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abr 25

Marcha, chuva e fogo

Discursos inspiradores, pouca gente, muita chuva e um descaso quase total da mídia. Exceção feita ao sempre fiel Herton Escobar, do Estadão. Nenhuma novidade na Marcha pela Ciência de São Paulo. Aplaudo o esforço incansável dos organizadores, na sua tentativa de mobilizar a classe científica e a população. O feriado e a chuva atrapalharam? Sem dúvida. Mas que sirva de começo. E que seja um bom começo de um movimento que não pode perder o rumo.

Tive a honra de discursar sobre a importância da divulgação científica. E tive o prazer de escutar mestres ilustres como Walter Colli, Helena Nader, Hernan Chaimovitch, Carlos Menck e Walter Neves. E as falas destes grandes professores e cientistas foram inspiradoras. Mas no que tange à divulgação científica especificamente, sinto que alguns pontos ainda precisam ser discutidos.

Helena Nader falou – com a propriedade e o carisma que só ela tem – que “Não somos gasto, somos investimento!”, e que “Não foram extraterrestres que desenvolveram a fixação de nitrogênio que permitiu ao Brasil tornar-se o maior produtor de soja, ou que desenvolveram a Petrobrás. Não foram extraterrestres que criaram a Embraer. Foi a ciência brasileira”.

Concordo e assino embaixo. Foi fantástico ouvir essas palavras. Contudo, quando eu digo que precisamos aprender a falar com a sociedade, é justamente isso que quero dizer. Também não serão extraterrestres que vão falar com o público para explicar que não somos gasto, somos investimento.

Prof. Walter Colli, no discurso mais sensato e direto ao ponto que já ouvi, e que PRECISA ser ouvido pela população e não somente por nós mesmos, comentou que “Ficamos encerrados em nossos laboratórios por anos, imaginando que o respeito pela ciência seria óbvio”. Mais uma vez, concordo. Mas o que estamos fazendo para sair do laboratório?

Prof. Walter Neves pediu aos colegas que dediquem tempo à divulgação científica, e ressaltou a importância de escrever livros e construir museus. Realmente é um absurdo não termos no Brasil um museu de história natural. E livros são sempre bons. Espero que os docentes ali presentes sigam o exemplo do prof. Neves, não apenas dedicando seu tempo para divulgar, mas incentivando que seus alunos e pós-doutorandos façam o mesmo.

E, para que isso ocorra, precisamos de políticas públicas, dentro e fora da Universidade, que incentivem isso. Dentro da Universidade, uma boa ideia seria atribuir créditos da pós-graduação para atividades de extensão. Afinal, aprendemos muito quando temos que explicar ciência para o público leigo, é um desafio muito maior do que explicar para os pares. E a extensão, afinal, é ou não um dos pilares da Universidade? Até quando esse pilar vai ser aquele que deixa o banco torto e instável?

E como incentivo para os docentes, que tal atividades de extensão contarem pontos em concurso? Servirem de algo para promoção na carreira? Obviamente ninguém deve ser obrigado a fazer divulgação científica. Sabemos que já são excessivas as obrigações de um docente, que dirá de um chefe de departamento, um diretor de instituto, presidentes de associações e agências de fomento. Mas os que querem fazer precisam de incentivos. E apoio.

O caso da fosfoetanolamina, também citado no discurso do prof. Colli, foi emblemático. Os blogs de divulgação científica, em sua maioria feitos por alunos de pós e pós-docs, denunciaram o caso tão logo veio à tona na mídia. Mas a academia demorou para se pronunciar. E os blogs e vídeos no YouTube gritando aos quatro ventos “É mentira” não tinham mais credibilidade com a população do que o narrador da quadrilha da festa junina. 

Fora da Universidade, poderíamos pressionar o governo para ter nossa modalidade clara de uma lei “Rouanet”. Precisamos atrair investimento privado para as pesquisas, e para atividades de divulgação, como feiras de ciência e festivais. As empresas não investem em arte porque são boazinhas, investem porque traz boa publicidade e porque o custo é zero!

E, finalmente, o discurso do prof. Chaimovich foi também muito inspirador. A parte que mais me marcou foi quando ele pediu a todos que fossem multiplicadores. Perfeito! Faço eco aqui às palavras do professor, e peço: SEJAM OS CHATOS DO ALMOÇO DE DOMINGO!

Claro que escrever blogs, participar de festivais, fazer palestras, atividades em escolas, tudo isso é fundamental. Mas precisamos criar uma cultura científica. Falou-se muito em combater o obscurantismo, eu mesma usei o exemplo de voltarmos à Idade das Trevas. Mas o que fazer quando aquela tia falar sobre a dieta detox que começou semana passada, ou o primo disser que usa homeopatia porque acha que é natural, ou aquele parente com câncer frisar sua crença de que quimioterapia mata mais que a doença, e que resolveu fazer dieta alcalina para matar o tumor? Se, cada vez que esses assuntos surgirem nas reuniões familiares, nos bate-papos com os amigos e nos grupos de WhatsApp, nós nos calamos para não ser chatos, não estamos fazendo nossa parte.

Prof. Carlos Menck ressaltou de forma brilhante a importância da ciência básica. Mas a tia e a avó não entendem a importância da ciência básica. E não é óbvio para quem não é cientista. Esses assuntos precisam ser falados, também nos almoços de domingo e nas rodas de bar.

É desagradável ser o chato da família? Sim, é. Mas se não fizermos isso, se não valorizarmos nossa profissão dentro de nossas próprias casas, corremos o risco de sermos, então, o chato que pede dinheiro emprestado, porque logo não teremos mais empregos.

Claro que não é somente em casa. Se queremos valorizar a ciência e nossa contribuição para a sociedade, não podemos nos calar quando o CNPq lança um edital para homeopatia, ou quando o Jornal da USP divulga boatos anticientíficos sobre a microcefalia. Ou, ainda, quando durante 20 anos um professor da nossa casa vende sonhos em pílulas azuis, manifestando em nome da nossa Universidade tudo aquilo que queremos combater. Não podemos calar quando o Sistema Único de Saúde promove pseudociências com dinheiro público! Mais uma vez, não vai ser blog de pós-doc que vai fazer a diferença, se o próprio Jornal que leva o nome da Universidade mais prestigiada do país publica pseudociência.

Precisamos, antes de mais nada, colocar ordem em casa. Nos nosso lares, nos nossos círculos de amigos, e nas Universidades e centros de pesquisa. Precisamos defender a ciência diariamente, e não somente em atos solenes.

E precisamos fazê-lo de forma incansável, até que, um dia, o respeito pela ciência seja óbvio. Tão óbvio quanto o respeito que se tem por Educação e Saúde. Que não existem sem ciência.

Devemos ser a luz na escuridão, como disse Carl Sagan. Ou, como eu disse na marcha, façamos logo uma fogueira! E, neste fogo, não esqueçam: um bule de café!

 

http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,discursos-contra-cortes-e-obscurantismo-marcam-marcha-pela-ciencia-em-sao-paulo,70001748268

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2 comentários

  1. Glaucia Colli Inglez

    Muito bom o seu texto mas tenho uma ressalva. É necessário saber falar com as pessoas em um almoço de domingo ou em outro lugar qualquer sem sermos chatos usando termos desconhecidos ou inatingíveis para a população. Para isso há educadores, professores que devem transpor esse conhecimento em uma linguagem acessível. Nem sempre o cientista de laboratório é o melhor divulgador. E transpor não é apenas decodificar a ciência ou vulgarizá-la sem critérios. Há toda uma escola que nos ensina a ensinar. Esse papel deve também ser valorizado nas escolas, nos museus para que a ciência seja apropriada pela população e legitimada como essencial à formação de cidadãos críticos e atuantes na sociedade.

    1. Natália Pasternak Taschner

      que honra recebê-la no Café, professora. Realmente, nem sempre o cientista é o melhor divulgador. Mas sinto que temos que começar ao menos a valorizar nossa própria profissão como se deve. O chato do almoço de domingo pode indicar o café na bancada, a coluna Cientistas Explicam na revista Saúde e outros veículos de divulgação. Infelizmente são poucos. Há maneiras de aprender como divugar a ciência para leigos. Mas acredito que o cientista não deve calar somente para não ser chato, e deixar que seus familiares e amigos acreditem em pseudociências. Se não fazemos isso nem dentro de casa, como vamos começar a fazer com a sociedade? Mas certamente, o investimento em parceria com as escolas e museus é a maneira mais eficaz e legítima de divulgar a ciência e formar cidadãos conscientes. Quem sabe agora que conseguimos um mínimo de visibilidade, poderemos conseguir o apoio necessário para concretizar isso? grande abraço.

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