«

»

maio 07

Perspectivas

“O meu verde não é o seu verde”. Acho que todos nós já ouvimos essa frase, ou algo parecido, durante nossas vidas. Apesar disso, é raro ter uma chance de ver e falar sobre isso em larga escala e, mais do que isso, de ter algo branco no preto – ou, melhor dizendo, azul no preto. Sim, eu vou falar um pouco do maldito vestido que fez a internet parar e se dividir (como se ela precisasse de mais motivos pra isso) em dois grupos – preto e azul ou branco e dourado.

O vestido deu a toda internet a oportunidade de falar sobre algo muito mais interessante do que um pedaço de pano – ele deu a oportunidade de falarmos sobre nossas percepções. Obviamente, com a internet sendo a internet, essa oportunidade foi deixada de lado para, ao invés disso, surgirem grupinhos onde um tentasse afirmar sua superioridade sobre o outro: “Como assim você vê azul? Cara, você tem algum problema”.

Então, vamos tentar esquecer um pouco a internet e focar em nossos sentidos, e como eles podem nos enganar – e isso pode ser até divertido. Pelo menos, é melhor do que falar da imagem que, considerando a escala de tempo da internet, fez sucesso há muito tempo atrás.

01

Nessa foto, tirada sob essas iluminações, acho que todos vemos essa borboleta como nas cores preto e azul, mas comente se você ver branco e dourado. Fonte: flirck.com

Classicamente, aprendemos que temos cinco sentidos – visão, paladar, olfato, audição e tato. Não aprendemos isso na escola, mas existem controvérsias sobre como classificamos um sentido – e, consequentemente, quantos sentidos nós temos. Dentre os possíveis sentidos além desses cinco, podemos ter: a propriocepção, que indica onde seus membros estão posicionados; nocicepção, que indica dor; e a termocepção, que indica calor ou frio – aliás, existem até mesmo receptores diferentes para essas duas sensações.

Assim como os sentidos clássicos, esses outros sentidos são dependentes de reconhecimento e processamento de informação – sendo, assim como todos os sentidos, passíveis a “erros” que podem ocorrer no sistema. Quando esses “erros” ocorrem, geralmente os chamamos de ilusões. Eu acho essas ilusões umas das formas mais legais que podemos usar para mostrar que experiências são subjetivas por natureza. E que, além disso, nem sempre podemos confiar em nossas percepções: elas podem não representar bem o que existe realmente. Ou, em alguns casos, podem haver duas percepções diferentes, porém igualmente válidas – existem imagens que são “multidimensionais”.

Como um exemplo simples de uma ilusão não visual, temos neste vídeo divulgado pelo canal Aqui pode no YouTube. Trata-se de uma ilusão auditiva – uma que fica mais legal quando você escuta e compara o que ouviu com seus amigos. O vídeo em si é bacana, mas para o efeito de ilusão, basta ver entre o minuto 1:51 ao 3:17:

O que você escuta pode até mesmo mudar com o tempo – no começo, eu ouvia o “Ei Ai Ai” até o final, agora, só consigo escutar o “Totanokayo”!

Agora, se quiserem uma outra ilusão auditiva – mas uma que requer uma certa base para ser compreendida – temos esta também:

Nem todas as pessoas conseguem identificar o que há de estranho neste vídeo – mas as crianças certamente conseguiram perceber algo que para elas foi assombroso. Como o próprio nome do vídeo fala, o que foi utilizado no vídeo foi uma ilusão de escala – ou melhor, uma ilusão que faz parecer com que as pessoas tenham ouvido uma escala musical, quando na verdade elas ouviram notas não relacionadas. No entanto, para entender isso (ou, em algumas situações, para apreciar isso), seria necessário um ouvido minimamente treinado para reconhecer escalas. Ou, ao menos, ter um contexto para conseguir perceber isso – como, por exemplo, estar lendo um post com um vídeo escrito “scale illusion”.

Aliás, o contexto é sempre importante para que nossos cérebros criem essas ilusões. O fechar de um olho, uma baixa resolução de uma imagem, uma sala silenciosa – tudo isso pode ser importante. E, tão importante quanto o contexto imediato, temos o contexto histórico: as conexões de nossos cérebros, necessárias para interpretar informações, são moldadas por nossas experiências anteriores – ou seja, por nossa perspectiva de mundo. Perspectiva esta que pode estar errônea (como no caso de ouvir uma escala que não existe), ou pode estar simplesmente diferente de nosso colega ao lado. Não existe um certo ou errado nesses casos, como nas imagens multidimensionais, por exemplo. Isso não é uma lição de moral, apesar de parecer – é, na verdade, uma constatação baseada em neurociência.

P.S. O vestido é azul e preto. Quem quiser uma explicação, o canal Nerdologia explica o porquê das pessoas verem cores diferentes.


Sobre o Autor:

Gustavo Satoru Kajitami é biólogo, pesquisador e atualmente cursa mestrado em biotecnologia trabalhando com sistemas de reparo de DNA em mamíferos, além de projetos para popularização da ciência. Prefere chá a café, mas sempre acaba tomando mais café pelos necessários efeitos da cafeína.

Post Relacionados

Não há posts relacionados

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Share