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jun 12

Vacinas e autismo – história de uma fraude

Em 1998, Andrew Wakefield publicou um estudo na revista médica “The Lancet”, que foi o estopim do maior movimento anti-vacinas da história. O estudo relacionava a vacina tríplice viral MMR – que protege contra sarampo, rubéola e caxumba – com o desenvolvimento de uma síndrome intestinal e sintomas de autismo em crianças, e gerou uma crise de mais de 10 anos na saúde pública do Reino Unido e dos EUA, afetando também, ainda que mais remotamente, outros países – entre eles, o Brasil.

Por incrível que pareça, o tão aclamado estudo contava com a amostra de apenas 12 crianças, que, segundo os autores do paper, teriam sido admitidas no hospital Royal Free, ao Norte de Londres, para tratar de problemas intestinais. A publicação do estudo foi seguida de uma enorme coletiva de imprensa, onde Wakefield lançou um vídeo de divulgação da sua teoria: MMR causava autismo em crianças porque era uma combinação muito forte de antígenos de uma só vez (ela protege simultaneamente contra três doenças). Além disso, alegava que o vírus vivo atenuado usado na formulação vacinal continuava presente no organismo, e podia ser encontrado no intestino e no fluido cerebral, e que a presença desse vírus ali era responsável pelo que ele chamava de “autismo regressivo” – ou seja, as crianças nasciam normais, mas, após a vacina, perdiam suas capacidades de linguagem de e de comunicação.

 

Wakefield pedia um boicote imediato à vacinação com MMR, em favor de vacinas simples contra as doenças, que seriam dadas com intervalos de tempo maiores. A vacina MMR vinha sendo utilizada nos EUA desde 1970, e no Reino Unido desde 1980, em crianças a partir de 1 ano, ajudando a quase erradicar o sarampo, a rubéola e a caxumba desses países. Após a campanha do médico – mesmo depois de seu estudo ter sido descreditado, retirado da revista e de o bom doutor ter sido julgado culpado por conduta profissional inadequada e falta de ética, além de ter tido diploma cassado – os índices de vacinação caíram drasticamente nesses países. Isso causou surtos de sarampo em 2008 e 2012 no Reino Unido, 2013 e 2015 nos EUA, e uma epidemia de Coqueluche nos EUA em 2010. Observe os casos de sarampo no Reino Unido no gráfico abaixo. 

sarampo UKAqui no Café na Bancada, divido com vocês a indignação de constatar como um único indivíduo inescrupuloso e mal-intencionado, visando apenas ao crescimento de sua própria conta bancária, aproveitou-se da vulnerabilidade de famílias que carregam o fardo de ter uma criança autista.

Uma investigação jornalística minuciosa, conduzida com excelência por Brian Deer, desmascarou completamente o que hoje sabemos que foi uma das maiores fraudes da história da medicina.

Deer descobriu que, dois anos antes da publicação do artigo, em 1996, Wakefield havia sido contratado por um advogado chamado Richard Barr, o qual planejava processar a companhia farmacêutica responsável pela produção da MMR. Barr havia reunido famílias interessadas em processar a empresa, e que culpavam a vacina pelo autismo de seus filhos. Mas ele precisava de alguém para oferecer respaldo científico e testemunhar como perito médico. Wakefield cobrou a bagatela de 150 libras por hora, mais a quantia de 55 mil libras para usar na pesquisa. Isso totalizou aproximadamente 430 mil libras, o equivalente na época a 750 mil dólares, que foram creditados na conta da esposa de Wakefield. Tudo isso ocorreu dois anos antes do estudo com as 12 crianças. Ainda um ano antes de o estudo ser publicado, Wakefield pediu uma patente para sua mais nova invenção: uma vacina simples para sarampo. Tudo estava pronto. Só restava agora acabar com a credibilidade da MMR. O advogado lucraria milhões com o processo e Wakefield lucraria milhões vendendo sua nova vacina. Ele também havia pedido a patente de um processo de “cura total” para o autismo, então poderia vender este também.

E como descreditar a MMR? Wakefield tinha uma receita muito simples. Reúna 12 crianças que estejam com problemas intestinais e sintomas de autismo, e diga que os sintomas começaram após a vacinação com MMR. Durante a investigação, no entanto, Brian Deer descobriu que, das 12 crianças envolvidas no estudo, não havia sequer UMA cujo prontuário médico não havia sido adulterado.

Todas as crianças foram referidas ao médico, muitas pelo seu advogado Richard Barr. Sim, a maioria das crianças estudadas eram filhos de clientes do Dr. Barr. Ou seja, nenhuma das crianças envolvidas no estudo havia chegado voluntariamente ao hospital para tratar um problema intestinal, como foi relatado no artigo. Essas crianças foram escolhidas a dedo por se encaixarem no perfil que Wakefield queria mostrar. Mas como não se encaixavam perfeitamente – afinal, a relação entre MMR e autismo não existe – foi preciso dar uma “ajustada” nos registros médicos. O estudo dizia que todos os pacientes apresentaram alterações de comportamento e problemas intestinais aproximadamente 14 dias após receberem a vacina MMR. Entrevistas com os pacientes e o acesso aos registros originais mostraram que isso não ocorreu em NENHUM dos casos. Alguns relatavam sintomas meses ou anos antes da aplicação da vacina; outros, meses depois. Das 12 crianças examinadas, nenhuma morava em Londres. Um veio dos EUA. Nenhuma era paciente da clínica antes do estudo. Uma criança não tinha sintomas de autismo. Nenhuma tinha enterocolite, ou qualquer tipo de inflamação intestinal. E o pior de tudo, o próprio aluno de doutorado encarregado de investigar se havia vírus do sarampo vivo em amostras intestinais e de líquido medular dessas crianças admitiu não ter encontrado NADA.

Além de falsificar dados e fabricar uma fraude, Andrew Wakefield submeteu crianças autistas a exames invasivos como colonoscopia e punção lombar, sem a menor necessidade. Após sete anos de investigação, Brian Deer finalmente colheu os frutos do seu trabalho, quando, em 2004, Wakefield foi considerado culpado de fraude, conduta profissional inadequada e anti-ética, e teve sua licença médica cassada. O BMJ (British Medical Journal – Revista Britânica de Medicina) acusou o hospital Royal Free e a revista “The Lancet” de conduta editorial e institucional inadequadas. A revista se retratou e retirou o artigo de suas publicações. Todos os co-autores retiraram seus nomes do estudo. O hospital demitiu Wakefield.

Mas, infelizmente, o estrago maior havia sido feito. Wakefield já havia conquistado fiéis seguidores em todo o mundo. Alguns célebres, como a ex-coelhinha da Playboy, Jenny McCharty, e o ator Jim Carrey, literalmente abraçaram a teoria de Wakefield, alegando que o pobre médico foi vítima de uma conspiração internacional, e que o jornalista Brian Deer teria sido pago para caluniá-lo. Jenny tem um filho autista e culpa a vacina pela doença de seu filho. Ela argumenta que os casos de autismo aumentaram desde 1980 até hoje, e que isso só pode ser culpa não somente da vacina MMR, mas de todas as vacinas. Mas, como já comentamos, a vacina logicamente não foi a única variável que mudou desde 1980 até os dias de hoje.

Para determinar causa e efeito, precisamos de estudos com modelos animais. Precisaríamos de um estudo com um número grande de animais, divididos em dois grupos; um receberia a vacina e o outro seria o grupo controle, não vacinado. Para isso, usaríamos animais geneticamente idênticos. Precisaríamos, então, demonstrar que o grupo que foi vacinado apresentou alterações comportamentais e cerebrais. Nestes animais, sim, poderíamos realizar exames invasivos e até mesmo sacrificá-los e verificar os efeitos da vacina nos tecidos. Mas não podemos levianamente apontar qualquer coisa que pareça correlacionada como causa. Principalmente com uma amostra de apenas 12 indivíduos. Antes de retirar a publicação de Wakefield, a revista ofereceu publicar um novo estudo se ele conseguisse reproduzir esses resultados com um número maior de crianças. Wakefield recusou.

Outra coisa curiosa é que quando as pessoas QUEREM acreditar em alguma coisa, é muito difícil dissuadi-las. Quando ficou patente que Wakefield estava errado, os ativistas anti-vacinas quiseram culpar o mercúrio presente nas formulações vacinais. No entanto, o mercúrio foi retirado das formulações vacinais em 2000, e os números de casos de autismo continuam crescendo. Agora querem culpar o alumínio. O mais triste, a meu ver, é que tanta energia e verba, assim como a influência de celebridades, poderiam ser melhor investidas para financiar estudos sérios e tentar descobrir uma cura real para o autismo.

A irresponsabilidade e ganância de Andrew Wakefield geraram uma epidemia de culpa e medo. Famílias ficaram confusas e indecisas em relação à vacinação de seus filhos. Pais de crianças autistas sentiram-se culpados por terem “causado” uma doença tão terrível em seus filhos. Milhares de pessoas adoeceram e dezenas morreram, acometidas por doenças facilmente prevenidas com vacinas perfeitamente seguras. No primeiro surto de sarampo pós Wakefield, na Irlanda, um casal de imigrantes romenos perdeu sua filha mais velha. Eles foram para o Reino Unido em busca de condições de vida melhores. A criança ainda não estava na idade de receber a vacina, e com a falta da imunidade de rebanho normalmente gerada pelas campanhas de vacinação, foi exposta a um surto, e contraiu a doença. Apesar de muitos acreditarem que sarampo é uma doença benigna, no caso dessa garotinha, o vírus afetou o cérebro e ela não resistiu. Sua morte foi fruto da maldade de poucos e da ignorância teimosa de muitos. Essa última me assusta ainda mais do que a primeira.

Hoje, Wakefield reside na Florida, EUA. Ele é diretor de pesquisa de um instituto de tratamento de autismo, onde vende suplementos e vitaminas de eficácia não comprovada cientificamente. Ele se recusou a receber Brian Deer diversas vezes. O jornalista Brian Deer recebeu em 2011 o Press Awards, o Pulitzer inglês do jornalismo. Para quem quiser uma amostra de seu excelente e persistente trabalho, acesse:

http://briandeer.com/mmr/lancet-summary.htm

REFs:

 

http://edition.cnn.com/2011/HEALTH/01/05/autism.vaccines/index.html

http://www.bmj.com/content/342/bmj.c7452

http://cid.oxfordjournals.org/content/48/4/456

 

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