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jun 05

O mundo antes das vacinas

 

O ano era 1922. Duas crianças de uma mesma família morreram no mesmo dia. Anna Ivene Miller, com dois anos e meio, e Stanley Lee Miller, que tinha acabado de fazer um ano, foram vítimas de caxumba, sarampo e coqueluche, simultaneamente. As outras crianças da família, um total de cinco, também adoeceram, mas sobreviveram. Essa situação era comum nos anos 20. Uma em cada cinco crianças morria de alguma doença infecciosa antes de completar 5 anos. Hoje não imaginamos como essas doenças eram cruéis. Não podemos imaginar a dor de perder dois filhos para doenças tão facilmente prevenidas com vacinas. Quantas gerações já se passaram desde tragédias como a da família Miller nos EUA?

Quem morre de sarampo ou caxumba hoje em dia? Graças às vacinas, doenças terríveis e altamente contagiosas foram quase erradicadas. Algumas, como a varíola, o foram de fato.

Como explicar então que, apesar disso, existem grupos professando religiosamente um movimento contra a vacinação? Como entender que possa haver famílias que deliberadamente escolhem NÃO vacinar seus filhos contra essas doenças terríveis e tão temidas no passado?

Em 1998, um médico chamado Andrew Wakefield publicou um estudo relacionando autismo em crianças com a vacina MMR, a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Seu estudo tinha apenas 12 pacientes e nenhum fundamento científico. Ele afirmava categoricamente que a vacina era a causa do autismo de seus pacientes. Anos depois, descobriu-se que não somente o estudo era uma fraude, com todos os dados forjados, como também que o estimado doutor havia sido financiado por um advogado que pretendia lucrar milhões processando os fabricantes de vacina, e que ele mesmo pretendia patentear uma nova vacina para substituir a MMR. Wakefiled foi julgado na Inglaterra e considerado culpado de fraude e conspiração. A revista retirou o estudo e se retratou; o médico teve sua licença cassada e foi demitido do Instituto onde trabalhava.

Ainda assim, ele conquistou seguidores no mundo todo, principalmente nos EUA, onde teve início um movimento anti-vacinação sem precedentes na história. Por causa de um estudo falso, hoje milhares de pessoas estão convencidas de que vacinas, como um todo – e não somente a MMR – são a causa do autismo. O número de crianças não vacinadas está crescendo. Doenças antigas, quase erradicadas, estão reemergindo. Em 2004, na Inglaterra, houve o primeiro surto de sarampo, e a primeira morte pela doença, em 17 anos. Em 2013 ocorreu outro surto de sarampo na Califórnia, EUA.

Casos isolados de poliomielite e coqueluche têm sido reportados. No Brasil, em 2014, registraram-se dois casos de coqueluche em uma família de classe alta em São Paulo, nos quais as crianças não haviam sido vacinadas por escolha dos pais, que temiam o desenvolvimento de autismo e tumores! A filha mais velha, de 6 anos, contraiu a doença e a transmitiu para sua irmã de apenas 6 meses. A bebê estava na UTI lutando por sua vida, enquanto a mãe declarava que a mais velha sofreu semanas com intensa falta de ar.

Wakefield causou tanto estrago que meu próximo post aqui no Café da Bancada será dedicado a ele. Mas, por enquanto, gostaria de lembrá-los de como era o mundo antes das vacinas.  

Antes da vacina de Jonas Salk para poliomielite ser testada em 1952, aproximadamente 20 mil casos eram reportados por ano, só nos EUA. No ano de 1952, particularmente, os casos chegaram em 58 mil. Hoje, depois das vacinas Salk e Sabin, a pólio foi praticamente erradicada nas Américas e Europa, sendo que os poucos casos restantes advêm de regiões sem acesso às vacinas, na Ásia e África.

polio iron lungsCrianças acometidas pela pólio, mesmo quando sobreviviam, ficavam paralíticas, com retardo mental, ou, na melhor das hipóteses, passavam meses em respiradores artificiais, os “pulmões de aço”, como esses retratados na foto ao lado. Logicamente, a maioria das crianças infectadas apresentava sintomas banais como febre e coriza, e passava ilesa pela infecção. Esse argumento é utilizado pelos manifestantes anti-vacinas para dizer que apenas uma minoria realmente ficava doente, e que por isso não se justifica vacinar e colocar toda uma população em risco de “contrair” autismo. Este argumento me intriga muito, porque as mesmas pessoas que consideram 20 mil casos por ano, em um único país, um número insignificante, consideram altamente significativo um estudo fraudulento feito com 12 indivíduos. Eram 20 mil crianças por ano!

Mas vamos em frente. Nos EUA, antes da vacina contra sarampo, havia aproximadamente de três a quatro milhões de casos por ano, e uma média de 450 mortes por ano, registradas entre 1953 e 1963. Após a introdução da vacina, nenhum caso foi reportado até 2004 – quando a vacinação começou a ser questionada. Meningite era uma doença que matava em média 600 crianças por ano, e deixava sobreviventes com sequelas como surdez e retardo mental. Após 1990, quando a população começou a ser vacinada em massa, a incidência diminuiu de tal forma que hoje a maioria dos pediatras não sabe sequer reconhecer um caso.

Antes da vacina de coqueluche, quase todas as crianças contraíam a doença, com aproximadamente 150 a 260 mil casos reportados anualmente, com nove mil mortes. Desde 1990, apenas 50 casos ao todo foram reportados.

Rubéola é uma doença relativamente banal em adultos, mas pode acometer gravemente crianças ao nascer, se a mãe for contaminada durante a gestação. O resultado pode incluir defeitos cardíacos, catarata, surdez e retardo mental. Em 1964, antes da imunização, 20 mil bebês nasciam de mães infectadas. Desses, 11 mil eram surdos, quatro mil cegos e 1800 apresentavam retardo mental.

Além desses exemplos, podemos citar doenças como tuberculose, catapora, caxumba, hepatite B e difteria, que foram controladas com vacinas eficazes, mas que acometeram e mataram milhares de pessoas no passado.

As vacinas nos protegem contra doenças terríveis, capazes de causar sofrimento, sequelas e morte. Este fato não pode ser refutado. Há 60 anos as vacinas têm se mostrado eficazes e seguras. Além do argumento de que vacinas causam autismo – que será abordado com detalhes no próximo post – aqui estão alguns argumentos normalmente encontrados na internet:

  1. A maioria das pessoas que contraía o vírus da pólio não adoecia, e a doença é típica de regiões que não têm saneamento adequado. Sim, é verdade que apenas uma pequena parcela dos infectados pelo vírus apresentava a doença. No entanto, o vírus era tão epidêmico que, somente nos EUA, 20 mil crianças por ano ficavam doentes. Esse número com certeza justifica a intensa campanha de vacinação que foi feita, principalmente levando-se em conta que as sequelas dos possíveis sobreviventes eram paralisia e retardo mental. O fato de o vírus ser disseminado nas fezes dos pacientes realmente facilita a contaminação em locais sem saneamento básico adequado. Mas a contaminação pessoa a pessoa é suficientemente eficaz para ter provocado epidemias em cidades grandes nas décadas de 1960-80.
  2. Sarampo e coqueluche não são doenças sérias. Mesmo no surto da Califórnia de 2013, nenhuma criança morreu. Em geral, realmente sarampo não é uma doença séria. Em alguns casos, no entanto, pode gerar sequelas e até matar. Além disso, é uma doença debilitante que causa bastante dor e sofrimento. No surto de 2004, na Inglaterra, houve morte. Coqueluche não costuma ser grave em adultos, mas costuma ser fatal em crianças pequenas e bebês.
  3. Cada pai e mãe tem o direito de escolher se seus filhos serão vacinados ou não. Que diferença isso faz para os demais? Quem quiser que vacine os seus! Não é bem assim. Algumas vacinas só imunizam a partir da terceira ou quarta dose, quando a criança está com 5 ou 6 anos. Ter uma população vacinada protege os bebês e crianças pequenas porque contém a disseminação da doença. Protege também pessoas imuno-comprometidas que não podem ser vacinadas. É o que chamamos de imunidade de rebanho. Se você escolhe não vacinar seu filho, e aos 6 anos, ele contrai uma doença, e por sua vez contamina o meu bebê de 6 meses que ainda não foi vacinado porque não tem idade, a sua escolha pessoal está afetando a minha família. E meu bebê pode morrer porque você não vacinou seus filhos e permitiu que eles tivessem contato com a minha família. Eu não compartilho da sua escolha, mas sou afetada por ela. Portanto, se você optar por não vacinar seu filho, não reclame depois se ele não for aceito em alguma escola que exige calendário da vacinação completo, ou se sofrer algum processo judicial. Além disso, tenha consciência de que a sua escolha pessoal, baseada em boatos e estudos sem comprovação científica, está colocando a vida de outras pessoas em risco.
  4. Antes de 1940 não existia autismo. Depois das vacinas, os casos de autismo começaram a aparecer. Como já disse, vou comentar o autismo no próximo post sobre a fraude de Wakefield. Mas como esse argumento é muito recorrente, gostaria de comentar apenas que antes de 1940 também não existia televisão, DDT, poluentes, bisfenol, gordura trans, muitos dos pesticidas utilizados hoje, alimentos processados, conservantes, adoçantes artificiais, etc. NÃO estou absolutamente sugerindo que qualquer um desses possa “causar” autismo. Mas lembram das Correlações correlacionadas? Nem tudo que parece correlato apresenta reação de causa e efeito. Para comprovar que MMR causa autismo, seria necessário um estudo com modelo animal.

Tenho a impressão de que as famílias que optam por não vacinar seus filhos não têm a menor noção do incrível potencial de morte e sofrimento que as doenças infecciosas possuem, e que causaram no passado. E espero que o acesso a essas informações e a imagem ao lado sejam suficientes para conscientizar essas pessoas dos reais perigos dessas doenças. Uma criança em cada cinco morria. O mundo antes das vacinas não me parece um local muito alentador. Eu não gostaria de voltar para lá.

 

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1 comentário

  1. Alison Chaves

    Excelente aula de história.
    Parabéns pelo trabalho de divulgação científica.

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