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maio 08

Resposta para “Ensino de homeopatia veterinária é deficiente, afirma pesquisadora”

No dia 19/04/2017, o Jornal da USP publicou a seguinte matéria: Ensino de homeopatia veterinária é deficiente, afirma pesquisadora.
O Café na Bancada já havia chamado a atenção para o perigo de um veícúlo que leva o selo da maior universidade da America Latina pubicar pseudociências e informações falsas. (
Mitos desmistificados! Piriproxifeno e a microcefalia.). O prof Beny Spira, livre-docente do ICB-USP, contesta a publicação do artigo do dia 19/04, em carta ao jornal, até o presente momento sem resposta. O Café na Bancada publica aqui a carta do prof. Spira na íntegra, explicando por que a Jornal da USP não deveria publicar falsa ciência ou pseudociência.

“Venho expressar a minha surpresa e indignação com a publicação do artigo “Ensino de homeopatia veterinária é deficiente, afirma pesquisadora” no Jornal da USP. É lastimável que essa entidade representativa da Universidade de São Paulo seja porta-voz de pseudociências. A homeopatia, apesar de ter defensores na classe médica, é uma das mais manjadas pseudociências.

Poder-se-ia argumentar que o Jornal da USP, democrático como é, deveria estar aberto a diferentes opiniões. Porém, a divulgação da homeopatia no Jornal da USP contribui para a difusão de um conhecimento errado, arcaico e perigoso. A ciência baseia-se na busca pela verdade, não em opiniões. A ciência não é democrática. Se a maioria das pessoas decidir que a Terra é plana, isso não fará com que ela deixe de ser uma esfera imperfeita. Da mesma forma, não votamos para decidir se um antibiótico é eficiente para o tratamento de uma determinada doença infecciosa; os testes clínicos dirão se ele funciona ou não. A homeopatia é considerada, pela grande maioria dos cientistas, uma pseudociência, e há diversos bons motivos para isso.

Por que a homeopatia é errada, arcaica e perigosa?

Errada, porque o princípio homeopático é baseado em duas premissas falsas: (1) o princípio dos similares e (2) a lei dos infinitesimais. O primeiro prega a máxima “Simila similibus curentur”, que significa ‘similar cura similar’. Ou seja, uma determinada enfermidade pode ser curada com alguma substância que cause o mesmo sintoma. Um exemplo: resfriados podem ser tratados com cebola (Allium cepa), pois a cebola, ao ser picada, causa sintomas parecidos com os do resfriado (coriza, irritação dos olhos e outros). Então, se o paciente tomar um remédio baseado em Allium cepa por uma semana, ficará curado do resfriado. Que maravilha! Imagine o que acontecerá se o paciente não tomar o remédio cebolístico por uma semana. Você adivinhou: o resfriado passou assim mesmo!

Portanto, o princípio de “similar cura similar” é interessante, mas absolutamente errado, pois carece de evidências científicas. Mais sobre evidências científicas abaixo.

Se o primeiro princípio da homeopatia é equivocado, o que dizer, então, sobre o segundo princípio? Para responder essa pergunta, vamos parafrasear o grande físico Wolfgang Pauli, que costumava dizer: ”É tão absurdo que nem errado é”. A ‘lei dos infinitesimais’ estabelece que, quanto maior a diluição de um medicamento, maior a sua capacidade curadora! Se você não entendeu, não se preocupe. É tão contrário à lógica e às ciências químicas e farmacêuticas, que a nossa cabeça, dominada pela ’hegemônica ciência racional’, não consegue entender a grande sabedoria que está por trás desse princípio!

Explico com mais um exemplo: na homeopatia, trióxido de arsênico é recomendado para o tratamento de diversos males, entre eles asma, resfriado, diarreia etc. Mas espere: arsênico é extremamente tóxico, além de ser carcinogênico. Como pode, então, ser utilizado para a cura de qualquer coisa? Aí vem a “grandiosidade” do segundo princípio da homeopatia: basta diluí-lo que o efeito tóxico desaparece! Mas o efeito curativo não somente permanece na solução diluída, como tem seu potencial aumentado! Por isso, “remédios” homeopáticos são normalmente diluídos 10^30 vezes ou mais. Há, porém, um pequeno problema: o químico Amedeo Avogadro, do século XIX, demonstrou que 1 mol de uma solução de qualquer composto contém 6 x 1023 (o número 6 seguido de 23 zeros) unidades desse composto. Ou seja, um mol de uma solução de trióxido de arsênico contem 6 x 1023 moléculas. Uma vez que a solubilidade máxima de trióxido de arsênico em água é de apenas 0,1 mol/litro, ao diluir essa solução 1030 vezes, adivinhem quantas moléculas de trióxido de arsênico restarão no composto diluído? Isso mesmo, nenhuma! Foi como diluir uma gota no oceano! Sendo assim, como pode um remédio homeopático curar uma enfermidade? A resposta óbvia é que não pode. Não há nenhum mecanismo que explique como uma solução homeopática ultra-diluída possa ter qualquer efeito curativo.

Bom, mas você ainda pode estar pensando que a nossa pobre “ciência ocidental hegemônica” ainda não descobriu o mecanismo de ação dos compostos homeopáticos, mas que funciona, funciona! Certo?

Novamente, sinto desapontá-lo. Apesar de o artigo ter afirmado que a “homeopatia não é estudada na universidade”, milhares de estudos já foram realizados, em todos os cantos do planeta. A grande maioria dos estudos clínicos devidamente bem-conduzidos revelou que o tratamento homeopático equivale ao tratamento com placebo, ou seja, não foi detectado nenhum efeito curativo significativo de qualquer composto homeopático a não ser aquele causado por auto-sugestão (veja a meta-análise escrita por Shang et al. 2005; o editorial da Lancet nesse mesmo fascículo anunciando o ‘fim da homeopatia’: The Lancet 2005; ou ainda o documento: Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions do Governo Australiano, publicado em 2015). Por esse motivo, alguns países (que levam a ciência a sério), tais como o Reino Unido, estão em vias de banir a homeopatia do rol de medicamentos prescritos pelo sistema nacional de saúde daquele país (NHS).

Por que a homeopatia é arcaica?

Uma das principais características da ciência é o seu progresso. Todos os dias, milhares de artigos científicos são publicados. Os bons artigos adicionam conhecimento relevante ao edifício da ciência, outros trazem evidências novas, e até mesmo retificam concepções científicas mais antigas. Os livros-texto das diversas áreas da ciência são frequentemente re-editados, não somente porque as editoras querem vender mais livros, mas porque conceitos importantes são adicionados ou modificados. A homeopatia não evoluiu desde o século XIX, época da sua fundação. O principal livro da homeopatia, Materia Medica, foi escrito há 200 anos!

Por que a homeopatia é perigosa?

Muitas doenças são potencialmente debilitantes ou fatais. A medicina convencional, baseada em evidências científicas, busca administrar o melhor tratamento, o qual é apontado por testes clínicos e pré-clínicos. Por exemplo, a pneumonia bacteriana, se não for tratada, pode levar à morte; mas, graças aos antibióticos, a infecção pode ser contida, e o paciente, poupado. Imagine se um paciente com pneumonia tratar-se exclusivamente com compostos homeopáticos, que, como já vimos, não têm poder curador além do efeito placebo?

Para doenças benignas ou de baixa gravidade, o tratamento homeopático não causará dano maior; mas, se a enfermidade for grave, o resultado poderá ser fatal.”


Referências

Shang, Aijing, et al. “Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy.” The Lancet 366.9487 (2005): 726-732

The Lancet. “The end of homoeopathy.” The Lancet 366.9487 (2005): 690.

Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions. 2015. https://www.nhmrc.gov.au/_files_nhmrc/publications/attachments/cam02a_information_paper.pdf


Sobre o autor:

Beny Spira é professor livre-docente da Universidade de São Paulo. Possui doutorado em genética molecular pela Universidade de Tel-Aviv e pós-doutorado na Universidade de Sydney. Coordena o Laboratório de Genética Bacteriana. As linhas de pesquisa atuais do laboratório são: Mecanismo de seleção de mutantes adaptativos, Evolução de bactérias em tempo real, Mecanismo do acúmulo de polifosfato em bactérias, Construção de bactérias geneticamente modificadas da espécie Pseudomonas aeruginosa para a biorremediação de águas residuárias. Atua principalmente nos seguintes temas: evolução e adaptação de bactérias ao ambiente, controle da expressão gênica, bactérias ambientais e biorremediação de águas residuárias. (Fonte: Currículo Lattes)

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4 comentários

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  1. Ana Elisa Padula

    Em primeiro lugar, muito feio falar sobre o que não se conhece profundamente.E realmente não posso imaginar a utilidade de um artigo contendo uma discussão desrespeitosa e sem nenhuma profundidade como esta. Achei bem pouco acadêmico tratar a especialidade como ” uma das mais manjadas pseudociências”. Não me parece mais do que uma infantilidade! Sim, esta postura arrogante e infantil tem prejudicado muito a divulgação de trabalhos sérios, realizados por homeopatas honestos e dedicados não só à ciência, mas ao tratamento dos doentes. Uma grande perda para a academia, que assim pode perpetuar seu discurso destrutivo.
    Sim, há uma homeopatia feita com consciência e qualidade,ela é uma parcela pequena do que se vê ao redor do mundo, mas está acontecendo debaixo do seu nariz! Nós temos trabalhos experimentais de qualidade (experimente trocar a literatura estrangeira por pesquisadores brasileiros como Ubiratan Adler , Leoni Bonamin e Carla Holandino, por exemplo). Graças a eles aprendi que há todo um universo de possibilidades a ser explorado e que ele não deve ter como limites as estreitas fronteiras impostas pelo poder econômico e pelas certezas da academia.Se a lei homeopática da natureza não existe, critique também Hipócrates, Shakespeare ou mesmo Göethe. E deixe para nós, que temos uma visão para além das bactérias, a decisão sobre como tratar doenças e doentes.

  2. Luiza

    Prezada Natalia,

    Quem fala é Luiza, como vai? Recebi sua mensagem e tenho algumas considerações a fazer. Em primeiro lugar, a mensagem do prof. Beny não chegou até nós, costumamos responder com a maior agilidade possível os contatos que são feitos com o Jornal. Agradecemos por ter nos reenviado, provavelmente ele mandou para algum e-mail inativo ou não chegou mesmo.

    Agora vamos ao conteúdo. Discordo que tenhamos publicado matéria “alardeando os benefícios da homeopatia veterinária”. Apenas fizemos o que nos compete como jornalistas da USP, que é divulgar o que é aceito formalmente como pesquisa aqui dentro. Se você reler cuidadosamente o texto, inclusive, verá que a todo momento temos o cuidado de mencionar: “diz a autora da pesquisa”, “afirma a pesquisadora”, “defende ela” etc. É basicamente um relato do que a pesquisa e sua autora afirmam, sem que endossemos ou refutemos nada.

    A matéria trata de dissertação de mestrado defendida e aprovada na FMVZ. Quanto ao conteúdo, não sendo cientistas, não nos propomos a julgar. A polêmica de posições deve ser travada entre os cientistas, e não conosco, divulgadores dos trabalhos realizados na USP, com anuência institucional da mesma. Podemos sim intermediar os debates, mas apenas isso.

    Somos um veículo oficial da USP e não nos cabe dizer: “isso não é Ciência e não vamos cobrir” – tendo em vista que a própria USP, em suas instâncias acadêmicas, aprovou a pesquisa. Essa confusão entre o papel de jornalistas e o conteúdo que eles apenas divulgam é comum em todos os âmbitos – é o famoso “não mate o mensageiro”. Frequentemente presenciamos, até mesmo na grande mídia, leitores revoltados com os veículos jornalísticos apenas por estes estarem noticiando falas de terceiros com as quais os leitores não concordam. É lamentável, mas faz parte. Que bom que podemos conversar e esclarecer esses diferentes papéis para vocês, cientistas.

    Por fim, acho temeroso dizer que publicamos “pseudociências e informações falsas”. Repetindo, estamos divulgando uma dissertação aprovada e, convicções pessoais minhas à parte, não há nenhuma informação falsa no fato de darmos uma matéria dizendo que uma pesquisa concluiu isso ou aquilo. Se a conclusão da pesquisa é “falsa” na opinião da maioria dos cientistas, não é o Jornal que está dizendo mentiras, já que não temos o papel de julgar, apenas de expor o que é feito na USP. Mas em nenhum momento isso pode ser chamado de fake news e acho bastante ofensivo à jornalista autora da matéria que isso seja classificado como tal.

    Pessoalmente, não acho defensáveis as posições do colunista Ciro Marcondes, tema de outra postagem sua – mas acho que se tratam de casos bastante diferentes, visto que o prof. Ciro não falava de pesquisas aceitas pela USP, e no caso dele se tratava de uma coluna de opinião, onde ele fala o que quiser, concordemos ou não. Ao contrário, a matéria de Valéria Dias, não é opinativa, e sim bem objetiva ao fazer o que era a proposta: apresentar um trabalho oficial feito aqui na USP.

    Quanto ao professor Beny, a diretora do Jornal fará os contatos para a publicação de seu artigo. É o tipo de crítica que deve chegar ao público, mas na minha modesta opinião, dirigida a quem de direito, que no caso seriam todas as instâncias da FMVZ que aceitaram a defesa da pesquisa, e à pesquisadora, banca e orientadora.

    No mais, estou à disposição para outros esclarecimentos e sugestões.

    Atenciosamente,


    Luiza Caires
    Jornal da USP
    Editoria de CIÊNCIAS

  3. Ana Elisa Padula

    Eu tentei compartilhar a resposta da Prof Dra Silvia Waisse ao letrado uspiano, mas não consegui. Reproduzo as palavras dela sobre a opinião no mínimo infeliz sobre Homeopatia.

    “Li com espanto as colocações do prof. Beny Spira quanto ao que seja a “ciência” e as características da mesma. O prof. Spira afirma que “uma das caracteristicas da ciência é o seu progresso”: como qualquer estudante iniciante na história das ciências sabe, a noção de “progresso” data do século XIX, para ser abolida desde a década de 1930 nos estudos sobre a história e a filosofia da ciência.

    Na sequência, a literatura citada pelo prof. Spira consiste de meras 3 publicações, já demonstradamente falaciosas.

    Esses erros seriam perdoáveis, considerando que o prof. Spira não tem formação em história e filosofia da ciencia, medicina ou estatistica. Mas são erros imperdoáveis num pesquisador: como docente e pesquisador, o Prof. Spira deve bem saber que qualquer estudo inicia por um correto levantamento bibliográfico.

    Se o tivesse feito, o prof. Spira teria conferido que foi demonstrado o efeito das diluições homeopáticas na expressão genética: seu próprio campo de ação!!! O prof. Spira não conhece a literatura no seu próprio campo??? Muito estranho.

    Se conhecesse a literatura, o prof. Spira poderia considerar replicar os estudos feitos com diluições homeopáticas e expressão genética e nos comunicar os resultados obtidos através dos veículos pertinentes. Assim é como se exerce a comunicação científica, que, sim, é democrática.”

  4. GILSON ROBERTO

    Beny Spira acabou fazendo um grande favor à homeopatia ao demonstrar a falta de entendimento da ciência homeopática ao querer aplicar a sua visão alopática, mecanicista e reducionista dentro de uma abordagem que exige uma outra forma totalmente diferente de se olhar.
    Querer que pesquisas quantitativas sejam usadas para avaliar os tratamentos que exigem a individuação dos mesmos, evidencia a falta de critério científicos e de bom senso dos “cientistas” que criticam a prática homeopática.
    Sugiro a leitura do artigo do Dr. Lucas Pacheco em resposta a esse artigo: RESPOSTA AO GENETICISTA DA USP: HOMEOPATIA FUNCIONA
    http://doutorlucashomeopatia.com.br/2017/05/17/resposta-geneticista-da-usp-homeopatia-funciona/#comment-500

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