«

»

mar 16

Ciclos, ritmos e você – Apresentando seu relógio biológico

Imagine a seguinte situação: domingo à noite, você em casa cuidando de sua vida sem incomodar ninguém. De repente, você ouve sua mãe de outro cômodo, com sua doce e delicada voz, carregada de carinho e amor, falar com você:

-Ei sua peste!!! Já para a cama que você tem que levantar cedo amanhã!!

hibisco

Flor de Hibiscus fechada. Fonte da imagem: flickr.com

O jeito unicamente adorável de sua mãe fazia com que você, muito a contragosto, acabasse indo dormir. Na época, você achava que os seus pais apenas queriam impedir sua diversão noturna. Mas, na verdade, o que queriam era que você construísse uma rotina, com uma hora para acordar, uma hora para dormir, uma hora para comer.
Se você reparar bem, verá que esses horários estão muito presentes na nossa sociedade, com horários para abertura de serviços, horários de trabalho, horários de almoço. Assim, sua família estava tentando adaptar você para a vida nessa sociedade; e não apenas tentando impedi-lo de ver televisão depois da meia-noite.

Mas não somos só nós que temos rotinas para nossas vidas; elas também estão muito presentes na natureza. Já percebeu que certos animais só aparecem de noite, como o exemplo clássico dos morcegos? Ou que algumas plantas abrem e fecham suas flores de acordo com a hora do dia, como a hibiscus? Esse padrão fica ainda mais claro quando, por exemplo, registramos a atividade de um animal ao longo de vários dias. Cientistas fazem esse registro em diagramas que são chamados de actogramas. Abaixo, trazemos o actograma do nosso querido mascote Musarabica:

Actograma registrando as atividades do Musarabica.

Actograma registrando as atividades do Musarabica.

Em geral, os actogramas trazem dois dias na mesma linha para melhor visualização. A barra acima mostra o ciclo da iluminação, basicamente quando é dia e quando é noite. Como dá para ver, o Musarabica é claramente um animal noturno, com basicamente toda a atividade restrita à noite (além de ser o típico de ratos, o anormal consumo de café contribui um pouco para isso).

Musarabica.

Musarabica

 

“Ahh, mas é claro que isso aparece assim, afinal ele sabe quando é dia e quando é noite.” De fato, leitor ou leitora desse post. Mas se esse for o caso, deixando ele em escuro constante fará ele perder completamente o padrão, certo? Fizemos esse experimento em nossos superequipados laboratórios (sim, só apagamos a luz) e registramos o padrão de atividade dele ao longo de vários dias. Eis o que obtivemos:

Actograma da atividade do Musarabica quando colocaod em escuro constante (a seta indica quando o escuro constante foi adicionado).

Actograma da atividade do Musarabica quando colocado em escuro constante (a seta indica quando o escuro constante foi adicionado).

Interessante, não? O Musarabica ainda manteve um ritmo de atividades (e olha que o consumo ainda mais acentuado de café não quebrou seu ritmo). Mesmo em escuro constante, o ritmo foi parecido; parecido, mas não igual. Note como depois que apagamos a luz, a atividade dele começa cada dia um pouco mais tarde. Por que isso?

Esquema de como é o quiasma óptico. Fonte da imagem: biomedmeto.blogspot.com

Esquema de como é o quiasma óptico. (Clique na imagem para expandir) Fonte da imagem: biomedmeto.blogspot.com

Todas as espécies possuem um ritmo próprio, que é de aproximadamente 24 horas ou, como é mais conhecido, Circadiano (cerca de um dia). Nos mamíferos, o relógio biológico é um conjunto de células localizado acima do quiasma óptico, ponto onde os nervos que saem dos olhos se cruzam em direção ao cérebro. Nas plantas, como contra-exemplo, não se sabe exatamente qual é o relógio, mas há grande chances de ser um relógio puramente químico, sem uma estrutura específica. Quando o ritmo natural da espécie está sendo expresso, dizemos que o indivíduo está em livre curso.

“Mas, se há um relógio com um ritmo próprio, por que ele tinha um ritmo de 24 horas quando havia luz?” Justamente porque havia luz. O fato do relógio em mamíferos ser uma estrutura relacionada ao nervo óptico indica que ele está sendo afetado pela luz que chega aos olhos. Remova a luz que chega ao relógio e o indivíduo passa a agir em livre-curso.

“E por que o ciclo natural não é de 24 horas de uma vez?” Essa é uma pergunta feita por muitos pesquisadores. Há algumas hipóteses. Os seres vivos adaptam seus ritmos à luz e não à hora do dia. Inverta o ciclo de claro e escuro e o ritmo do Musarabica seguirá o novo padrão de escuro. Se você se lembra quando discutimos sobre Evolução (Se não se lembra, clique aqui, aqui, ou aqui! 🙂 ), o que é mais importante é se adaptar ao ambiente. O ciclo de claro e escuro não é fixo ao longo do ano. Desse modo, manter um ritmo próximo de 24 horas adaptável a variações deve ter sido mais vantajoso do que regular um ritmo fixo. Essa entretanto é apenas uma hipótese.

“Tudo isso é muito interessante, mas por que afinal precisamos de um ritmo?” Voltando à questão da evolução: para o ritmo ter se mantido, ele deve ter trazido alguma vantagem. E, de fato, podemos pensar em várias vantagens. A primeira é facilitar atividades sociais. Imagine como seria difícil procurar um parceiro ou parceira se todos em potencial estivessem dormindo quando você está por aí fazendo suas coisas e vice-versa. O mesmo vale para caçar em bando. Então, possuir um ritmo sincronizado com os indivíduos de sua espécie é importante. Adequar seu ritmo ao de suas presas também pode ser bem útil; imagine procurar comida quando tudo o que você quer – ou pode – comer está bem escondido numa toca, dormindo. Veja, possuir um ritmo circadiano específico pode ser bom para uma espécie.

Antes de terminarmos, você deve estar se perguntando “é só a atividade que apresenta ritmo circadiano?” E já adianto que a resposta para essa pergunta é não. Diversos fatores têm ritmos também. Pressão arterial, concentração de determinados hormônios e até mesmo temperatura corporal são alguns exemplos. Os ritmos circadianos são expressos e regulados de modo que possamos tirar vantagens deles – para, por exemplo, melhorar nossa própria saúde; tudo isso é objeto de estudo de uma ciência chamada Cronobiologia (a Biologia do Tempo!!!).

Muito poderíamos falar de Cronobiologia, mas acho que já nos estendemos demais. Então, por hoje é só pessoal; aproveitem agora para discutir ritmos circadianos na próxima vez que pararem para um cafezinho!

Até breve! 😀

Share

2 comentários

  1. Reinaldo

    Agora eu sei porque foi necessária uma lei fechando os bares da Inglaterra no inicio da revolução industrial. Só assim pros caras estarem cedo nas fábricas….

    1. Henrique Iglesias Neves

      Agora imagine como seria se não houvesse existido essa lei. Toda a boêmia inglesa acostumada ao seus ritmos de atividade principalmente noturnos dificilmente teriam feito a revolução industrial. A história teria sido no mínimo diferente se os ritmos tivessem sido regulados. :v

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Share