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ago 01

Mulheres na ciência ou ciência nas mulheres: a pílula anticoncepcional

As contribuições das mulheres para a ciência são inúmeras, como já destacamos aqui, aqui e aqui. Mas e o contrário? Já se perguntou o que a ciência fez pelas mulheres? Quando pensamos nas maiores descobertas do século XX, aquelas que mudaram drasticamente o rumo da humanidade, geralmente lembramos do computador, da energia nuclear, dos antibióticos, das vacinas, da internet. E, realmente, essas descobertas, entre tantas outras, mudaram radicalmente nosso modo de vida. Entretanto, segue esquecida uma descoberta – e principalmente os responsáveis por ela – que, atrevo-me a dizer, mudou mais o destino da humanidade do que qualquer outra. Uma descoberta que possibilitou a revolução sexual, o ingresso das mulheres no mercado de trabalho e o movimento feminista; abriu portas para que as mulheres estudassem, ocupassem cargos públicos e desfrutassem de uma liberdade que antes era inconcebível. Uma descoberta que possibilitou a democracia e a igualdade. Sim, estamos falando da pílula anticoncepcional.

Estamos falando de pouco mais de meio século atrás, quando as mulheres eram escravas de seu sistema reprodutor, além de seu papel de mãe e de dona-de-casa. A pílula mudou isso. Conquistou uma importância tão absurda que até hoje dispensa rótulos e marcas – quando falamos “a pílula”, todos sabem do que se trata, como se todos os demais medicamentos em forma de comprimidos fossem secundários. E, ainda assim, quantos de nós sabem quem são os seus criadores? Os idealizadores de uma das maiores mudanças na história do mundo seguem no quase anonimato, sem prêmio Nobel, sem alarde, sem o devido reconhecimento. Métodos anticoncepcionais tornaram-se tão comuns que fazem parte do cotidiano de 80 a 100 milhões de mulheres pelo mundo. E nós seguimos ignorantes do que foi uma verdadeira odisseia em busca da libertação das mulheres. Para que hoje nós, mulheres, desfrutemos dessa liberdade incrível que é escolher quando e se queremos engravidar, e quantos filhos queremos ter, quatro pessoas incríveis lutaram contra o sistema, e mudaram para sempre a maneira como o mundo funciona e como as pessoas se relacionam.

Margaret Sanger dedicou sua vida ao controle da natalidade – termo, aliás, cunhado por ela mesma. Em 1916, ela abriu a primeira clínica nos EUA dedicada a ensinar métodos de prevenção da gravidez. Com o tempo, ela seria a fundadora de uma das maiores associações americanas para o planejamento familiar. Contudo, os métodos disponíveis na época – preservativo, diafragmas, tabelinha e as primeiras versões do DIU – eram ineficazes e de uso complicado. Os homens em geral não queriam usar preservativo, o DIU era precário, e o diafragma, ineficaz. Além disso, todos esses métodos – inclusive o preservativo – precisavam de receita médica, e o médico só podia prescrever se a mulher estivesse correndo risco de vida.

Dar informações sobre métodos anticoncepcionais era proibido em muitos estados dos EUA e em vários países pelo mundo. Ter muitos filhos era visto como sinal de masculinidade e orgulho para os homens. Nas comunidades mais pobres dos EUA, as mulheres desesperadas para não ter mais filhos recorriam a abortos perigosos, e imploravam por cirurgias de esterilização. Mulheres de 30 anos, com oito, dez, doze filhos, não tinham nenhuma condição financeira ou emocional para criá-los. Sanger sonhava com uma “pílula milagrosa”, algo que só dependesse da mulher para o uso, que fosse 100% eficaz e barata, e desse às mulheres total controle de seu corpo, para que não precisassem pedir permissão ou ajuda para nenhum homem. Até 1950, essa ideia parecia apenas um sonho distante e quase impossível. Foi quando ela conheceu Gregory Pincus.

Pincus era biólogo, e possivelmente o maior especialista em reprodução e hormônios da época. Sua brilhante carreira em Harvard terminou abruptamente na década de 1930, após experimentos de fertilização in vitro com coelhos, que inadvertidamente o cientista alardeou para a grande mídia, sendo tachado em seguida de Dr. Frankenstein. Pincus anunciou para os repórteres que uma nova era de reprodução estava por vir, na qual homens e mulheres poderiam recorrer a outros métodos para fazer bebês, e que talvez, com o tempo, os homens nem seriam mais necessários! Não exatamente o que a sociedade machista e patriarcal da época queria ouvir, e o jovem doutor que fazia coelhos em tubos de ensaio perdeu o emprego.

Demitido de Harvard, mas determinado a continuar sua pesquisa, fundou com um amigo algo totalmente sem precedentes: um centro próprio de pesquisa científica, em Worcester, que eles batizaram de Fundação Worcester para a Experimentação Biológica. A “Fundação” era na verdade um velho galpão, que Pincus transformou em laboratório e escritório, e foi, literalmente, de porta em porta com seu sócio pedir financiamento. Ele era frequentemente visto limpando as gaiolas dos animais e varrendo o galpão. Apesar das dificuldades, continuou com as pesquisas e seguiu como referência em sua área. Dotado de uma habilidade notável como empreendedor, transformou a Fundação Worcester em uma instituição reconhecida. Quando Sanger o procurou com a proposta de uma pílula anticoncepcional, Pincus aceitou – para surpresa da própria Sanger, que já tinha ouvido de vários outros cientistas que isso seria impossível. Não para Gregory Pincus. Além do mais, como pesquisador independente e sem ter que prestar contas para nenhuma Universidade, ele não tinha nada a perder.

Pincus já tinha experiência com o uso de progesterona em animais para inibir ovulação. Ele sabia que, quando um óvulo é fertilizado, a progesterona prepara o útero para a implantação, e impede que os ovários liberem mais óvulos. A natureza já havia se encarregado de produzir um método anticoncepcional eficaz: a gestação. E se a progesterona pudesse ser colocada em uma pílula, enganando o corpo da mulher e simulando uma gravidez? As mulheres então poderiam impedir a ovulação pelo tempo que quisessem. Para Pincus, parecia a solução ideal. Junto com seu associado Chang, ele pediu 3 mil dólares para a Fundação de Sanger. Sanger conseguiu 2 mil. Segundo Pincus, 3 mil já era uma quantia ridícula. Mas ele era Gregory Pincus. Ele daria um jeito. E prontamente aceitou.

Em 1952, Pincus mandou um relatório para a Fundação de Planejamento Familiar demonstrando que doses de 10 miligramas de progesterona via oral haviam inibido a ovulação em 90% das coelhas testadas. E o melhor, após cessar o uso, as coelhas voltavam a ovular normalmente, sem prejuízo para seu sistema reprodutor. Neste mesmo ano, Sanger conheceu a terceira pessoa que seria essencial para nossa saga: Katharine McCornick. Recentemente viúva, única herdeira de um milionário e a segunda mulher a se formar no MIT – também em biologia –, Katharine sabia exatamente onde queria investir seu dinheiro. Como já conhecia o trabalho de Sanger com planejamento familiar, milionária e ativista formaram uma parceria que duraria uma vida inteira, em busca da liberdade e igualdade para as mulheres. Graças a McCornick, financiamento nunca mais foi um problema para Pincus. Quase toda a pesquisa que deu origem à pílula foi financiada por uma única pessoa, uma mulher que queria mudar o mundo.

E chegamos então ao quarto personagem essencial. Pincus precisava de um médico ginecologista disposto a testar a ideia em suas pacientes. John Rock era um médico de sucesso, respeitado por seus pares e adorado por suas pacientes. Ele também era de Harvard. E o mais importante para a época e circunstâncias: Rock era católico. Pincus sabia que grandes descobertas científicas não ocorrem só com o avanço da ciência. Política, economia e sociedade exercem uma influência que pode determinar o sucesso ou fracasso de uma ideia. Se ele não fosse um grande estrategista e articulador, além de um grande cientista, talvez a pílula não tivesse acontecido naquele momento. Rock era o parceiro ideal, já que seria crucial conquistar o apoio da Igreja.

Rock também já estudava o efeito da progesterona. Especialista em fertilidade, ele tinha observado que muitas pacientes, após demorarem muito para conseguir engravidar pela primeira vez, tinham seus segundos e terceiros filhos facilmente. Era como se a primeira gestação “colocasse os hormônios em ordem”, efeito que ficou conhecido como o “rebote de Rock”. Ele acreditava que utilizar a progesterona por um determinado período de tempo, mimetizando uma gestação, poderia ter o mesmo efeito, ajudando a restaurar a fertilidade das mulheres. Para Pincus, novamente, isso encaixava como uma luva, pois ele sabia que não ia conseguir permissão para testar um método anticoncepcional em mulheres, e nenhuma farmacêutica aceitaria arriscar sua reputação para fornecer o fármaco. Não que ele se importasse com o efeito na fertilidade. Ele apenas queria uma maneira de testar em humanos. No caso, quem fornecia a progesterona era a GD Searle, que pediu que os pesquisadores não tornassem pública sua participação na pesquisa. Assim, os primeiros ensaios clínicos foram feitos de maneira “camuflada”, disfarçados de testes de fertilidade.

Os ensaios conseguiram suprimir a ovulação em 85% das mulheres, mas tiveram um efeito inesperado. Lembrando que estamos falando de um estudo de fertilidade, as mulheres envolvidas estavam desesperadas para engravidar. No momento em que paravam de menstruar, tinham náuseas, inchaço e sensibilidade nas mamas – tudo efeito da progesterona –, essas mulheres concluíam que estavam grávidas! E foi muito complicado, e frustrante para elas, explicar que era o exato oposto disso. Pincus novamente teve uma sugestão genial. Se o fato de não sangrar mensalmente deixava as mulheres confusas, ele daria um jeito de assegurar um sangramento mensal: bastava interromper o uso do hormônio por uma semana, mimetizando a queda hormonal natural que causa o sangramento no final do ciclo. Sem a progesterona, os níveis hormonais da mulher voltariam ao normal, e ela sangraria normalmente, apesar de não estar ovulando, e todo o processo seria o mais similar possível ao ciclo natural. Assim, nasceu a ideia de tomar a pílula por 21 dias, e parar por 7 dias. Essa ideia se perpetuou de tal maneira que até hoje algumas mulheres preferem esse método a outros que suprimem a menstruação, muito embora o efeito seja o mesmo.

Apesar de resolvido um problema prático, 85% de sucesso não era bom o suficiente. Sanger e McCornick exigiam um método 100% eficaz, e exigiam que fosse uma pílula, pois queriam dar autonomia às mulheres. O que Pincus não sabia, no entanto, era que Carl Djerassi, um químico trabalhando para a empresa Syntex, acabara de sintetizar um composto derivado do inhame mexicano para tratamento de infertilidade. Era uma progestina sintética, muito mais potente e facilmente absorvida por via oral. Djerassi estava interessado em uma progestina que ajudasse mulheres que sofriam de abortos recorrentes, sabia que a progesterona tinha baixa absorção via oral, e as injeções eram doloridas. O químico declarou posteriormente que “nunca nos nossos sonhos mais bizarros imaginávamos que esse seria o ingrediente ativo da pílula anticoncepcional”. Para a sorte de Pincus, outro pesquisador estava seguindo os passos de Djerassi para produzir uma outra progestina sintética – Frank Colton, da GD Searle. Assim, nasceu Enovid, o primeiro contraceptivo oral do mundo, fabricado pela GD Searle. Mas a pílula ainda não estava no mercado.

Era chegada a hora de testar em um grupo maior de mulheres. Mas testar algo que não era um medicamento, não tratava nenhuma doença, e seria dado para mulheres jovens e saudáveis, não era uma missão fácil. Depois de muitas tentativas frustradas com grupos de enfermeiras e médicas, que desistiam facilmente dos testes porque eram enfadonhos e os efeitos colaterais eram incômodos, Pincus decidiu conduzir os testes em Porto Rico e Haiti, onde o uso de métodos anticoncepcionais não era proibido, e onde mulheres de comunidades muito pobres estavam desesperadas para parar de ter filhos. Apesar dos efeitos colaterais bastante desagradáveis, causados pela alta dosagem dos hormônios, os resultados foram promissores. Pincus desconfiava que poderia diminuir a dosagem, mas não queria correr o risco de perder eficácia antes da aprovação da FDA para o uso.

A aprovação também não seria simples. A farmacêutica Searle continuava zelando por sua reputação. Mas ao mesmo tempo em que Pincus usava a progestina sintética desenvolvida por Colton, a concorrente Parke-Davis explorava a possibilidade de usar o outro composto, desenvolvido por Djerassi. Não havia tempo a perder. A solução foi novamente elegante: o pedido de aprovação que seguiu para a FDA era para Enovid, um medicamento para disfunções menstruais, sangramentos e ciclos irregulares. Obviamente a FDA sabia que Pincus e Rock estavam estudando o uso de Enovid como anticoncepcional, mas não podiam rejeitá-la com esse argumento, porque o pedido não especificava esse uso. O efeito, aliás, estava listado na bula como efeito colateral, com o seguinte aviso “cuidado: o uso desse medicamento impede a ovulação”.

EnividPronto! Com uma advertência como essa, a pílula não precisava nem de propaganda. Logo, milhares de mulheres começaram a relatar problemas menstruais para seus médicos. Ainda se passariam três anos de muito trabalho até que Enovid fosse aprovada como o primeiro anticoncepcional da história, em 1960. O timing também foi perfeito. No ano seguinte, na Europa, um medicamento para enjoo matinal foi aprovado, que prometia ser muito promissor e seguro: a talidomida. Após esse triste episódio, no qual milhares de crianças nasceram deformadas, a FDA e todas as agências reguladoras alteraram seus protocolos, tornado a aprovação de um novo medicamento muito mais rigorosa. A pílula, com uma pequena amostra de mulheres e uma curta utilização, sem qualquer perspectiva de efeitos de longo prazo, jamais teria sido aprovada.

Após a aprovação, Pincus afirmou que o trabalho estava apenas começando. Ele ainda queria reduzir a dosagem e minimizar os efeitos colaterais. Conseguiu esses resultados em 1965, quando publicou “O controle da Fertilidade”, dedicado à Sra. McCornick, por sua “incansável fé no questionamento científico e na dignidade humana”. Faleceu em 1967, aos 64 anos, de um tipo raro de câncer. Katharine McCornick também faleceu no mesmo ano, aos 84 anos, logo após financiar e inaugurar o primeiro dormitório feminino no MIT. Sanger faleceu em 1966, aos 87 anos. Rock faleceu aos 94 anos, em 1984, ainda sonhando que o próximo Papa endossaria o uso da pílula. Nenhum deles ganhou o Nobel. Nenhum participou da patente. Nenhum ficou rico com a descoberta. Mas mudaram o mundo.

Em apenas 7 anos, as mulheres já eram capazes de adiar a gravidez e o casamento, terminar a faculdade, candidatar-se a cargos públicos, assumir posições de liderança nos governos e lutar por direitos iguais. Em 1970, as mulheres já perfaziam 10% dos estudantes de Direito e 4% dos estudantes de Economia. Dez anos depois, esses números alcançaram 36% e 28%, respectivamente. Durante muito tempo, a pílula também foi alvo de críticas e preocupações, desde acusações de seu uso como eugenia para eliminação de populações negras até alertas para o perigo de trombose (cujo risco é elevado durante a gestação e pós-parto), doenças vasculares e infertilidade.  

A ciência se encarregou de desmentir os mitos, e, em 2010, o resultado de um estudo de 40 anos concluiu que as mulheres usando a pílula tinham menos probabilidade de desenvolver doenças cardíacas, câncer de mama e ovários, derrames e outros males. Seu uso associado ao hábito de fumar mostrou-se realmente um risco para trombose, e as fumantes eram então orientadas a utilizar outros métodos. A dosagem hormonal foi reduzida, e outras alternativas foram desenvolvidas, como as mini-pílulas feitas somente com progesterona, os implantes intradérmicos, DIUs com liberação de hormônios, entre tantas outras, com efeitos colaterais quase nulos e riscos mínimos. Aos vencedores, as batatas – ou nesse caso, a progestina do inhame!

 

The Birth Of The Pill. How Four Crusaders Reinvented Sex And Launched A Revolution.  JONATHAN EIG

 

A Good Man, Gregory Goodwin Pincus : The Man, His Story, the Birth Control Pill.  Leon Speroff

 

In Retrospect : From the Pill to the Pen.  Carl Djerassi

 

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9 comentários

1 menção

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  1. Gabriel Bergamaschi

    Excelente texto, Natália!
    Realmente interessante e inspiradora a história desses cientistas que contribuíram para essa verdadeira revolução social. Impossível não reconhecer toda a importância da pílula anticoncepcional para nossa sociedade e principalmente para as mulheres.

    No final do texto, mesmo que brevemente, você aborda a questão dos efeitos colaterais do uso dos anticoncepcionais e a controvérsia envolvendo um suposto aumento nos riscos trombose e doenças vasculares.

    De forma similar ao que acontece com outras tecnologias na área da Saúde, podemos observar um crescimento dos movimentos que são contra o uso da pílula anticoncepcional. Esses grupos divulgam a ideia de que os anticoncepcionais são perigosos (mesmo para mulheres não fumantes) e incentivam as mulheres a abandonarem o uso desses medicamentos.
    Uma pesquisa rápida na internet mostra um número grande de blogs e páginas em redes sociais repletos textos de qualidade duvidosa e relatos pessoais de mulheres que se dizem vítimas do uso desses medicamentos.

    Você cita um grande estudo científico de 2010 que aponta na direção oposta dos críticos da pílula anticoncepcional.
    Através de um protocolo, a OMS estabelece os “Critérios Médicos de Elegibilidade para
    Uso Métodos Anticoncepcionais (http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/172915/1/WHO_RHR_15.07_eng.pdf).
    Nesse documento podemos observar que em alguns poucos casos, em algumas condições especiais de saúde, o uso dos anticoncepcionais hormonais é realmente desaconselhado ou deveria ser repensado pelo médico prescritor.

    O grande problema é como alertar as mulheres sobre esses riscos (que existem… mas ocorrem com uma porcentagem muito pequena das usuárias), bem como garantir que a comunidade médica esteja realmente atenta a estas situações ao fazer suas prescrições, sem alimentar a histeria criada em torno desse assunto.

    Penso que existe muita crendice e muita desinformação nessa “caça às bruxas” que alguns promovem contra os anticoncepcionais hormonais.

    1. Natália Pasternak Taschner

      obrigada Gabriel. Infelizmente eu ão tinha espaço para contar a história toda, e preferi chamar a atenção para o impacto social, tao negligenciado, desta grande descoberta. Mas é interessante notar que mesmo na e´poca, a FDA deicdiu que os possíveis efeitos colaterais e riscos eram mínimos quando comparados aos riscos reais de gestações sucessivas. E olha que a Enovid realmente tinha uma dosagem altissima de hormônios! Mas as pessoas tendem a esquecer dessa outra realidade, que era ter um filho atrás do outro, e assim, uma dose hormonal igualmente alta. Outra realidade que é facilmente esquecida é que se hoje a mulher tem acesso a outros métodos e pode exigir o uso do preservativo pelo parceiro, naquela época isso não existia. E a pílula foi justamente o que possibilitou que a mulher se tornasse independente e autônoma para poder escolher, e impor sua vontade. A ideia de Sanger de que teria que ser uma pílula, algo que só dependesse da mulher, era justamente isso. E funcionou. abraço!

      1. Gabriel Bergamaschi

        Perfeito, Natália.

        Quando inseridas em uma nova realidade, as pessoas tendem a se esquecer da realidade anterior e dos antigos problemas. Acabam por diminuir a importância dos avanços promovidos por essas novas descobertas e superestimam a dimensão dos eventuais problemas relacionados ao uso destas.

        Vemos algo semelhante com relação ao uso dos medicamentos antirretrovirais para o tratamento do HIV.
        Em um mundo onde a infecção pelo HIV pode ser evitada com o uso de preservativos e a carga viral dos pacientes soropositivos pode ser controlada com o uso de medicamentos, temos a perigosa ilusão de que ninguém mais fica doente ou de que a AIDS já não mata mais ninguém.
        Diante dessa nova realidade, surge um movimento que questiona o uso desses medicamentos e afirma, de forma irresponsável e sem embasamento científico sólido, que os antirretrovirais fazem mais mal do que bem ao paciente.

        Achei importante essa sua observação de que as mulheres, antes da revolução promovida pelos contraceptivos, passavam quase que a vida toda grávidas, sendo naturalmente expostas a altas dosagens de hormônios e aos riscos reais de sucessivas gestações.

        Quem sabe, no futuro próximo, você nos brinde com um novo texto que se aprofunde mais nessa problemática envolvendo os anticoncepcionais hormonais e o crescimento de grupos contrários ao uso destes medicamentos, mostrando o que a Ciência pode nos dizer sobre esse assunto.

        Um abraço!

  2. Maitê

    Adorei o texto, parabéns.
    Eu concordo que há um exagero de um movimento contra a pílula, que diz que ela não é natural, aumenta o risco de trombose e às vezes até dizem que a pilula não é feminista. Porém, algo que me deixa muitíssimo decepcionada com a indústria do anticoncepcional hormonal, é que desde que ele foi lançado nos anos 60 se conhece a elevação no risco de trombose, e em vez de pesquisar e desenvolver hormônios com menor risco de trombose e coágulos, somente se investiu dinheiro e tempo para desenvolver anticoncepcionais com efeitos de redução de acne, mesmo que estudos apontem que os anticoncepcionais mais recentes tem maior elevação do risco de trombose que os antigos.
    Eu sei que o risco de trombose pra quem toma anticoncepcional é menor que o de quem está grávida. Porém, a gravidez dura apenas 9 meses, e eu tomo anticoncepcional há 8 anos, 4 anos menstruando apenas 2 ou 3 vezes por ano. Menstruar pra mim é o terror, então eu não pretendo parar.
    Mas eu gostaria muitíssimo que as multinacionais farmacêuticas investissem em resolver essa questão da trombose, em vez de ignorá-la. Elas são a única entidade com dinheiro e conhecimento para isso. A farmácia escolheu investir em redução de acne porque as mulheres vêem seus rostos todos os dias e reclamam da acne com anticoncepcional. Quem sabe se as mulheres estiverem cientes do aumento do risco de trombose, conseguimos exigir que as farmacêuticas coloquem dinheiro e profissionais qualificados num grupo de trabalho de redução de risco de trombose…

    1. Natália Pasternak Taschner

      oi, Maitê, obrigada pelo elogio e por acompanhar p Café na Bancada.
      Mas não é verdade que não houve mais pesquisas desde 60. Apenas 10 anos depois, em 1970, já lançaram pilulas com dosagem reduzida de hormônios, e principalmente, seguiu-se pesquisando novos tipos de estrogênio que não aumentassem o risco de trombose e coágulos. Hoje temos diferentes formulações, e sabemos que o risco diminui com o uso prolongado, e com a dosagem de estrogênio. Além disso, temos pílulas só com progestinas, implantes e DIUs, que não auemntam em nada o risco de trombose. Aqui algumas revisões legais sobre isso se vc quiser se aprofundar:
      http://www.cochrane.org/CD010813/FERTILREG_contraceptive-pills-and-venous-thrombosis
      http://www.bmj.com/content/339/bmj.b2890
      Além disso, gostaria de esclarecer que a maior parte das pesquisas é feita em universidades, a indústria atualmente investe pouco em P&D, e de jeito nenhum é a única detentora do conhecimento e recursos para isso. Os artigos acima são respectivamente do grupo Cochrane, que é uma associação independente, e de uma universidade dinamarquesa. Existem muitas opções seguras de anti-concepcionais hoje, e na década de 80, as pilulas com alta dosagem, aquelas dos anos 60, foram retiradas de circulação. grande abraço.

  3. Carolina Lisboa

    Puxa Natália, você poderia ter lido sobre feminismo e sobre história das mulheres no Brasil e no mundo, pelo menos um pouquinho, antes de escrever que a pílula anticoncepcional ‘possibilitou’ o feminismo, a democracia, a igualdade, sério?? Você deve saber que existem campos e mais campos de estudos científicos sobre as relações humanas…tipo sociologia, história, educação, etc.
    Entendi onde você quis chegar com o texto, mas você negligenciou muitos aspectos da trajetória das mulheres e deu crédito demais para um único aspecto da ciência que também passa por cima das outras ciências!

    1. Natália Pasternak Taschner

      oi, Carolina, minha intenção não era escrever sobre feminismo, mas sobre uma descoberta científica que gerou um impacto social intenso na vida das mulheres, e sobre os responsáveis por essa descoberta, que seguiram esquecidos…Logicamente estou ciente que o movimento feminista não se restringe à pílula, inclusive porque a primeira onda do movimento, que conquistou o voto, é de 1928, bem anterior aos anos 60, que chamamos de segunda onda do feminismo. No entanto, não há como negar que a pílula desempenhou um papel crucial nessa segunda onda, abrindo caminho para a revolução sexual, e permitindo um maior ingresso das mulheres no mercado de trabalho, com o adiamento do casamento e da maternidade. O texto apenas convida à reflexão: será que o movimento feminista dos anos 60 teria acontecido da mesma maneira sem a pílula? Acredito que as mulheres teriam conseguido conquistar sua liberdade e igualdade de qualquer maneira – o voto foi conquistado muito antes, como já falei – mas a situação teria sido bem diferente, talvez mais lenta, mais difícil, com mais sacrifícios, não sabemos. O fato é que as mulheres queriam muito essa libertação, e quatro pessoas, naquela época, acreditaram que isso era possível, e que precisava acontecer. Dessa maneira, como cientista, escolhi prestar uma homenagem às pessoas que possibilitaram algo que se tornou tão corriqueiro que foi esquecido. Fosse eu socióloga, cientista social ou historiadora, prestaria tributo às diversas feministas que lutaram e conquistaram direitos para mulheres. Admiro e reverencio todas as mulheres que lutaram para que hoje desfrutemos dessa liberdade. Mas nesse blog eu divulgo ciência. E a pílula é uma parte essencial da ciência que possibilitou o feminismo. Acho que você vai gostar desse livro, além das REFs que eu coloquei aqui, a autora também descreve a pílula como crucial para garantir a igualdade no mercado de trabalho: Elaine Tyler May, America and the Pill: A History of Promise, Peril, and Liberation. grande abraço, espero que tenha ficado mais claro agora.

  4. Marília De Lima Dias

    Olá Natalia, foi muito ler e saber com se deu essa descoberta em relação aos hormônios . beijos grata pela boa leitura…

  5. Doroty

    Pra evitar gravidez o método mais natural e completamente saudável é não fazer sexo e nem inseminação..

  1. O chamado ‘novo Código Florestal’ e uma de suas promessas | Direto da Ciência

    […] Mulheres na ciência ou ciência nas mulheres: a pílula anticoncepcional Natália Pasternak Taschner […]

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