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dez 07

Zika, Dengue ou Chikungunya? Prepare o seu Natal!

Para entender um pouco melhor qual febre você terá nos próximos dias, vamos tentar diferenciar um pouco sobre três doenças, Zika, Dengue e Chikungunya, que, a princípio, têm alguma similaridade – mas as peculiaridades é que são preocupantes. Já publicamos um especial sobre dengue aqui no Café na Bancada, portanto, neste novo post, vamos apenas voltar a falar dela por motivos de comparação.

Começaremos com uma curiosidade para amenizar o clima e preparar vocês, leitores, para o que está por vir neste texto.

De onde vêm esses nomes?

Zika é piada pronta do tio do churrasco “ixi… esse vai dar Zica…” e Chikungunya parece que você está entoando algum canto enquanto fala – e para escrever é pior ainda.

A origem do nome Zika vem de onde o vírus foi isolado pela primeira vez: em uma floresta chamada Zika, do país africano Uganda. O vírus foi isolado pela primeira vez em 1947 no macaco rhesus (o famoso que também deu nome ao fator Rh do sangue) quando pesquisadores estudavam febre amarela no local.

Chikungunya, na língua maconde – um dos idiomas oficiais da Tanzânia – significa “tornar-se dobrado; contorcido”. Certamente o nome é motivado pela aparência dos pacientes acometidos por fortes dores nas articulações e musculares.

Dengue é o termo derivado da frase suaíli – uma das línguas oficiais do Quénia, da Tanzânia e de Uganda Ki-Dengu pepo, que descreve os ataques causados por espíritos do mal, que era a provável explicação dada para a Febre Dengue.

Vamos agora listar algumas similaridades entre os vírus e os sintomas causados pelas doenças.

  • O vírus da dengue (DENV) e o zika vírus (ZIKV) pertencem ao gênero Flavivirus, portanto são mais semelhantes entre si – podemos até falar que o ZIKV seria o quinto sorotipo da dengue, para efeito de comparação.
  • Já o chikungunya (CHIKV) pertence ao gênero Alphavirus, um vírus bem diferente.
  • Os três vírus são arbovírus, ou seja, vírus transmitidos por artrópodes, como mosquitos.

Essa última característica é a primeira grande semelhança entre eles e, infelizmente para nós, TODOS podem ser transmitidos por um velho conhecido nosso, ele mesmo… o Aedes aegypti.

Para ficar bem claro isso, vejam a imagem abaixo

ciclo

 

A) O ciclo de vida do A. aegypti já é bem conhecido. A fêmea, que é a única que se alimenta de sangue para poder produzir os ovos, deposita os ovos próximos a corpos d’água. Os ovos (que chegam a centenas de milhares) eclodem e a larva passa por vários estágios de desenvolvimento até virar a pupa que, em seguida, dá origem ao mosquito em si.

B) O reservatório natural dos três vírus são, principalmente, primatas não humanos e outros pequenos mamíferos, além de aves.

C) O mosquito que pica esses animais passa a ser o vetor dos vírus. O mosquito infectado com o vírus pode transmiti-lo para humanos, que por fim passam a apresentar os sintomas das doenças. Sempre bom lembra que o A. aegypti pode ser o vetor dos três vírus.

O homem pode, ainda, servir também como reservatório em períodos de epidemia – ou seja, se o mosquito picar um humano infectado, o vírus pode se transmitido para o mosquito, que em seguida pode transmitir a doença para uma outra pessoa.

Abaixo alguns dos sintomas que são comuns nas três doenças, o que torna difícil o diagnóstico – porém alguns sintomas foram observados exclusivamente em uma doença:

sintomas4

Dor de cabeça, febre e manchas vermelhas espalhadas pelo corpo são sintomas comuns de dengue, zika e chikungunya. A dengue hemorrágica se caracteriza principalmente por fortes dores abdominais e vômito constante. Das três, essa ainda é a menos pior. Eventualmente, se o paciente não morrer, a dengue passa e não deixa sequelas. Diferentemente das próximas duas doenças.

A chikungunya, além de apresentar os sintomas comuns, também é caracterizada por fortes dores nas articulações. O grande problema da chikungunya é que, mesmo depois de o indivíduo ficar livre do vírus, as dores nas articulações persistem – já foram reportados casos em que a pessoa não conseguia escrever mesmo depois de um ano livre do vírus. Essa é uma complicação muito maior quando comparada com a dengue. Um trabalhador pode ficar impossibilitado de exercer sua função por até um ano por culpa da chikungunya.

Agora, a onda do momento – e talvez o pior deles: o Zika vírus.

Como foi demonstrado por um estudo realizado com a participação do grupo do Prof. Zanotto do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, em colaboração com o grupo do Prof. Amadou Sall do Instituto Pasteur de Dakar, esse vírus se adapta muito rapidamente a novos hospedeiros.

Até 2007, tinham sido reportados apenas 14 casos de Zika em humanos, quando uma epidemia aconteceu na ilha Yap, na Micronésia, onde 73% da população com idade acima de três anos obtiveram testes positivos para ZIKAV. Em 2013 e 2014, uma nova epidemia foi registrada na Polinésia Francesa.

O estudo citado acima sugere que a aptidão do vírus em humanos está associada à produção da proteína NS1, que tem a função de enganar o sistema imunológico do hospedeiro para que o vírus possa se replicar. Ou seja, a maneira como essa única proteína é produzida estaria se ajustando conforme o sistema imune do hospedeiro e por isso o vírus se adaptou rapidamente em humanos.

Outro estudo do mesmo grupo publicado em janeiro de 2014 já alertava para o potencial de a Febre Zika ser uma doença emergente e que o diagnóstico poderia ser confundido como sendo Febre Dengue. Pode ser que um número muito grande de Febre Zika tenha sido negligenciado e reportado como sendo dengue no começo do ano aqui no nosso país.

Mas como esse vírus pode ter chegado até aqui?

No momento, há duas hipóteses.

A primeira é o caminho já conhecido que diversos vírus originários do continente africano fizeram. Saindo da África, passaram pela Ásia, provavelmente Índia, seguiram para as ilhas da Indonésia e Polinésia Francesa, fizeram uma pequena parada na Ilha de Páscoa em 2014, entraram nas Américas pelo Caribe e migraram para o sul, passando pela Venezuela, e finalmente chegaram ao Brasil.

A segunda hipótese é que o vírus tenha sido trazido por alguma pessoa já infectada que tenha desembarcado no Brasil. Que evento ocorreu no Brasil em 2014 que possa ter trazido um grande número de pessoas de toda parte do mundo? E você achando que o 7×1 foi a pior lembrança da copa… nunca esqueceremos!

Não satisfeito em ser associado com a Febre Dengue, o Zika tem mais algumas peculiaridades alarmantes.

Em 2008, o biólogo Brian Foy e seu aluno Kevin Kobylinski estavam no Senegal, mais precisamente em um vilarejo chamado Bandafassi, pesquisando sobre malária. No fim do mês de agosto do mesmo ano, eles voltaram para o Colorado, nos Estados Unidos. Ambos começaram a ter dores de cabeça, manchas vermelhas espalhadas pelo corpo, principalmente no torso, extremo cansaço, calafrios e fotofobia. Brian Foy e sua esposa, Joy Chilson Foy, perceberam sinais de sangue no esperma (hematospermia) de Brian. Joy começou a apresentar os mesmos sintomas de Brian no começo do mês de setembro, apesar de nunca ter saído dos Estados Unidos desde 2007. Os filhos do casal não apresentaram sintomas iguais aos dos pais nesse período e nenhum caso de zika, dengue ou chikungunya havia sido reportado nos Estados Unidos naquele ano. O casal manteve relações sexuais logo após a volta de Brian para o Colorado.

Essa experiência foi relatada no artigo publicado pelos autores-pacientes na Emerging Infectious Diseases em maio de 2011. Biólogos, fazendo descobertas pioneiras mesmo nas situações mais adversas.

Nunca havia sido relatada a transmissão de arbovírus por contato direto entre humanos, porém após esse relato ao estilo detetive, não podemos descartar a possibilidade que Brian foi o primeiro ser humano a transmitir zika por relação sexual. Imaginem como será o carnaval de 2016 aqui no Brasil!

E, para fechar o cenário para esse verão, temos os casos de microcefalia associado ao Zika Vírus.

No dia 02 de dezembro, o Ministério da Saúde confirmou o aumento de casos de microcefalia em recém-nascidos, associados com infecção pelo Zika. Suspeita-se de 739 casos de microcefalia esse ano, dez vezes mais do que a média. O estado com maior número de casos suspeitos é Pernambuco, com 487 registros. A seguir a lista completa de casos suspeitos:

microencefalia

Pernambuco: 487 registros; Paraíba 96 registros; Sergipe 54 registros; Rio Grande do Norte 47 registros; Piauí 27registros; Alagoas 10 registros; Ceará 9 registros; Bahia 8 registros; Goiás 1 registro.

Não são todos os casos que estão associados ao Zika Vírus, mas podemos perceber que a situação tende a piorar. Recém-nascidos são mais suscetíveis a má formação do cérebro, principalmente nos três primeiros meses de gravidez, porém isso pode também ocorrer ao longo de toda a gravidez.

A microcefalia o déficit do crescimento cerebral – se você já viu um cerebro humano normal ou uma imagem do mesmo, consegue lembrar de todas aquelas “dobras” do cérebro. Casos de cérebros “lisos” já foram reportados nesse surto de microcefalia no Brasil.

Chega? NOPS! Ainda temos mais. “ESSE É ZIKA MESMO!”

Chegamos ao que eu considero o pior dos cenários. Como eu disse… tudo pode piorar.

Vejam abaixo três mapas que relatam os casos de Dengue, Chikungunya e Zika reportados nos últimos três meses. Fonte: http://healthmap.org/

 

dengue

Casos de Dengue reportados nos últimos 3 meses


 

chikungunya

Casos de Chikungunya reportados nos últimos 3 meses


 

zika

Casos de Zika reportados nos últimos 3 meses


 

Perceberam que o Brasil pipocou em todos os três relatos? Uma pergunta pertinente e que causa o meu terror: “Se eu pegar dengue, eu posso depois pegar zika, ou chikungunya? Ou duas doenças ao mesmo tempo? Ou até as TRÊS juntas?”

A resposta você já deve saber nesse momento…

A Eurosurveillance reportou, em 2013, na Polinésia, o primeiro caso de Síndrome de Guillian-Barré (SGB) associado à reação cruzada entre dengue seguida de ZIKAV.

Uma mulher de 40 anos, que já havia sido acometida por dengue, foi hospitalizada com fraqueza muscular, falta de sensibilidade nas extremidades – como ponta dos dedos – e paralisia facial do lado esquerdo (sintomas característicos da SGB). Além disso os testes para zika vírus também deram positivo.

Isso ocorreu possivelmente porque o sistema imune entrou em pane após essa reação cruzada sintoma parecido com o da dengue hemorrágica – e passou a reconhecer as células da própria pessoa como invasoras. Esse ataque causa um processo inflamatório e destrói a bainha de mielina que reveste muitas células do sistema nervoso e funciona como um isolante elétrico, o qual auxilia a propagação dos impulsos nervosos. Sem a bainha de mielina, os impulsos nervosos ficam mais lentos e podem até não ser transmitidos, causando paralisia.

Qual o motivo de pane para isso, além do óbvio?

Atualmente, a vacina da dengue do instituto Sanofi está sendo avaliada como provável vacina para combater a dengue no Brasil. Essa vacina combina o vírus da febre amarela com a parte dos vírus da dengue, os quais provocam a resposta imune em quem recebe a vacina. Porém, os ensaios clínicos mostraram, na média, que a vacina foi capaz de reduzir em 60,8% os casos de dengue. E se a pessoa que tomar a vacina contra a dengue for infectada pelo Zika Vírus? Ela apresentará essa reação cruzada? Ela terá Síndrome de Guillian-Barré? E no caso de dengue 1 e 2 onde o estudo mostrou eficácia de apenas 31%?

Percebam a importância incontestável dos ensaios clínicos. Não podemos de JEITO NENHUM aprovar um MEDICAMENTO sem os ensaios clínicos. Sim senhora Fosfo, estou falando da senhora, que nem passou por ensaios de efeitos colaterais…

O que podemos fazer para combater tudo isso?

Parar de cortar verbas da ciência é um bom caminho. Como já citado anteriormente, o estudo de Doutorado do aluno Caio C.M Freire, que trabalha no Grupo do Prof. Paolo Zanotto, já alertava para a epidemia. Estudos como esse podem servir para alertar as autoridades competentes, que terão tempo de se planejar e tomar decisões antes que uma epidemia se espalhe pelo país.

Um outro estudo feito pelo grupo da Prof. Margareth Capurro, também do ICB da USP, visava a introdução de mosquitos machos de Aedes aegypti geneticamente modificados na natureza. Tais espécies produzem filhotes que morrem antes de chegar à vida adulta, quando podem transmitir a dengue. Essa tática já foi utilizada com sucesso contra a mosca-da-fruta. Porém, o estudo foi interrompido em setembro por falta de verbas. A pesquisa já estava bem avançada, os mosquitos já haviam sido introduzidos em duas cidades e o número de Aedes selvagem havia diminuído; faltava avaliar o impacto na transmissão do vírus da dengue. Com a interrupção do estudo, a população selvagem voltou a crescer – ou seja, o estudo de dois anos foi em vão e terá que ser refeito do zero. O projeto previa um investimento de 4 milhões de reais. Apenas dois milhões foram gastos até o momento da interrupção. O estudo estava sendo financiado pela Secretaria de Saúde da Bahia… vejam só…

Onde temos epidemia de zika, chikungunya e zica mesmo? Ah tá…

A esperança no horizonte continua nos nossos pesquisadores. Um grupo de mais de 25 laboratórios está se reunindo nesses últimos dias, envolvendo o Prof. Zanotto, Prof. Luís Carlos de Souza Ferreira, ambos da USP, e (desculpem por não citar todos, mas não tenho a informação dos pesquisadores de fora da USP que estão participando) outros pesquisadores de outros estados para rastrear, estudar e combater essa epidemia.

EXTRA:

Um novo estudo, novamente do Caio C.M. Freire, alerta para um surto que ocorreu no Kenya em 2007 onde o vilão foi um outro vírus, o Rift Valley Virus.

Um próximo post será dedicado apenas para esse vírus. Tendo em vista que o estudo foi feito pelo mesmo grupo que previu a epidemia de Zika, é bom ficar atento…

 


Imagens produzidas com http://mindthegraph.com/ e https://inkscape.org/pt/

Referências:

Faye, O., Freire, C., Iamarino, A., Faye, O., de Oliveira, J., Diallo, M., Zanotto, P., & Sall, A. (2014). Molecular Evolution of Zika Virus during Its Emergence in the 20th Century PLoS Neglected Tropical Diseases, 8 (1) DOI: 10.1371/journal.pntd.0002636

Foy BD, Kobylinski KC, Chilson Foy JL, Blitvich BJ, Travassos da Rosa A, Haddow AD, Lanciotti RS, & Tesh RB (2011). Probable non-vector-borne transmission of Zika virus, Colorado, USA. Emerging infectious diseases, 17 (5), 880-2 PMID: 21529401

Weaver, S., & Reisen, W. (2010). Present and future arboviral threats Antiviral Research, 85 (2), 328-345 DOI: 10.1016/j.antiviral.2009.10.008

Dupont-Rouzeyrol, M., O’Connor, O., Calvez, E., Daurès, M., John, M., Grangeon, J., & Gourinat, A. (2015). Co-infection with Zika and Dengue Viruses in 2 Patients, New Caledonia, 2014 Emerging Infectious Diseases, 21 (2), 381-382 DOI: 10.3201/eid2102.141553

Caio César de Melo Freire, Atila Iamarino, Daniel Ferreira de Lima Neto, Amadou, & Alpha Sall, and Paolo Marinho de Andrade Zanotto* (2015). Spread of the pandemic Zika virus lineage is associated with NS1 codon usage adaptation in humans bioRxiv DOI: 10.1101/032839

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1 comentário

  1. Antonio Silva

    Ótimo Conteúdo !!! Parabéns e Obrigado !!!

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