de nove meses Gloria Mary Thomas faleceu, acometida por uma doença dermatológica facilmente tratável, o eczema. O pai, médico homeopata fanático, recusou tratamento convencional e tratou a bebê apenas com remédios homeopáticos. A doença progrediu a tal ponto que, quando foi internada, logo antes de sua morte, Gloria apresentava erupções no corpo todo, e a córnea de um dos olhos estava destruída. Ela deve ter sofrido dores terríveis e não teve acesso a analgésicos. O eczema havia sido diagnosticado quando ela tinha três meses. Essa bebê suportou seis meses de sofrimento, e, enfim, faleceu.

A atriz brasileira Dina Sfat foi diagnosticada com câncer de mama em 1986. Recusou cirurgia e tratamento, e optou por se tratar apenas com homeopatia, acupuntura e outros tipos de medicina alternativa. Faleceu em 1989, após metástases do câncer. Isabella Denley morreu com 13 meses, na Austrália, em 2002. Ela tinha epilepsia, seus pais recusaram tratamento, e optaram pela homeopatia. Ryan Alexander Lovett morreu aos 7 anos, no Canadá, em 2013, de uma infecção bacteriana. Sua mãe recusou o tratamento convencional e o tratou apenas com homeopatia. Esses são apenas exemplos.

É verdade que muitos médicos homeopatas sérios teriam encaminhado esses pacientes para a medicina convencional, pois sabem das limitações da homeopatia. Mas, ainda assim, acreditam que a homeopatia “serve” para doenças crônicas e não severas. É comum também ouvirmos relatos de usuários que admitem usar a homeopatia apenas para condições que não são “sérias”. Quando se trata de doença grave, eles consultam um médico convencional. Mas quem pode traçar a linha entre a doença séria e a não séria? E como saber quanto tempo esperar para “testar” a homeopatia antes de decidir que a doença ficou séria o suficiente?  No caso de Ryan Lovett, a infecção progrediu em uma semana. Quando a mãe finalmente resolveu interna-lo, já era tarde demais. Uma criança morreu de uma infecção facilmente tratável com antibióticos. O uso da homeopatia pode retardar e evitar o diagnóstico de doenças potencialmente fatais.

Outros fatores contribuem para os riscos da utilização da homeopatia. A maioria dos médicos homeopatas recomenda não vacinar as crianças. Esse fato pode contribuir para o ressurgimento de doenças previamente controladas, como de fato ocorreu com o sarampo. Como já foi explicado aqui, diminuir a imunidade de rebanho coloca a saúde da comunidade em risco. Finalmente, muitos remédios homeopáticos são diluídos em álcool 70%, e são indicados para crianças. Algumas gotas por dia podem parecer pouco, mas se pensarmos em um bebê de cinco quilos ingerindo cinco gotinhas de remédio de três em três horas, ele estará ingerindo 25% a mais de etanol do que um adulto de 70kgs que toma uma dose (40 mL) de pinga por dia. O álcool é prejudicial para o cérebro em desenvolvimento e deve ser evitado por crianças em fase de crescimento.

Ah, mas a medicina convencional também pode ser perigosa, deixar sequelas, apresentar efeitos colaterais terríveis e até matar. Além disso, é toda voltada para o lucro.

Essa afirmação também é recorrente. E, realmente, a indústria farmacêutica deixa muito a desejar no quesito ética. Talvez justamente por isso, cansado de remédios caros e de estudos patrocinados e tendenciosos, o público tenha buscado a medicina alternativa. No entanto, a empresa homeopática Boiron lucra 20 milhões de dólares anualmente só com a venda do Oscilococcinum, aquele remédio para gripe feito com fígado de pato na diluição 200C. Isso é o lucro da venda de UM único remédio. A indústria homeopática movimenta 3 bilhões de dólares por ano só nos EUA. Dificilmente uma instituição de caridade, não?

A medicina tradicional não é perfeita. A história mostra que seus erros deixaram sequelas e mortes. A diferença é que, graças somente a ela, a expectativa e a qualidade de vida aumentaram incrivelmente, e temos curas e tratamento reais e comprovados para diversos males. Além disso, a ciência busca corrigir seus erros e testar seus resultados. O mau uso de ambas as práticas pode matar. Mas somente uma pode curar.

 

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed?uid=11406341&cmd=showdetailview&indexed=google

http://www.cochrane.org/CD000353/AIRWAYS_homeopathy-for-chronic-asthma

http://www.publications.parliament.uk/pa/cm200910/cmselect/cmsctech/45/4502.htm

http://www.swissinfo.ch/eng/alternative-therapies-are-put-to-the-test/29242484

Homeopathy: what does the “best” evidence tell us? Ernst E1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20402610

 
Australian NHMRC report  – http://www.nhmrc.gov.au/health-topics/complementary-medicines/homeopathy-review
 
Jacobs J, Guthrie, B, Montes G, Jacobs L, Colman N, Wilson A, DiGiacomo R. Homeopathic Combination Remedy in the Treatment of Acute Childhood Diarrhea in Honduras. The Journal of Alternative and Complementary Medicine. 2006 Oct;12(8):723-732.
 
Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy. Shang A1, Huwiler-Müntener K, Nartey L, Jüni P, Dörig S, Sterne JA, Pewsner D, Egger M. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=shang+lancet+2005
 
Trick or Treatment? Alternative Medicine on Trial By Professor Edzard Ernst and Simon Singh
 
http://www.ceticismoaberto.com/ciencia/2811/fracassa-suicdio-homeoptico-de-cticos-britnicos

 

Share

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Share