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set 08

Me leva para casa?

“Não me olhe com essa carinha de cachorro abandonado”! Por que usamos essa frase? E por que funciona fazer cara de cachorro abandonado quando queremos algo? Simples: porque é irresistível. Milhares de anos de evolução a fizeram assim, dotada desse incrível nível de fofura. Poucos conseguem ficar indiferentes diante de um cãozinho pedindo comida, carinho ou atenção. Os cães foram os primeiros animais domesticados, antes mesmo de gado, cavalos, ovelhas ou porcos. A questão que permanece é: por quê? Afinal, a domesticação dos demais animais tinha um propósito claro: transporte, alimentação e trabalho.

Mas qual teria sido a vantagem que levou nossos ancestrais do período neolítico a terem a brilhante ideia de domesticar cães? Ou será que não foi bem assim? Quem realmente domesticou quem?

O cão doméstico Canis familiaris apresenta 100% de similaridade com o genoma do lobo Canis lupus. Podem inclusive gerar descendentes férteis. O que os torna, então, espécies distintas? Basicamente diferenças anatômicas, bioquímicas e comportamentais. Por exemplo, os lobos possuem crânio e cérebro maiores. Possuem pelagem uniforme, enquanto os cães podem apresentar pelagem malhada, com focos de falha de pigmentação – aquelas manchas brancas fofíssimas na cauda, cabeça e dorso que tanto apreciamos. Os lobos reproduzem-se apenas uma vez ao ano, de acordo com a disponibilidade de luz. Ou seja, de acordo com a duração do dia, eles “sabem” que está na época de reprodução. Os cães, como sabemos, reproduzem-se pelo menos duas vezes por ano, independentemente da estação.

Os cães possuem caudas menores, curvadas para cima, e as balançam em sinal de contentamento. Os filhotes de cães, e algumas raças adultas, possuem orelhas caídas. E, logicamente, os cães são domésticos. Apreciam e anseiam pelo contato humano. Têm níveis menores de hormônios relacionados ao medo e ao estresse. Mas como eles chegaram nesse ponto, partindo de um ancestral lobo?

Ah, se ao menos pudéssemos voltar no tempo…

Pois bem, um cientista russo chamado Dimitri Belyaev fez exatamente isso. Infelizmente não, ele não construiu uma máquina do tempo. Mas ele reconstruiu o processo evolutivo de domesticação dos cães. Nas décadas de 1950-60, enquanto a antiga URSS se recuperava da política contra estudos de genética e evolução de Lysenko (que baniu e matou vários cientistas), Belyaev estudou em segredo o processo evolutivo que teria levado à domesticação dos cães. Fingindo trabalhar apenas com fisiologia animal, o cientista conduziu experimentos com raposas selvagens prateadas (Vulpes vulpes), buscando mimetizar o processo de seleção sofrido pelos lobos, que teria gerado animais mais dóceis e fáceis de domesticar e treinar.

O experimento com raposas consistia em selecionar aquelas naturalmente mais calmas e dóceis, e reproduzi-las. A cada geração, Belyaev selecionava novamente aquelas mais dóceis e que aceitavam melhor a interação com humanos. Notem que ele selecionou APENAS pelo comportamento. Nenhum outro critério foi utilizado. Após 8-10 gerações, as raposas começaram a demonstrar as diferenças comportamentais esperadas. O inesperado foi que apresentaram também diferenças físicas e anatômicas surpreendentes em relação a seus ancestrais selvagens.

Aceitavam o contato humano com naturalidade e percebeu-se uma mudança na pigmentação da pelagem, com o surgimento do padrão malhado, com falhas de pigmentação. Também houve uma diminuição do tamanho da cauda e patas. As caudas curvaram-se para cima.

wild foxApós 15 gerações, as raposas mostraram-se dóceis e ansiavam pelo contato humano. Começaram a abanar suas caudas quando alguém se aproximava. Começaram a ganir e latir. As raposas apresentavam comportamento infantilizado e gostavam de brincar. Tinham orelhinhas caídas. Seus crânios eram menores e apresentavam alterações na mandíbula. Após 40 anos de experimento e 35 gerações – um tempo consideravelmente menor do que o estimado para a domesticação dos cães no passado – Belyaev tinha raposas que se assemelhavam demais aos domestic-fox-chasing-a-ballcães domésticos, em comportamento e aparência. Veja ao lado a foto da raposa prateada selvagem, e de uma das raposas domesticadas no experimento.

A partir da década de 1970, com o acesso a novas tecnologias e sem a perseguição aos geneticistas, foi possível estudar também as mudanças genéticas e bioquímicas ocorridas na população domesticada. Percebeu-se que os animais apresentavam níveis menores de corticosteroides – hormônios produzidos pelo córtex adrenal, responsáveis pela resposta de medo e estresse do animal. Essa resposta é fundamental para um animal selvagem, para que ele tenha instinto de fuga. Nas raposas domésticas, após a décima geração, os níveis desse hormônio caíram pela metade. Após a 15ª geração, caíram novamente pela metade.

Além disso, os níveis de serotonina – hormônio considerado o mais importante envolvido na inibição do comportamento agressivo dos animais – era muito maior nas raposas domésticas do que em seus parentes selvagens. A serotonina é considerada o neurotransmissor mais importante nos estágios iniciais de desenvolvimento dos animais. É o famoso hormônio da “felicidade e bem-estar”, cuja disponibilidade os antidepressivos procuram aumentar.

As raposas realmente se comportavam como cães. Alguns pesquisadores as levaram para casa como animais de estimação. Uma das principais cientistas, que foi o braço direito de Belyaev durante toda a pesquisa, a Dra. Lyudmila Trut, conta que certa vez foi à casa de um dos pesquisadores do programa, e o encontrou passeando com uma raposa na rua, sem coleira. Preocupada, logo lhe deu uma bronca, dizendo “Você não pode fazer isso, ela pertence ao instituto! E se você a perder?”. E o pesquisador sorriu e respondeu “Veja só isso”. Ele assobiou e a raposa voltou correndo para junto dele. Algumas raposas do instituto às vezes escapavam, mas sempre voltavam. Provavelmente não teriam sido capazes de sobreviver na natureza. Belyaev conseguiu reproduzir com sucesso milhares de anos de evolução e seleção. Mas qual é a vantagem de ser doméstico? E por que, ao selecionar SOMENTE o comportamento dócil, encontramos essas características físicas típicas? Será que qualquer animal pode ser domesticado com essa “seleção artificial”? Será que existe uma predisposição genética que permite a domesticação?

Espero tê-los deixado curiosos o suficiente para um próximo post! Agora que vocês já sabem como funciona o processo, estarei aqui na próxima semana contando a história da domesticação de animais de trabalho e companhia. E os impactos que isso teve na nossa civilização. Até lá, com muito café! [Em tempo, não dê café para o seu cão! Mesmo que ele use todas as artimanhas evolutivas e faça aquela cara de coitado…]

Para saber mais:

Scott, J. P., and J. L. Fuller. 1965. Genetics and the Social Behavior of the Dog. Chicago: University of Chicago Press.

Trut, L. N. 1988. The variable rates of evolution transformations and their parallelism in terms of destabilizing selection. Journal of Animal Breeding and Genetics 105:81–90.

Trut, L. N. 1996. Sex ratio in silver foxes: effects of domestication and the star gene. Theoretical and Applied Genetics 92:109–115.

Belyaev, D. K., and L. N. Trut. 1982. Accelerating evolution. Science in the USSR 5:24–29, 60?64. 

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