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Deu zika no ICB-USP! Conheça a história da “Rede Zika”

Véspera de Natal, dezembro de 2015. O professor Luís Carlos Ferreira desce até a portaria do Instituto de Ciências Biomédicas da USP para receber um presente um tanto inusitado: uma caixa com amostras de vírus zika, que acabara de chegar do Instituto Evandro Chagas (IEC). Esse era sem dúvida o melhor presente de Natal que os pesquisadores de rede zika poderiam esperar. O pacote foi solenemente colocado aos pés da árvore de Natal do instituto e ficou ali, aguardando uma breve comemoração dos cientistas que optaram por trabalhar naqueles dias. Alguns outros que foram para casa para estar com suas famílias estariam de volta no dia seguinte. O ano novo também foi comemorado ali. No laboratório do prof. Jean Pierre Peron, do departamento de Imunologia, a ceia foi servida com todo o requinte que o McDonald’s pode proporcionar. Se você costuma passar pela USP durante a madrugada, deve ter percebido que há alguns meses as luzes não se apagam nos prédios do ICB-USP. O motivo? Simples: deu zika no ICB.

Desde novembro de 2015, vários laboratórios do ICB-USP se mobilizaram, coordenados pelo prof. Paolo Zanotto, para formar a rede zika. A rede abriga também outros laboratórios da USP, como o da profa. Patricia Beltrão Braga, da Faculdade de Medicina Veterinária, e tem contato com outras Universidades e Instituições não menos importantes, como a Fiocruz, o Instituto Butantan, o Instituto Evandro Chagas, Adolfo Lutz, Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, Faculdade de Medicina de Jundiaí e a UNICAMP. No entanto, observando o que ocorreu ali no ICB, vemos algo inédito e extraordinário.

Dentro do ICB, temos atualmente seis laboratórios trabalhando na rede zika:

 

Lab de virologia – prof. Edison Durigon

Lab de desenvolvimento de vacinas – prof. Luis Carlos de Souza Ferreira

Lab de evolução molecular e bioinformática – prof. Paolo Zanotto

Lab de interações neuroimunes – prof. Jean Pierre Peron

Lab de mosquitos geneticamente modificados – profa. Margareth Capurro

Lab de regulação na implantação embrionária e interface materno-fetal – profa. Estela Bevilacqua.

 

Os seis chefes dos laboratórios que integram a rede no ICB mantêm hoje, além das luzes acesas o tempo todo, as portas sempre abertas, e garantem passagem livre para os alunos de todos os laboratórios envolvidos. A rede zika no ICB criou uma situação única de colaboração e trabalho conjunto.

Acostumados a ter cada laboratório trabalhando isoladamente em seus próprios projetos, professores e alunos de pós-graduação estão tendo que se adaptar ao novo modelo implantado pela rede zika. Um dos integrantes da rede, prof. Edison Durigon, conta que, quando uma de suas alunas perguntou sobre um reagente, ele a mandou perguntar para uma pós-doc. E de repente se deu conta de que aquela pós-doc – que conhecia tão bem seu laboratório a ponto de saber onde estava o reagente – não era aluna dele! Era uma pós-doutoranda do laboratório do prof. Paolo Zanotto! 

Esse livre intercâmbio de alunos e professores é novo para o ICB – e, atrevo-me a dizer, para quase todas as instituições científicas. O prof. Luis Carlos Ferreira conta que, apesar de trabalharem com temas correlatos, esta é a primeira vez em que os laboratórios estão tão próximos. Ele espera que essa aproximação seja permanente.

“Estamos acostumados a nos concentrar em nossas próprias pesquisas. E essa interação é extremamente benéfica para todos os envolvidos”, explica Zanotto em uma das inúmeras palestras que deu sobre o zika virus e a evolução dos trabalhos. “O ICB, que sempre foi criticado por não ter um foco determinado, fez justamente da sua pluralidade a sua maior vantagem”, explica. “Agora temos como abordar o problema com várias estratégias diferentes. Aqui dentro do ICB, temos laboratórios de virologia, de vacinas, laboratórios que estudam placenta, interações neuro-imunes, e de controle do vetor”. 

A rede zika abriu uma oportunidade de colaboração que certamente irá se estender além da epidemia. Professores e alunos só têm a ganhar com esse novo modelo de trabalho. Novas parcerias e novos projetos hão de nascer. E os alunos contam com a oportunidade de conviver com outros professores e colegas, em outros ambientes de trabalho. Terão contato com outras formas de fazer ciência e outras maneiras de pensar. Quantas ideias inovadoras poderão surgir desta nova realidade?

Além disso, motivados pela necessidade de conter uma epidemia, professores e alunos abdicaram de seus projetos de pesquisa para estudar as diferentes facetas do zika vírus. Todos os alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado possuem projetos próprios, com prazos que devem ser cumpridos. No entanto, sabendo que neste momento o Brasil precisa desesperadamente de cientistas, e que eles estão entre os poucos que possuem o conhecimento e o treinamento necessários, equipes inteiras dos laboratórios envolvidos deixaram seus próprios projetos de lado, e abraçaram o zika vírus. Eles não sabem se vão publicar esse trabalho, e sabem que vão ficar atrasados com seus próprios projetos. Mas estão comprometidos a fazer sua parte para conter a epidemia. Nenhum deles, professores ou alunos, estão ganhando a mais para isso.

Muitos deles estavam lá na noite de Natal. No réveillon. Nos finais de semana e feriados. Durante o carnaval, os alunos do prof. Luis Carlos estavam trabalhando freneticamente para obter um novo método diagnóstico. O professor costuma passar o carnaval no Rio de Janeiro, onde tem família. Não este ano. O prof. Paolo Zanotto e sua equipe parecem não dormir há meses, indo e voltando do Nordeste, treinando equipes e trazendo amostras de vírus para serem estudadas aqui. Professores e estudantes estão se privando de vida pessoal, de contato com suas famílias, em um belíssimo exemplo de abnegação e humanitarismo. Esses cientistas são verdadeiros heróis e, graças a eles, os progressos necessários para entender e conter essa epidemia estão sendo alcançados.

Infelizmente, a sociedade segue ignorante desta dedicação e das conquistas obtidas à custa de tanto sacrifício. Obviamente o país vive um momento político extremamente complicado, no qual todos os olhos se voltam para Brasília. Ao mesmo tempo, a crise política e econômica reverbera na ciência, e, ainda assim, esses pesquisadores, sofrendo com a falta de verba e de condições de trabalho, não desistem. E ao mesmo tempo em que a demagogia da Câmara e do Senado oferece verbas para o charlatanismo, que faz muito alarde para pouco resultado, a rede zika vai, aos poucos, desvendando o mistério da epidemia no Brasil. Infelizmente, a mídia prefere exaltar uma polêmica em torno de um professor processado por curandeirismo e uma equipe com interesses duvidosos que ilude a população com uma “cura universal’ para o câncer  – que sabemos ser altamente improvável –  e não valoriza o trabalho dedicado de uma equipe de cientistas sérios, empenhados em resolver e conter uma das maiores epidemias que já afetou nosso país. As sequelas da epidemia de dengue, zika e chikungunya serão lembradas por muito tempo. E as conquistas da rede zika passam incólumes por uma população que não está acostumada a valorizar a ciência. 

Graças ao teste diagnóstico desenvolvido no laboratório do prof. Luis Carlos Ferreira, em conjunto com o laboratório do prof. Edison Durigon e do prof. Paolo Zanotto, agora poderemos saber exatamente quais pessoas foram infectadas pelo zika vírus, desde o início da epidemia. Essa é provavelmente a descoberta mais importante para estudar a epidemia. O novo teste é rápido, fácil de aplicar, e com baixo custo para produção. E o melhor, permite diagnosticar com precisão quem já foi infectado pelo zika vírus em algum momento da vida, seja há 5 dias ou há 5 anos. Os testes anteriores não conseguiam distinguir o zika vírus de seus “parentes” próximos – os 4 sorotipos de vírus da dengue. Além disso, possuíam uma janela de tempo muito curta para sua aplicação. Ficava quase impossível saber quais gestantes que deram à luz bebês com microcefalia haviam de fato sido infectadas pelo zika vírus. Agora saberemos com certeza. O truque foi conseguir isolar um pequeno pedaço de proteína do vírus zika que poderia servir para provocar uma resposta de anticorpos, e que fosse única, diferente dos vírus da dengue. Esse “truque” foi feito em tempo recorde, graças a muitas noites em claro da equipe. Um trabalho que normalmente levaria pelo menos um ano foi feito em três meses. 

O valor dessa descoberta é imensurável tanto em caráter científico como social. Para a ciência, abre a possibilidade real de finalmente caracterizar a epidemia. Saberemos exatamente quem são e onde estão as pessoas infectadas. Saberemos quem são as gestantes infectadas, tanto as que já tiveram seus bebês, como as que estão atualmente grávidas. Agora será possível fazer o acompanhamento dessas gestações e seus bebês.

Do ponto de vista social, o benefício é ainda mais abrangente. O trabalho árduo dos cientistas finalmente responde uma pergunta da população de Sergipe: as mães dos bebês com microcefalia realmente foram infectadas pelo zika vírus? A resposta, obtida com o novo teste em amostras de sangue dessas mulheres, é sim. Essa confirmação afasta as teorias conspiratórias sobre vacinas vencidas ou fornecidas indevidamente, sobre larvicidas assassinos e mosquitos transgênicos malvados. Esse trabalho demonstra como a ciência é importante para a sociedade. Não podemos perder essa oportunidade única de aproximar o cientista da sociedade, nesta época em que nossa credibilidade é ameaçada e somos acusados de fazer parte de conspirações financeiras secretas. 

No lab do prof. Jean Pierre, esperamos encontrar respostas em breve com o modelo animal de microcefalia. A profa. Margareth Capurro já obteve avanços com o estudo do mosquito, e trabalha, apesar do corte de verbas no passado, para obter um mosquito transgênico capaz de controlar a população de Aedes. Oferece ainda, várias alternativas de controle integrado do mosquito, frisando a importância do controle do vetor, que é responsável pela propagação de TRÊS epidemias no país.

O trabalho não para. Incansável e determinado, o prof. Paolo Zanotto continua recrutando novos laboratórios e parcerias para a rede zika, além de acompanhar o trabalho do seu próprio laboratório. Entre uma viagem e outra ao Nordeste para treinar e capacitar mais pessoas, e acompanhar de perto a epidemia e seus resultados, ele conseguiu agregar também a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e a Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, onde já operava uma força-tarefa para estudo e controle da dengue. Juntamente com Jundiaí, as cidades de Ribeirão e Rio Preto organizaram coortes, estudos epidemiológicos que acompanham um determinado grupo da população. Esses estudos certamente trarão repostas importantes para a avaliação da epidemia.

A presença do epidemiologista Eduardo Massad, da Faculdade de Medicina da USP, também agrega mais uma área fundamental para a rede. E graças ao teste diagnóstico desenvolvido pelo lab do prof. Luis Carlos, ele tem agora material para trabalhar, pois será possível ter uma ideia real da infecção por zika vírus no Brasil. O professor Luís Carlos, antes mesmo de publicar a descoberta, decidiu disponibilizar o teste para a rede pública e para diversos hospitais. O teste ainda precisa ser validado em amostras antes de seguir para a produção em massa, que será realizada no Instituto Butantan. O teste será gratuito.

Parabéns, ICB-USP. Parabéns, prof. Paolo Zanotto. O senhor provavelmente conseguiu articular no Brasil algo que se tornou o mais próximo que temos de um centro de controle de doenças infecciosas. Quem sabe lançou as bases para que um dia realmente tenhamos um centro assim? Que exemplo para o Brasil. Que orgulho de ser ICB.

E para provar que a zika realmente pegou de jeito o nosso Instituto, o prof. Luís Carlos Ferreira estava bastante doente semana passada, desconfiado até de influenza, quando percebeu a presença de manchas vermelhas pelo corpo. Desconfiado de dengue ou zika, o professor, mesmo doente, ainda faz piada que seria uma boa hora para testar seu novo método diagnóstico. Os alunos, claro, já estão de olho no possível “modelo animal” ao seu alcance, e na amostra de sangue do professor. Se cuida, prof. Luís Carlos.

Isso é o que realmente chamamos de dar o sangue pelo trabalho!

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