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maio 14

A importância de lamber a cria

 

Boas mães lambem a cria. Isso é literalmente a verdade para ratos. O maior cuidado materno que as mães têm com seus filhotes consiste em lambê-los. Filhotes de mães atentas e cuidadosas, que foram lambidos com frequência na sua primeira infância, tornam-se adultos mais calmos e possuem maior capacidade de aprendizado. Por outro lado, uma mãe ausente, que não lambe sua cria, gera filhotes tensos e nervosos, com dificuldades de aprendizado e com maior incidência de doenças relacionadas ao estresse.

Até aqui nenhuma surpresa, certo? Freud já dizia isso há tempos. A surpresa está justamente em demonstrar cientificamente que Freud tinha razão. E a culpa continua sendo da mãe, como já vimos aqui no Café na Bancada. Sim, vamos falar novamente de epigenética. Já vimos ratos gordos e amarelos, e hoje falaremos de ratos tristes e estressados.

Michael Meaney e Moshe Szyf, da Universidade de McGill, no Canadá, demonstraram que o cuidado maternal – ou seja, o hábito de lamber a cria – altera o funcionamento dos genes dos ratos após o seu nascimento. Da mesma maneira observada para a cor da pelagem e propensão à obesidade dos ratos amarelos, estas alterações são epigenéticas, e são causadas por fatores ambientais. No entanto, as alterações observadas para os ratos amarelos deram-se no útero, durante o desenvolvimento do embrião. Agora estamos falando de mudanças que ocorrem no funcionamento dos nossos genes após o nascimento!

Como então o comportamento da mãe pode alterar a expressão de genes e determinar o comportamento da sua cria? Os pesquisadores fizeram os seguintes experimentos:

rat-grroming-babySepararam os ratos em dois grupos: um grupo cujas mães eram zelosas e lambiam suas crias, e outro composto por mães negligentes que não lambiam os filhotes. Quando os filhotes chegavam à idade adulta, seu hipocampo era examinado. Percebeu-se que nos filhotes de mães negligentes, os genes que regulam a produção de receptores de glucocorticóide (os quais regulam a sensibilidade aos hormônios de estresse) estavam muito metilados. A metilação atrapalha a leitura do gene, como já vimos – ela desliga o gene. Assim, esses filhotes estavam com sua sensibilidade ao estresse desregulada. Eles não tinham receptores em número suficiente, portanto eram mais sensíveis ao estresse do que os ratos cujas mães eram zelosas. Esses eram calmos e tranquilos e possuíam maior capacidade de aprendizado.

O excesso de estresse atrapalha nossa capacidade de aprendizado. Nós aqui do Café na Bancada sabemos disso. Por isso precisamos parar, tomar um café, relaxar, e depois continuar trabalhando. Concordo que talvez não devêssemos fazer isso tantas vezes por dia, mas cada um sabe do seu estresse!

Os pesquisadores perceberam que os ratos bem cuidados possuíam hipocampos melhor desenvolvidos e uma menor liberação do hormônio cortisol, relacionado ao estresse. Em contrapartida, os ratos negligenciados por suas mães apresentavam menor desenvolvimento do hipocampo e uma grande quantidade de cortisol, e mostravam-se nervosos e assustados quando colocados em um novo ambiente.

Através de um simples comportamento – o fato de lamber ou não a cria – as mamães ratas moldaram o cérebro e a resposta ao estresse dos seus filhotes!

Para demonstrar que a falta de receptores e maior sensibilidade ao estresse dos ratinhos devia-se unicamente ao comportamento das mães, foi feito um experimento muito simples. Ratos nascidos de mães sabidamente negligentes foram trocados com os filhotes de mães atentas. O resultado foi o esperado. Ratos nascidos de mães negligentes mas criados por mães carinhosas tornaram-se adultos calmos e corajosos, e com grande quantidade de receptores de glucocorticóide. Já os ratos nascidos de mães zelosas mas criados por mães negligentes apresentavam pequena quantidade dos receptores e mostraram-se adultos nervosos e assustados.

Finalmente, para acabar com qualquer sombra de dúvida de que se tratava de um fenômeno epigenético, Meaney e Szyf, os autores da pesquisa, realizaram um último experimento. Os cientistas reuniram um grupo de ratos nervosos, filhos de mães negligentes, e injetaram uma droga chamada tricostatina A diretamente no seu cérebro. No cérebro dos ratos, logicamente. Essa droga consegue remover grupos metil. Ou seja, se a alteração no comportamento fosse causada exclusivamente pela presença de grupos metil no gene dos receptores, impedindo sua leitura e a produção dos receptores, os ratos não deveriam mais ser estressados. De fato, após o tratamento com a droga, os ratos tornaram-se calmos e corajosos, e com número normal de receptores cerebrais.

Meaney e Szyf provaram algo inédito e fabuloso: Sem qualquer alteração no código genético, o comportamento das mães causou uma mudança permanente no comportamento, na fisiologia cerebral e na expressão dos genes dos filhotes.

Desde então, os estudos em epigenética decolaram. Frances Champagne, da Universidade de Columbia, EUA, provou que a falta de cuidado materno causa a metilação de genes de receptores de estrogênio no cérebro das fêmeas, fazendo com que essas também sejam mães negligentes no futuro. 

Outro estudo conduzido por Szyf e um grupo de Yale, EUA, comparou amostras de sangue de 14 crianças russas criadas em orfanato com amostras colhidas de 14 crianças russas criadas por seus pais. O estudo demonstrou a presença de maior número de radicais metil nas crianças criadas em orfanato, principalmente em genes relacionados com comunicação neuronal e desenvolvimento cerebral.

A epigenética não atua somente em genes relacionados ao cérebro e comportamento. Outro estudo, também conduzido por Szyf, demonstrou que vias de sinalização celular que sabidamente levam ao desenvolvimento de tumores também levam à metilação de enzimas que ativam genes supressores de tumor. Se esses genes são desativados pela metilação, o tumor se desenvolve. Assim, uma doença como o câncer, que sempre se acreditou ter origem genética, pode ter também origem epigenética. E, logicamente, se tem origem epigenética, podemos buscar tratamentos epigenéticos – com a vantagem de que é muito mais fácil interferir em processos de metilação do que em mutações no DNA. 

Um exemplo é o trabalho de Ming Zhu Fang, da Universidade de Rutgers, que demonstrou as propriedades epigenéticas do chá verde. O chá verde já era conhecido por prevenir o crescimento de tumores em modelos animais. A pesquisadora demonstrou que epigallocatechin-3-gallate (EGCG), o principal flavonóide do chá verde, inibe a metilação de vários genes relacionados ao crescimento de tumores.

O DNA já não é visto como um algoz ditador do nosso futuro. Contudo, se essa informação serve de alívio perante um destino cruel, ela também nos confere grande responsabilidade perante nosso destino e o destino de nossas crias.

Será que não temos responsabilidade sobre esta nova geração? Será que nossas escolhas não criaram uma geração de crianças hiperativas e com déficit de atenção? Uma geração de adultos infelizes e depressivos? Uma geração em constante luta contra os males da obesidade, diabetes e hipertensão?

Será que em vez de investirmos em medicamentos para depressão, cirurgias para obesidade e psicotrópicos para crianças, não deveríamos investir em informar melhor a população sobre os reais benefícios do cuidado materno? Sobre os reais perigos das dietas restritivas? Sobre a importância máxima, com todas as suas consequências, de, simplesmente, lamber a cria?

 

 

 

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4 comentários

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  1. Antonio

    Nat, como sempre, muito inteligente o artigo! Antes de ir dormir fui no quarto lamber a cria!
    Bjs

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada Antonio!é isso aí, investindo agora no futuro dos seus filhos senão eles te mandam a conta da terapia quando forem adultos, hehehe. Que bom que vc gostou! bjs.

  2. Camila

    Natália muito bom o trabalho de divulgação científica! Obrigada pela iniciativa! Vou indicar aos meus alunos de biologia! 😀

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada, Camila! Espero que eles gostem e que vocês continuem a nos acompanhar. beijos.

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