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jul 08

O Efeito Mozart e a Busca de um Bom Controle – Vamos Falar de Ciência?

Dando continuidade a nossa discussão sobre Ciência, vamos fazer uma pequena pausa em história e falar mais sobre método. Na última vez que conversamos, falamos sobre o trabalho de Francis Bacon na defesa da análise sistemática e experimental da natureza. Hoje vamos falar um pouco sobre como esses experimentos são feitos.

Nota: Enquanto você lê o texto, deixe este vídeo tocando ao fundo. Acredite, isso vai fazer um certo sentido. Ou não…

“Ouvir Mozart faz você ficar mais inteligente”. Talvez você já tenha ouvido isso, ou algo similar que substitua Mozart por outro artista, ou por música clássica em geral. Frases como essa podem parecer que vieram da cabeça de algum amante de música clássica arrogante. Na verdade, elas vieram de uma pesquisa que sugeria que ouvir Mozart pode induzir uma pequena melhora na performance algumas atividades cognitivas. Obviamente, jornalistas interpretaram e transcreveram isso como “ouvir Mozart te faz mais esperto”, algo muito mais chamativo. É como ver manchetes como “Foi descoberta a cura do câncer!”, quando na verdade a artigo científico original só fala que conseguiram matar algumas células cancerosas numa placa de petri.

É isso que cientistas falam quando descobrem alguma coisa, certo? Fonte: flirck.com

É isso que cientistas falam quando descobrem alguma coisa, certo?
Fonte: flirck.com

Ignorando um pouco o jornalismo barato que fez o Efeito Mozart ficar “famoso”, vamos olhar um pouco mais a fundo a pesquisa em si. Vendo por cima: sim, ela sugere que ouvir Mozart – especificamente, a música “Sonata para dois pianos (K448)” (aquela que você colocou para tocar no início desse texto) – faz com que pessoas que fazem testes de QI envolvendo raciocínio espacial obtenham melhores resultados, por um certo período de tempo. Esses resultados foram bem controversos, pois às vezes repetia quando outros pesquisadores tentavam replicá-los, às vezes não – o que, considerando um dos preceitos da ciência, a repetibilidade (onde os resultados precisam repetir, considerando condições iguais), possíveis falhas no estudo são indicadas, em especial na interpretação dos resultados. O que pode ter sido feito de errado?

Exemplo de grupo controle e grupo experimental. Aqui, uma metade da maçã foi esfregada com suco de limão e a outra não foi esfregada com nada. A foto foi tirada uma hora depois do corte. E aí, sabe dizer qual é o grupo experimental? Fonte: flirck.com

Exemplo de grupo controle e grupo experimental. Aqui, uma metade da maçã foi esfregada com suco de limão e a outra não foi esfregada com nada. A foto foi tirada uma hora depois do corte. E aí, sabe dizer qual é o grupo experimental?
Fonte: flirck.com

Quando cientistas fazem experimentos, eles utilizam dois grupos: um “grupo experimental” e um “grupo controle”. Na verdade, mais de um grupo controle geralmente é utilizado, dependendo do número de variáveis que estamos testando. Mas vamos tentar simplificar as coisas agora. O grupo experimental é aquele grupo submetido a todas as condições iguais ao do grupo controle, exceto por uma detalhe: a variável que você quer testar.

Digamos que você quer testar se é a cafeína que deixa as pessoas mais alertas, ou se é algum outro composto presente no café. Existem várias formas de fazer isso. Uma delas seria, por exemplo, selecionar um grupo grande de pessoas e fazer o seguinte procedimento: no primeiro dia, testar de alguma forma o quão alertas elas ficam após beberem café normal. Após a cafeína sair do sistema, no dia seguinte, você teria que fazer o mesmo teste, nas mesmas pessoas, no mesmo horário, mas após a ingestão de café descafeinado – de preferência, da mesma marca, com todas as condições iguais, exceto a remoção da cafeína (vamos assumir que isso seja possível). Esse teste com o café descafeinado seria o seu grupo controle – com o qual é possível comparar com o seu grupo experimental, que recebeu a cafeína. Se você ver diferenças entre os dois grupos (existem testes estatísticos para isso, mas não vou entrar neste detalhe), você pode falar que sim, é a cafeína que causa a sensação de “alerta” – afinal, a presença ou não da cafeína foi o único fator que foi mudado. Beleza, tudo certo! Certo?

Ok, não é bem assim. Outros fatores podem ter influenciado nesse resultado, como o fato de as pessoas terem tomado cafés diferentes em dias diferentes, o que pode influenciar na carga hormonal e comportamento das pessoas. Percebe a complicação? Nenhum controle é de fato perfeito – e isso é um dos motivos pelos quais falamos que obtivemos um indício, e que mais testes devem ser feitos antes de chegarmos numa conclusão robusta. Existem vários outros testes possíveis: dar a cafeína pura para pessoas, com o devido grupo controle (se a cafeína foi diluída em água, dar só água, por exemplo); aplicar um teste de alerta diferente; ou fazer um teste similar, com 10.000 pessoas tomando água e 10.000 pessoas tomando café, no mesmo dia.

Com esses diferentes testes e devidos controles, podemos, pouco a pouco, remover variáveis que podem influenciar em nossa pesquisa. E, ainda assim, será muito difícil afirmar que você de fato eliminou qualquer outra variável além da cafeína (vai saber se uma pessoa foi mais no banheiro aquele dia e o sangue está mais limpo, ou comeu um grande prato de churrasco antes de ir para o seu laboratório; tudo isso pode influenciar também). Além de tudo, não basta fazer um teste; é preciso repeti-lo várias vezes e obter resultados similares para que se possa confiar neles.

Mais testes devem ser realizados. Pela Ciência!!! Fonte: flirck.com

Mais testes devem ser realizados. Pela Ciência!!!
Fonte: flirck.com

Voltando para o Efeito Mozart, vamos olhar para os grupos que foram utilizados no experimento original (para quem quiser ler o artigo, ele está disponível aqui). Foram três grupos: Um grupo que ouviu a sonata de Mozart, um grupo que ficou no silêncio, e um que ouviu uma “fita de relaxamento” (eram instruções verbais para que a pessoa relaxasse, seja lá o que isso signifique). Neste caso, podemos considerar os dois últimos grupos como ‘grupos controles’ – o de silêncio, remove a variável “som”, enquanto o da fita de relaxamento, um som que não seja a música do Mozart. O artigo fala que os alunos, após escutar Mozart, tiveram melhores resultados no teste de QI aplicado (o teste de raciocínio espacial) quando comparados a ambos grupos controles. Além disso, não houve diferença entre os grupos que ficaram no silêncio e os que escutaram a fita, e é mencionado que o efeito da música decai após poucos minutos. O autor não diz, especificamente, “música melhora esse tipo de raciocínio por uns minutos”, mas isto fica bastante implícito, tanto pelo texto como pelas conclusões. Comparando os diferentes grupos, realmente parece uma afirmação plausível. Mas será que é mesmo?

Vários estudos diferentes foram realizados contestando essa afirmação. Alguns deles, como dito anteriormente, não conseguiram realizar o experimento e obter os mesmos resultados (o que pode ser devido ao fato de as pessoas testadas serem diferentes). Outros utilizaram outros tipos de controles, e chegaram a uma outra conclusão. Um dos estudos utilizou um grupo controle em que a pessoa, ao invés de ouvir uma “fita de relaxamento”, escutou um trecho de uma história escrita por Stephen King – e, após ouvir isso, foi observado (em algumas pessoas) uma melhora de desempenho no teste de QI. Deve ser notado, no entanto, que somente as pessoas que gostaram da história que ouviram tiveram essa melhora, e que essa melhora foi igual à das pessoas que ouviram a música de Mozart. Assombroso? Um pouco, mas isso tem uma explicação até que simples de aceitar.

Usando esse exemplo de estudo (e outros estudos como base), podemos, então, tirar conclusões diferentes sobre o estudo original. Ouvir Mozart ajuda a melhorar o desempenho naquele teste de QI? A resposta mais precisa seria “depende” – assim como ouvir um trecho de uma história. Depende de como a pessoa capta o estímulo externo (música, trechos, etc), como ela interpreta e como ela reage – se ela “gosta” ou não. O nome bonito desse fenômeno seria “enjoyment arousal” – não achei o nome que dão a isso em português, mas ele simplesmente quer dizer que, após você fazer algo que você gosta, você fica mais animado, e assim pode ter melhor performance em algumas atividades. Imagino que todos nós já passamos por uma situação em que isso aconteceu. Isso significa que não é a música de Mozart em si que faz com que as pessoas tenham melhor performance, mas sim fazer qualquer coisa que te deixe mais animado – caso o autor do artigo original tivesse feito algum outro controle, talvez ele teria chegado a outra conclusão.

Falando isso agora, talvez pareça óbvio que ele deveria ter colocado mais um controle – mas acredite, na hora de planejar o experimento, escolher isso pode ser bem complicado. De qualquer forma, a afirmação “Ouvir Mozart pode fazer você ir melhor em uns testes de QI” não está errada, só não contempla a explicação inteira. E, além disso, é bem melhor que “Ouvir Mozart faz você mais inteligente”.


Sobre o Autor:

Gustavo Satoru Kajitami é biólogo, pesquisador e atualmente cursa mestrado em biotecnologia, trabalhando com sistemas de reparo de DNA em mamíferos, além de projetos para popularização da ciência. Prefere chá a café, mas sempre acaba tomando mais café pelos necessários efeitos da cafeína

Rauscher, F., Shaw, G., & Ky, C. (1993). Music and spatial task performance Nature, 365 (6447), 611-611 DOI: 10.1038/365611a0

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1 comentário

  1. Eu

    Gostei!

    6-(8-7)=cinco

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