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mar 01

Os camundongos que mudaram o mundo

Lembram-se da polêmica do caso dos beagles usados para pesquisas científicas? O caso gerou uma discussão emocionada sobre o uso de animais na ciência, e os mais diferentes argumentos foram utilizados para defender que seu uso seria desnecessário ou até mesmo prejudicial para o avanço da ciência; alguns sugeriam o uso de cultura de células e modelos matemáticos para poupar os animais, ou ainda alegavam que são inúteis na pesquisa por serem diferentes demais dos humanos. Acredito que a maior parte dos ativistas era realmente muito bem intencionada, e compartilho da sua compaixão pelos animais. Eu também olhava para os beagles e sentia um nó na garganta enquanto meus próprios cachorros e gatos estavam dormindo aos meus pés. Eu também não queria que aqueles cães fossem usados em pesquisa. Mas infelizmente, na maioria das pessoas, essa compaixão está aliada a uma dose alta de desinformação. No artigo abaixo, tento mostrar que infelizmente o modelo animal ainda é necessário, e que cientistas não são cruéis torturadores de animais. Circos, rodeios, a famosa farra do boi, esses sim são feitos por pessoas cruéis e não têm a menor serventia para a sociedade. Espero que gostem.

 

 

 

Os camundongos que mudaram o mundo

 

O ano era 1943. Os aliados corriam o risco de perder a guerra. Por sorte, um dos experimentos mais importantes da história da ciência tinha sido feito em 1940, apenas três anos antes, por Howard Florey, sua equipe e 8 camundongos. Um composto previamente descoberto por Alexander Flemming ainda precisava ser testado para que pudesse ser utilizado em humanos. Se fosse eficaz, ajudaria os aliados a vencer a guerra. Florey e seu time utilizaram 8 camundongos. Todos foram injetados com doses letais de Streptococcus sp, uma bactéria que também causa infecções em humanos,  mas apenas quatro receberam doses de penicilina, o composto previamente descoberto por Flemming. Os quatro camundongos não tratados morreram. Todos os camundongos tratados com penicilina sobreviveram. Esse simples teste possibilitou que Florey e sua equipe viajassem para os EUA para desenvolver com urgência um método de cultivo e extração da penicilina em larga escala. As doses para camundongos jamais seriam suficientes para o tratamento de humanos. Em 1943, a nova droga estava pronta para o uso, e salvou a vida de incontáveis soldados aliados.

imagem ratinhoA penicilina venceu a guerra. Florey e seus oito camundongos venceram a guerra. O mundo seria um lugar diferente caso isso não tivesse acontecido. Agradeço ao time de Florey por sua persistência e coragem. Agradeço aos camundongos, principalmente aos que morreram. E claro, aos milhares de soldados que, apesar de não perderem sua vida para infecções bacterianas, perderam sua vida em batalha.

Todos os antibióticos que temos até hoje foram testados em animais – mamíferos, como nós. Somos suficientemente parecidos com eles para que sejamos suscetíveis às mesmas infecções. Todas as vacinas também. Uma grande parte dos medicamentos mais comuns também.

No início do século XX, lá pelos idos de 1900, cientistas usaram um extrato de líquido medular de uma criança que havia morrido de poliomielite para infectar e propagar o vírus em macacos. Eles conseguiram transmitir a doença e estudá-la entre os macacos, e esse estudo tornou possível a produção de uma vacina na metade do século.

Medicamentos para o tratamento de hipertensão arterial foram testados e utilizados em ratos, gatos e coelhos, e hoje são amplamente utilizados por humanos. Será que teria sido possível fazer experimentos de tensão arterial em cultura de células? Há diversos experimentos que infelizmente necessitam de um modelo vivo. Os primeiros transplantes de rim foram feitos em cães. Também não acho que seria possível ter testado essa técnica em cultura, ou em modelos matemáticos.

Tenho muito respeito pelos que pedem o uso de tecnologias alternativas porque se sentem emocionalmente muito próximos aos animais, principalmente àqueles que evoluíram junto com a humanidade, como animais de estimação. Mas nesse caso, eu pelo menos posso dizer que a pesquisa com animais beneficiou também os nossos animais companheiros. Hoje, nossos cães e gatos têm acesso a tratamentos e vacinas que não existiam no passado. Você também não gostaria que se cão morresse de raiva ou parvovirose, gostaria? Mas quantos camundongos será que morreram para que essas vacinas fossem testadas?

Quanto ao argumento de que somos tão diferentes que os testes em animais não podem prever como uma droga nova vai agir nos humanos, eu concordo. Não podem mesmo. E não servem para isso. Os testes em animais servem para determinar se uma droga é tão tóxica para outros mamíferos próximos de nós que não vale nem a pena ser testada em humanos. A droga será testada em humanos de qualquer maneira. Mas imagine que você é voluntário para o teste de uma nova droga, e é recebido com a seguinte informação: a droga A matou todos os ratos, camundongos e coelhos do teste. A droga B matou somente os coelhos e ratos. A droga C não matou nenhum. Qual droga você aceita ser voluntário para testar? Pode ser que, mesmo assim, a droga C tenha efeitos colaterais em você que não apareceram nos testes em animais. Pode ser também que não seja eficaz. Pode ser que a droga A não faça mal nenhum para humanos. Mas qual você toparia testar? E qual a alternativa? Se alguém te disse então que a droga A matou todos os animais, mas um modelo matemático computacional super ultra moderno previu que ela não será tóxica em seres humanos, você aceitaria testá-la?

Mas o argumento que eu achei mais interessante foi o de que somos tão diferentes entre nós mesmos, humanos, que uma droga que funciona para você pode não funcionar para seu irmão. Fantástico isso. Que grande jogada para as farmacêuticas. Agora, além de personal trainer, personal stylist e personal shopper, teremos o personal pharmacist! Com drogas desenvolvidas especialmente para você através de culturas de células e modelos matemáticos. Não dá pra testar em mais ninguém, só servem pra você! Testamos no seu irmão e ele morreu, infelizmente, mas isso não quer dizer que não serve para você. Você é MUITO diferente do seu irmão.

A vacina anti-rábica que seu cachorro toma é a mesma que você vai ter que tomar se for mordido por um cão de rua. O mesmo vírus que mata o cão vai matar você, seu irmão, sua tia e todos nós do Café na Bancada. Isso se nenhuma farmacêutica nos matar antes porque não gostou da piada do personal pharmacist. Mas não existe personal vacina. Nossos filhos são vacinados contra as mesmas doenças, às quais todos somos suscetíveis. A peste negra matou um terço da população da Europa, e não pareceu se importar nem um pouco com a enorme diversidade genômica do ser humano. Claro que a diversidade existe. E graças a ela algumas pessoas sobreviveram à peste, assim como sobrevivem a inúmeras epidemias. Mas as epidemias só ocorrem porque somos parecidos o suficiente para que um vírus ou bactéria consiga colonizar a maioria de nós. Senão não seriam epidemias. E como controlamos as epidemias, historicamente? Com vacinas e antibióticos. Testados em animais.

Pessoalmente, eu espero que no futuro existam realmente alternativas eficazes ao uso de animais. Acredito que são usados em demasia, e sem a devida proteção legal. Concordo que precisamos de mais regulamentação para evitar seu sofrimento e desperdício. Adoraria que seu uso não fosse mais necessário, porque gosto muito deles. Mas até lá, o que podemos fazer é usá-los com respeito e parcimônia. Usar o mínimo necessário. Realmente existem drogas que são cópias de modelos anteriores e que estão desperdiçando animais para testes, quando poderiam ser testadas diretamente em humanos. Ou nem serem lançadas no mercado, afinal já existe uma versão anterior. Mas aí entramos numa alçada de interesses financeiros que vão muito além da ciência.

Os cientistas não incluem animais em seus projetos sem necessidade, ou porque seriam recusados sem eles pelas agências pagadoras. Bem pelo contrário, é muito mais prático para o cientista trabalhar com células e tecidos, e não ter o custo altíssimo de manter um biotério. Além disso, todo projeto que necessita de animais precisa ser submetido a uma comissão de ética antes de ser aprovado. E somos treinados e fiscalizados no manuseio dos animais.

Mas não dá pra tirar o mérito dos animais no avanço da ciência. Podemos mudar o futuro. E tentar usar cada vez menos animais. E buscar, sim, modelos melhores, porque logicamente o modelo animal não é perfeito. Mas é o que temos. Eu ainda tiro meu chapéu para os camundongos que venceram a guerra. O que seria do mundo sem eles?

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9 comentários

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  1. Rita Café Ferreira

    Cara Dra. Natália P. Taschner,

    Parabéns pela bela e importante iniciativa.

    O texto está muito interessante e ótimas colocações. Sucesso no projeto para todos os envolvidos.

    Grande abraço.

    Rita

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada profa Rita. Esperamos que nos acompanhe sempre. abraço,
      Natalia

  2. RAFAELA

    Concordo com o texto, muito bem escrito. O que me deixa muito triste é o abuso de testes em animais, como você comentou para drogas similares ou novas versões. Mas o que mais me deixa indignada é o uso desenfreado na indústria de cosméticos. Será que os testes feitos até hoje já não são suficientes para não precisarem mais testar em animais para formularem produtos para cabelo, maquiagem ou mesmo dermocosméticos? Por que algumas empresas conseguem produzir e lançar produtos maravilhosos sem testar em animas e as grandes indústrias ainda utilizam essa prática?
    Sei que o tema é polêmico, mas gostaria de saber sua opinião sobre isso.
    Abraços!
    Rafaela.

    1. Natália Pasternak Taschner

      Cara Rafaela,
      Obrigada pelos elogios, que bom que gostou do texto. Concordo com sua colocação. Não vejo por que um animal deveria ser sacrificado somente para que eu tenha acesso a uma nova cor de batom! Creio que a melhor maneira de combatermos esse uso exagerado da indústria de cosméticos é através do nosso poder de consumo e da informação. Como você bem colocou, várias empresas conseguem lançar novos produtos no mercado sem testá-los em animais, então por que não todas? Provavelmente por uma questão de custos e de logística das empresas, mas principalmente, porque elas vendem. Se as vendas caírem porque o consumidor preferiu comprar de empresas que não testam em animais, com certeza as demais irão repensar sua estratégia. E isso só será possível com a divulgação e conscientização da população. Acho que estamos a caminho. Veja que a Body shop, que foi pioneira em banir o animais do seus testes, acaba de chegar ao Brasil. O brasileiro ainda não tem consciência do seu papel e do seu poder como consumidor. E muitas pessoas sequer pensam nisso quando compram cosméticos. Assim como não pensam, ao comprar frango no mercado, em verificar se o produtor maneja os animais com ética. A carne vira uma bandejinha no mercado. Esquecemos que aquele produto um dia foi um animal. Mudar essas atitudes depende de educação e informação. Pessoalmente eu só uso cosméticos de empresas que não testam em animais, e faço muita propaganda para minhas amigas, colegas e agora aqui no café na bancada. E quem sabe, agora, utilizando as mídias sociais, conseguiremos informar um maior número de pessoas?
      grade abraço,
      Natalia

  3. Mari

    Excelente texto! Cheio de argumentos irrefutáveis.
    Parabéns!!!

  4. Renato A. Daher

    Oi Natália,

    Parabéns esta reportagem é bem bacana e interessante, pois dá para unir ciência e direito, ou seja, em ambos os casos precisamos destes animais para o bem deles e também para nosso próprio bem, pois o que pode ser bom para eles pode ser bom para nós também dai a importância da ciência em estudar nosso “parentes distantes”, porém precisamos aprender a respeita-los, pois são seres com vida e sentimentos dai a importância do direito em providenciar leis, mais claras e que permitam a utilização de cobaias bem como o respeito para com estas frágeis vidas.

    Gostaria de parabenizar vocês pela criação deste site magnífico e tenho certeza que será de grande valia para muitos estudiosos e pesquisadores.

    Abraços,
    Renato Daher.

    1. Natália Pasternak Taschner

      Obrigada, Renato. Concordo com você, ciência e direito precisam caminhar juntos para regulamentar o manejo de animais. E sinto falta dessa regulamentação, juntamente com uma legislação punitiva para os que praticam crueldade com os animais, como aqueles envolvidos em brigas de galo ou de cães,farra do boi, rodeios, matadouros e criações em condições inóspitas e abandono. Onde estão os ativistas para lutar contra essas práticas? Espero que o artigo tenha servido para mostrar ao público que o cientista não é cruel. Cruéis são as pessoas que maltratam animais por lazer, para obter lucro ou por superstição. Grande abraço, e obrigada por nos acompanhar.

  5. Patrícia Chile

    Natália,

    Meus alegres parabéns!
    Alegres porque são motivados, não obrigados. E motivados pelo motivo mais alegre que pode haver: ser contemplada com algo realmente bom, o que para mim é = feito com amor.

    Inquestionável a importância da ciência [e dos filósofos como Platão e Thales de Mileto, que, antes do “Café na Bancada”, nem me (a)pareceram como parte da linhagem dos cientistas da humanidade!]. O ser humano anseia pela desmistificação, e a ciência pode ser a nossa fiel escudeira nesse rumo.

    O seu texto “Os camundongos que mudaram o mundo” é duplamente feliz porque nos aponta o dedo no sentido de sermos cautelosos e também para olharmos com mais amplitude humana para os próprios cientistas!

    Cautelosos quanto à diferenciação do que dá para prescindir e do que não dá (e ainda enfatiza o “AINDA”). Nem sempre os discursos mais solidariamente inflamados podem ser os que mais se solidarizam com o ser humano e o ecossistema do qual fazemos parte, é o que nos revela esse seu artigo.

    Por que os cientistas (os bem-intencionados, ou seja, não movidos pelo dinheiro) continuam a fazer experimentos com mamíferos??? Por que são malvados??? Não! Porque esses são os recursos que a própria ciência apresenta na atualidade. E você conseguiu esclarecer a nós leigos essa questão que vai além das intenções, da vontade individual do cientista, mas que tem a ver com o “modus operandi” do meio (que não podemos apontar já que não estamos dentro!).

    Ah!!! e simplesmente adorei a parte do: personal trainer, personal stylist, personal shopper e personal pharmacist. “O mesmo vírus que mata o cão vai matar você, seu irmão, sua tia e todos nós do Café na Bancada. Isso se nenhuma farmacêutica nos matar antes porque não gostou da piada do personal pharmacist..” Ri deliciosamente.

    Então, Nati (posso te chamar assim?), só tenho a agradecer e pedir que nos contemple com mais alegrias como essa. Que além de estimulantes para as nossas “finas” (endorfinas, serotoninas da vida), venham nos engrandecer na capacidade analítica e ponderativa (ousaria dizer, em alguns casos, tão ou mais benéficas que a penicilina).

    Os meus abraços camundoguísticos,
    Patrícia Chile.

    OBS.: Parabésn a você e aos colegas pelo nome “Café na Bancada”. Nada mais acertado! Afinal, únicos (com seus personals ou não), quase todos amamos o bom cafezinho, próprio para tornar os momentos árduos mais calorosos, e os assuntos menos palatáveis mais aprazíveis.

    1. Natália Pasternak Taschner

      Querida Patricia,
      Muito obrigada pelos elogios e pelo seu comentário. Fico extremamente feliz ao constatar que cheguei exatamente onde queria com o artigo, ao ponto de sensibilizar as pessoas mais sensíveis e que amam os animais como eu amo, de que seu uso na ciência é um mal necessário apenas. E que buscamos soluções e alternativas para que eles não precisem mais ser utilizados no futuro. E claro, se pudermos rir um pouco acompanhados de um bom café, toda discussão fica mais interessante. Espero que nenhuma farmacêutica me processe. Somos um site muito jovem, seria o fim do café na bancada…Grande abraço, e obrigada por nos acompanhar!
      Naty

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