«

»

mar 09

Mulheres na Ciência

Atribui-se a Barbara McClintock, ganhadora do Nobel em 1983, a frase de que a ciência não tem gênero, e portanto não faz sentido falar em mulheres na ciência ou homens na ciência. Somos todos cientistas. Essa seria a situação ideal. Obviamente a Dra. McClintock encontrou inúmeras dificuldades em sua carreira simplesmente por ser mulher. Mas ao receber o Nobel, com 82 anos, ela achou que finalmente existia igualdade na ciência. De fato, quando publicamos um trabalho, apenas nosso sobrenome aparece listado como autor. Não há como os revisores e o editor saberem se somos homens ou mulheres. Desta forma, sempre acreditei que realmente a ciência não discrimina o sexo. Será? Se nossa vida como cientistas fosse apenas escrever e publicar, talvez estivéssemos protegidas contra a barreira do preconceito. Mas somos também alunas, professoras, palestrantes, diretoras e membros de conselhos científicos e de empresas. E nesse dia-a-dia ainda nos deparamos com o preconceito.  

108-barbara-mcclintockQuem pode afirmar que a própria escolha da profissão não é influenciada por uma dose de preconceito? Será que no momento em que aquela menina anuncia que quando crescer será cientista, ela já encontra barreiras? Ouvindo a fantástica resposta de Neil deGrasse Tyson quando lhe perguntaram onde estão as mulheres na ciência (http://youtu.be/z7ihNLEDiuM), tristemente constatei que sim. Dr. Tyson fala de sua experiência como negro, quando aos 8 anos decidiu que queria ser astrofísico, e de todas as dificuldades que enfrentou para conseguir ser cientista em uma carreira dominada por homens brancos. Ele acredita que a mulher enfrenta as mesmas dificuldades. Do mesmo jeito que, quando ele expressava sua intenção de se tornar cientista, perguntavam se ele não preferia ser um jogador de basquete, quantas meninas já devem ter escutado se não preferem exercer outras profissões, consideradas mais femininas? Quantas barreiras sociais invisíveis podem ter impedido mulheres de se tornarem, assim como Dr. Tyson, excelentes cientistas?

No Brasil os números são mais balanceados do que nos EUA, onde há poucas mulheres ingressando na carreira. As mulheres são maioria hoje nas universidades brasileiras. Mas ainda são minoria em cargos de comando. Creio que estamos caminhando para superar o preconceito. Mas atrevo-me a dizer que ele só será realmente superado quando as oportunidades forem iguais para todos.

Não acredito que a igualdade profissional dependa de termos números equivalentes de homens e mulheres em cargos de comando, por exemplo. Existem diferenças culturais e biológicas entre os sexos que não podem ser negadas. Talvez seja natural que uma grande parte das mulheres escolha dividir sua vida entre filhos e carreira e o mesmo não aconteça para a maioria dos homens. A realização pessoal de muitas mulheres também passa pela maternidade. A ciência demanda uma quantidade de tempo e dedicação que não podemos suprir quando temos filhos, e assim ficamos menos competitivas. Logicamente sempre existem as exceções, os pontos que estão fora da curva. E aquelas mulheres que não desejam ser mães, ou que simplesmente priorizam a carreira? E os homens que desejam assumir a criação de seus filhos?

Para garantir que o sucesso na carreira científica seja fruto de uma escolha e não de pressões sociais, precisamos garantir oportunidades iguais para todos. Se um homem deseja cursar Pedagogia, por exemplo, um curso onde geralmente predominam as mulheres, esse homem é mal visto? Será desencorajado? Vão lhe dizer que esse curso não é para homens, ou questionar sua habilidade para exercer a profissão? Talvez os homens também sofram certa dose de preconceito.

O fim do preconceito não depende da igualdade numérica. Depende da igualdade de oportunidades. Devemos garantir que a mulher que deseja ser astrofísica tenha as mesmas oportunidades que um homem. Devemos garantir que o homem que deseja ser pedagogo tenha as mesmas oportunidades que uma mulher.

Quando isso acontecer, o debate sobre mulheres na ciência ou em qualquer outra profissão será obsoleto e desnecessário. Quando o fato de um país eleger um presidente negro ou uma mulher deixar de nos surpreender, então teremos conquistado um mundo com oportunidades iguais para todos. E só então, eu diria, juntamente com Barbara McClintock, que a ciência não tem gênero.

Share

4 comentários

Pular para o formulário de comentário

  1. Mari

    Ótimo texto, assunto dificil! Parabéns!

    1. clarisse faucon stephan

      Gostei da sua conclusão! Parabens !

  2. clarisse faucon stephan

    Gostei muito da sua conclusão! Parabéns!

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada, Clarisse! Continue a nos acompanhar.abraço,
      Natalia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Share