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set 08

Mais perdido que cachorro em dia de mudança

Você já ouviu a expressão “mais perdido do que cachorro em dia de mudança“? Ela é usada quando queremos expressar o quão perdido estamos em uma determinada situação. Por exemplo, sua primeira aula de inglês, ou um seminário de física teórica mostrando que tudo o que acreditamos ser real na verdade é apenas um holograma projetado por um super-computador.

Nós até podemos processar os sons que estão sendo falados ali. Em ambos os casos, o interlocutor fala pausadamente, mudando o tom de voz para destacar uma fala. Percebemos que a pessoa quer se fazer entender, mas mesmo assim aquelas palavras parecem não fazer muito sentido. Uma por ser em outra língua, outra por ser uma ideia nova que pretende derrubar nossas crenças que há muito tempo andam conosco.

Será que nossos amigos peludos também se sentem assim às vezes? Essa expressão faz sentido? Que tal analisá-la sobre o ponto de vista dos nossos queridos caninos?

Cenário puramente fictício

Sábado de sol, você e seu cãozinho estão no parque. Muitas árvores, pessoas e outros cães por toda a volta. Não dá para saber quem está levando quem para passear. Enquanto o animal em fúria usa todas suas forças para tentar ir pelo caminho planejado, o cachorro quer apenas cheirar traseiros. Você começa a esbravejar todos os nomes em todo tom de voz possível. A princípio você começa com calma, chamando ele pelo nome sem puxar muito a coleira. O tom de voz é inversamente proporcional à paciência. Depois da terceira empacada em traseiros cheirosos, você já esta berrando na cara do cachorro e ele não tem a menor ideia do que está acontecendo. Você conclui que seu cachorro não tem a menor ideia do que você está falando e ambos voltam para casa aborrecidos. 

Ele era tão fofinho quando filhote

Quando o cachorrinho é apenas um filhotinho, nós adoramos que ele venha pra cima da gente pulando, mordendo e querendo brincar. Abraçamos e incentivamos que ele faça mais disso. Pronunciando palavras em um tom totalmente diferente do que falamos quando estamos bravos. 

O problema é: cachorros crescem. E crescem rápido. Depois de três meses, o seu querido amigo, que tinha apenas alguns centímetros e você conseguia carregá-lo no colo, agora já pesa 40 quilos e mede um pouco mais de um metro. Ser atacado com pulos e lambidas já não parece tão divertido, mas o cachorro já está condicionado a ouvir você e vir pulando. Ao invés de elogios com voz fofa, agora ele escuta xingamentos com voz áspera. O cachorro pode ter ficado confuso com a mudança bruta de comportamento, mas, ao que parece, ele entendeu que alguma coisa estava errada apenas pelas palavras e pelo tom de voz que foi utilizado para lhe chamar a atenção. 

Isso todo dono de cachorro já suspeitava que acontecia, mas agora temos munição científica para tanto!

“Cientificando” o ditado popular

Um estudo publicado na revista Science sugere que os cães não só entendem as palavras, como também reagem ao tom em que certas palavras são pronunciadas.

Os autores do estudo fizeram um experimento parecido com o explicado no post sobre os cheiros que os cães reconhecem. Eles treinaram 13 cães para ficarem imóveis em um equipamento de ressonância magnética, enquanto os cérebros deles eram monitorados. Durante o tempo em que os cães ficavam no equipamento, uma gravação do som da voz de uma pessoa conhecida, que não eram seus donos, repetia um conjunto de palavras. 

As palavras selecionadas foram separadas em duas categorias:

  • Palavras reconhecidas pelos cães como “recompensa”. Por exemplo, “bom garoto”  e “muito bem”
  • Palavras neutras, como “ainda” ou “tanto faz”

As palavras poderiam ser pronunciadas de duas maneiras também. De maneira neutra ou com o entusiasmo que todo dono de cachorro sabe como é.

Os pesquisadores não usaram a voz dos donos para evitar um viés. Tente falar “mimeógrafo” de uma maneira bem empolgada com o seu cachorro e veja se ele não fica abanando o rabo loucamente.

Todas as combinações de palavra/entonação foram testadas.  

  • Palavra neutra / tom neutro
  • Palavra neutra / tom de recompensa
  • Palavra de recompensa / tom neutro
  • Palavra de recompensa / tom de recompensa

Como controle, o silêncio também foi testado.

Os pesquisadores observaram uma maior atividade do lado esquerdo do cérebro dos peludos quando uma palavra de recompensa era ouvida, não importando a entonação que ela era dita. E mais: uma mesma palavra, pronunciada com entonações diferentes, alterava a atividade do lado direito do cérebro dos cães. O que significa dizer que os cães processam a palavra e o conteúdo emocional de um som de maneira muito semelhante aos humanos.

O estudo também analisou a região do cérebro que é estimulada quando o cão se sente recompensado. Os resultados mostraram que a atividade aumentava nessa região do cérebro quando uma palavra de recompensa era pronunciada em tom de recompensa. Ou seja, não importa apenas o que você diz, mas também a entonação em que a palavra é pronunciada.

Faça esse mesmo experimento com o seu cachorro. Fale uma palavra que ele associe como recompensa em um tom neutro. Veja se ele faz essa cara antes de ficar todo empolgado.

dog-list

 

Depois repita a mesma palavra de uma forma mais entusiasmada e prepare-se para lambidas e pulos.

Até que faz sentido!

Os cachorros não falam húngaro (idioma em que as palavras foram pronunciadas neste estudo), mas aparentemente eles processam o som da mesma maneira que nós processamos. Acontece que, se o seu chefe falar em um tom mais monótono possível, nem olhando para a sua cara “Você ganhou um aumento, agora volte a trabalhar”, você vai se sentir muito feliz e a região de recompensa do seu cérebro vai brilhar com a intensidade de mil sóis.
 
Por outro lado, se você falar para o seu cachorro que ele recebeu um aumento de ração, ele provavelmente irá ficar te olhando com cara de paisagem. Portanto, nesse sentido, somos diferentes dos cachorros apenas pela capacidade de inventar um significado específico para cada palavra.
 
Em dia de mudança, acontece muita coisa que o seu cãozinho não está acostumado a ver. Pessoas falando, muito barulho e a casinha dele sendo levada para um caminhão. Da próxima vez que seu amigo se sentir mais perdido do que cachorro em dia de mudança, fale algumas palavras de conforto com um tom de voz que passe algum sentimento! Funciona para humanos também!


Esse post é dedicado à Pepita. Companheira que, por 12 anos, entendeu quando fazia coisa errada e que também foi enganada várias vezes quando eu falava com toda a empolgação do mundo “Vamos tomar banhooo Pepiiiii” e ela achava que era para ir passear. Guardo na memória uma melhor amiga e a certeza de ter sido um dos melhores amigos dela.
pepita
 
Referências:
ANDICS, A. et al. Neural mechanisms for lexical processing in dogs. Science, v. 353, n. 6303, p. 1030-1032, 2016.
 

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