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set 24

Um gigante na banheira. Faz sentido?

O espetáculo começa. A música está alta para o show. A platéia fervorosa faz ainda mais barulho. Eis que as orcas aparecem. Você consegue vê-las nadando nas águas cristalinas do pequeno tanque sem nenhuma biodiversidade marinha. Dançam, brincam com os treinadores e, claro, caso façam um bom trabalho, estes enormes predadores recebem peixinhos na boca como recompensa. Isso tudo é natural para um espectador; mas será que isso chega perto do que é natural para estes animais?

O assunto de domesticação foi recentemente discutido e, conforme vimos, existe uma grande diferença entre domesticar e domar um animal. Seis critérios, descritos anteriormente, devem ser preenchidos para que a espécie seja passível de domesticação. Para animais de grande porte (45kg ou mais), essa lista de critérios restringiu 148 espécies a apenas 14 que foram domesticadas com sucesso ao longo da história da humanidade. Apesar do pequeno número, muitos outros animais selvagens são mantidos em cativeiro. Mas afinal de contas, se a domesticação sempre esteve associada a benefícios, qual o objetivo de aprisionar um animal cuja espécie jamais será domesticada e não traz benefícios além de entretenimento?

Cativeiros podem ser vantajosos em casos particulares, como na conservação de espécies em perigo de extinção, ou na contribuição para pesquisas muitas vezes impraticáveis com animais livres na natureza. Por outro lado, cativeiros representam o aprisionamento de espécies que não se adaptam a essa situação, o que gera alterações psíquicas e funcionais nestes animais. Como consequência, nem sempre os estudos realizados em cativeiro são representativos da espécie como um todo. Um dos pontos mais polêmicos diz respeito à impossibilidade de reproduzir os habitats naturais em espaços confinados. Segundo estudos, TODOS os animais não adaptados ao ambiente de cativeiro apresentam sérios problemas de saúde e bem-estar relacionados ao estresse crônico.

Orcas são um excelente exemplo sobre o tema e por isso vamos falar um pouquinho delas para entender melhor o assunto. A espécie Orcinus orca não preenche os seis critérios da domesticação:

1) Uma dieta fácil e flexível: a dieta envolve peixes, raias, focas, tubarões, outras baleias e até mesmo golfinhos. Nada que esteja no ambiente humano ou que seja de fácil acesso para nós.

2) Taxa de crescimento rápida: 17 meses de gestação para apenas um filhote. Nada rápida!

3) Reprodução em cativeiro: é feita por inseminação artificial.

4) Temperamento dócil: com humanos, na natureza, sim – apesar de que ninguém tentou dar um abraço bem apertado em orcas selvagens para ver o que acontece! Com outros animais, o temperamento não é nada dócil.

5) Pouca probabilidade de pânico e fuga: aqui elas se enquadram bem.

6) Hierarquia social modificável: não!

Apesar de se enquadrarem em apenas um critério da lista, estes animais vêm sendo domados desde os anos 60. Vocês já viram fotos de orcas aprisionadas e na natureza? Notaram alguma diferença? Todos os machos em cativeiro possuem a barbatana dorsal colapsada – e esta porcentagem cai para apenas 1% na natureza (isso acontece apenas em machos, já que o tamanho e o formato diferem da dorsal das fêmeas). Existem algumas teorias sobre as causas da deformidade: (1) Devido ao espaço restrito em cativeiro, orcas passam mais da metade de seu tempo flutuando ou nadando em círculos e, portanto, falta a pressão d’água necessária para manter a estrutura em pé. (2) Diminuição da pressão sanguínea devido a atividades reduzidas em comparação ao oceano. (3) Superaquecimento do colágeno que sustenta a dorsal, já que em cativeiro os animais são mais expostos à radiação UV (a pequena profundidade dos tanques não permite que eles escapem da alta incidência solar!).

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Um estudo publicado em 2013 por Jette e Ventre também correlacionou a exposição excessiva destes animais à superfície com a maior susceptibilidade a picadas de mosquitos transmissores dos RNAs virus West Nile Virus (WNV) e St. Louis Encephalitis Virus (SLEV). Eles relataram casos de orcas em cativeiro que morreram em decorrência dessas infecções – algo jamais reportado em autópsias de animais livres.

Os autores também enfatizaram a baixa saúde bucal decorrente de mordidas em barras de metal ou estruturas de concreto que separam os tanques, o que resulta em dentes quebrados e na queda da maioria deles. Estas cavidades dentárias expostas levam à bacteremia (presença crônica de bactérias no sangue). Para evitar que o quadro se complique, antibióticos são constantemente administrados como medida profilática. O uso abusivo desses antibióticos pode selecionar bactérias muito resistentes, o que levaria a infecções ainda mais graves. 

Outro fator é a qualidade da água. Para manter a água dos tanques cristalinas para as performances, um tratamento químico com excesso de cloro é usado, causando inflamações nos olhos (sabe o olho vermelho quando você vai numa piscina?) e produção excessiva de muco. Segundo especialistas, estes animais só produzem secreção ocular quando estão encalhados (para lubrificar os olhos) ou para se protegerem de infecções.

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Talvez dois pontos resumam de forma clara o efeito do cativeiro na vida de uma orca: (I) Na natureza não há um registro sequer de ataques a humanos (acredite, você pode nadar junto com elas que não será atacado!). Já em confinamento, muitos casos de agressão entre os próprios animais já foram registrados, além de centenas de ataques a treinadores, incluindo algumas fatalidades – um claro sinal do estresse em que esses animais se encontram. (II) A expectativa de vida em cativeiro chega a ser 5 vezes menor do que orcas na natureza, apesar dos tratamentos veterinários que são diariamente realizados nos parques de entretenimento.

Mas será que de fato os animais entendem o que acontece a sua volta? Em 2004 a Dra. Lori Marino publicou o primeiro estudo da estrutura do cérebro de uma orca por ressonância magnética. Esta e outras pesquisas realizadas pela neurocientista revelaram que orcas possuem o cérebro mais elaborado e complexo entre TODOS os animais já analisados! Um estudo subsequente do Professor Patrick Hof fez a incrível descoberta de que orcas possuem “spindle-neurons”. Estas células são encontradas apenas em humanos e primatas, e localizam-se em regiões do cérebro responsáveis pela organização social, empatia, comunicação e emoções. Estas descobertas comprovaram o que estudos comportamentais já haviam demonstrado: orcas têm um grau de inteligência superior à maioria dos animais, além de grande capacidade de percepção sobre o que acontece a sua volta. 

Estas descobertas não tiveram tanta repercussão até 2010, com a morte da treinadora Dawn Brancheau na frente de um pequeno público, em Orlando, USA. A partir deste incidente, houve maior interesse em entender se animais selvagens de grande porte (e não domesticáveis) deveriam ser mantidos em cativeiro e qual seria o grau de estresse experimentado por eles. Tilikum, o macho envolvido na morte de Dawn, foi responsável por outras duas mortes que receberam pouca atenção pela mídia. Tilikum é famoso por ser o maior animal e também o mais agressivo de todas as orcas mantidas em cativeiro, além de ser o principal doador de sêmen para inseminações artificiais. A ideia por trás disso? Tilikum é enorme e chama atenção. Por que não gerar filhotes com potencial de serem tão majestosos quanto o pai? 

Agora vamos extrapolar esta situação e pensar num caso hipotético. Supondo que orcas preenchessem todos os critérios para a domesticação (e sabemos que não preenchem), o fato de que o animal com maior histórico de agressão vem sendo usado para gerar a prole contradiz os princípios básicos da domesticação, onde os indivíduos mais dóceis são selecionados. 

Mas o que fazer com estes animais que, apesar de não domesticados, estão tão acostumados com o convívio humano? Será que é possível retorná-los à natureza como fizeram no clássico filme ‘Free Willy’? Na verdade, o macho Keiko, que protagonizou Willy no filme, foi de fato libertado devido à pressão popular! Os esforços consistiram em ensinar Keiko a ser ‘selvagem’ novamente. Apesar de muitos não considerarem o caso 100% bem-sucedido (Keiko ainda dava muita atenção para humanos quando os via em barcos), muitos consideraram um sucesso, já que ele passou a caçar e conseguiu se enturmar com animais no oceano.

Cientistas renomados na área, como a Dra. Ingrid Visser, lutam pela reintegração destes animais na natureza. Já a Dra. Naomi Rose defende outra alternativa: a criação de santuários. Se parques de entretenimento investissem dinheiro em áreas no oceano cercadas e controladas, os animais poderiam ter mais contato com seu habitat natural. Eles iriam vivenciar a biodiversidade marinha, estariam em águas ausentes de tratamentos químicos e poderiam voltar a usar ecolocalização (habilidade de usar sons de alta frequência para localizar objetos ou animais, semelhante ao que morcegos fazem) – o que também se perde em cativeiro. Ao mesmo tempo, visitantes poderiam entender melhor qual a realidade de um dos maiores predadores do oceano. 

Então essas instituições maltratam as orcas? De jeito nenhum. É muito importante deixar claro que em cativeiro estes animais são bem cuidados. Mas também é importante deixar claro que reproduzir um oceano em um tanque de concreto é uma tarefa mais do que complexa. É impossível. O efeito nocivo que cativeiros têm em animais não domesticáveis vai além das águas; também se estende a leões, elefantes, tigres, entre outros animais.

Apesar dos pesares, estudos comprovaram que visitas a zoológicos ou parques marinhos impulsionam muito a vontade de crianças e adolescentes de estudarem animais e se tornarem biólogos ou veterinários no futuro, além de serem fundamentais para a conscientização ambiental. Porém, deve ser enfatizado que esses animais domados não representam o comportamento da espécie selvagem na natureza.

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Talvez, daqui a milhares e milhares de anos, algumas dessas espécies possam evoluir de forma que a domesticação seja possível. Mas enquanto a evolução não der um único indício de que estes animais vão entrar para a lista, fica a pergunta: cativeiro, para animais selvagens não domesticáveis, faz sentido?


 

Se quiser saber um pouco mais sobre a vida de orcas em cativeiro, recomendo que assista Blackfish:

 

 

Sobre a Autora:

Heloísa Galbiati

“Eu tive o prazer de dividir o laboratório com quem faz o café neste blog! Fiz meu mestrado em Microbiologia pela USP e atualmente estou terminando o doutorado na Escócia, pela University of Aberdeen. Mudei-me recentemente para a Noruega, onde estou terminando de escrever minha tese. Viciada em café e em leituras sobre orcas (deu pra perceber, né?)… E ainda mais viciada na combinação dos dois ;D “


 

Referências:

Diamond, J. (2002). Evolution, consequences and future of plant and animal domestication Nature, 418 (6898), 700-707 DOI: 10.1038/nature01019

Hof, P., & Van Der Gucht, E. (2007). Structure of the cerebral cortex of the humpback whale,Megaptera novaeangliae (Cetacea, Mysticeti, Balaenopteridae) The Anatomical Record: Advances in Integrative Anatomy and Evolutionary Biology, 290 (1), 1-31 DOI: 10.1002/ar.20407

Jett, John, and Jeffrey Ventre. “Orca (Orcinus orca) captivity and vulnerability to mosquito-transmitted viruses.” Journal of Marine Animals and Their Ecology 5 (2013): 9-16.

Orsini, Heloísa, and Eduardo Fernandes Bondan. “Fisiopatologia do estresse em animais selvagens em cativeiro e suas implicações no comportamento e bem-estar animal–revisão da literatura* Physiopathology of stress in captive wild animals and its implications on animal behaviour and well-being–a review.” Revista do Instituto de Ciências da Saúde 1 (2006): 24.

Marino, L., Sherwood, C., Delman, B., Tang, C., Naidich, T., & Hof, P. (2004). Neuroanatomy of the killer whale (Orcinus orca) from magnetic resonance images The Anatomical Record, 281A (2), 1256-1263 DOI: 10.1002/ar.a.20075

Montgomery, S., Geisler, J., McGowen, M., Fox, C., Marino, L., & Gatesy, J. (2013). THE EVOLUTIONARY HISTORY OF CETACEAN BRAIN AND BODY SIZE Evolution, 67 (11), 3339-3353 DOI: 10.1111/evo.12197

Rose, Naomi A. “Killer Controversy: Why Orcas Should No Longer Be Kept in Captivity.” Washington, DC: Humane Society International and The Humane Society of the United States (2011).

State of California Regional Water Quality Control Board San Diego Region. Executive Officer Summary Report. May 11, 2011.

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