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mar 21

Mitos desmistificados! Piriproxifeno e a microcefalia.

Desde fevereiro de 2015, Zika vírus se tornou um dos agentes patogênicos mais conhecidos do mundo. Nesta data, a Organização Mundial da Saúde declarou estado de emergência mundial devido ao aumento exponencial de bebês nascidos com microcefalia e também de adultos com Síndrome de Guilllain-Barré. Até maio de 2016, porém, a relação causal entre o vírus e as doenças citadas ainda não havia sido comprovada, sendo aventadas também outras possibilidades como vacinas vencidas, o estado nutricional das gestantes, coinfecção com outros vírus como dengue e Chikungunya, e até mesmo o uso de um larvicida chamado piriproxifeno.

Foi somente em maio de 2016 que três trabalhos publicados concomitantemente –incluindo um de nosso grupo no ICB, do Departamento de imunologia – comprovaram que o Zika causa lesões nos cérebros dos filhotes de mães infectadas com o vírus, utilizando modelos experimentais em camundongos. Os resultados de todos os trabalhos foram semelhantes, comprovando a presença do vírus no cérebro dos filhotes, assim como a indução de morte de precursores neuronais por mecanismos que envolviam apoptose e autofagia (Miner et al. 2016; Cugola et al. 2016; Wu et al. 2016; Li et al. 2016). Os trabalhos também confirmaram a infecção das células da placenta, o que está provavelmente relacionado à restrição de crescimento intrauterino, observado também nos bebês com microcefalia. Atualmente, tais achados também já foram confirmados em modelos com primatas não-humanos, utilizando macacos Rhesus (Abbink et al. 2016; Hirsch et al. 2017).

Nesta semana no Jornal da USP, o professor Ciro Marcondes Filho deu uma entrevista declarando que um grupo de médicos argentinos está “desafiando a teoria de que o Zika vírus está causando microcefalia…” e que a mesma está sendo causada pelo larvicida piriproxifeno, que teria contaminado os reservatórios de água potável. Bom, vamos aos fatos:

1º) o entrevistador e entrevistado usam o termo “microencefalia”, e não microcefalia. No caso da Síndrome Congênita do Zika, o que é observado é a microcefalia, a qual apresenta redução no tamanho das medidas do crânio dos bebês, e não somente do encéfalo, formado por cérebro e cerebelo.

2º) A possibilidade levantada pelo grupo argentino já foi descreditada, uma vez que, como mencionado acima, vários trabalhos publicados demonstraram claramente que o vírus Zika é capaz de causar a doença. Até os próprios médicos já declararam que foram mal-entendidos, conforme essa nota na BBCTrabalhos recentes comprovaram que o piriproxifeno não foi capaz de causar malformações em embriões de peixe-zebra (Dzieciolowska et al. 2017).

3º) O entrevistado menciona que “… zika tem sido considerada uma doença benigna, que nunca foi associada a defeitos congênitos, mesmo em áreas em que até 75% da população é afetada”. Apesar de correto na observação de que o vírus nunca havia sido relacionado à microcefalia, o que o professor não sabe é que um trabalho retrospectivo já comprovou que, na Polinésia Francesa, local onde um grande surto de zika irrompeu em 2014, com cerca de 28.000 pessoas infectadas, houve, sim, um aumento significativo nos índices de microcefalia (Cauchemez et al. 2016). Logo, zika já estava causando microcefalia antes mesmo de causar problemas por aqui.

4º) O Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, possui mais de 2366 bebês com microcefalia comprovadamente causada pelo vírus, havendo ainda mais de 3183 casos a serem confirmadosMais importante, apesar do epicentro da epidemia se localizar no nordeste, como explicar os casos de microcefalia em outras regiões, como no interior de São Paulo, por exemplo? Além de tudo isso, em setembro de 2016, a Organização Mundial da Saúde emitiu mais um comunicado, comprovando a transmissão sexual do Zika vírus, o que também pode ser importante no estabelecimento da microcefalia. Como relacionar piriproxifeno e transmissão sexual?

5º) Hoje, a OMS já reportou 69 países com casos de Zika, sendo Cingapura um dos últimos países a serem relatados. Sendo assim, há contaminação por piriproxifeno em todos esses 69 países? Acho que não. Além disso, os Estados Unidos já possuem cerca de 49 casos comprovados de microcefalia por Zika.

6º) A própria OMS emitiu um report em setembro de 2016, desmistificando e negando esses fatos, inclusive o que o professor menciona ser “um fracasso total”, que é o uso de mosquitos geneticamente modificados. Mas podemos deixar esse assunto aos especialistas, pois não é minha área, e acho que o mesmo é uma proposta muito interessante.

Em suma, prefiro acreditar no despreparo dos envolvidos quanto ao assunto, do que numa veiculação que tem a intenção de apontar culpados. Mas nem por isso deixo de achar lamentável o ocorrido. Tal pauta em um veículo tão poderoso pode acarretar em desserviço e desinformação para a população, que já sofre muito com seus bebês que requerem muito mais carinho e atenção que o habitual. Além disso, fico surpreso com a falta de cuidado no preparo da pauta, e na busca pela veracidade dos fatos, uma vez que nós da Rede Zika, formada por mais de 40 pesquisadores, tanto da Universidade de São Paulo como de outras instituições do estado, fomos diariamente cobertos pela comunicação da USP durante nossos extensivos trabalhos no ano de 2016 até hoje. Escrevo esse texto com o intuito de desmistificar de uma vez por todas o assunto. Assim, podemos focar naquilo que realmente importa, que é o controle do vetor Aedes aegypti, a conscientização da transmissão sexual e o estudo dos mecanismos celulares e moleculares envolvidos na doença. Então podemos acalmar os corações aflitos das mães desses bebês, dizendo que há especialistas preocupados e dedicados a resolver esse problema tão sério hoje, em nosso país e no mundo.


 

Referências

Abbink, P. et al., 2016. Protective efficacy of multiple vaccine platforms against Zika virus challenge in rhesus monkeys., 6157(August), pp.1–10.

Cauchemez, S. et al., 2016. Association between Zika virus and microcephaly in French Polynesia, 2013-15: A retrospective study. The Lancet, 387(10033), pp.2125–2132.

Cugola, F.R. et al., 2016. The Brazilian Zika virus strain causes birth defects in experimental models. Nature, pp.1–15. Available at: http://dx.doi.org/10.1038/nature18296.

Dzieciolowska, S. et al., 2017. The larvicide pyriproxyfen blamed during the Zika virus outbreak does not cause microcephaly in zebrafish embryos. Scientific Reports, 7(January), p.40067. Available at: http://www.nature.com/articles/srep40067.

Hirsch, A.J. et al., 2017. Zika Virus infection of rhesus macaques leads to viral persistence in multiple tissues. PLOS Pathogens, 13(3), p.e1006219. Available at: http://dx.plos.org/10.1371/journal.ppat.1006219.

Li, C. et al., 2016. Short Article Zika Virus Disrupts Neural Progenitor Development and Leads to Microcephaly in Mice Short Article Zika Virus Disrupts Neural Progenitor Development and Leads to Microcephaly in Mice. Stem Cell, pp.1–7. Available at: http://dx.doi.org/10.1016/j.stem.2016.04.017.

Miner, J.J. et al., 2016. Zika Virus Infection during Pregnancy in Mice Causes Placental Damage and Fetal Demise Article Zika Virus Infection during Pregnancy in Mice Causes Placental Damage and Fetal Demise. Cell, 165(5), pp.1081–1091. Available at: http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2016.05.008.

Wu, K.-Y. et al., 2016. Vertical transmission of Zika virus targeting the radial glial cells affects cortex development of offspring mice. Cell Research, 26, pp.645–654. Available at: www.nature.com/cr.

 


Sobre o autor do post:

Jean Pierre Schatzmann Peron é Professor Doutor do Departamento de Imunologia da USP-São Paulo. Formado em farmácia-bioquímica pela Universidade Estadual de Londrina – PR. Fez seu doutorado no Departamento de Imunologia da USP e durante esse período permaneceu durante um ano na Harvard Medical School –  Center for Neurological Diseases em Boston como doutorando visitante, onde adquiriu sua base em neuroimunologia. Atualmente em seu laboratório sua equipe tenta compreender as interações entre o sistema nervoso e o sistema imune, campo de estudo chamado de neuroimunologia. Utilizam abordagens experimentais como a encefaliomielite experimental autoimune (EAE), que é o modelo para estudo da esclerose múltipla humana. Além disso, mais recentemente, o grupo do Prof. Jean tem se dedicado ao estudo dos mecanismos moleculares e celulares presentes no estabelecimento da microcefalia causada pelo zika vírus. Em 2016 estabeleceram um modelo experimental para estes estudos, onde filhotes de camundongos infectados durante a gestação apresentavam muitos das características observadas em bebês, incluindo as lesões no cérebro. Tal modelo pode ser utilizado para responder às mais diversas questões acerca da biologia da infecção pelo Zika, como a transmissão vertical, o papel da resposta imune materna, genes importantes para a resistência à infecção, além de abordagens vacinais e terapêuticas.”

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1 menção

  1. Boletim de Notícias, 22/mar: Crise hídrica e Dia da Água; bobagens sobre microcefalia | Direto da Ciência

    […] para tratar dele devidamente, mas para esclarecer esses absurdos recomendo a leitura do post “Mitos desmistificados! Piriproxifeno e a microcefalia”, do blog Café na […]

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