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nov 29

Limões, laranjas e o método científico

O ano era 1746, quando James Lind, um cirurgião experiente responsável pela tripulação do navio HSM Sallisbury, da marinha britânica, passou do anonimato para… o anonimato! Quase ninguém sabe quem foi James Lind até hoje. No entanto, ele foi provavelmente o primeiro a aplicar o método científico para investigar a causa de uma doença. Logicamente, ele não fez um estudo com grupo controle e duplo cego, como fazemos hoje, e cuja importância tem sido tão ressaltada aqui no Café na Bancada. Mas ele foi um dos precursores do pensamento que nos levou a desenvolver o método científico.

Nos meados do século XVIII, a medicina atribuía todas as doenças a um desequilíbrio dos “humores”. Acreditava-se que o corpo humano era composto por quatro humores, como já mencionamos aqui. Os humores eram o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra, e correspondiam também aos quatro elementos da natureza, terra, fogo, ar e água, e às estações do ano. O sangue estaria associado à vitalidade e bom humor; a fleuma (cérebro), à calma e compostura; a bile amarela, ao ódio e temperamento forte; e a bile negra, à depressão e tristeza. Assim, um desequilíbrio na bile amarela, por exemplo, estava associado à covardia – e daí vem o termo “amarelar” quando alguém está com medo.

Quando esses humores estavam em desequilíbrio, a pessoa ficava doente – daí a expressão mal-humorada. E, para curá-la, obviamente bastava equilibrar os humores. Para isso, utilizava-se a sangria, além de métodos purgativos, para provocar diarreia e vômitos. Os médicos acreditavam que toda doença era causada por um bloqueio ou excesso de um dos humores. Lembremos novamente que nessa época ainda não havia o conhecimento sobre a importância de métodos de higiene, nutrição, nem doenças transmitidas por microrganismos.

As grandes navegações foram marcadas pela presença de uma doença cruel e mortal: o escorbuto. Hoje, sabemos que se trata de carência de vitamina C, induzida por uma dieta pobre e longos períodos no mar. Mas naquela época, baseado na teoria dos humores, os médicos achavam que era um desequilíbrio – mais especificamente da bile negra, já que ela era associada com letargia e preguiça, e esse era um dos sintomas do escorbuto. Além disso, outros sintomas do escorbuto são gengivas enegrecidas e manchas negras pelo corpo. Assim, parecia obviamente um desequilíbrio de bile negra. Não existia o conceito de que um alimento (ou a falta dele) pudesse gerar uma doença. TODAS as doenças eram decorrentes de um desequilíbrio do organismo.

Não é surpresa, então, que o tratamento para o escorbuto consistia em sangria, purgação e também trabalho duro, para contrabalançar a letargia e preguiça dos acometidos. Hoje, ficamos só imaginando os coitados dos marinheiros, que já estavam morrendo de dor com seus músculos e mucosas literalmente apodrecendo por falta de colágeno, tendo que trabalhar mais duro ainda para “curar” sua preguiça, e ficando ainda mais desnutridos e desidratados pela falta de sangue e fluidos.

James Lind foi o primeiro a questionar se tudo aquilo fazia sentido. Questionou principalmente se médicos, que nunca haviam presenciado o escorbuto e seus sintomas, que nunca haviam viajado em um navio, e só ficavam em terra teorizando sobre o assunto, seriam capazes de entender o funcionamento da doença. Lind resolveu, então, juntar toda a informação que havia sobre o escorbuto. Grande parte estava descrita em diários de bordo, e Lind encontrou descrições de cura com sucos de frutas e vegetais frescos, feitas por quatro cirurgiões de bordo durante a guerra de sete anos. Ele fez uma “meta-análise”.

Assim, com a autorização do capitão do HSM Sallisbury, Lind desenhou seu primeiro experimento, com 12 marinheiros em estágio avançado da doença. Os marinheiros foram divididos em seis grupos, e cada par foi alimentado com a mesma dieta básica, ficou alojado no mesmo local, e recebeu os mesmos cuidados. Dois receberam um quarto de copo de cidra por dia. Outros dois receberam vitriol (uma combinação de sulfatos). Um par recebeu uma colher de vinagre, outro par recebeu 150 mL de água do mar. Finalmente, um par recebeu um limão e duas laranjas por dia, e o último par recebeu um preparado de noz moscada.

Lind não fez grupo controle, nem duplo cego. Mas tomou o cuidado de testar pacientes em condições parecidas e com uma única variável na dieta. E de dividi-los em grupos aleatoriamente. Ou seja, ele fez um estudo randomizado. Depois de seis dias, o suprimento de limões e laranjas acabou, mas esse tempo já foi suficiente para perceber que os marinheiros que receberam as frutas foram os que apresentaram a melhor recuperação. Lind reporta, em seu Tratado sobre o Escorbuto (1753), que um dos marinheiros já estava bem o suficiente para voltar ao trabalho, embora as manchas em suas gengivas e corpo ainda não tivessem desaparecido por completo, e o outro estava tão bem que foi nomeado enfermeiro dos demais.

Mesmo após esse sucesso experimental, demorou 40 anos para que a Marinha Britânica adotasse as frutas cítricas como prevenção para o escorbuto. A descoberta de Lind foi recebida com muito ceticismo pela comunidade médica. Afinal, acreditava-se que o indivíduo doente precisava ser visto e tratado como um todo. Não fazia sentido pensar que uma doença era causada pela falta de um alimento! As doenças eram causadas por desequilíbrio, e o indivíduo merecia ser tratado para reestabelecer esse equilíbrio, e não com uma intervenção pontual! A medicina funcionava porque se baseava nesses princípios e não devia ser testada. Engraçado, acho que já ouvi esse discurso em algum lugar, e foi em tempos modernos!

Além disso, Lind não era um “acadêmico”. Ele era apenas um cirurgião naval, e não gozava do prestígio dos médicos teóricos. E teve muito azar em um aspecto: convencido de que o suco de limão poderia prevenir o escorbuto, resolveu fervê-lo para condensá-lo e facilitar o transporte e armazenamento. E assim degradou toda a vitamina C presente. Obviamente o suco concentrado não funcionava, e a comunidade médica voltou à sua teoria tradicional.

O escorbuto continuou a fazer suas vítimas, dizimando até 80% das tripulações das grandes navegações, até 1795, quando Sir Gilbert Blane foi nomeado Médico Chefe da Frota. Sir Blane era um acadêmico respeitado, e, como chefe, tinha o poder para testar novamente a hipótese de Lind, que ele já conhecia. Durante uma viagem de 23 semanas para a Índia, ele estabeleceu que todos os marinheiros receberiam uma bebida feita de rum, água, açúcar e suco de limão – reparem que ele pode ter sido o inventor da caipirinha!

Apenas alguns marinheiros apresentaram sintomas de escorbuto, mas foram tratados com porções extras de limão e logo estavam curados. Depois dessa viagem, ficou estabelecido que todos os navios ingleses levariam um suprimento de limões. Os ingleses ficaram conhecidos como “limeys” durante um bom tempo.

Do século XVI ao XVIII, o escorbuto matou mais marinheiros do que a soma de todas as batalhas navais, tormentas e demais doenças. E sua cura jamais teria sido descoberta se um cirurgião naval não tivesse usado o método científico para investigar. Graças a Lind e Blane, os “limeys” sobreviveram e passaram seu conhecimento para o resto do mundo. E agora, se alguém reclamar que você está exagerando na caipirinha, você já pode responder: “Mas isso é remédio, reconhecido pela ciência!”

Para saber mais:

http://www.jameslindlibrary.org/articles/james-lind-and-scurvy-1747-to-1795/

Lind J (1753). A treatise of the scurvy. In three parts. Containing an inquiry into the nature, causes and cure, of that disease. Together with a critical and chronological view of what has been published on the subject. Edinburgh: Printed by Sands, Murray and Cochran for A Kincaid and A Donaldson.

Blane G (1785), Diseases incident to seamen. London: Printed by Joseph Cooper, and sold by John Murray and by William Creech, in Edinburgh – Publisher.

 

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4 comentários

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  1. Gabriel

    ” No entanto, ele foi provavelmente o primeiro a aplicar o método científico para investigar a causa de uma doença. ”

    Natália, Carl Sagan publicou no livro ” O mundo assombrado pelos demônios ” o seguinte trecho:

    ” Hipócrates introduziu elementos do método científico no diagnóstico da doença. Ele recomendava com insistência a observação cuidadosa e meticulosa: “Não deixem nada ao acaso. Não percam nenhum detalhe. Combinem as observações contraditórias. Não tenham pressa”. Antes da invenção do termômetro, ele fez o gráfico das curvas de temperatura de muitas doenças. Recomendava que os médicos fossem capazes de explicar, somente a partir dos sintomas presentes, o provável desenvolvimento passado e futuro de cada doença. Enfatizava a honestidade. Estava disposto a admitir as limitações do conhecimento médico. Não se envergonhava de contar para a posteridade que mais da metade de seus pacientes morrera das doenças que ele estava tratando. Suas opções de ação eram limitadas; os remédios de que dispunha eram principalmente laxantes, eméticos e narcóticos. Realizavam-se cirurgias e cauterização. Outros progressos consideráveis ainda foram feitos em toda a época clássica, até a queda de Roma. ”

    Se o trecho acima estiver correto, Hipócrates já tentava encontrar a causa de doenças aproximadamente 2500 anos atrás.

    1. Natália Pasternak Taschner

      oi, Gabriel, que legal, muito obrigada pela contribuição. Até onde sei Lind foi o primeiro teste clínico controlado, mas vc tem razão em lembrar que o método científico não se limita a isso, e vale a pena dar uma investigada mais profunda em Hipócrates, o que certamente farei. grande abraço,
      Natalia

  2. Gabriel

    Natália você sabe o por que os quatro cirurgiões de bordo ofereceram sucos de frutas e vegetais frescos aos marinheiros doentes?

    1. Natália Pasternak Taschner

      oi, Gabriel, a informação que eu tenho é só sobre Lind, que ele teria se inspirado em diários de bordo antigos que relatavam melhora. O curioso é que no Tratado sobre o escorbuto, que eu confesso que não li inteiro, Lind não conclui que a causa do escorbuto está ligada à alimentação. Ele apenas admite que as frutas curam. E Blane relata que se inspirou em Lind mas também em diários de bordo antigos. Vou dar mais uma estudada pra nao falar bobagens, faz tempo que pesquisei essa história. mas eu volto! abraço.

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