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mar 24

Seu corpo não te pertence

Bem vindo à segunda parte da série Bactérias pra que te quero. Conforme já vimos, nosso corpo abriga dez vezes mais bactérias do que células. Estas bactérias estão distribuídas por todo o nosso corpo, incluindo pele, mucosas, boca, ouvidos, nariz, todo o trato digestivo e genitais. Mas afinal, como elas foram parar lá?

Tudo começou quando você nasceu. O útero é um ambiente estéril. A colonização, ou seja, a dominação do seu corpo pelas bactérias, começa no parto. O canal vaginal é um ambiente rico em bactérias, principalmente as do gênero Lactobacillus, relacionadas à digestão do leite. A passagem pela vagina já prepara o bebê para digerir seu primeiro alimento.

Outras bactérias presentes na vagina colonizam a pele e mucosas, protegendo o bebê de possíveis infecções causadas por bactérias oportunistas. O modo como nascemos influencia na composição da nossa microbiota (população de bactérias que habitam nosso corpo). Bebês que nascem por parto normal são inicialmente colonizados por bactérias presentes na vagina de sua mãe, enquanto bebês nascidos por cesárea são colonizados por bactérias do ambiente. Foi demonstrado que 64-80% das infecções em recém nascidos causadas por Staphylococcus aureus, uma bactéria comum em ambiente hospitalar, ocorre em bebês nascidos por cesariana. Estudos também relacionam a cesárea com uma pior colonização do intestino, alterando a microbiota inicial do bebê – o que pode acarretar problemas no futuro, como diabetes, obesidade, alergias e asma.

Após o parto, quando somos amamentados com leite materno, as bactérias do nosso intestino agradecem. O leite materno é rico em oligossacarídeos, que são o alimento preferido de um grupo de bactérias chamado Bifidobacterium. Você já ouviu esse nome antes? Sim, são as bactérias de muitos iogurtes probióticos. E por que isso é importante?

Bactérias do gênero Bifidobacterium participam da ativação do sistema imune, ativando linfócitos, macrófagos e estimulando a produção de anticorpos. Camundongos alimentados com Bifidobacterium apresentaram menor incidência de infecções causadas por Salmonella sp. Os oligossacarídeos presentes no leite materno também previnem infecções por bactérias patogênicas (bactérias causadoras de doenças). Como são muito parecidos com receptores celulares específicos para estas bactérias, eles confundem as linhagens patogênicas e as impedem de se ligar aos receptores reais das células, e, consequentemente, de causar doenças.

Mas não quero causar nenhuma angústia às mães que tiveram seus bebês por cesárea ou que não puderam amamentar. A ciência não faz nenhum tipo de julgamento moral, nem tampouco nenhum de nós aqui do Café na Bancada! A ciência deve ser usada em nosso favor. Se sabemos que os bebês nascidos por cesárea e os bebês alimentados com leite artificial estão sofrendo com doenças normalmente prevenidas por bactérias, o que podemos fazer para resolver esses problemas? A suplementação do leite artificial com probióticos contendo Bifidobacterium e Lactobacillus, por exemplo, desde o nascimento até 6 meses, reduziu em número e intensidade a ocorrência de alergias como dermatite atópica e asma em bebês e crianças pequenas. E claro, devemos incentivar o parto normal e a amamentação sempre que estes forem possíveis, esclarecendo quantas vantagens essas práticas oferecem ao bebê, para que as cesáreas e leites artificiais sejam a exceção, e não a regra.

Uma vez desmamados, precisamos começar a comer outros tipos de alimentos, e as bactérias novamente irão nos ajudar a extrair destes alimentos a energia e os nutrientes necessários. Na época do desmame, as bactérias do nosso intestino começam a expressar genes especializados na digestão carboidratos complexos de origem vegetal, açúcares e produção de vitaminas. Adeus peito e mamadeira! Olá papinha de batata com cenoura e espinafre! Nossa, por que a careta e a expressão de horror? Minha filha adorava, juro! Ou seja, sem bactérias no nosso intestino, nós simplesmente não existiríamos. Não somos capazes sozinhos de fazer a digestão desses alimentos. Sem bactérias protetoras na nossa pele e mucosas, seríamos um grande espaço livre para as bactérias patogênicas.

Na vida adulta, nossa microbiota está relativamente estável, mas sua manutenção depende da nossa dieta. O consumo exagerado de antibióticos e uma alimentação não balanceada favorecem o crescimento de espécies bacterianas que podem nos trazer uma série de complicações, como a obesidade e a resistência à insulina, e maior suscetibilidade a doenças.

Nossa microbiota intestinal pode afetar até mesmo nosso comportamento! Um experimento feito com camundongos livres de bactérias mostrou a diferença de atividade de mais de 100 genes envolvidos em metabolismo energético e comunicação entre células nervosas. A alteração de comportamento dos animais foi revertida através de transplante fecal, ou seja, introduzindo fisicamente as bactérias no intestino, e também através da alimentação com Lactobacillus rhamnosus, presente em vários tipos de iogurtes e suplementos. Os animais alimentados com o probiótico apresentaram redução dos comportamentos associados a estresse, ansiedade e depressão.

E por fim, uma curiosidade divertida: Moscas de fruta alimentadas com maltose são atraídas sexualmente por outras moscas alimentadas com maltose, e esnobam completamente as moscas alimentadas com amido. E vice-versa. Se tratarmos as moscas com antibióticos, conseguimos matar as bactérias do seu trato digestivo E TAMBÉM alterar suas preferências sexuais. Acredita-se que as bactérias alteram a expressão dos ferormônios liberados para o acasalamento.

Conclusão: cuide da microbiota intestinal do seu amor, senão ele vai buscar outra mais atraente. Nada de flores ou bombons. Romântico mesmo é presentear com Yakult ou Activia!

 

Para mais detalhes:

Biasucci G, Rubini M, Riboni S, Morelli L, Bessi E, & Retetangos C (2010). Mode of delivery affects the bacterial community in the newborn gut. Early human development, 86 Suppl 1, 13-5 PMID: 20133091

Dogra S, Sakwinska O, Soh SE, Ngom-Bru C, Brück WM, Berger B, Brüssow H, Lee YS, Yap F, Chong YS, Godfrey KM, Holbrook JD, & GUSTO Study Group (2015). Dynamics of infant gut microbiota are influenced by delivery mode and gestational duration and are associated with subsequent adiposity. mBio, 6 (1) PMID: 25650398

Turnbaugh, P., Hamady, M., Yatsunenko, T., Cantarel, B., Duncan, A., Ley, R., Sogin, M., Jones, W., Roe, B., Affourtit, J., Egholm, M., Henrissat, B., Heath, A., Knight, R., & Gordon, J. (2008). A core gut microbiome in obese and lean twins Nature, 457 (7228), 480-484 DOI: 10.1038/nature07540

Bravo, J., Forsythe, P., Chew, M., Escaravage, E., Savignac, H., Dinan, T., Bienenstock, J., & Cryan, J. (2011). Ingestion of Lactobacillus strain regulates emotional behavior and central GABA receptor expression in a mouse via the vagus nerve Proceedings of the National Academy of Sciences, 108 (38), 16050-16055 DOI: 10.1073/pnas.1102999108

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5 comentários

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  1. Camila

    No segundo parágrafo você fala da introdução dos lactobacillus através do parto vaginal, existem estudos ligando o aumento de intolerantes ao aumento de cesáreas?

    1. Natália Pasternak Taschner

      Boa pergunta, Camila! Não há nenhum estudo conclusivo especificamente sobre intolerância à lactose, e alguns apenas mencionam a relação entre cesáreas e intolerância ao glúten. No entanto, há diversos trabalhos relacionando a cesárea com o aumento de alergias alimentares, asma e alergias atópicas (dermatites atópicas e rinites). Neste link você encontra bastante informação sobre essas relações: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19076564 Is caesarean delivery associated with sensitization to food allergens and IgE-mediated food allergy: a systematic review.Koplin J1, Allen K, Gurrin L, Osborne N, Tang ML, Dharmage S. Neste artigo os autores exploram bastante a relação entre respostas imunes mediadas por IgE, ou seja, respostas alérgicas do organismo em bebês nascidos por cesárea. Com certeza seria interessante conduzir um estudo no Brasil, que é campeão de cesáreas com hora marcada, relacionando a incidência de intolerância à lactose e ao glúten. Há evidências também de que não somente o tipo de parto influencia a qualidade da colonização intestinal do bebê, mas também o tempo de gestação. Neste caso a situação do Brasil fica ainda mais preocupante, já que a moda por aqui é fazer a cesárea com 38 semanas em vez de esperar o termo completo…Vou pesquisar mais sobre as intolerâncias e se encontrar mais informações eu coloco aqui. No caso de intolerância ao glúten, no entanto, há relatos de tratamentos com probióticos que obtiveram sucesso. bjs,
      Natalia

    2. Luiz Almeida

      Olá Camila! Que boa correlação você pensou! Os poucos estudos que encontrei relataram que sinais gastrointestinais não foram reportados nos diferentes grupos estudados. Ou seja, ainda não há uma relação clara entre intolerância a alimentos e forma de parto. Este é um artigo que encontrei essa informação → http://goo.gl/5bflVT

      A intolerância a lactose, por exemplo, tem um fundo mais evolutivo. Fora os humanos eu não conheço nenhum animal que continue tomando leite depois de adulto. Outro excelente artigo mostra um pouco a história do porque algumas populações tem intolerância a lactose, chega até a ser cultural o negócio! Bem interessante! → http://goo.gl/A5NrSn

  2. Suzana Pasternak

    Minha nossa, e eu que achava que bactérias erma apenas maléficas… Preciso cuidar bem das minhas!

  3. clarisse faucon stephan

    Bactérias amigas!…. gostei!

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